O Crime do Padre Amaro, de Ea de Queirs

Fonte:
QUEIRS, Ea de. O Crime do Padre Amaro. 12 ed., So Paulo: tica, 1998.

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PREFCIO DA SEGUNDA EDIO


A designao inscrita no frontispcio deste livro - Edio Definitiva - necessita uma explicao.
       O Crime do Padre Amaro foi escrito h quatro ou cinco anos, e desde essa poca esteve esquecido entre os meus papis - como um esboo informe e pouco aproveitvel.
       Por circunstncias que no so bastante interessantes para serem impressas - este esboo de romance, em que a ao, os caracteres e o estilo eram uma improvisao 
desleixada, foi publicado em 1875 nos primeiros fascculos da Revista Ocidental, sem  alteraes, sem correes, conservando toda a sua feio de esboo, e de um 
improviso
       ...........................................................................................................................................................
       Hoje O Crime do Padre Amaro aparece em volume - refundido e transformado. Deitou-se parte da velha casa abaixo para erguer a casa nova. Muitos captulos foram 
reconstrudos linha por linha; captulos novos acrescentados; a ao modificada e desenvolvida; os caracteres mais estudados, e completados; toda a obra enfim mais 
trabalhada.
        Assim, O Crime do Padre Amaro da Revista Ocidental era um rascunho, a edio provisria; o que hoje se publica  a obra acabada, a edio definitiva .
       Este trabalho novo conserva todavia - naturalmente - no estilo, no desenho dos personagens, em certos traos da ao e do dilogo, muitos dos defeitos do 
trabalho antigo: conserva vestgios considerveis de certas preocupaes de Escola e de Partido, - lamentveis sob o ponto de vista da pura Arte - que tiveram outrora 
uma influncia poderosa no plano original do livro. Mas como estes defeitos provm da concepo mesma da obra, e do seu desenvolvimento lgico - no podiam ser eliminados, 
sem que o romance fosse totalmente refeito na idia e na forma. Todo o mundo compreender que - correes, emendas, entrelinhas, folhas intercaladas no bastam para 
alterar absolutamente a concepo primitiva de um livro, e a sua primitiva execuo.
       
       Akenside Tewace -
       5 de Julho de 1875.
       
       EA DE QUEIRS


PREFCIO DA TERCEIRA EDIO


       O Crime do Padre Amaro recebeu no Brasil e em Portugal alguma ateno da Crtica, quando foi publicado ulteriormente um romance intitulado - O Primo Baslio. 
E no Brasil e em Portugal escreveu-se (sem todavia se aduzir nenhuma prova efetiva) que O Crime do Padre Amaro era uma imitao do romance do Sr. E. Zola - La Faute 
de L'Abb Mouret; ou que este livro do autor do Assomoir e de outros magistrais estudos sociais sugerira a idia, os personagens, a inteno de O Crime do Padre 
Amaro. 
       Eu tenho algumas razes para crer que isto no  correto. O Crime do Padre Amaro foi escrito em 1871, lido a alguns amigos em 1872, e publicado em 1874 [sic]. 
O livro do Sr. Zola, La Faute de L'Abb Mouret (que  o quinto volume da srie Rougon Macquart), foi escrito e publicado em 1875.
       Mas (ainda que isto parea sobrenatural) eu considero esta razo apenas como subalterna e insuficiente. Eu podia, enfim, ter penetrado no crebro, no pensamento 
do Sr. Zola, e ter avistado, entre as formas ainda indecisas das suas criaes futuras, a figura do abade Mouret, - exatamente como o venervel Anquises no vale 
dos Elsios podia ver, entre as sombras das raas vindouras flutuando na nvoa luminosa do Lete, aquele que um dia devia ser Marcelo. Tais coisas so possveis. 
Nem o homem prudente as deve considerar mais extraordinrias que o carro de fogo que arrebatou Elias aos Cus - e outros prodgios provados. 
       O que, segundo penso, mostra melhor que a acusao carece de exatido,  a simples comparao dos dois romances. La Faute de L'Abb Mouret , no seu epis6dio 
central, o quadro aleg6rico da iniciao do primeiro homem e da primeira mulher no amor. O abade Mouret (Srgio), tendo sido atacado duma febre cerebral, trazida 
principalmente pela sua exaltao mstica no culto da Virgem, na solido de um vale abrasado da Provena (primeira parte do livro),  levado para convalescer ao 
Paradou, antigo parque do sculo XVII a que o abandono refez uma virgindade selvagem, e que  a representao alegrica do Paraso. Ai, tendo perdido na lebre a 
conscincia de si mesmo a ponto de se esquecer do seu sacerdcio e da existncia da aldeia, e a conscincia do universo a ponto de ter medo do Sol e das rvores 
do Paradou como de monstros estranhos - erra, durante meses, pelas profundidades do bosque inculto, com Albina que  o gnio, a Eva desse lugar de legenda; Albina 
e Srgio, seminus como no Paraso, procuram sem cessar, por um instinto que os impele, urna rvore misteriosa, da rama da qual cai a influncia afrodisaca da matria 
procriadora; sob este smbolo da rvore da Cincia se possuem, depois de dias angustiosos em que tentam descobrir, na sua inocncia paradisaca, o meio fsico de 
realizar o amor; depois, numa mtua vergonha sbita, notando a sua nudez, cobrem-se de folhagens; e dai os expulsa, os arranca o padre Arcangias, que  a personificao 
teocrtica do antigo Arcanjo. Na ltima parte do livro o abade Mouret recupera a conscincia de si mesmo, subtrai-se  influncia dissolvente da adorao da Virgem, 
obtm por um esforo da orao e um privilgio da graa a extino da sua virilidade, e torna-se um asceta sem nada de humano, uma sombra cada aos ps da cruz; 
e,  sem que lhe mude a cor do rosto que asperge e responsa o esquife de Albina, que se asfixiou no Paradou sob um monto de flores de perfumes fortes.
       Os crticos inteligentes que acusaram O Crime do Padre Amaro de ser apenas uma imitao da Faute de L'Abb Mouret no tinham infelizmente lido o romance maravilhoso 
do Sr. Zola, foi talvez a origem de toda a sua g16ria. A semelhana casual dos dois ttulos induziu-os em erro.
       Com conhecimento dos dois livros, s uma obtusidade crnea ou m-f cnica poderia assemelhar esta bela alegoria idlica, a que est misturado o pattico 
drama duma alma mstica, a'O Crime do Padre Amaro que, como podem ver neste novo trabalho,  apenas, no fundo, uma intriga de clrigos e de beatas tramada e murmurada 
 sombra duma velha S de provncia  portuguesa.
       Aproveito este momento para agradecer  Crtica do Brasil e de Portugal a ateno que ela tem dado aos meus trabalhos.

Bristol, 1 de Janeiro de 1880.

EA DE QUEIRS


I



       Foi no domingo de Pscoa que se soube em Leiria, que o proco da S, Jos Miguis, tinha morrido de madrugada com uma apoplexia. O proco era um homem sangneo 
e nutrido, que passava entre o clero diocesano pelo comilo dos comiles. Contavam-se histrias singulares da sua voracidade. O Carlos da Botica - que o detestava 
- costumava dizer, sempre que o via sair depois da sesta, com a face afogueada de sangue, muito enfartado:
       - L vai a jibia esmoer. Um dia estoura!
       Com efeito estourou, depois de uma ceia de peixe -  hora em que defronte, na casa do doutor Godinho que fazia anos, se polcava com alarido. Ningum o lamentou, 
e foi pouca gente ao seu enterro. Em geral no era estimado. Era um aldeo; tinha os modos e os pulsos de um cavador, a voz rouca, cabelos nos ouvidos, palavras 
muito rudes.
       Nunca fora querido das devotas; arrotava no confessionrio, e, tendo vivido sempre em freguesias da aldeia ou da serra, no compreendia certas sensibilidades 
requintadas da devoo: perdera por isso, logo ao princpio, quase todas as confessadas, que tinham passado para o polido padre Gusmo, to cheio de lbia!
       E quando as beatas, que lhe eram fiis, lhe iam falar de escrpulos de vises, Jos Miguis escandalizava-as, rosnando:
       - Ora histrias, santinha! Pea juzo a Deus! Mais miolo na bola!
       As exageraes dos jejuns sobretudo irritavam-no:
       - Coma-lhe e beba-lhe, costumava gritar, coma-lhe e beba-lhe, criatura!
       Era miguelista - e os partidos liberais, as suas opinies, os seus jornais enchiam-no duma clera irracionvel:
       - Cacete! cacete! exclamava, meneando o seu enorme guarda-sol vermelho.
       Nos ltimos anos tomara hbitos sedentrios, e vivia isolado - com uma criada velha e um co, o Joli. O seu nico amigo era o chantre Valadares, que governava 
ento o bispado, porque o senhor bispo D. Joaquim gemia, havia dois anos, o seu reumatismo, numa quinta do Alto Minho. O proco tinha um grande respeito pelo chantre, 
homem seco, de grande nariz, muito curto de vista, admirador de Ovdio - que falava fazendo sempre boquinhas, e com aluses mitolgicas.
       O chantre estimava-o. Chamava-lhe Frei Hrcules.
       - Hrcules pela fora - explicava sorrindo, Frei pela gula.
       No seu enterro ele mesmo lhe foi aspergir a cova; e, como costumava oferecer-lhe todos os dias rap da sua caixa de ouro, disse aos outros cnegos, baixinho, 
ao deixar-lhe cair sobre o caixo, segundo o ritual, o primeiro torro de terra:
       -  a ltima pitada que lhe dou!
       Todo o cabido riu muito com esta graa do senhor governador do bispado; o cnego Campos contou-o  noite ao ch em casa do deputado Novais; foi celebrada 
com risos deleitados, todos exaltaram as virtudes do chantre, e afirmou-se com respeito - que sua excelncia tinha muita pilhria!
       Dias depois do enterro apareceu, errando pela Praa, o co do proco, o Joli. A criada entrara com sezes no hospital; a casa fora fechada; o co, abandonado, 
gemia a sua fome pelos portais. Era um gozo pequeno, extremamente gordo, - que tinha vagas semelhanas com o proco. Com o hbito das batinas, vido dum dono, apenas 
via um padre punha-se a segui-lo, ganindo baixo. Mas nenhum queria o infeliz Joli; enxotavam-no com as ponteiras dos guarda-sis; o co, repelido como um pretendente, 
toda a noite uivava pelas ruas. Uma manh apareceu morto ao p da Misericrdia; a carroa do estrume levou-o e, como ningum tomou a ver o co, na Praa, o proco 
Jos Miguis foi definitivamente esquecido.
       Dois meses depois soube-se em Leiria que estava nomeado outro proco. Dizia-se que era um homem muito novo, sado apenas do seminrio. O seu nome era Amaro 
Vieira. Atribua-se a sua escolha a influncias polticas, e o jornal de Leiria, A Voz do Distrito, que estava na oposio, falou com amargura, citando o Glgota, 
no favoritismo da corte e na reao clerical. Alguns padres tinham-se escandalizado com o artigo; conversou-se sobre isso, acremente, diante do senhor chantre.
       - No, no, l que h favor, h; e que o homem tem padrinhos, tem - disse o chantre. - A mim quem me escreveu para a confirmao foi o Brito Correia (Brito 
Correia era ento ministro da Justia). At me diz na carta que o proco  um belo rapago. De sorte que - acrescentou sorrindo com satisfao - depois de Frei Hrcules 
vamos talvez ter Frei Apolo.
       Em Leiria havia s uma pessoa que conhecia o proco novo: era o cnego Dias, que fora nos primeiros anos do seminrio seu mestre de Moral. No seu tempo, dizia 
o cnego, o proco era um rapaz franzino, acanhado, cheio de espinhas carnais...
       - Parece que o estou a ver com a batina muito coada e cara de quem tem lombrigas!... De resto bom rapaz! E espertote...
       O cnego Dias era muito conhecido em Leiria. Ultimamente engordara, o ventre saliente enchia-lhe a batina e a sua cabecinha grisalha, as olheiras papudas, 
o beio espesso faziam lembrar velhas anedotas de frades lascivos e glutes.
       O tio Patrcio, o Antigo, negociante da Praa, muito liberal e que quando passava pelos padres rosnava como um velho co de fila, dizia s vezes ao v-lo 
atravessar a Praa, pesado, ruminando a digesto, encostado ao guarda-chuva:
       - Que maroto! Parece mesmo D. Joo VI!
       O cnego vivia s com uma irm velha, a Sra. D. Josefa Dias, e uma criada, que todos conheciam tambm em Leiria, sempre na rua, entrouxada num xale tingido 
de negro, e arrastando pesadamente as suas chinelas de ourelo. O cnego Dias passava por ser rico; trazia ao p de Leiria propriedades arrendadas, dava jantares 
com peru, e tinha reputao o seu vinho duque de 1815. Mas o fato saliente da sua vida - o fato comentado e murmurado - era a sua antiga amizade com a Sra. Augusta 
Caminha, a quem chamavam a S. Joaneira, por ser natural de S. Joo da Foz. A S. Joaneira morava na Rua da Misericrdia, e recebia hspedes. Tinha uma filha, a Ameliazinha, 
rapariga de vinte e trs anos, bonita, forte, muito desejada.
       O cnego Dias mostrara um grande contentamento com a nomeao de Amaro Vieira. Na botica do Carlos, na Praa, na sacristia da S, exaltou os seus bons estudos 
no seminrio, a sua prudncia de costumes, a sua obedincia: gabava-lhe mesmo a voz: "um timbre que  um regalo.'"
       - Para um bocado de sentimento nos sermes da Semana Santa, est a calhar!
       Predizia-lhe com nfase um destino feliz, uma conezia decerto, talvez a glria de um bispado!
       E um dia, enfim, mostrou com satisfao ao coadjutor da S, criatura servil e calada, uma carta que recebera de Lisboa de Amaro Vieira.
       Era uma tarde de Agosto e passeavam ambos para os lados da Ponte Nova. Andava ento a construir-se a estrada da Figueira: o velho passadio de pau sobre a 
ribeira do Lis tinha sido destrudo, j se passava sobre a Ponte Nova, muito gabada, com os seus dois largos arcos de pedra, fortes e atarracados. Para diante as 
obras estavam suspendidas por questes de expropriao; ainda se via o lodoso caminho da freguesia de Marrazes, que a estrada nova devia desbastar e incorporar; 
camadas de cascalho cobriam o cho; e os grossos cilindros de pedra, que acalcam e recamam os macadames, enterravam-se na terra negra e mida das chuvas.
       Em roda da Ponte a paisagem  larga e tranqila. Para o lado de onde o rio vem so colinas baixas, de formas arredondadas, cobertas da rama verde-negra dos 
pinheiros novos; embaixo, na espessura dos arvoredos, esto os casais que do queles lugares melanclicos uma feio mais viva e humana - com as suas alegres paredes 
caiadas que luzem ao sol, com os fumos das lareiras que pela tarde se azulam nos ares sempre claros e lavados. Para o lado do mar, para onde o rio se arrasta nas 
terras baixas entre dois renques de salgueiros plidos, estende-se at os primeiros areais o campo de Leiria, largo, fecundo, com o aspecto de guas abundantes, 
cheio de luz. Da Ponte pouco se v da cidade; apenas uma esquina das cantarias pesadas e jesuticas da S, um canto do muro do cemitrio coberto de parietrias, 
e pontas agudas e negras dos ciprestes; o resto est escondido pelo duro monte ouriado de vegetaes rebeldes, onde destacam as runas do Castelo, todas envolvidas 
 tarde nos largos vos circulares dos mochos, desmanteladas e com um grande ar histrico.
       Ao p da Ponte, uma rampa desce para a alameda que se estende um pouco  beira do rio.  um lugar recolhido, coberto de rvores antigas. Chamam-lhe a Alameda 
Velha. Ali, caminhando devagar, falando baixo, o cnego consultava o coadjutor sobre a carta de Amaro Vieira, e sobre ''uma idia que ela lhe dera, que lhe parecia 
de mestre! De mestre!'' Amaro pedia-lhe com urgncia que lhe arranjasse uma casa de aluguel, barata, bem situada, e se fosse possvel mobilada; falava sobretudo 
de quartos numa casa de hspedes respeitvel. "Bem v o meu caro padre-mestre, dizia Amaro, que era isto o que verdadeiramente me convinha; eu no quero luxos, est 
claro: um quarto e uma saleta seria o bastante. O que  necessrio  que a casa seja respeitvel, sossegada, central, que a patroa tenha bom gnio e que no pea 
mundos e fundos; deixo tudo isto  sua prudncia e capacidade, e creia que todos estes favores no cairo em terreno ingrato. Sobretudo que a patroa seja pessoa 
acomodada e de boa lngua."
       - Ora a minha idia, amigo Mendes,  esta: met-lo em casa da S. Joaneira! resumiu o cnego com um grande contentamento.  rica idia, hem!
       - Soberba idia, disse o coadjutor com a sua voz servil.
       - Ela tem o quarto de baixo, a saleta pegada e o outro quarto que pode servir de escritrio. Tem boa moblia, boas roupas...
       - Ricas roupas, disse o coadjutor com respeito.
       O cnego continuou:
       -  um belo negcio para a S. Joaneira: dando os quartos, roupas, comida, criada, pode muito bem pedir os seus seis tostes por dia. E depois sempre tem o 
proco de casa.
       - Por causa da Ameliazinha  que eu no sei - considerou timidamente o coadjutor. - Sim, pode ser reparado. Uma rapariga nova... Diz que o senhor proco  
ainda novo... Vossa senhoria sabe o que so lnguas do mundo.
       O cnego tinha parado:
       - Ora histrias! Ento o padre Joaquim no vive debaixo das mesmas telhas com a afilhada da me? E o cnego Pedroso no vive com a cunhada, e uma irm da 
cunhada, que  uma rapariga de dezenove anos? Ora essa!
       - Eu dizia... atenuou o coadjutor.
       - No, no vejo mal nenhum. A S. Joaneira aluga os seus quartos,  como se fosse uma hospedaria. Ento o secretrio-geral no esteve l uns poucos de meses?
       - Mas um eclesistico... insinuou o coadjutor.
       - Mais garantias, Sr. Mendes, mais garantias! exclamou o cnego. E parando, com uma atitude confidencial: - E depois a mim  que me convinha, Mendes! A mim 
 que me convinha, meu amigo!
       Houve um pequeno silncio. O coadjutor disse, baixando a voz:
       - Sim, vossa senhoria faz muito bem  S. Joaneira...
       - Fao o que posso, meu caro amigo, fao o que posso, disse o cnego. E com uma entonao terna, risonhamente paternal: - que ela  merecedora!  merecedora. 
Boa at ali, meu amigo! - Parou, esgazeando os olhos: - Olhe que dia em que eu no lhe aparea pela manh s nove em ponto, est num frenesi! Oh criatura! digo-lhe 
eu, a senhora rala-se sem razo. Mas ento,  aquilo! Pois quando eu tive a clica o ano passado! Emagreceu, Sr. Mendes! E depois no h lembrana que no tenha! 
Agora, pela matana do porco, o melhor do animal  para o padre santo, voc sabe?  como ela me chama.
       Falava com os olhos luzidos, uma satisfao babosa.
       - Ah, Mendes! acrescentou,  uma rica mulher!
       - E bonita mulher, disse o coadjutor respeitosamente.
       - L isso! exclamou o cnego parando outra vez. L isso! Bem conservada at ali! Pois olhe que no  uma criana! Mas nem um cabelo branco, nem um, nem um 
s! E ento que cor de pele! - E mais baixo, com um sorriso guloso: - E isto aqui!  Mendes, e isto aqui! - Indicava o lado do pescoo debaixo do queixo, passando-lhe 
devagar por cima a sua mo papuda: -  uma perfeio! E depois mulher de asseio, muitssimo asseio! E que lembranazinhas! No h dia que me no mande o seu presente! 
 o covilhete de gelia,  o pratinho de arroz-doce,  a bela morcela de Arouca! Ontem me mandou ela uma torta de ma. Ora havia de voc ver aquilo! A ma parecia 
um creme! At a mana Josefa disse: "Est to boa que parece que foi cozida em gua benta!" - E pondo a mo espalmada sobre o peito: - So coisas que tocam a gente 
c por dentro, Mendes! No, no  l por dizer, mas no h outra.
       O coadjutor escutava com a taciturnidade da inveja.
       - Eu bem sei, disse o cnego parando de novo e tirando lentamente as palavras, eu bem sei que por ai rosnam, rosnam... Pois  uma grandssima calnia! O que 
,  que eu tenho muito apego quela gente. J o tinha em tempo do marido. Voc bem o sabe, Mendes.
       O coadjutor teve um gesto afirmativo.
       - A S. Joaneira  uma pessoa de bem! olhe que  uma pessoa de bem, Mendes! exclamava o cnego batendo no cho fortemente com a ponteira do guarda. sol.
       - As lnguas do mundo so venenosas, senhor cnego, disse o coadjutor com uma voz chorosa. E depois dum silncio, acrescentou baixo: - Mas aquilo a vossa 
senhoria deve-lhe sair caro!
       - Pois a est, meu amigo! Imagine voc que desde que o secretrio-geral se foi embora a pobre da mulher tem tido a casa vazia: eu  que tenho dado para a 
panela, Mendes!
       - Que ela tem uma fazendita, considerou o coadjutor.
       - Uma nesga de terra, meu rico senhor, uma nesga de terra! E depois as dcimas, os jornais! Por isso digo eu, o proco  uma mina. Com os seis tostes que 
ele der, com que eu ajudar, com alguma coisa que ela tire da hortalia que vende da fazenda, j se governa. E para mim  um alvio, Mendes.
       -  um alvio, senhor cnego! repetiu o coadjutor.
       Ficaram calados. A tarde descaa muito lmpida; o alto cu tinha uma plida cor azul; o ar estava imvel. Naquele tempo o rio ia muito vazio; pedaos de areia 
reluziam em seco; e a gua baixa arrastava-se com um marulho brando, toda enrugada do roar dos seixos.
       Duas vacas, guardadas por uma rapariga, apareceram ento pelo caminho lodoso que do outro lado do rio, defronte da alameda, corre junto de um silvado; entraram 
no rio devagar, e estendendo o pescoo pelado da canga, bebiam de leve, sem rudo; a espaos erguiam a cabea bondosa, olhavam em redor com a passiva tranqilidade 
dos seres fartos - e fios de gua, babados, luzidios  luz, pendiam-lhes dos cantos do focinho. Com a inclinao do sol a gua perdia a sua claridade espelhada, 
estendiam-se as sombras dos arcos da Ponte. Do lado das colinas ia subindo um crepsculo esfumado, e as nuvens cor de sangnea e cor de laranja que anunciam o calor 
faziam, sobre os lados do mar, uma decorao muito rica.
       - Bonita tarde! disse o coadjutor.
       O cnego bocejou, e fazendo uma cruz sobre o bocejo:
       - Vamo-nos chegando s Ave-Marias, hem?
       Quando, da a pouco, iam subindo as escadarias da S, o cnego parou, e voltando-se para o coadjutor:
       - Pois est decidido, amigo Mendes, ferro o Amaro na casa da S. Joaneira!  uma pechincha para todos.
       - Uma grande pechincha! disse respeitosamente o coadjutor. Uma grande pechincha!
       E entraram na igreja, persignando-se.



II


       Uma semana depois, soube-se que o novo proco devia chegar pela diligncia de Cho de Mas, que traz o correio  tarde; e desde as seis horas o cnego Dias 
e o coadjutor passeavam no Largo do Chafariz,  espera de Amaro.
       Era ento nos fins de Agosto. Na longa alameda macadamizada que vai junto do rio, entre os dois renques de velhos choupos, entreviam-se vestidos claros de 
senhoras passeando. Do lado do Arco, na correnteza de casebres pobres, velhas fiavam  porta; crianas sujas brincavam pelo cho, mostrando seus enormes ventres 
nus; e galinhas em redor iam picando vorazmente as imundcies esquecidas. Em redor do chafariz cheio de rudo, onde os cntaros arrastam sobre a pedra, criadas ralham, 
soldados, com a sua fardeta suja, enormes botas cambadas, namoravam, meneando a chibata de junco; com o seu cntaro bojudo de barro equilibrado  cabea sobre a 
rodilha, raparigas iam-se aos pares, meneando os quadris; e dois oficiais ociosos, com a farda desapertada sobre o estmago, conversavam, esperando, a ver quem viria. 
A diligncia tardava. Quando o crepsculo desceu, uma lamparina luziu no nicho do santo, por cima do Arco; e defronte iam-se iluminando uma a uma, com uma luz soturna, 
as janelas do hospital.
       J tinha anoitecido quando a diligncia, com as lanternas acesas, entrou na Ponte ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e veio parar ao p do 
chafariz, por baixo da estalagem do Cruz; o caixeiro do tio Patrcio partiu logo a correr para a Praa com o mao dos Dirios Populares; o tio Baptista, o patro, 
com o cachimbo negro ao canto da boca, desatrelava, praguejando tranqilamente; e um homem que vinha na almofada, ao p do cocheiro, de chapu alto e comprido capote 
eclesistico, desceu cautelosamente, agarrando-se s guardas de ferro dos assentos, bateu com os ps no cho para os desentorpecer, e olhou em redor.
       - Oh, Amaro! gritou o cnego, que se tinha aproximado, oh ladro!
       - Oh, padre-mestre! disse o outro com alegria. E abraaram-se, enquanto o coadjutor, todo curvado, tinha o barrete na mo.
       Da a pouco as pessoas que estavam nas lojas viram atravessar a Praa, entre a corpulncia vagarosa do cnego Dias e a figura esguia do coadjutor, um homem 
um pouco curvado, com um capote de padre. Soube- se que era o proco novo; e disse-se logo na botica que era uma boa figura de homem. O Joo Bicha levava adiante 
um ba e um saco de chita; e como aquela hora j estava bbedo, ia resmungando o Bendito.
       Eram quase nove horas, a noite cerrara. Em redor da Praa as casas estavam j adormecidas: das lojas debaixo da arcada saa a luz triste dos candeeiros de 
petrleo, entreviam-se dentro figuras sonolentas, caturrando em cavaqueira, ao balco. As ruas que vinham dar  Praa, tortuosas, tenebrosas, com um lampio mortio, 
pareciam desabitadas. E no silncio o sino da S dava vagarosamente o toque das almas.
       O cnego Dias ia explicando pachorrentamente ao proco "o que lhe arranjara". No lhe tinha procurado casa: seria necessrio comprar moblia, buscar criada, 
despesas inumerveis! Parecera-lhe melhor tomar- lhe quartos numa casa de hspedes respeitvel, de muito conchego - e nessas condies (e ali estava o amigo coadjutor 
que o podia dizer), no havia como a da S. Joaneira. Era bem arejada, muito asseio, a cozinha no deitava cheiro; tinha l estado o secretrio-geral e o inspetor 
dos estudos; e a S. Joaneira (o Mendes amigo conhecia-a bem) era uma mulher temente a Deus, de boas contas, muito econmica e cheia de condescendncias...
       - Voc est ali como em sua casa! Tem o seu cozido, prato de meio, caf...
       - Vamos a saber, padre-mestre: preo? disse o proco.
       - Seis tostes. Que diabo!  de graa! Tem um quarto, tem uma saleta...
       - Uma rica saleta, comentou o coadjutor respeitosamente.
       - E  longe da S? perguntou Amaro.
       - Dois passos. Pode-se ir dizer missa de chinelos. Na casa h uma rapariga, continuou com a sua voz pausada o cnego Dias. E a filha da S. Joaneira. Rapariga 
de vinte e dois anos. Bonita. Sua pontinha de gnio, mas bom fundo... Aqui tem voc a sua rua.
       Era estreita, de casas baixas e pobres, esmagada pelas altas paredes da velha Misericrdia, com um lampio lgubre ao fundo.
       - E aqui tem voc o seu palcio! disse o cnego, batendo na aldraba de uma porta esguia.
       No primeiro andar duas varandas de ferro, de aspecto antigo, faziam salincia, com os seus arbustos de alecrim, que se arredondavam aos cantos em caixas de 
madeira; as janelas de cima, pequeninas, eram de peitoril; e a parede, pelas suas irregularidades, fazia lembrar uma lata amolgada.
       A S. Joaneira esperava no alto da escada; uma criada, enfezada e sardenta, alumiava com um candeeiro de petrleo; e a figura da S. Joaneira destacava plenamente 
na luz sobre a parede caiada. Era gorda, alta, muito branca, de aspecto pachorrento. Os seus olhos pretos tinham j em redor a pele engelhada; os cabelos arrepiados, 
com um enfeite escarlate, eram j raros aos cantos da testa e no comeo da risca; mas percebiam-se uns braos rechonchudos, um colo copioso e roupas asseadas.
       - Aqui tem a senhora o seu hspede, disse o cnego subindo.
       - Muita honra em receber o senhor proco! muita honra! H-de vir muito cansado! por fora! Para aqui, tem a bondade? Cuidado com o degrauzinho.
       Levou-o para uma sala pequena, pintada de amarelo, com um vasto canap de palhinha encostado  parede, e defronte, aberta, uma mesa forrada de baeta verde.
       -  a sua sala, senhor proco, disse a S. Joaneira. Para receber, para espairecer... Aqui - acrescentou abrindo uma porta -  o seu quarto de dormir. Tem 
a sua cmoda, o seu guarda-roupa... - Abriu os gavetes, gabou a cama batendo a elasticidade dos colches. - Uma campainha para chamar sempre que queira... As chavinhas 
da cmoda esto aqui... Se gosta de travesseirinho mais alto... Tem um cobertor s, mas querendo...
       - Est bem, est tudo muito bem, minha senhora, - disse o proco com a sua voz baixa e suave.
       -  pedir! O que h, da melhor vontade...
       - Oh criatura de Deus! interrompeu o cnego jovialmente, o que ele quer agora  cear!
       - Tambm tem a ceiazinha pronta. Desde as seis que est o caldo a apurar...
       E saiu, para apressar a criada, dizendo logo do fundo da escada:
       - V, Rua, mexe-te, mexe-te!...
       O cnego sentou-se pesadamente no canap, e sorvendo a sua pitada:
       -  contentar, meu rico. Foi o que se pde arranjar.
       - Eu estou bem em toda parte, padre-mestre, disse o proco, caando os seus chinelos de ourelo. Olha o seminrio!... E em Feiro! Caa- me a chuva na cama.
       Para o lado da Praa, ento, sentiu-se o toque de cometas.
       - Que  aquilo? perguntou Amaro, indo  janela.
       - As nove e meia, o toque de recolher.
       Amaro abriu a vidraa. Ao fim da rua um candeeiro esmorecia. A noite estava muito negra. E havia sobre a cidade um silncio cncavo, de abbada.
       Depois das cometas, um rufar lento de tambores afastou-se para o lado do quartel; por baixo da janela um soldado, que se demorara nalguma viela do Castelo, 
passou correndo; e das paredes da Misericrdia saa constantemente o agudo piar das corujas.
       -  triste isto, disse Amaro.
       Mas a S. Joaneira gritou de cima:
       - Pode subir, senhor cnego! Est o caldo na mesa!
       - Ora v, v, que voc deve estar a cair de fome, Amaro! - disse o cnego, erguendo-se muito pesado.
       E detendo um momento o proco, pela manga do casaco:
       - Vai voc ver o que  um caldo de galinha feito c pela senhora! Da gente se babar!...
       No meio da sala de jantar, forrada de papel escuro, a claridade da mesa alegrava, com a sua toalha muito branca, a loua, os copos reluzindo  luz forte dum 
candeeiro de abajur verde. Da terrina subia o vapor cheiroso do caldo e, na larga travessa a galinha gorda, afogada num arroz mido e branco, rodeada de nacos de 
bom paio, tinha uma aparncia suculenta de prato morgado. No armrio envidraado, um pouco na sombra, viam-se cores claras de porcelana; a um canto, ao p da janela, 
estava o piano, coberto com uma colcha de cetim desbotado. Na cozinha frigia-se; e sentindo o cheiro fresco que vinha dum tabuleiro de roupa lavada, o proco esfregou 
as mos, regalado.
       - Para aqui, senhor proco, para aqui, disse a S. Joaneira. Dai pode vir-lhe frio. - Foi fechar as portadas das janelas; chegou-lhe um caixo de areia para 
as pontas dos cigarros. - E o senhor cnego toma um copinho de gelia, sim?
       - V l, para fazer companhia, disse jovialmente o cnego, sentando- se e desdobrando o guardanapo.
       A S. Joaneira, no entanto, mexendo-se pela sala, ia admirando o proco, que, com a cabea sobre o prato, comia em silncio o seu caldo, soprando a colher. 
Parecia bem-feito; tinha um cabelo muito preto, levemente anelado. O rosto era oval, de pele trigueira e fina, os olhos negros e grandes, com pestanas compridas.
       O cnego, que no o via desde o seminrio, achava-o mais forte, mais viril.
       - Voc era enfezadito...
       - Foi o ar da serra, dizia o proco, fez-me bem! - Contou ento a sua triste existncia em Feiro, na alta Beira, durante a aspereza do Inverno, s com pastores. 
O cnego deitava-lhe o vinho de alto, fazendo-o  espumar.
       - Pois  beber-lhe, homem!  beber-lhe! Desta gota no pilhava voc no seminrio. 
       Falaram do seminrio.
       - Que ser feito do Rabicho, o despenseiro? disse o cnego.
       - E do Carocho, que roubava as batatas?
       Riram; e bebendo, na alegria das reminiscncias, recordavam as histrias de ento, o catarro do reitor, e o mestre do cantocho que deixara um dia cair do 
bolso as poesias obscenas de Bocage.
       - Como o tempo passa, como o tempo passa! diziam.
       A S. Joaneira ento ps na mesa um prato covo com mas assadas.
       - Viva! No, l nisso tambm eu entro! exclamou logo o cnego. A bela ma assada! nunca me escapa! Grande dona de casa, meu amigo, rica dona de casa, c 
a nossa S. Joaneira! Grande dona de casa!
       Ela ria; viam-se os seus dois dentes de diante, grandes e chumbados. Foi buscar uma garrafa de vinho do Porto; ps no prato do cnego, com requintes devotos, 
uma ma desfeita, polvilhada de acar; e batendo-lhe nas costas com a mo papuda e mole:
       - Isto  um santo, senhor proco, isto  um santo! Ai! devo-lhe muitos favores!
       - Deixe falar, deixe falar, dizia o cnego. - Espalhava-se-lhe no rosto um contentamento baboso. - Boa gota! acrescentou, saboreando o seu clice de Porto. 
Boa gota!
       - Olhe que ainda  dos anos da Amlia, senhor cnego.
       - E onde est ela, a pequena?
       - Foi ao Morenal com a D. Maria. Aquilo naturalmente foram para casa das Gansosos passar a noite.
       - C esta senhora  proprietria, explicou o cnego, falando do Morenal.  um condado! - Ria com bonomia, e os seus olhos luzidios percorriam ternamente a 
corpulncia da S. Joaneira.
       - Ah, senhor proco, deixe falar,  uma nesga de terra... disse ela.
       Mas vendo a criada encostada  parede, sacudida com aflies de tosse:
       -  mulher, vai tossir l para dentro! credo!
       A moa saiu, pondo o avental sobre a boca.
       - Parece doente, coitada, observou o proco.
       Muito achacada, muito!... A pobre de Cristo era sua afilhada, rf, e estava quase tsica. Tinha-a tomado por piedade...
       - E tambm porque a criada que c tinha foi para o hospital, a desavergonhada... Meteu-se a com um soldado!...
       O padre Amaro baixou devagar os olhos - e trincando migalhas, perguntou se havia muitas doenas naquele Vero.
       - Colerinas, das frutas verdes, rosnou o cnego. Metem-se pelas melancias, depois tarraadas de gua... E suas febritas...
       Falaram ento das sezes do campo, dos ares de Leiria.
       - Que eu agora, dizia o padre Amaro, ando mais forte. Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo, tenho sade, tenho!
       - Ai, Nosso Senhor lha conserve, que nem sabe o bem que ! exclamou a S. Joaneira. - Contou imediatamente a grande desgraa que tinha em casa, uma irm meio 
idiota entrevada havia dez anos! Ia fazer sessenta anos... No Inverno viera-lhe um catarro, e desde ento, coitadinha, definhava, definhava...
       - H bocado, ao fim da tarde, teve ela um ataque de tosse! Pensei que se ia embora. Agora descansou mais...
       Continuou a falar "daquela tristeza", depois da sua Ameliazinha, das Gansosos, do antigo chantre, da carestia de tudo - sentada, com o gato no colo, rolando 
com os dois dedos, monotonamente, bolinhas de po. O cnego, pesado, cerrava as plpebras; tudo na sala parecia ir gradualmente adormecendo; a luz do candeeiro esmorecia.
       - Pois senhores, disse por fim o cnego mexendo-se, isto so horas!
       O padre Amaro ergueu-se, e com os olhos baixos deu as graas.
       - O senhor proco quer lamparina? perguntou cuidadosamente a S. Joaneira.
       - No, minha senhora. No uso. Boas noites!
       E desceu devagar, palitando os dentes.
       A S. Joaneira alumiava no patamar, com o candeeiro. Mas nos primeiros degraus o proco parou, e voltando-se, afetuosamente:
       -  verdade, minha senhora, amanh  sexta-feira,  jejum...
       - No, no, acudiu o cnego que se embrulhava na capa de lustrina, bocejando, voc amanh janta comigo. Eu venho por c, vamos ao chantre,  S, e por a... 
E olhe que tenho lulas.  um milagre, que isto aqui nunca h peixe.
       A S. Joaneira tranqilizou logo o proco.
       - Ai,  escusado lembrar os jejuns, senhor proco. Tenho o maior escrpulo!
       - Eu dizia, explicou o proco, porque infelizmente hoje em dia ningum cumpre.
       - Tem vossa senhoria muita razo, atalhou ela. - Mas eu! credo!... A salvao da minha alma antes de tudo!
       A campainha embaixo, ento, retiniu fortemente.
       - H-de ser a pequena, disse a S. Joaneira. Abre, Rua!
       A porta bateu, sentiram-se vozes, risinhos.
       - s tu, Amlia?
       Uma voz disse adeusinho! adeusinho! E apareceu, subindo quase a correr, com os vestidos um pouco apanhados adiante, uma bela rapariga, forte, alta, bem-feita, 
com uma manta branca pela cabea e na mo um ramo de alecrim.
       - Sobe, filha. Aqui est o senhor proco. Chegou agora  noitinha, sobe!
       Amlia tinha parado um pouco embaraada, olhando para os degraus de cima, onde o proco ficara, encostado ao corrimo. Respirava fortemente de ter corrido; 
vinha corada; os seus olhos vivos e negros luziam; e saa dela uma sensao de frescura e de prados atravessados.
       O proco desceu, cingido ao corrimo, para a deixar passar, murmurando boas-noites! com a cabea baixa. O cnego, que descia atrs, pesadamente, tomou o meio 
da escada, diante de Amlia:
       - Ento isto so horas, sua brejeira?
       Ela teve um risinho, encolheu-se.
       - Ora v-se encomendar a Deus, v! disse batendo-lhe no rosto devagarinho com a sua mo grossa e cabeluda.
       Ela subiu a correr, enquanto o cnego, depois de ir buscar o guarda- sol  saleta, saa, dizendo  criada, que erguia o candeeiro sobre a escada:
       - Est bem, eu vejo, no apanhes frio, rapariga. Ento s oito, Amaro! Esteja a p! Vai-te, rapariga, adeus! Reza  Senhora da Piedade que te seque essa catarreira.
       O proco fechou a porta do quarto. A roupa da cama entreaberta, alva, tinha um bom cheiro de linho lavado. Por cima da cabeceira pendia a gravura antiga dum 
Cristo crucificado. Amaro abriu o seu Brevirio, ajoelhou aos ps da cama, persignou-se; mas estava fatigado, vinham-lhe grandes bocejos; e ento por cima, sobre 
o teto, atravs das oraes rituais que maquinalmente ia lendo, comeou a sentir o tique-tique das botinas de Amlia e o rudo das saias engomadas que ela sacudia 
ao despir-se.

.

III


       Amaro Vieira nascera em Lisboa em casa da senhora marquesa de Alegros. Seu pai era criado do marqus; a me era criada de quarto; quase uma amiga da senhora 
marquesa. Amaro conservava ainda um livro, o  Menino das Selvas, com brbaras imagens coloridas que tinha escrito na primeira pgina branca:  minha muito estimada 
criada Joana Vieira e verdadeira amiga que sempre tem sido, - Marquesa de Alegros. Possua tambm um dagtterretipo de sua me: era uma mulher forte, de sobrancelhas 
cerradas, a boca larga e sensualmente fendida, e uma cor ardente. O pai de Amaro tinha morrido de apoplexia; e a me, que fora sempre to s, sucumbiu, da a um 
ano, a uma tsica de laringe. Amaro completara ento seis anos. Tinha uma irm mais velha que desde pequena vivia com a av em Coimbra, e um tio, merceeiro abastado 
do bairro da Estrela. Mas a senhora marquesa ganhara amizade a Amaro; conservou-o em sua casa, por uma adoo tcita: e comeou, com grandes escrpulos, a vigiar 
a sua educao.
       A marquesa de Alegros ficara viva aos quarenta e trs anos, e passava a maior parte do ano retirada na sua quinta de Carcavelos. Era uma pessoa passiva, 
de bondade indolente, com capela em casa, um respeito devoto pelos padres de S. Lus, sempre preocupada dos interesses da Igreja. As suas duas filhas, educadas no 
receio do cu e nas preocupaes da Moda, eram beatas e faziam o chique falando com igual fervor da humildade crist e do ltimo figurino de Bruxelas. Um jornalista 
de ento dissera delas: - Pensam todos os dias na toalete com que ho-de entrar no Paraso.
       No isolamento de Carcavelos, naquela quinta de alamedas aristocrticas onde os paves gritavam, as duas meninas enfastiavam-se. A Religio, a Caridade eram 
ento ocupaes avidamente aproveitadas: cosiam vestidos para os pobres da freguesia, bordavam frontais para os altares da igreja. De Maio a Outubro estavam inteiramente 
absorvidas pelo trabalho de salvar a sua alma; liam os livros beatos e doces; como no tinham S. Carlos, as visitas, a Aline, recebiam os padres e cochichavam sobre 
a virtude dos santos. Deus era o seu luxo de Vero.
       A senhora marquesa resolvera desde logo fazer entrar Amaro na vida eclesistica. A sua figura amarelada e magrita pedia aquele destino recolhido: era j afeioado 
s coisas de capela, e o seu encanto era estar aninhado ao p das mulheres, no calor das saias unidas, ouvindo falar de santas. A senhora marquesa no o quis mandar 
ao colgio porque receava a impiedade dos tempos, e as camaradagens imorais. O capelo da casa ensinava- lhe o latim, e a filha mais velha, a Sra. D. Lusa, que 
tinha um nariz de cavalete e lia Chateaubriand, dava-lhe lies de francs e de geografia.
       Amaro era, como diziam os criados, um mosquinha-morta. Nunca brincava, nunca pulava ao sol. Se  tarde acompanhava a senhora marquesa s alamedas da quinta, 
quando ela descia pelo brao do padre Liset ou do respeitoso procurador Freitas, ia a seu lado, mono, muito encolhido, torcendo com as mos midas o forro das algibeiras, 
- vagamente assustado das espessuras de arvoredos e do vigor das relvas altas.
       Tomou-se muito medroso. Dormia com lamparina, ao p de uma ama velha. As criadas de resto feminizavam-no; achavam-no bonito, aninhavam-no no meio delas, beijocavam-no, 
faziam-lhe ccegas, e ele rolava por entre as saias, em contato com os corpos, com gritinhos de contentamento. s vezes, quando a senhora marquesa saa, vestiam-no 
de mulher, entre grandes risadas; ele abandonava-se, meio nu, com os seus modos lnguidos, os olhos quebrados, uma roseta escarlate nas faces. As criadas, alm disso, 
utilizavam-no nas suas intrigas umas com as outras: era Amaro o que fazia as queixas. Tomou-se enredador, muito mentiroso.
       Aos onze anos ajudava  missa, e aos sbados limpava a capela. Era o seu melhor dia; fechava-se por dentro, colocava os santos em plena luz em cima duma mesa, 
beijando-os com ternuras devotas e satisfaes gulosas; e toda a manh, muito atarefado, cantarolando o Santssimo, ia tirando a traa dos vestidos das Virgens e 
limpando com gesso e cr as aurolas dos Mrtires.
       No entanto crescia; o seu aspecto era o mesmo, mido e amarelado; nunca dava uma boa risada; trazia sempre as mos nos bolsos. Estava constantemente metido 
nos quartos das criadas, remexendo as gavetas; bulia nas saias sujas, cheirava os algodes postios. Era extremamente preguioso, e custava de manh arranc-lo a 
uma sonolncia doentia em que ficava amolecido, todo embrulhado nos cobertores e abraado ao travesseiro. J corcovava um pouco, e os criados chamavam-lhe o padreca.

***

       Num domingo gordo, uma manh, depois da missa, ao chegar-se ao terrao, a senhora marquesa de repente caiu morta com uma apoplexia. Deixava no seu testamento 
um legado para que Amaro, o filho da sua criada Joana, entrasse aos quinze anos no seminrio e se ordenasse. O padre Liset ficava encarregado de realizar esta disposio 
piedosa. Amaro tinha ento treze anos.
       As filhas da senhora marquesa deixaram logo Carcavelos e foram para Lisboa, para a casa da Sra. D. Brbara de Noronha, sua tia paterna. Amaro foi mandado 
para casa do tio, para a Estrela. O merceeiro era um homem obeso, casado com a filha dum pobre empregado pblico, que o aceitara para sair da casa do pai, onde a 
mesa era escassa, ela devia fazer as camas e nunca ia ao teatro. Mas odiava o marido, as suas mos cabeludas, a loja, o bairro, e o seu apelido de Sra. Gonalves. 
O marido, esse adorava-a como a delcia da sua vida, o seu luxo; carregava-a de jias e chamava-lhe a sua duquesa.
       Amaro no encontrou ali o elemento feminino e carinhoso, em que estivera tepidamente envolvido em Carcavelos. A tia quase no reparava nele; passava os seus 
dias lendo romances, as anlises dos teatros nos jornais, vestida de seda, coberta de p-de-arroz, o cabelo em cachos, esperando a hora em que passava debaixo das 
janelas, puxando os punhos, o Cardoso, gal da Trindade. O merceeiro apropriou-se ento de Amaro como duma utilidade imprevista, mandou-o para o balco. Fazia-o 
erguer logo s cinco horas da manh; e o rapaz tremia na sua jaqueta de pano azul, molhando  pressa o po na chvena de caf, ao canto da mesa da cozinha. De resto 
detestavam-no; a tia chamava-lhe o cebola e o tio chamava-lhe o burro. Pesava-lhes at o magro pedao de vaca que ele comia ao jantar. Amaro emagrecia, e todas as 
noites chorava.
       Sabia j que aos quinze anos devia entrar no seminrio. O tio todos os dias lho lembrava:
       - No penses que ficas aqui toda a vida na vadiagem, burro. Em tendo quinze anos,  para o seminrio. No tenho obrigao de carregar contigo! Besta na argola, 
no est nos meus princpios!
       E o rapaz desejava o seminrio, como um libertamento.
       Nunca ningum consultara as suas tendncias ou a sua vocao. Impunham-lhe uma sobrepeliz; a sua natureza passiva, facilmente dominvel, aceitava-a, como 
aceitaria uma farda. De resto no lhe desagradava ser padre. Desde que sara das rezas perptuas de Carcavelos conservara o seu medo do Inferno, mas perdera o fervor 
pelos santos; lembravam-lhe porm os padres que vira em casa da senhora marquesa, pessoas brancas e bem tratadas, que comiam ao lado das fidalgas, e tomavam rap 
em caixas de ouro; e convinha-lhe aquela profisso em que se cantam bonitas missas, se comem doces finos, se fala baixo com as mulheres, - vivendo entre elas, cochichando, 
sentindo-lhes o calor penetrante, - e se recebem presentes em bandejas de prata. Recordava o padre Liset com um anel de rubi no dedo mnimo; monsenhor Saavedra com 
os seus belos culos de ouro, bebendo aos goles o seu copo de Madeira. As filhas da senhora marquesa bordavam-lhes chinelas. Um dia tinha visto um bispo que fora 
padre na Baia, viajara, estivera em Roma, era muito jovial; e na sala, com as suas mos ungidas que cheiravam a gua-de-colnia, apoiadas ao casto de ouro da bengala, 
todo rodeado de senhoras em xtase e cheias dum riso beato, cantava, para as entreter, com a sua bela voz:

      Mulatinha da Baia,
Nascida no Capuj...

       Um ano antes de entrar para o seminrio, o tio f-lo ir a um mestre para se afirmar mais no latim, e dispensou-o de estar ao balco. Pela primeira vez na 
sua existncia, Amaro possuiu liberdade. Ia s  escola, passeava pelas ruas. Viu a cidade, o exrcito de infantaria, espreitou s portas dos cafs, leu os cartazes 
dos teatros. Sobretudo comeara a reparar muito nas mulheres - e vinham-lhe, de tudo o que via, grandes melancolias. A sua hora triste era ao anoitecer, quando voltava 
da escola, ou aos domingos depois de ter ido passear com o caixeiro ao jardim da Estrela. O seu quarto ficava em cima, na trapeira, com uma janelinha num vo sobre 
os telhados. Encostava-se ali olhando, e via parte da cidade baixa, que a pouco e pouco se alumiava de pontos de gs: parecia-lhe perceber, vindo de l, um rumor 
indefinido: era a vida que no conhecia e que julgava maravilhosa, com cafs abrasados de luz, e mulheres que arrastam ruge-ruges de sedas pelos peristilos dos teatros; 
perdia-se em imaginaes vagas, e de repente apareciam-lhe no fundo negro da noite formas femininas, por fragmentos, uma perna com botinas de duraque e a meia muito 
branca, ou um brao rolio arregaado at ao ombro... Mas embaixo, na cozinha, a criada comeava a lavar a loua, cantando: era uma rapariga gorda, muito sardenta; 
e vinham-lhe ento desejos de descer, ir roar-se por ela, ou estar a um canto a v-la escaldar os pratos; lembravam-lhe outras mulheres que vira nas vielas, de 
saias engomadas e ruidosas, passeando em cabelo, com botinas cambadas: e, da profundidade do seu ser, subia-lhe uma preguia, como que a vontade de abraar algum, 
de no se sentir s. Julgava-se infeliz, pensava em matar-se. Mas o tio chamava-o de baixo:
       - Ento tu no estudas, mariola?
       E da a pouco, sobre o Tito Lvio cabeceando de sono, sentindo-se desgraado, roando os joelhos um contra o outro, torturava o dicionrio.
       Por esse tempo comeava a sentir um certo afastamento pela vida de padre, porque no poderia casar. J as convivncias da escola tinham introduzido na sua 
natureza efeminada curiosidades, corrupes. s escondidas fumava cigarros: emagrecia e andava mais amarelo.

***

       Entrou no seminrio. Nos primeiros dias os longos corredores de pedra um pouco midos, as lmpadas tristes, os quartos estreitos e gradeados, as batinas negras, 
o silncio regulamentado, o toque das sinetas - deram-lhe uma tristeza lgubre, aterrada. Mas achou logo amizades; o seu rosto bonito agradou. Comearam a trat-lo 
por tu, a admiti-lo, durante as horas de recreio ou nos passeios do domingo, s conversas em que se contavam anedotas dos mestres, se caluniava o reitor, e perpetuamente 
se lamentavam as melancolias da clausura: porque quase todos falavam com saudade das existncias livres que tinham deixado: os da aldeia no podiam esquecer as claras 
eiras batidas do sol, as esfolhadas cheias de cantigas e de abraos, as filas da boiada que recolhe, enquanto um vapor se exala dos prados; os que vinham das pequenas 
vilas lamentavam as ruas tortuosas e tranqilas de onde se namoravam as vizinhas, os alegres dias de mercado, as grandes aventuras do tempo em que se estuda latim. 
No lhes bastava o ptio do recreio lajeado, com as suas rvores definhadas, os altos muros sonolentos, o montono jogo da bola: abafavam na estreiteza dos corredores, 
na sala de Santo Incio, onde se faziam as meditaes da manh e se estudavam  noite as lies; e invejavam todos os destinos livres ainda os mais humildes - o 
almocreve que viam passar na estrada tocando os seus machos, o carreiro que ia cantarolando ao spero chiar das rodas, e at os mendigos errantes, apoiados ao seu 
cajado, com o seu alforje escuro.
       Da janela dum corredor via-se uma volta de estrada:  tardinha uma diligncia costumava passar, levantando a poeira, entre os estalidos do chicote, ao trote 
das trs guas, carregadas de bagagem; passageiros alegres, que levavam os joelhos bem embrulhados, sopravam o fumo dos charutos; quantos olhares os seguiam! quantos 
desejos iam viajando com eles para as alegres vilas e para as cidades, pela frescura das madrugadas ou sob a claridade das estrelas!
       E no refeitrio, diante do escasso caldo de hortalia, quando o regente de voz grossa comeava a ler monotonamente as cartas de algum missionrio da China 
ou as Pastorais do senhor bispo, quantas saudades dos jantares de famlia! As boas postas de peixe! O tempo da matana! Os rijes quentes que chiam no prato! Os 
sarrabulhos cheirosos!
       Amaro no deixava coisas queridas: vinha da brutalidade do tio, do rosto enfastiado da tia coberto de p-de-arroz; mas insensivelmente ps-se tambm a ter 
saudades dos seus passeios aos domingos, da claridade do gs e das voltas da escola, com os livros numa correia, quando parava encostado  vitrina das lojas a contemplar 
a nudez das bonecas!
       Lentamente, porm, com a sua natureza incaracterstica, foi entrando como uma ovelha indolente na regra do seminrio. Decorava com regularidade os seus compndios; 
tinha uma exatido prudente nos servios eclesisticos; e calado, encolhido, curvando-se muito baixo diante dos lentes - chegou a ter boas notas.
       Nunca pudera compreender os que pareciam gozar o seminrio com beatitude e maceravam os joelhos, ruminando, com a cabea baixa, textos da Imitao ou de Santo 
Incio; na capela, com os olhos em alvo, empalideciam de xtase; mesmo no recreio, ou nos passeios, iam lendo algum volumezinho de Louvores a Maria; e cumpriam com 
delcia as regras mais midas - at subir s um degrau de cada vez, como recomenda S. Boaventura. A esses o seminrio dava um antegosto do Cu: a ele s lhe oferecia 
as humilhaes duma priso, com os tdios duma escola.
       No compreendia tambm os ambiciosos; os que queriam ser caudatrios dum bispo, e nas altas salas dos paos episcopais erguer os reposteiros de velho damasco; 
os que desejavam viver nas cidades depois de ordenados, servir uma Igreja aristocrtica, e, diante das devotas ricas que se acumulam no frufru das sedas sobre o 
tapete do altar-mor, cantar com voz sonora. Outros sonhavam at destinos fora da Igreja: ambicionavam ser militares e arrastar nas ruas lajeadas o tlintlim dum sabre; 
ou a farta vida da lavoura, e desde a madrugada, com um chapu desabado e bem montados, trotar pelos caminhos, dar ordens nas largas eiras cheias de medas, apear 
 porta das adegas! E, a no ser alguns devotos, todos, ou aspirando ao sacerdcio ou aos destinos seculares, queriam deixar a estreiteza do seminrio para comer 
bem, ganhar dinheiro e conhecer as mulheres.
       Amaro no desejava nada:
       - Eu nem sei, dizia ele melancolicamente.
       No entretanto, escutando por simpatia aqueles para quem o seminrio era o "tempo das gals", saia muito perturbado daquelas conversas cheias de impaciente 
ambio da vida livre. s vezes falavam de fugir. Faziam planos, calculando a altura das janelas, as peripcias da noite negra pelos negros caminhos: anteviam balces 
de tabernas onde se bebe, salas de bilhar, alcovas quentes de mulheres. Amaro ficava todo nervoso: sobre o seu catre, alta noite, revolvia-se sem dormir, e, no fundo 
das suas imaginaes e dos seus sonhos, ardia como uma brasa silenciosa o desejo da Mulher.
       Na sua cela havia uma imagem da Virgem coroada de estrelas, pousada sobre a esfera, com o olhar errante pela luz imortal, calcando aos ps a serpente. Amaro 
voltava-se para ela como para um refgio, rezava-lhe a Salve-Rainha: mas, ficando a contemplar a litografia, esquecia a santidade da Virgem, via apenas diante de 
si uma linda moa loura; amava-a; suspirava, despindo-se olhava-a de revs lubricamente; e mesmo a sua curiosidade ousava erguer as pregas castas da tnica azul 
da imagem e supor formas, redondezas, uma carne branca... Julgava ento ver os olhos do Tentador luzir na escurido do quarto; aspergia a cama de gua benta; mas 
no se atrevia a revelar estes delrios, no confessionrio, ao domingo.
       Quantas vezes ouvira, nas prdicas, o mestre de Moral falar, com a sua voz roufenha, do Pecado, compar-lo  serpente e com palavras untuosas e gestos arqueados, 
deixando cair vagarosamente a pompa melflua dos seus perodos, aconselhar os seminaristas a que, imitando a Virgem, calcassem aos ps a serpente ominosa! E depois 
era o mestre de Teologia mstica que falava, sorvendo o seu rap, no dever de vencer a Natureza! E citando S. Joo de Damasco e S. Crislogo, S. Cipriano e S. Jernimo, 
explicava os antemas dos santos contra a Mulher, a quem chamava, segundo as expresses da Igreja, Serpente, Dardo, Filha da Mentira, Porta do Inferno, Cabea do 
Crime, Escorpio...
       - E como disse o nosso padre S. Jernimo - e assoava-se estrondosamente - Caminho de iniqidade, iniquita via!
       At nos compndios encontrava a preocupao da Mulher! Que ser era esse, pois, que atravs de toda a teologia ora era colocada sobre o altar como a Rainha 
da Graa, ora amaldioada com apstrofes brbaras? Que poder era o seu, que a legio dos santos ora se arremessa ao seu encontro, numa paixo exttica, dando-lhe 
por aclamao o profundo reino dos Cus, - ora vai fugindo diante dela como do Universal Inimigo, com soluos de terror e gritos de dio, e escondendo-se, para a 
no ver, nas tebaidas e nos claustros, vai ali morrendo do mal de a ter amado? Sentia, sem as definir, estas perturbaes: elas renasciam, desmoralizavam-no perpetuamente: 
e j antes de fazer os seus votos desfalecia no desejo de os quebrar.
       E em redor dele, sentia iguais rebelies da natureza: os estudos, os jejuns, as penitncias podiam domar o corpo, dar-lhe hbitos maquinais, mas dentro os 
desejos moviam-se silenciosamente, como num ninho serpentes imperturbadas. Os que mais sofriam eram os sangneos, to doloridamente apertados na Regra como os seus 
grossos pulsos plebeus nos punhos das camisas. Assim, quando estavam ss, o temperamento irrompia: lutavam, faziam foras, provocavam desordens. Nos linfticos a 
natureza comprimida produzia as grandes tristezas, os silncios moles: desforravam-se ento no amor dos pequenos vcios: jogar com um velho baralho, ler um romance, 
obter de intrigas demoradas um mao de cigarros - quantos encantos do pecado!
Amaro por fim quase invejava os estudiosos; ao menos esses estavam contentes, estudavam perpetuamente, escrevinhavam notas no silncio da alta livraria, eram respeitados, 
usavam culos, tomavam rap. Ele mesmo tinha s vezes ambies repentinas de cincia; mas diante dos vastos infolios vinha-lhe um tdio insupervel. Era no entanto 
devoto: rezava, tinha f ilimitada em certos santos, um terror angustioso de Deus. Mas odiava a clausura do seminrio! A capela, os chores do ptio, as comidas 
montonas do longo refeitrio lajeado, os cheiros dos corredores, tudo lhe dava uma tristeza irritada: parecia-lhe que seria bom, puro, crente, se estivesse na liberdade 
duma rua ou na paz dum quintal, fora daquelas negras paredes. Emagrecia, tinha suores ticos: e mesmo no ltimo ano, depois do servio pesado da Semana Santa, como 
comeavam os calores, entrou na enfermaria com uma febre nervosa. 
       Ordenou-se enfim pelas tmporas de S. Mateus; e pouco tempo depois recebeu, ainda no seminrio, esta carta do Sr. padre Liset:

       "Meu querido filho e novo colega.- Agora que est ordenado, entendo em minha conscincia que devo dar-lhe conta do estado dos seus negcios, pois quero cumprir 
at o fim o encargo com que carregou os meus ombros dbeis a nossa chorada marquesa, atribuindo-me a honra de administrar o legado que lhe deixou. Porque, ainda 
que os bens mundanos pouco devam importar a uma alma votada ao sacerdcio, so sempre as boas contas que fazem os bons amigos. Saber, pois, meu querido filho, que 
o legado da querida marquesa - para quem deve erguer em sua alma uma gratido eterna - est inteiramente exausto. Aproveito esta ocasio para lhe dizer que depois 
da morte de seu tio, sua tia, tendo liquidado o estabeleci mento, se entregou a um caminho que o respeito me impede de qualificar: caiu sob o imprio das paixes, 
e tendo-se ligado ilegitimamente, viu os seus bens perdidos juntamente com a sua pureza, e hoje estabeleceu uma casa de hspedes na Rua dos Calafates n? 53. Se toco 
nestas impurezas, to imprprias de que um tenro levita, como o meu querido filho, tenha delas conhecimento,  porque lhe quero dar cabal relao da sua respeitvel 
famlia. Sua irm, como decerto sabe, casou rica em Coimbra, e ainda que no casamento no  o ouro que devemos apreciar,  todavia importante, para futuras circunstncias, 
que o meu querido filho esteja de posse deste fato. Do que me escreveu o nosso querido reitor a respeito de o mandarmos para a freguesia de Feiro, na Gralheira, 
vou falar com algumas pessoas importantes que tm a extrema bondade de atender um pobre padre que s pede a Deus misericrdia. Espero, todavia, conseguir. Persevere, 
meu querido filho, nos caminhos da virtude, de que sei que a sua boa alma est repleta, e creia que se encontra a felicidade neste nosso santo ministrio quando 
sabemos compreender quantos so os blsamos que derrama no peito e quantos os refrigrios que d - o servio de Deus.' Adeus, meu querido filho e novo colega. Creia 
que sempre o meu pensamento estar com o pupilo da nossa chorada marquesa, que decerto do Cu, onde a elevaram as suas virtudes, suplica  Virgem, que ela tanto 
serviu e amou, a felicidade do seu caro pupilo ". Liset.
"P.S. - O apelido do marido de sua irm  Trigoso. " Liset.

       Dois meses depois Amaro foi nomeado proco de Feiro, na Gralheira, serra da Beira Alta. Esteve ali desde Outubro at o fim das neves.
       Feiro  uma parquia pobre de pastores e naquela poca quase desabitada. Amaro passou o tempo muito ocioso, ruminando o seu tdio  lareira, ouvindo fora 
o Inverno bramir na serra. Pela Primavera vagaram nos distritos de Santarm e de Leiria parquias populosas, com boas cngruas. Amaro escreveu logo  irm contando 
a sua pobreza em Feiro; ela mandou- lhe, com recomendaes de economia, doze moedas para ir a Lisboa requerer. Amaro partiu imediatamente. Os ares lavados e vivos 
da serra tinham- lhe fortificado o sangue; voltava robusto, direito, simptico, com uma boa cor na pele trigueira.
       Logo que chegou a Lisboa foi  Rua dos Calafates no 53, a casa da tia: achou-a velha, com laos vermelhos numa cuia enorme, toda coberta de p-de-arroz. Tinha-se 
feito devota, e foi com uma alegria piedosa que abriu os seus magros braos a Amaro.
       - Como ests bonito! Ora no h! Quem te viu? Ih, Jesus! Que  mudana!
       Admirava-lhe a batina, a coroa: e contando-lhe as suas desgraas, com exclamaes sobre a salvao da sua alma e sobre a carestia dos gneros, foi-o levando 
para o terceiro andar, a um quarto que dava para o  saguo.
       - Ficas aqui como um abade, disse-lhe ela. E baratinho!... Ai! ter- te de graa queria eu, mas... Tenho sido muito infeliz, Joozinho!... Ai! desculpa, Amaro! 
Estou sempre com Joozinho na cabea...
       Amaro procurou logo ao outro dia o padre Liset em S. Lus. Tinha ido para Frana. Lembrou-se ento da filha mais nova da senhora marquesa de Alegros, a Sra. 
D. Lusa, que estava casada com o conde de Ribamar, conselheiro de Estado, com influncia, regenerador fiel desde cinqenta e um, duas vezes ministro do reino.
       E, por conselho da tia, Amaro, logo que meteu o seu requerimento, foi uma manh a casa da Sra. condessa de Ribamar, a Buenos Aires.  porta um coup esperava.
       - A senhora condessa vai sair, disse um criado de gravata branca e quinzena de alpaca, encostado  ombreira do ptio, de cigarro na boca.
       Nesse momento, duma porta de batentes de baeta verde, sobre um degrau de pedra, ao fundo do ptio lajeado, uma senhora saa, vestida de claro. Era alta, magra, 
loura, com pequeninos cabelos frisados sobre a testa, lunetas de ouro num nariz comprido e agudo, e no queixo um sinalzinho de cabelos claros.
       - A senhora condessa j me no conhece? disse Amaro com o chapu na mo, adiantando-se curvado. Sou o Amaro.
       - O Amaro? - disse ela, como estranha ao nome. Ah! bom Jesus, quem ele ! Ora no h! Est um homem. Quem diria!
       Amaro sorria-se.
       - Eu podia l esperar! continuou ela admirada. E est agora em Lisboa?
       Amaro contou a sua nomeao para Feiro, a pobreza da parquia...
       - De maneira que vim requerer, senhora condessa.
       Ela escutava-o com as mos apoiadas numa alta sombrinha de seda clara, e Amaro sentia vir dela um perfume de p-de-arroz e uma frescura de cambraias.
       - Pois deixe estar, disse ela, fique descansado. Meu marido h-de falar. Eu me encarrego disso. Olhe, venha por c. - E com o dedo sobre o canto da boca: 
- Espere, amanh vou para Sintra. Domingo, no. O melhor  daqui a quinze dias. Daqui a quinze dias pela manh, sou certa. - E rindo com os seus largos dentes frescos: 
- Parece que o estou a ver traduzir Chateaubriand com a mana Lusa! Como o tempo passa!
       - Passa bem a senhora sua mana? perguntou Amaro.
       - Sim, bem. Est numa quinta em Santarm.
       Deu-lhe a mo, calada de peau de sude, num aperto sacudido que fez tilintar os seus braceletes de ouro, e saltou para o coup, magra e ligeira, com um movimento 
que levantou brancuras de saias.
Amaro comeou ento a esperar. Era em Julho, no pleno calor. Dizia missa pela manh em S. Domingos, e durante o dia, de chinelos e casaco de ganga, arrastava a sua 
ociosidade pela casa. s vezes ia conversar com a tia para a sala de jantar; as janelas estavam cerradas, na penumbra zumbia a montona sussurrao das moscas; a 
tia a um canto do velho canap de palhinha fazia croch, com a luneta encavalada na ponta do nariz; Amaro, bocejando, folheava um antigo volume do Panorama.
        noitinha saa, a dar duas voltas no Rossio. Abafava-se, no ar pesado e imvel: a todos os cantos se apregoava monotonamente gua fresca! Pelos bancos, debaixo 
das rvores, vadios remendados dormitavam; em redor da Praa, sem cessar, caleches de aluguel vazias rodavam vagarosamente; as claridades dos cafs reluziam; e gente 
encalmada, sem destino, movia, bocejando, a sua preguia pelos passeios das ruas.
       Amaro ento recolhia, e no seu quarto, com a janela aberta ao calor da noite, estirado em cima da cama, em mangas de camisa, sem botas, fumava cigarros, ruminava 
as suas esperanas. A cada momento lhe acudiam, com rebates de alegria, as palavras da senhora condessa: fique descansado, meu marido h-de falar! E via-se j proco 
numa bonita vila, numa casa com quintal cheio de couves e de saladas frescas, tranqilo e importante, recebendo bandejas de doce das devotas ricas.
       Vivia ento num estado de espirito muito repousado. As exaltaes, que no seminrio lhe causava a continncia, tinham-se acalmado com as satisfaes que lhe 
dera em Feiro uma grossa pastora, que ele gostava de ver ao domingo tocar  missa, dependurada da corda do sino, rolando nas saias de saragoa, e a face a estourar 
de sangue. Agora, sereno, pagava pontualmente ao Cu as oraes que manda o ritual, trazia a carne contente e calada, e procurava estabelecer-se regaladamente.
       No fim de quinze dias foi a casa da senhora condessa.
       - No est, disse-lhe um criado da cavalaria.
       Ao outro dia voltou, j inquieto. Os batentes verdes estavam abertos; e Amaro subiu devagar, pisando, muito acanhado, o largo tapete vermelho, fixado com 
vares de metal. Da alta clarabia caia uma luz suave; ao cimo da escada, no patamar, sentado numa banqueta de marroquim escarlate, um criado encostado  parede 
branca envernizada, com a cabea pendente e o beio cado, dormia. Fazia um grande calor; aquele alto silncio aristocrtico aterrava Amaro; esteve um momento, com 
o seu guarda-sol pendente do dedo mnimo, hesitando; tossiu devagarinho, para acordar o criado que lhe parecia terrvel com a sua bela sua preta, o seu rico grilho 
de ouro; e ia descer, quando ouviu por detrs dum reposteiro um riso grosso de homem. Sacudiu com o leno o p esbranquiado dos sapatos, puxou os punhos, e entrou 
muito vermelho numa larga sala com estofos de damasco amarelo; uma grande luz entrava das varandas abertas, e viam- se arvoredos de jardim. No meio da sala trs 
homens de p conversavam. Amaro adiantou-se, balbuciou:
       - No sei se incomodo...
       Um homem alto, de bigode grisalho e culos de ouro, voltou-se surpreendido, com o charuto ao canto da boca e as mos nos bolsos. Era o senhor conde.
       - Sou o Amaro...
       - Ah, disse o conde, o Sr. padre Amaro! Conheo muito bem! Tem a bondade... Minha mulher falou-me. Tem a bondade.
       E dirigindo-se a um homem baixo e repleto, quase calvo, de calas brancas muito curtas:
       -  a pessoa de quem lhe falei. - Voltou-se para Amaro: -  o senhor ministro.
       Amaro curvou-se, servilmente.
       - O Sr. padre Amaro, disse o conde de Ribamar, foi criado de pequeno em casa de minha sogra. Nasceu l, creio eu...
       - Saiba o senhor conde que sim, disse Amaro, que se conservava afastado, com o guarda-sol na mo.
       - Minha sogra, que era toda devota e uma completa senhora - j no h disso! - f-lo padre. Houve at um legado, creio eu... Enfim, aqui o temos proco... 
Onde, Sr. padre Amaro?
       - Feiro, excelentssimo senhor.
       - Feiro?... disse o ministro estranhando o nome.
       - Na serra da Gralheira, informou logo o outro sujeito, ao lado.
       Era um homem magro, entalado numa sobrecasaca azul, muito branco de pele, com soberbas suas dum negro de tinta, e um admirvel cabelo lustroso de pomada, 
apartado at ao cachao numa risca perfeita.
       - Enfim, resumiu o conde, um horror! Na serra, uma freguesia pobre, sem distraes, com um clima horrvel...
       - Eu meti j requerimento, excelentssimo senhor, arriscou Amaro timidamente.
       - Bem, bem, afirmou o ministro. H-de arranjar-se, - e mascava o seu charuto.
       -  uma justia, disse o conde. Mais,  uma necessidade! Os homens novos e ativos devem estar nas parquias difceis, nas cidades...  claro! Mas no; olhe, 
l ao p da minha quinta, em Alcobaa, h um velho, um gotoso, um padre-mestre antigo, um imbecil!... Assim perde-se a f.
       -  verdade, disse o ministro, mas essas colocaes nas boas parquias devem naturalmente ser recompensas dos bons servios.  necessrio o estmulo...
       - Perfeitamente, replicou o conde; mas servios religiosos, profissionais, servios  Igreja, no servios aos governos.
       O homem das soberbas suas negras teve um gesto de objeo.
       - No acha? perguntou-lhe o conde.
       - Respeito muito a opinio de vossa excelncia, mas se me permite... Sim, digo eu, os procos na cidade so-nos dum grande servio nas crises eleitorais. 
Dum grande servio!
       - Pois sim. Mas...
       - Olhe vossa excelncia, continuou ele, sfrego da palavra. Olhe vossa excelncia em Tomar. Por que perdemos? Pela atitude dos procos. Nada mais.
       O conde acudiu:
       - Mas perdo, no deve ser assim; a religio, o clero no so agentes eleitorais.
       - Perdo.., queria interromper o outro.
       O conde suspendeu-o, com um gesto firme; e gravemente, em palavras pausadas, cheias da autoridade dum vasto entendimento:
       - A religio, disse ele, pode, deve mesmo auxiliar os governos no seu estabelecimento, operando, por assim dizer, como freio...
       - Isso, isso! murmurou arrastadamente o ministro, cuspindo pelculas mascadas de charuto.
       - Mas descer s intrigas, continuou o conde devagar, aos imbrglios... Perdoe-me meu caro amigo, mas no  dum cristo.
       - Pois sou-o, senhor conde, exclamou o homem das suas soberbas. Sou-o a valer! Mas tambm sou liberal. E entendo que no governo representativo... Sim, digo 
eu... com as garantias mais slidas...
       - Olhe, interrompeu o conde, sabe o que isso faz? desacredita o clero, e desacredita a poltica.
       - Mas so ou no as maiorias um princpio sagrado? gritava rubro o das suas, acentuando o adjetivo.
       - So um principio respeitvel.
       - Upa! upa, excelentssimo senhor! Upa!
       O padre Amaro escutava, imvel.
       - Minha mulher h-de querer v-lo, disse-lhe ento o conde. E dirigindo-se a um reposteiro que levantou: - Entre.  o Sr. padre Amaro, Joana!
       Era uma sala forrada de papel branco acetinado, com mveis estofados de casimira clara. Nos vos das janelas, entre as cortinas de pregas largas duma fazenda 
adamascada cor de leite, apanhadas quase junto do cho por faixas de seda, arbustos delgados, sem flor, erguiam em vasos brancos a sua folhagem fina. Uma meia-luz 
fresca dava a todas aquelas alvuras um tom delicado de nuvem. Nas costas duma cadeira uma arara empoleirada, firme num s p negro, coava vagarosamente, com contraes 
aduncas, a sua cabea verde. Amaro, embaraado, curvou-se logo para um canto do sof, onde viu os cabelinhos louros e frisados da senhora condessa que lhe enchiam 
vaporosamente a testa, e os aros de ouro da sua luneta reluzindo. Um rapaz gordo, de face rechonchuda, sentado diante dela numa cadeira baixa, com os cotovelos sobre 
os joelhos abertos, ocupava- se em balanar, como um pndulo, um pince-nez de tartaruga. A condessa tinha no regao uma cadelinha, e com a sua mo seca e fina cheia 
de veias, acamava-lhe o plo branco como algodo.
       - Como est, Sr. Amaro? - A cadela rosnou. - Quieta, Jia. Sabe que j falei no seu negcio? Quieta, Jia... O ministro est ali.
       - Sim, minha senhora, disse Amaro, de p.
       - Sente-se aqui, Sr. padre Amaro.
       Amaro pousou-se  beira dum fauteuil, com o seu guarda-sol na mo, - e reparou ento numa senhora alta que estava de p, junto do piano, falando com um rapaz 
louro.
       - Que tem feito estes dias, Amaro? disse a condessa. Diga-me uma coisa: sua irm?
       - Est em Coimbra, casou.
       - Ah! casou! disse a condessa, fazendo girar os seus anis.
       Houve um silncio. Amaro, de olhos baixos, passava, com um gesto embaraado e errante, os dedos pelos beios.
       - O Sr. padre Liset est para fora? perguntou.
       - Est em Nantes. Tinha uma irm a morrer, disse a condessa. - Est o mesmo sempre: muito amvel, muito doce.  a alma mais virtuosa!...
       - Eu prefiro o padre Flix, disse o rapaz gordo, estirando as pemas.
       - No diga isso, primo! Jesus, brada aos Cus! Pois ento, o padre Liset, to respeitvel!... E depois outras maneiras de dizer as coisas, com uma bondade... 
V-se que  um corao delicado... '
       - Pois sim, mas o padre Flix...
       - Ai, nem diga isso! Que o padre Flix  uma pessoa de muita virtude, decerto; mas o padre Liset tem uma religio mais... - e com um gesto delicado procurava 
a palavra: - mais fina, mais distinta... Enfim, vive com outra gente. - E sorrindo para Amaro: - Pois no acha?
       Amaro no conhecia o padre Flix, no se recordava do padre Liset.
       - J  velho o Sr. padre Liset, observou ao acaso.
       - Cr? disse a condessa. Mas muito bem conservado! E que vivacidade, que entusiasmo!... Ai,  outra coisa! - E voltando-se para a senhora que estava junto 
do piano: - Pois no achas, Teresa?
       - J vou, respondeu Teresa, toda absorvida.
       Amaro afirmou-se ento nela. Pareceu-lhe uma rainha, ou uma deusa, com a sua alta e forte estatura, uma linha de ombros e de seio magnfica; os cabelos pretos 
um pouco ondeados destacavam sobre a palidez do rosto aquilino semelhante ao perfil dominador de Maria Antonieta; o seu vestido preto, de mangas curtas e decote 
quadrado, quebrava, com as pregas da cauda muito longa toda adornada de rendas negras, o tom montono das alvuras da sala; o colo, os braos estavam cobertos por 
uma gaze preta, que fazia aparecer atravs da brancura da carne; e sentia-se nas suas formas a firmeza dos mrmores antigos, com o calor dum sangue rico.
       Falava baixo, sorrindo, numa lngua spera que Amaro no compreendia, cerrando e abrindo o seu leque preto - e o rapaz louro, bonito, escutava-a retorcendo 
a ponta de um bigode fino, com um quadrado de vidro entalado no olho.
       - Havia muita devoo na sua parquia, Sr. Amaro? perguntava, no entanto, a condessa.
       - Muita, muito boa gente.
       -  onde ainda se encontra alguma f,  nas aldeias, considerou ela com um tom piedoso. - Queixou-se da obrigao de viver na cidade, nos cativeiros do luxo: 
desejaria habitar sempre na sua quinta de Carcavelos, rezar na pequena capela antiga, conversar com as boas almas da aldeia! - e a sua voz tornara-se terna.
       O rapaz rechonchudo ria-se:
       - Ora, prima! dizia, ora, prima! - No, ele, se o obrigassem a ouvir missa, numa capelinha de aldeia, at lhe parecia que perdia a f!... No compreendia, 
por exemplo, a religio sem msica... Era l possvel uma festa religiosa, sem uma boa voz de contralto?
       - Sempre  mais bonito, disse Amaro.
       - Est claro que .  outra coisa! Tem cachet!  prima, lembra-se daquele tenor... como se chamava ele? O Vidalti! Lembra-se do Vidalti, na quinta-feira de 
Endoenas, nos Inglesinhos? O tantum ergo?
       - Eu preferia-o no Baile de Mscaras, disse a condessa.
       - Olhe que no sei, prima, olhe que no sei!
       No entanto o rapaz louro viera apertar a mo  senhora condessa, falando-lhe baixo, muito risonho; Amaro admirava a nobreza da sua estatura, a doura do seu 
olhar azul; reparou que lhe cara uma luva, e apanhou-lha servilmente. Quando ele saiu Teresa, depois de se ter aproximado vagarosamente da janela e olhando para 
a rua - foi sentar-se numa causeuse com um abandono que punha em relevo a magnfica escultura do seu corpo, e voltando-se preguiosamente para o rapaz rechonchudo:
       - Vamo-nos, Joo?
       A condessa disse-lhe ento:
       - Sabes que o Sr. padre Amaro foi criado comigo em Benfica?
       Amaro fez-se vermelho: sentia que Teresa pousava sobre ele os seus belos olhos dum negro mido como o cetim preto coberto de gua.
       - Est na provncia agora? perguntou ela, bocejando um pouco.
       - Sim, minha senhora, vim h dias.
       - Na aldeia? continuou ela, abrindo e cerrando vagarosamente o  seu leque.
       Amaro via pedras preciosas reluzirem nos seus dedos finos; disse, acariciando o cabo do guarda-sol:
       - Na serra, minha senhora.
       - Imagina tu, acudiu a condessa,  um horror! H sempre neve, diz que a igreja no tem telhado, so tudo pastores. Uma desgraa! Eu pedi ao ministro a ver 
se o mudvamos. Pede-lhe tu tambm...
       - O qu? disse Teresa.
       A condessa contou que Amaro requerera para uma parquia melhor. Falou de sua me, da amizade que ela tinha a Amaro...
       - Morria-se por ele. Ora um nome que ela lhe dava... No se lembra?
       - No sei, minha senhora.
       - Frei Maleitas!... Tem graa! Como o Sr. Amaro era amarelito, sempre metido na capela... 
       Mas Teresa, dirigindo-se  condessa:
       - Sabes com quem se parece este senhor?
       A condessa afirmou-se, o rapaz rechonchudo fincou a luneta.
       - No se parece com aquele pianista do ano passado? continuou Teresa. No me lembra agora o nome...
       - Bem sei, o Jalette, disse a condessa. - Bastante. No cabelo, no.
       - Est visto, o outro no tinha coroa!
       Amaro fez-se escarlate. Teresa ergueu-se arrastando a sua soberba cauda, sentou-se ao piano.
       - Sabe msica? perguntou, voltando-se para Amaro.
       - A gente aprende no seminrio, minha senhora.
       Ela correu a mo, um momento, sobre o teclado de sonoridades profundas, e tocou a frase do Rigoleto, parecida com o Minuete de Mozart, que diz Francisco I, 
despedindo-se, no sarau do primeiro ato, da senhora de Crcy, - e cujo ritmo desolado tem a abandonada tristeza de amores que findam, e de braos que se desenlaam 
em despedidas supremas.
       Amaro estava enlevado. Aquela sala rica com as suas alvuras de nuvem, o piano apaixonado, o colo de Teresa que ele via sob a negra transparncia da gaze, 
as suas tranas de deusa, os tranqilos arvoredos de jardim fidalgo davam-lhe vagamente a idia duma existncia superior, de romance, passada sobre alcatifas preciosas, 
em coups acolchoados, com rias de peras, melancolias de bom gosto e amores dum gozo raro. Enterrado na elasticidade da causeuse, sentindo a msica chorar aristocraticamente, 
lembrava-lhe a sala de jantar da tia e o seu cheiro de refogado: e era como o mendigo que prova um creme fino, e, assustado, demora o seu prazer - pensando que vai 
voltar  dureza das cdeas secas e  poeira dos caminhos.
       No entanto Teresa, mudando bruscamente de melodia, cantou a antiga ria inglesa de Haydn, que diz to finamente as melancolias da separao:

The village seems dead and asleep
When Lubin is away!... 

       - Bravo! bravo! exclamou o ministro da Justia, aparecendo  porta, batendo docemente as palmas. Muito bem, muito bem! Deliciosamente!
       - Tenho um pedido a fazer-lhe, Sr. Correia, disse Teresa erguendo- se logo.
       O ministro veio, com uma pressa galante:
       - Que , minha senhora? que ?
       O conde e o sujeito de magnficas suas tinham entrado discutindo ainda.
       - A Joana e eu temos que lhe pedir, disse Teresa ao ministro.
       - Eu j pedi! j pedi mesmo duas vezes! acudiu a condessa.
       - Mas, minhas senhoras, disse o ministro, sentando-se confortavelmente, com as pernas muito estiradas, a face satisfeita: de que se trata?  uma coisa grave? 
meu Deus! prometo, prometo solenemente...
       - Bem, disse Teresa, batendo-lhe com o leque no brao. Ento qual  a melhor parquia vaga?
       - Ah! disse o ministro, compreendendo e olhando para Amaro, que vergou os ombros, corado.
       O homem das suas, que estava de p fazendo saltar circunspectamente os berloques, adiantou-se, cheio de informaes:
       - Das vagas, minha senhora,  Leiria, capital do distrito e sede do bispado.
       - Leiria? disse Teresa. Bem sei,  onde h umas runas?
       - Um Castelo, minha senhora, edificado por D. Dinis.
       - Leiria  excelente!
       - Mas perdo, perdo! disse o ministro, Leiria, sede do bispado, uma cidade... O Sr. padre Amaro  um eclesistico novo...
       - Ora, Sr. Correia! exclamou Teresa, e o senhor no  novo?
       O ministro sorriu, curvando-se.
       - Dize alguma coisa, tu, disse a condessa a seu marido, que coava ternamente a cabea da arara.
       - Parece-me intil, o pobre Correia est vencido! A prima Teresa chamou-lhe novo!
       - Mas perdo, protestou o ministro. No me parece que seja uma lisonja excepcional; eu no sou tambm to antigo...
       - Oh, desgraado! gritou o conde, lembra-te que j conspiravas em 1820.
       - Era meu pai, caluniador, era meu pai!
       Todos riram.
       - Sr. Correia, disse Teresa, est entendido. O Sr. padre Amaro vai para Leiria!
       - Bem, bem, sucumbo, disse o ministro com gesto resignado. Mas  uma tirania!
       - Thank you, fez Teresa, estendendo-lhe a mo.
       - Mas, minha senhora, estou a estranh-la, disse o ministro, fixando-a.
       - Estou contente hoje, disse ela. Olhou um momento para o cho, distrada, dando pequeninas pancadas no vestido de seda, levantou-se, foi sentar-se ao piano 
bruscamente, e recomeou a doce ria inglesa:

The village seems dead and asleep
When Lubin is away!...

       Entretanto, o conde tinha-se aproximado de Amaro, que se erguera.
       -  negcio feito, disse-lhe ele. O Correia entende-se com o bispo. Daqui a uma semana est nomeado. Pode ir descansado.
       Amaro fez uma cortesia, e, servil, foi dizer ao ministro que estava junto do piano:
       - Senhor ministro, eu agradeo...
       -  senhora condessa,  senhora condessa, disse o ministro sorrindo.
       - Minha senhora, eu agradeo, veio ele dizer  condessa, todo curvado.
       - Ai, agradea a Teresa. Ela quer ganhar indulgncias, parece.
       - Lembre-me nas suas oraes, Sr. padre Amaro, disse ela. E continuou, com a sua voz magoada, dizendo ao piano - as tristezas da aldeia quando Lubin est 
ausente!
       Amaro da a uma semana soube o seu despacho. Mas no tomara a esquecer aquela manh em casa da Sra. condessa de Ribamar, - o ministro de calas muito curtas, 
enterrado na poltrona, prometendo o seu despacho; a luz clara e calma do jardim entrevisto; o rapaz alto e louro que dizia yes... Cantava-lhe sempre no crebro aquela 
ria triste do Rigoleto: e perseguia-o a brancura dos braos de Teresa, sob a gaze negra! Instintivamente via-os enlaarem-se devagar, devagar, em torno do pescoo 
airoso do rapaz louro: detestava-o ento, e a lngua brbara que falava, e a terra hertica de onde viera: e latejavam-lhe as fontes  idia de que um dia pode- 
ria confessar aquela mulher divina, e sentir o seu vestido de seda preta roar pela sua batina de lustrina velha, na escura intimidade do confessionrio.
Um dia, ao amanhecer, depois de grandes abraos da tia, partiu para Santa Apolnia, com um galego que lhe levava o ba. A madrugada rompia. A cidade estava silenciosa, 
os candeeiros apagavam-se. s vezes, uma carroa passava rolando, abalando a calada; as ruas pareciam-lhe interminveis; saloios comeavam a chegar montados nos 
seus burros, com as pernas balouadas, cobertas de altas botas enlameadas; numa ou noutra rua uma voz aguda j apregoava os jornais; e os moos dos teatros corriam 
com o pote da massa, pregando nas esquinas os cartazes.
       Quando chegou a Santa Apolnia a claridade do sol alaranjava o ar por detrs dos montes da Outra Banda; o rio estendia-se, imvel, riscado de correntes de 
cor de ao sem lustre; e j alguma vela de falua passava, vagarosa e branca.


IV


       Ao outro dia, na cidade, falava-se da chegada do proco novo, e todos sabiam j que tinha trazido um ba de lata, que era magro e alto, e que chamava Padre-Mestre 
ao cnego Dias.
       As amigas da S. Joaneira - as ntimas - a D. Maria da Assuno, as Gansosos, tinham ido logo pela manh a casa dela para se porem ao fato... Eram nove horas, 
Amaro sara com o cnego. A S. Joaneira, radiosa, importante, recebeu-as no alto da escada, de mangas arregaadas, nos arranjos da manh; e imediatamente, com animao, 
contou a chegada do proco, as suas boas maneiras, o que tinha dito...
       - Mas venham vocs c abaixo, sempre quero que vejam.
       Foi-lhes mostrar o quarto do padre, o ba de lata, uma prateleira que lhe arranjara para os livros.
       - Est muito bem, est muito bem, diziam as velhas andando pelo quarto, devagar, com respeito, como numa igreja.
       - Rico capote! - observou D. Joaquina Gansoso, apalpando o pano das largas bandas que pendiam ao comprido do cabide. -  obra para um par de moedas!
       - E a boa roupa branca! disse a S. Joaneira, erguendo a tampa do ba.
       O grupo das velhas curvou-se com admirao.
       - A mim o que me consola  que ele seja um rapaz novo, disse D. Maria da Assuno, piedosamente.
       - Tambm a mim, disse com autoridade a D. Joaquina Gansoso.
       Estar a gente a confessar-se e a ver o pingo do rap, como era com o Raposo, credo! at se perde a devoo! E o bruto do Jos Miguis! No, l isso Deus me 
mate com gente nova!
       A S. Joaneira ia mostrando as outras maravilhas do proco, - um crucifixo que estava ainda embrulhado num jornal velho, o lbum de retratos, onde o primeiro 
carto era uma fotografia do Papa abenoando a cristandade. Todas se extasiaram.
       -  o mais que se pode, diziam,  o mais que se pode!
       Ao sair, beijando muito a S. Joaneira, felicitaram-na porque adquirira, hospedando o proco, uma autoridade quase eclesistica.
       - Vocs apaream  noite, disse ela do alto da escada.
       - Pudera!... gritou D. Maria da Assuno, j  porta da rua, traando o seu mantelete. - Pudera!... Para o vermos  vontade!
       Ao meio-dia veio o Libaninho, o beato mais ativo de Leiria; e subindo a correr os degraus, j gritava com a sua voz fina:
       -  S. Joaneira!
       - Sobe, Libaninho, sobe, disse ela, que costurava  janela.
       - Ento o senhor proco veio, hem? perguntou o Libaninho, mostrando  porta da sala de jantar o seu rosto gordinho cor de limo, a calva luzidia; e vindo 
para ela com o passinho mido, um gingar de quadris:
       - Ento que tal, que tal? tem bom feitio? 
       A S. Joaneira recomeou a glorificao de Amaro: a sua mocidade, o seu ar piedoso, a brancura dos seus dentes...
       - Coitadinho! coitadinho! dizia o Libaninho, babando-se de ternura devota. -. Mas no se podia demorar, ia para a repartio! -. Adeus, filhinha, adeus! - 
E batia com a sua mo papuda no ombro da S. Joaneira. - Ests cada vez mais gordinha! Olha que rezei ontem a Salve-Rainha que tu me pediste, ingrata!
       A criada tinha entrado.
       - Adeus, Rua! Ests magrinha: pega-te com a Senhora Me dos Homens. - E avistando Amlia pela porta do quarto entreaberta: - Ai, que ests mesmo uma flor, 
Melinha! Quem se salvava na tua graa bem eu sei!
       E apressado, saracoteando-se, com um pigarrinho agudo, desceu a escada rapidamente, ganindo:
       - Adeusinho, adeusinho, pequenas!
       -  Libaninho, vens  noite?
       - Ai, no posso, filha, no posso. - E a sua vozinha era quase chorosa. - Olha que amanh  Santa Brbara: tem seis Padre-Nossos de direito!

***

       Amaro fora visitar o chantre com o cnego Dias, e tinha-lhe entregado uma carta de recomendao do Sr. conde de Ribamar.
       - Conheci muito o Sr, conde de Ribamar, disse o chantre. Em quarenta e seis, no Porto. Somos amigos velhos! Era eu cura de Santo Ildefonso: h que anos isso 
vai!
       E, reclinando-se na velha poltrona de damasco, falou com satisfao do seu tempo; contou anedotas da Junta, apreciou os homens de ento, imitou-lhes a voz 
(era uma especialidade de sua excelncia), os tiques, as caturrices, - sobretudo Manuel Passos, que ele descrevia passeando na Praa Nova, com o comprido casaco 
pardo e o chapu de grandes abas, dizendo:
       - nimo patriotas! o Xavier agenta-se!
       Os senhores eclesisticos da cmara riram com gozo. Houve uma grande cordialidade. Amaro saiu muito lisonjeado.
       Depois jantou em casa do cnego Dias, e foram passear ambos pela estrada de Marrazes. Uma luz doce e esbatida alargava-se por todo o campo; havia nos outeiros, 
no azul do ar, um aspecto de repouso, de meiga tranqilidade; fumos esbranquiados saam dos casais, e sentiam-se os chocalhos melanclicos dos gados que recolhem. 
Amaro parou junto da Ponte, e disse, olhando em redor a paisagem suave:
       - Pois senhores, parece-me que me hei-de dar bem aqui!
       - H-de-se dar regaladamente, afirmou o cnego, sorvendo o seu rap.
       Eram oito horas quando recolheram a casa da S. Joaneira.
       As velhas amigas estavam j na sala de jantar. Ao p do candeeiro de petrleo, Amlia costurava,
       A Sra. D. Maria da Assuno vestira-se, como nos domingos, de seda preta: o seu chin, dum louro avermelhado, estava coberto com as rendas de um enfeite negro; 
as mos descarnadas, caladas de mitenes, solenemente pousadas no regao, reluziam de anis; do broche sobre o pescoo at ao cinto, um grosso grilho de ouro caa 
com passadores lavrados. Conservava-se direita e cerimoniosa, com a cabea um pouco de lado, os culos de ouro assentes sobre o nariz acavalado: tinha no queixo 
um grande sinal cabeludo; e quando se falava de devoes ou de milagres dava um jeito ao pescoo, e abria um sorriso mudo que descobria os seus enormes dentes esverdeados, 
cravados nas gengivas como cunhas. Era viva e rica, e sofria dum catarro crnico.
       - Aqui tem o senhor proco novo, D. Maria, disse-lhe a S. Joaneira.
       Ela ergueu-se, fez uma mesura com um movimento de quadris, comovida.
       - Estas so as senhoras Gansosos, h-de ter ouvido... disse a S. Joaneira ao proco.
       Amaro cumprimentou timidamente. Eram duas irms. Passavam por ter algum dinheiro, mas costumavam receber hspedes. A mais velha, a Sra. D. Joaquina Gansoso, 
era uma pessoa seca, com uma testa enorme e larga, dois olhinhos vivos, o nariz arrebitado, a boca muito espremida. Embrulhada no seu xale, direita, com os braos 
cruzados, falava perpetuamente, numa voz dominante e aguda, cheia de opinies. Dizia mal dos homens e dava-se toda  Igreja.
       A irm, a Sra. D. Ana, era extremamente surda. Nunca falava, e com os dedos cruzados sobre o regao, os olhos baixos, fazia girar tranqilamente os dois polegares. 
Nutrida, com o seu perptuo vestido preto de riscas amarelas, um rolo de arminho ao pescoo, dormitava toda a noite, e s acentuava a sua presena de vez em quando 
por suspiros agudos; dizia- se que tinha uma paixo funesta pelo recebedor do correio. Todos a lastimavam, e admirava-se a sua habilidade em recortar papis para 
caixas de doce.
       Estava tambm a Sra. D. Josefa, a irm do cnego Dias. Tinha a alcunha de castanha pilada. Era uma criaturinha mirrada, de linhas aduncas, pele engelhada 
e cor de cidra, voz sibilante; vivia num perptuo estado de irritao, os olhinhos sempre assanhados, contraes nervosas de birra, toda saturada de fel. Era temida. 
O maligno doutor Godinho chamava-lhe a estao central das intrigas de Leiria.
       - Ento passeou muito, senhor proco? perguntou ela logo empertigando-se.
       - Fomos quase at l ao fim da estrada de Marrazes, disse o cnego, sentando-se pesadamente por detrs da S. Joaneira.
       - No achou bonito, senhor proco? acudiu a Sra. D. Joaquina Gansoso.
       - Muito bonito.
       Falaram das lindas paisagens de Leiria, das boas vistas: a Sra. D. Josefa gostava muito do passeio ao p do rio; at j ouvira dizer que nem em Lisboa havia 
coisa assim. D. Joaquina Gansoso preferia a igreja da Encarnao, no alto.
       - Desfruta-se muito, dali.
       Amlia disse sorrindo:
       - Eu por mim gosto daquele bocado ao p da Ponte, debaixo dos chores. - E partindo com os dentes o fio da costura: -  to triste!
       Amaro olhou para ela, ento, pela primeira vez. Tinha um vestido azul muito justo ao seio bonito; o pescoo branco e cheio saa dum colarinho voltado; entre 
os beios vermelhos e frescos o esmalte dos dentes brilhava; e pareceu ao proco que um buozinho lhe punha aos cantos da boca uma sombra sutil e doce.
       Houve um pequeno silncio, - o cnego Dias com o beio descado ia j cerrando as plpebras.
       - Que ser feito do Sr. padre Brito? perguntou D. Joaquina Gansoso.
       - Est talvez com a enxaqueca, pobre de Cristo! lembrou piedosamente a Sra. D. Maria da Assuno.
       Um rapaz que estava junto do aparador disse ento:
       - Eu vi-o hoje a cavalo, ia para os lados da Barrosa.
       - Homem! disse logo, com azedume, a irm do cnego, a Sra. D. Josefa Dias,  milagre ter o senhor reparado!
       - Por qu, minha senhora? disse ele erguendo-se e chegando-se ao grupo das velhas.
       Era alto, todo vestido de preto: sobre o rosto de pele branca, regular, um pouco fatigado, destacava bem um bigode pequeno muito negro, cado aos cantos, 
que ele costumava mordicar com os dentes.
       - Ainda ele o pergunta! exclamou a Sra. D. Josefa Dias. O senhor, que nem lhe tira o chapu!
       - Eu?
       - Disse-mo ele, afirmou ela com uma voz cortante. E acrescentou:
       Ai, senhor proco, bem pode chamar o Sr. Joo Eduardo para o bom caminho. - E teve um risinho maligno.
       - Mas eu parece-me que no ando no mau caminho, disse ele rindo, com as mos nos bolsos. E a cada momento os seus olhos se voltavam para Amlia.
       -  uma graa! exclamou a Sra. D. Joaquina Gansoso. Olhe, com o que o senhor disse hoje l em casa, de tarde, da Santa da Arregassa, no h-de ganhar o Cu!
       - Ora essa! gritou a irm do cnego, voltando-se bruscamente para Joo Eduardo. Ento o que tem o senhor a dizer da Santa? Acha talvez que  uma impostora?
       - Credo, Jesus! disse a Sra. D. Maria da Assuno, apertando as mos e fitando Joo Eduardo, com um terror piedoso. Pois ele havia de dizer isso? Cruzes!
       - No, o Sr. Joo Eduardo, afirmou gravemente o cnego, que espertara, desdobrando o seu leno vermelho - no era capaz de dizer uma dessas.
       Amaro perguntou ento:
       - Quem  a Santa da Arregassa?
       - Credo! Pois no tem ouvido falar, senhor proco? exclamou numa admirao a Sra. D. Maria da Assuno.
       - H-de ter ouvido, afirmava a Sra. D. Josefa Dias com autoridade. Diz que os jornais de Lisboa vm cheios disso!
       - , com efeito, uma coisa bem extraordinria, ponderou com um tom profundo o cnego.
       A S. Joaneira interrompeu a meia, e tirando a luneta:
       - Ai, no imagina, senhor proco,  o milagre dos milagres!
       - Se ! se !, disseram.
       Houve um recolhimento devoto.
       - Mas ento?... perguntou Amaro, todo curioso.
       - Olhe, senhor proco, comeou a Sra. D. Joaquina Gansoso endireitando-se no xale, falando com solenidade: a Santa  uma mulher que aqui h numa freguesia 
perto, que est h vinte anos na cama...
       - Vinte e cinco, advertiu-lhe baixo D. Maria da Assuno, tocando- lhe com o leque no brao.
       - Vinte e cinco? Pois olha, ao senhor chantre ouvi eu dizer vinte.
       - Vinte e cinco, vinte e cinco, afirmou a S. Joaneira. E o cnego apoiou-a, oscilando gravemente a cabea.
       - Est entrevadinha de todo, senhor proco! rompeu a irm do cnego, vida de falar. Parece uma alminha de Deus! Os bracinhos so isto! - E mostrava o dedo 
mnimo. - Para a gente a ouvir  necessrio pr-lhe a orelha ao p da boca!
       - Pois se ela se sustenta da graa de Deus! disse lamentosamente a Sra. D. Maria da Assuno. Coitadinha! que at a gente lembra-se...
       Houve entre as velhas um silncio comovido. Joo Eduardo, que por trs das velhas, de p, com as mos nos bolsos, sorria mordicando o bigode, disse ento:
       - Olhe, senhor proco, a coisa  o que os mdicos dizem:  que aquilo  uma doena nervosa.
       Aquela irreverncia fez, entre as velhas devotas, um escndalo; a Sra. D. Maria da Assuno persignou-se logo  "cautela".
       - Pelo amor de Deus! gritou a Sra. D. Josefa Dias, o senhor diga isso, diante de quem quiser, menos de mim!  uma afronta!
       -  que at pode cair um raio, dizia para os lados, baixo, a Sra. D. Maria da Assuno, muito aterrada.
       - Olhe, tambm lho digo, exclamou a Sra. D. Josefa Dias, o senhor  um homem sem religio e sem respeito pelas coisas santas. - E voltando- se para o lado 
de Amlia, muito azeda: - Olhe, filha minha  que eu lhe no dava!
       Amlia corou; e Joo Eduardo, fazendo-se vermelho tambm, curvou-se sarcasticamente:
       - Eu digo o que dizem os mdicos. E de resto, acredite que no tenho pretenses a casar com pessoa da sua famlia! Nem mesmo consigo, Sra. D. Josefa!
       O cnego deu uma risada muito pesada.
       - Arreda! Cruzes! gritou ela, furiosa.
       - Mas que faz ento a Santa? perguntou o padre Amaro, para pacificar.
       - Tudo, senhor proco, disse a Sra. D. Joaquina Gansoso: est sempre de cama, sabe rezas para tudo; pessoa por quem ela pea tem a graa do Senhor;  a gente 
apegar-se com ela e cura-se de toda a molstia. E depois, quando comunga, comea a erguer-se, e fica com o corpo todo no ar, com os olhos erguidos para o Cu, que 
at chega a fazer terror.
       Mas neste momento uma voz disse  porta da sala:
       - Ora viva a sociedade! Isto hoje est de truz!
       Era um rapaz extremamente alto, amarelo, com as faces cavadas, uma grenha riada, um bigode a D. Quixote; quando ria tinha uma sombra na boca, porque lhe 
faltavam quase todos os dentes de diante; e nos seus olhos encovados, de grandes olheiras, errava um sentimentalismo piegas. Trazia uma guitarra na mo.
       - Ento como vai isso hoje? perguntaram-lhe logo.
       - Mal, respondeu ele com voz triste, sentando-se. Sempre as dores no peito, a tossezita.
       - Ento no se dava bem com o leo de fgados de bacalhau?
       - Qual! fez ele desconsoladamente.
       - Uma viagem  Madeira, isso  que era, isso  que era! disse a Sra. D. Joaquina Gansoso com autoridade.
       Ele riu, com uma jovialidade sbita:
       - Uma viagem  Madeira! No est m! A D. Joaquina Gansoso tem-nas boas! Um pobre amanuense de administrao com dezoito vintns por dia, mulher e quatro 
filhos! Para a Madeira!
       - E como vai ela, a Joanita?
       - Coitadita, l vai! Tem sade, graas a Deus! Gorda, sempre com bom apetite. Os pequenos, os dois mais velhos  que esto doentes; demais a mais agora a 
criada tambm caiu de cama!  o diacho! Pacincia! Pacincia! - E encolhia os ombros.
       Mas voltando-se para a S. Joaneira, dando-lhe uma palmada no joelho:
       - E como vai a nossa Madre Abadessa?
       Todos riram: e a Sra. D. Joaquina Gansoso informou o proco que aquele rapaz, o Artur Couceiro, era muito engraado e tinha uma bela voz. Era a melhor da 
cidade para modinhas. 
       A Rua tinha ento entrado com o ch; a S. Joaneira, enchendo as chvenas de alto, dizia:
       - Cheguem-se, cheguem-se, filhas, que este  do bom!  da loja do Sousa...
       E Artur oferecia acar com o seu antigo gracejo:
       - Se est azedinho  carregar-lhe no sal!
       As velhas sorviam a pequenos goles pelos pires, escolhiam cuidadosamente as torradas; sentia-se o mastigar ruminado dos queixos; e por causa dos pingos da 
manteiga e das ndoas do ch, estendiam prudentemente os lenos sobre o regao.
       - Vai um docinho, senhor proco? disse Amlia, apresentando-lhe o prato. So da Encarnao, muito fresquinhos.
       - Obrigado.
       - Aquele ali.  toucinho do Cu.
       - Ah! se  do Cu.., disse ele todo risonho. E olhou para ela, tomando o bolo com a ponta dos dedos.
       O Sr. Artur costumava cantar depois do ch. Sobre o piano uma vela alumiava o caderno de msica; e Amlia, logo que a Rua levou a bandeja, acomodou-se, correu 
os dedos sobre o teclado amarelo.
       - Ento hoje que h-de ser? perguntou Artur.
       Os pedidos cruzaram-se:
       - O guerrilheiro! O noivado do sepulcro.' O descrido.' o nunca mais!
       O cnego Dias disse do seu canto pesadamente:
       -  Couceiro, v l aquela do Tio Cosme, meu brejeiro!
       As mulheres reprovaram:
       - Credo! por quem , senhor cnego! Que lembrana! E a Sra. D. Joaquina Gansoso resumiu:
       - Nada: uma coisa de sentimento para o senhor proco fazer idia.
       - Isso, isso! disseram; uma coisa de sentimento,  Artur, uma coisa de sentimento!
       Artur pigarreou, cuspilhou; e dando subitamente  face uma expresso dolorosa, ergueu a voz, cantou lugubremente:

Adeus, meu anjo! Eu vou partir sem ti!

       Era uma cano dos tempos romnticos de 51, o Adeus! Dizia uma suprema despedida, num bosque, por uma tarde plida de Outono; depois, o homem solitrio e 
precito, que inspirara um amor funesto, ia errar desgrenhado  beira do mar; havia uma sepultura esquecida num vale distante, brancas virgens vinham chorar  claridade 
do luar!
       - Muito bonito, muito bonito! murmuravam.
       Artur cantava enternecido, o olhar vago; mas nos intervalos, durante o acompanhamento, sorria em redor - e na sua boca cheia de sombra viam-se os restos de 
dentes podres. O padre Amaro, ao p da janela, fumando, contemplava Amlia, enlevado naquela melodia sentimental e mrbida: o seu perfil fino, de encontro  luz, 
tinha uma linha luminosa; destacava harmoniosamente a curva do seu peito; e ele seguia as suas plpebras de grandes pestanas, que do teclado para a msica se erguiam 
e se abaixavam com um movimento doce. Joo Eduardo, junto dela, voltava- lhe as folhas da msica.
Mas Artur, com a mo sobre o peito, a outra erguida no ar, num gesto desolado e veemente, soltou a ltima estrofe:

E um dia, enfim, deste viver fatal,
Repousarei na escurido da campa!

       - Bravo! bravo! exclamaram.
       E o cnego Dias comentou baixo ao proco:
       - Ah! para coisas de sentimento no h outro. - E bocejando enormemente: Pois, menino, tenho tido toda a noite as lulas a conversar c por dentro.
       Mas chegara a hora do loto. Cada um escolhia os seus cartes habituais; e a Sra. D. Josefa Dias, com o seu olho de avara a luzir, chocalhava j vivamente 
o grosso saco dos nmeros.
       - Aqui tem um lugar, senhor proco, disse Amlia.
       Era junto dela. Ele hesitou; mas tinham aberto espao, e veio sentar- se um pouco corado, ajeitando timidamente a volta.
       Fez-se logo um grande silncio; e, com a voz dormente, o cnego comeou a tirar os nmeros. A Sra. D. Ana Gansoso dormitava ao seu canto, ressonando ligeiramente.
       Com o abajur as cabeas estavam na penumbra; e a luz crua, caindo sobre o xale escuro que cobria a mesa, fazia destacar os cartes enegrecidos do uso, e as 
mos secas das velhas, pousadas em atitudes aduncas, remexendo as marcas de vidro. Sobre o piano aberto a vela derretia-se com uma chama alta e direita.
       O cnego rosnava os nmeros com as pilhrias venerveis da tradio: 1, cabea de porco! - 3, figura de entrems!
       - Precisa-se o vinte e um, dizia uma voz.
       - Temei - murmurava outra com gozo.
       E a irm do cnego, sfrega:
       - Chocalhe esses nmeros, mano Plcido! V!
       - E traga-me esse quarenta e sete ainda que seja de rastos, dizia o Artur Couceiro, com a cabea entre os punhos.
       Enfim o cnego quinou. E Amlia olhando em redor pela sala:
       - Ento no joga, Sr. Joo Eduardo? disse ela. Onde est?
       Joo Eduardo saiu da sombra da janela, por trs da cortina.
       - Tome l este carto, ande, jogue.
       - E receba as entradas, j que est de p, disse a S. Joaneira. Seja o senhor recebedor!
       Joo Eduardo foi em roda com o pires de porcelana. No fim faltavam dez ris.
       - Eu j dei, eu j dei! exclamavam todos, excitados.
       Fora a irm do cnego que no tocara no seu cobre acastelado. Joo Eduardo disse, curvando-se:
       - Parece-me que a Sra. D. Josefa no entrou.
       - Eu?! gritou ela, furiosa. Olha uma destas! At fui a primeira! Credo! Duas moedas de cinco ris, por sinal! Que tal est o homem!
       - Ah! bem, disse ele ento, fui eu que me esqueci! C ponho. - E rosnou: beata e ladra!
       E a irm do cnego dizia no entanto baixo  Sra. D. Maria da Assuno:
       - Queria ver se escapava, o melro! Falta de temor a Deus!
       - S quem no est feliz  o senhor proco, observaram.
       Amaro sorriu. Estava distrado, e fatigado; s vezes mesmo esquecia- se de marcar, e Amlia dizia-lhe, tocando-lhe no cotovelo:
       - Olhe que no marcou, senhor proco.
       Tinham j apostado dois ternos; ela ganhara; depois faltou a ambos para quinarem o nmero trinta e seis.
       Em roda repararam.
       - Ora vamos a ver se quinam ambos, disse a Sra. D. Maria da Assuno, envolvendo-os no mesmo olhar baboso.
       Mas o trinta e seis no saa; havia outras quadras nos cartes alheios; Amlia receava que quinasse a Sra. D. Joaquina Gansoso, que se mexia muito na cadeira, 
pedindo o quarenta e oito. Amaro ria, involuntariamente interessado.
       O cnego tirava os nmeros com uma pachorra maliciosa.
       - V! v! Ande com isso, senhor cnego! diziam-lhe.
       Amlia, debruada, os olhos vivos, murmurou:
       - Dava tudo para que sasse o trinta e seis!
       - Sim? A o tem... Trinta e seis! disse o cnego.
       - Quinamos! gritou ela, triunfante; e, tomando o carto do proco e o seu mostrava-os, para conferirem, orgulhosa, muito corada.
       - Ora Deus os abenoe, disse o cnego, jovial, entornando-lhes diante o pires cheio de moedas de dez ris.
       - Parece milagre! considerou a Sra. D. Maria da Assuno, piedosamente.
       Mas tinham dado onze horas; e depois da tumba final as velhas comearam a agasalhar-se. Amlia sentou-se ao piano, tocando ao de leve uma polca. Joo Eduardo 
aproximou-se dela, e baixando a voz:
       - Muitos parabns por ter quinado com o senhor proco. Que entusiasmo! - E como ela ia responder: - Boa noite! disse ele secamente, embrulhando-se no seu 
xale-manta com despeito.
       A Rua alumiava. As velhas, pela escada, empacotadas nos abafos, iam ganindo adeusinhos. O Sr. Artur harpejava a guitarra, cantarolando o Descrido. 
       Amaro foi para o seu quarto, comeou a rezar no Brevirio; mas distraia-se, lembravam-lhe as figuras das velhas, os dentes podres de Artur, sobretudo o perfil 
de Amlia. Sentado  beira da cama, com o Brevirio aberto, fitando a luz, via o seu penteado, as suas mos pequenas com os dedos um pouco trigueiros picados da 
agulha, o seu buozinho gracioso...
       Sentia a cabea pesada do jantar do cnego e da monotonia do quino, com uma grande sede alm disso das lulas e do vinhito do Porto. Quis beber, mas no tinha 
gua no quarto. Lembrou-se ento que na sala de jantar havia uma bilha de Extremoz com gua fresca, muito boa, da nascente do Morenal. Calou as chinelas, tomou 
o castial, subiu devagarinho. Havia luz na sala, estava o reposteiro corrido; ergueu-o e recuou com um ah! Vira num relance Amlia, em saia branca a desfazer o 
atacador do colete; estava junto do candeeiro e as mangas curtas, o decote da camisa deixavam ver os seus braos brancos, o seio delicioso. Ela deu um pequeno grito, 
correu para o quarto.
       Amaro ficou imvel, com um suor  raiz dos cabelos. Poderiam suspeitar uma ofensa! Palavras indignadas iam sair decerto atravs do reposteiro do quarto, que 
ainda se balouava agitado!
       Mas a voz de Amlia, serena, perguntou de dentro:
       - Que queria, senhor proco?
       - Vinha buscar gua, balbuciou ele.
       - Aquela Rua! aquela desleixada! Desculpe, senhor proco, desculpe. Olhe a ao p da mesa, a bilha. Achou?
       - Achei! achei!
       Desceu devagar com o copo cheio: a mo tremia-lhe, a gua escorria- lhe pelos dedos.
       Deitou-se sem rezar. Alta noite Amlia sentiu por baixo passos nervosos pisarem o soalho: era Amaro que, com o capote aos ombros e em chinelas, fumava, excitado, 
pelo quarto.


V


       Ela, em cima, no dormia tambm. Sobre a cmoda, dentro de uma bacia, a lamparina extinguia-se, com um mau cheiro de morro de azeite; brancuras de saias 
cadas no cho destacavam; e os olhos do gato, que no sossegava, reluziam pela escurido do quarto com uma claridade fosfrica e verde.
       Na casa vizinha, uma criana chorava sem cessar. Amlia sentia a me embalar-lhe o bero, cantar-lhe baixo:

Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua me foi  fonte!

       Era a pobre Catarina engomadeira, que o tenente Sousa deixara com um filho no bero, e grvida de outro - para ir casar a Extremoz! To bonita era, to loura 
- e mirrada agora, to chupada!

Dorme, dorme, meu menino,
Que a tua me foi  fonte!

       Como ela conhecia aquela cantiga! Quando tinha sete anos sua me dizia-a, nas longas noites de Inverno, ao irmozinho que morrera!
       Lembrava-se bem! moravam ento noutra casa, ao p da estrada de Lisboa;  janela do seu quarto havia um limoeiro e a me punha, na sua ramagem luzidia, os 
cueiros do Joozinho, a secarem ao sol. No conhecera o pap. Fora militar, morrera novo; e a me ainda suspirava ao falar da sua bela figura com o uniforme de cavalaria. 
Aos oito anos ela foi para a mestra. Como se lembrava! A mestra era uma velhita rolia e branca, que fora tacho das freiras de Santa Joana de Aveiro; com os seus 
culos redondos, junto  janela, empurrando a agulha, morria-se por contar histrias do convento: as perrices da escriv, sempre a escabichar os dentes furados; 
a madre rodeira, preguiosa e pacata, com uma pronncia minhota; a mestra de cantocho, admiradora de Bocage e que se dizia descendente dos Tvoras; e a legenda 
de uma freira que morrera de amor, e cuja alma ainda em certas noites percorria os corredores, soltando gemidos dolorosos e clamando: - Augusto! Augusto!
       Amlia ouvia aquelas histrias, encantada. Gostava ento tanto de  festas de igreja e da convivncia dos santos, que desejava ser uma "freirinha, muito bonita, 
com um veuzinho muito branco". A mam era muito visitada por padres. O chantre Carvalhosa, um homem velho e robusto, que soprava de asma ao subir a escada e tinha 
uma voz fanhosa, vinha todos os dias, como amigo da casa. Amlia chamava-lhe padrinho. Quando ela voltava da mestra,  tarde, encontrava-o sempre a palestrar com 
a me, na sala, de batina desabotoada, deixando ver o longo colete de veludo preto com raminhos bordados a amarelo. O senhor chantre perguntava-lhe pelas lies 
e fazia-a dizer a tabuada.
        noite havia reunies: vinha o padre Valente; o cnego Cruz; e um velhito calvo, de perfil de pssaro, com culos azuis, que fora frade franciscano e a quem 
chamavam frei Andr. Vinham as amigas da me, com as suas meias; e um capito Couceiro, de caadores, que tinha os dedos negros do cigarro e trazia sempre a sua 
viola. Mas s nove horas mandavam-na deitar; pela frincha do quarto ela via a luz, ouvia as vozes; depois fazia-se um silncio, e o capito, repenicando a guitarra, 
cantava o lundum da Figueira.
       Foi assim crescendo entre padres. Mas alguns eram-lhe antipticos: sobretudo o padre Valente, to gordo, to suado, com umas mos papudas e moles, de unhas 
pequenas! Gostava de a ter entre os joelhos, torcer-lhe devagarinho a orelha, e ela sentia o seu hlito impregnado de cebola e de cigarro. O seu amiguinho era o 
cnego Cruz, magro, com o cabelo todo branco, a volta sempre asseada, as fivelas luzidias; entrava devagarinho, cumprimentando com a mo sobre o peito, e uma voz 
suave cheia de ss. J ento sabia o catecismo e a doutrina: na mestra, em casa, por qualquer "bagatela", falavam-lhe sempre dos castigos do Cu; de tal sorte que 
Deus aparecia-lhe como um ser que s sabe dar o sofrimento e a morte, e que  necessrio abrandar, rezando e jejuando, ouvindo novenas, animando os padres. Por isso, 
se s vezes ao deitar lhe esquecia uma Salve-Rainha, fazia penitncia no outro dia, porque temia que Deus lhe mandasse sezes ou a fizesse cair na escada.
       Mas o seu melhor tempo foi quando comeou a tomar lies de msica. A me tinha na sala de jantar, ao canto, um velho piano, coberto com um pano verde, to 
desafinado, que servia de aparador. Amlia costumava cantarolar pela casa; e a sua voz fina e fresca agradava ao senhor chantre, e as amigas da me diziam-lhe:
       - Tu tens a um piano, por que no mandas ensinar a rapariga? Sempre  uma prenda! olha que lhe pode servir de muito!
       O chantre conhecia um bom mestre, antigo organista da S de vora, extremamente infeliz: a filha nica, muito linda, fugira-lhe com um alferes para Lisboa; 
e, passados dois anos, o Silvestre da Praa, que ia muito  capital, vira-a descer a Rua do Norte, de garibaldi escarlate e alvaiade num olho, com um marinheiro 
ingls. O velho cara em grande melancolia e grande misria; e por piedade tinham-lhe dado um emprego no cartrio da cmara eclesistica. Era uma figura triste de 
romance picaresco. Muito magro, alto como um pinheiro, deixava crescer at os ombros os seus cabelos brancos e finos; os olhos, cansados, lagrimejavam-lhe sempre; 
mas o seu sorriso resignado e bom enternecia: e parecia muito transido, no seu capote cor de vinho que s lhe chegava  cintura e que tinha uma gola de astrac. 
Chamavam-lhe o Tio Cegonha, pela sua alta magreza e o seu ar solitrio. Amlia um dia tinha-lhe chamado Tio Cegonha; mas mordeu logo o beio, toda envergonhada.
       O velho ps-se a sorrir:
       - Ai, chame, minha rica menina, chame! Tio Cegonha?... ora, que tem? Cegonha sou eu, e bem cegonha!
       Era ento no Inverno. As grandes chuvas com os sudoestes no cessavam; a spera estao oprimia os pobres. Viam-se naquele ano famlias esfomeadas indo  
cmara pedir po. O Tio Cegonha vinha sempre ao meio-dia dar a lio; o seu guarda-chuva azul deixava um ribeiro na escada; tiritava; e quando se sentava escondia, 
na sua vergonha de velho, as botas encharcadas com a sola aberta. Queixava-se sobretudo do frio das mos, que o impedia de ferir com justeza o teclado, e no o deixava 
escrever no cartrio. '
       - Prendem-se-me os dedos, dizia tristemente.
       Mas quando a S. Joaneira lhe pagou o primeiro ms das lies, o velho apareceu muito contente, com urnas grossas luvas de l.
       - Ah, Tio Cegonha, como vem quentinho! disse-lhe Amlia.
       - Foi o seu dinheiro, minha rica menina. Agora ando a juntar para umas meias de l. Deus a abenoe, minha menina, Deus a abenoe! 
       E tinham-se-lhe arrasado os olhos de lgrimas. Amlia tomara-se a "sua rica amiguinha". J lhe fazia confidncias: contava-lhe as suas necessidades, as saudades 
da filha, as suas glrias na S de vora, quando diante do senhor arcebispo, vistoso na sua sobrepeliz escarlate, acompanhava o Lausperene.
Amlia no se esqueceu das meias de l do Tio Cegonha. Pediu ao chantre que lhe desse umas meias de l.
       - Ora essa! para qu? para ti? disse ele com o seu riso grosso.
       - Para mim, sim, senhor.
       - Deixe falar, senhor chantre! disse a S. Joaneira. Olha a idia!
       - No deixe falar, no! d, sim?!
       Lanou-lhe os braos ao pescoo; fez-lhe olhinhos doces.
       - Ah, sereia! dizia o chantre rindo: que esperanas! h-de ser o diabo!... Pois sim, a tens. - E deu-lhe dois pintos para umas meias de l.
       No dia seguinte tinha-os ela embrulhados num papel, que dizia por fora em letras garrafais: Ao meu rico amigo Tio Cegonha, a sua discpula.
       Uma manh, depois, viu-o mais amarelo, mais chupado:
       -  Tio Cegonha, disse de repente, quanto lhe do l no cartrio?
       O velho sorriu-se:
       - Ora, minha rica menina, quanto me ho-de dar? uma bagatela.
       Quatro vintns por dia. Mas o Sr. Neto faz-me algum bem...
       - E chegam-lhe quatro vintns?
       - Ora! como ho-de chegar?
       Sentiram-se os passos da me; e Amlia, retomando gravemente a atitude de lio, comeou a solfejar alto, com um ar profundo.
       E desde esse dia tanto pediu, tanto exclamou, que levou a me a dar de almoar e de jantar ao Tio Cegonha nos dias de lio. Assim se estabeleceu entre ela 
e o velho uma grande intimidade. E o pobre Tio Cegonha, saindo do seu frio isolamento, acolhia-se quela amizade inesperada, como a um conchego tpido. Encontrava 
nela o elemento feminino que amam os velhos, com as carcias, as suavidades de voz, as delicadezas de enfermeira; achava nela a nica admiradora da sua msica; e 
via-a sempre atenta s histrias do seu tempo, s recordaes da velha S de vora que ele amava tanto, e que lhe fazia dizer, quando se falava de procisses, ou 
de festas de igreja:
       - Para isso vora! em vora  que !
       Amlia aplicava-se muito ao piano: era a coisa boa e delicada da sua vida; j tocava contradanas e antigas rias de velhos compositores; a Sra. D. Maria 
da Assuno estranhava que o mestre lhe no ensinasse o Trovador.
       - Coisa mais linda! dizia.
       Mas o Tio Cegonha s conhecia a msica clssica, rias ingnuas e doces de Lully, motivos de minuetes, motetes floridos e piedosos dos doces tempos freirticos.
       Uma manh o Tio Cegonha encontrou Amlia muito amarela e triste. Desde a vspera queixava-se de "mal-estar". Era um dia nublado, muito frio. O velho queria 
ir-se embora.
       - No, no, Tio Cegonha, disse ela, toque alguma coisa para eu  me entreter.
       Ele tirou o seu capote, sentou-se, tocou uma melodia simples, mas extremamente melanclica.
       - Que lindo! que lindo! dizia Amlia, de p junto ao piano.
       E quando o velho deu as ltimas notas:
       - O que ? perguntou ela.
       O Tio Cegonha contou-lhe que era o comeo de uma Meditao feita por um frade seu amigo.
       - Coitado, disse, teve bem o seu tormento!
       Amlia quis logo saber a histria; e sentando-se no mocho do piano, embrulhando-se no seu xale:
       - Diga, Tio Cegonha, diga!
       Era um homem que tivera em novo uma grande paixo por uma freira; ela morrera no convento daquele amor infeliz; e ele, de dor e de saudade, fizera-se frade 
franciscano...
       - Parece que o estou a ver...
       - Era bonito?
       - Se era! Um rapaz na flor da vida, rico... Um dia veio ter comigo ao rgo: "Olha o que eu fiz", disse-me ele. Era um papel de msica. Abria em r menor. 
Ps-se a tocar, a tocar... Ai, minha rica menina, que msica! Mas no me lembra o resto!
       E o velho, comovido, repetiu no piano as notas plangentes da Meditao em r menor.
       Amlia todo o dia pensou naquela histria. De noite veio-lhe uma grande febre, com sonhos espessos, em que dominava a figura do frade franciscano, na sombra 
do rgo da S de vora. Via os seus olhos profundos reluzirem numa face encovada: e, longe, a freira plida, nos seus hbitos brancos, encostada s grades negras 
do mosteiro, sacudida pelos prantos do amor! Depois, no longo claustro, a ala dos frades franciscanos caminhava para o coro: ele ia no fim de todos, curvado, com 
o capuz sobre o rosto, arrastando as sandlias, enquanto um grande sino, no ar nublado, tocava o dobre dos finados. Ento o sonho mudava: era um vasto cu negro, 
onde duas almas enlaadas e amantes, com hbitos de convento e um rudo inefvel de beijos insaciveis, giravam, levadas por um vento mstico; mas desvaneciam-se 
como nvoas, e na vasta escurido ela via aparecer um grande corao em carne viva, todo traspassado de espadas, e as gotas de sangue que caam dele enchiam o cu 
duma chuva escarlate.
Ao outro dia a febre acalmou. O doutor Gouveia tranqilizou a S. Joaneira com uma simples palavra:
       - Nada de sustos, minha rica senhora, so os quinze anos da rapariga. Ho-de-lhe vir amanh as vertigens e os enjos... Depois acabou-se. Temo-la mulher. 
       A S. Joaneira compreendeu.
       - Esta rapariga tem o sangue vivo e h-de ter as paixes fortes! acrescentou o velho prtico, sorrindo e sorvendo a sua pitada.
       Por esse tempo o senhor chantre, uma manh, depois do seu almoo de aorda, caiu de repente morto com uma apoplexia. Que consternao inesperada, para a S. 
Joaneira! Durante dois dias, esguedelhada, em saias brancas chorou, gemeu pelos quartos. D. Maria da Assuno, as senhoras Gansosos vieram acalmar, amansar a sua 
dor: e a Sra. D. Josefa Dias resumiu as consolaes de todos, dizendo:
       - Deixa, filha, que te no h-de faltar quem te ampare!
       Era ento no comeo de Setembro; a Sra. D. Maria da Assuno, que tinha uma casa na praia da Vieira, props levar a S. Joaneira e Amlia para a estao dos 
banhos, para ela espalhar, nos bons ares saudveis, em lugar diferente, aquela dor.
       -  uma esmola que me fazes, dissera a S. Joaneira. Sempre me lembra que era ali que ele punha o guarda-chuva... Ali que ele se sentava a ver-me costurar!
       - Est bom, est bom, deixa-te disso. Come e bebe, toma os teus banhos, e o que l vai l vai. Olha que ele tinha bem os seus sessenta.
       - Ah, minha rica! a gente  pela amizade que lhes ganha.
       Amlia tinha ento quinze anos, mas era j alta e de bonitas formas. Foi uma alegria para ela a estao na Vieira! Nunca vira o mar; e no se fartava de estar 
sentada na areia, fascinada pela vasta gua azul, muito mansa, cheia de sol; s vezes no horizonte passava um fumo delgado de paquete; a montona e gemente cadncia 
da vaga adormentava-a; e em redor o areal faiscava, a perder de vista, sob o cu azul-ferrete.
       Como se lembrava bem! Logo pela manh estava a p! Era a hora do banho: as barracas de lona alinhavam-se ao comprido da praia; as senhoras, sentadas em cadeirinhas 
de pau, de sombrinhas abertas, olhavam o mar, palrando; os homens, de sapatos brancos estendidos em esteiras, chupavam o cigarro, riscavam emblemas na areia; enquanto 
o poeta Carlos Alcoforado, muito fatal, muito olhado, passeava s, soturno, junto da vaga, seguido do seu Terra-Nova. Ela saa ento da barraca com o seu vestido 
de flanela azul, a toalha no brao, tiritando de susto e de frio: tinha- se persignado s escondidas e toda trmula, agarrada  mo do banheiro, escorregando na 
areia, entrava na gua, rompendo a custo a maresia esverdeada que fervia em redor. A onda vinha espumando, ela mergulhava, e ficava aos saltos, sufocada e nervosa, 
cuspindo a gua salgada. Mas, quando saa do mar, como vinha satisfeita! Arfava, com a toalha pela cabea, arrastando-se para a barraca, mal podendo com o peso do 
vestido encharcado, risonha, cheia de reao; e em redor vozes amigas perguntavam:
       - Ento que tal, que tal? Mais fresquinha, hem?
       Depois, de tarde, eram os passeios  beira-mar, a apanhar conchinhas; o recolher das redes, onde a sardinha toda viva ferve aos milheiros, luzidia sobre a 
areia molhada; e que longas perspectivas de ocasos ricamente dourados, sobre a vastido do mar triste, que escurece e geme!
       D. Maria da Assuno tinha sido visitada, logo ao chegar, por um rapaz, filho do Sr. Brito de Alcobaa, seu parente. Chamava-se Agostinho, ia freqentar o 
quinto ano de direito na Universidade. Era um moo delgado, de bigode castanho, pra, cabelo comprido deitado para trs, e luneta: recitava versos, sabia tocar guitarra, 
contava anedotas de caloiros, fazia partidas, e era famoso na Vieira, entre os homens, "por saber conversar com senhoras".
       - O Agostinho, patife! diziam.  chalaa a esta, chalaa quela. L para sociedade no h outro!
Logo desde os primeiros dias Amlia reparou que os olhos do Sr. Agostinho Brito se fitavam constantemente nela, "p'ra namoro". Amlia corava muito, sentia o seio 
alargar-se-lhe dentro do vestido; e admirava-o, achava-o muito "dengueiro".
       Um dia em casa da Sra. D. Maria da Assuno pediram a Agostinho para recitar.
       - Oh, minhas senhoras, isto aqui no  forja de ferreiro! exclamou ele, jovial.
       - Ora v! no se faa rogado, disseram, insistindo.
       - Bem, bem, por isso no nos havemos de zangar.
       - A Judia, Brito, lembrou o recebedor de Alcobaa.
       - Qual Judia! disse ele, h-de ser mas h-de ser a Morena! - E olhou para Amlia. - Foi uma poesia que fiz ontem.
       - Valeu, valeu!
       - E c o rapaz acompanha, disse um sargento do 6 de Caadores, tomando logo a guitarra.
Fez-se um silncio: o Sr. Agostinho deitou o cabelo para trs, fincou a luneta, apoiou as duas mos s costas duma cadeira, e fitando Amlia:
       -  Morena de Leiria! disse.

Nasceste nos verdes campos
Onde Leiria  famosa,
Tens a frescura da rosa, .
E o teu nome sabe a mel...

       - Perdo, exclamou o recebedor, a Sra. D. Juliana no est boa. Era a filha do escrivo de direito de Alcobaa; tinha-se feito muito plida, e, lentamente, 
desmaiava na cadeira, com os braos pendentes, o queixo sobre o peito. Borrifaram-na de gua, levaram-na para o quarto de Amlia; quando lhe desapertaram o vestido 
e lhe deram vinagre a respirar, ergueu- se sobre o cotovelo, olhou em redor, comearam a tremer-lhe os beios e rompeu a chorar. Fora, os homens em grupo comentavam:
       - Foi o calor, diziam.
       - O calor que ela tinha sei eu, rosnou o sargento de caadores. O Sr. Agostinho torcia o bigode, contrariado. Algumas senhoras foram a casa acompanhar a Sra. 
D. Juliana. D. Maria da Assuno e a S. Joaneira, atabafadas nos seus xales, iam tambm. Havia vento, um criado levava um lampio, e todos caminhavam na areia, calados.
       - Tudo isto  teu proveito, disse a Sra. D. Maria da Assuno baixo  S. Joaneira, demorando-se um pouco atrs.
       - Meu!?
       - Teu. Pois tu no percebeste? A Juliana, em Alcobaa, era namoro do Agostinho. Mas o rapaz aqui anda pelo beio pela Amlia. A Juliana percebeu, viu-o recitar 
aqueles versos, olhar para ela, zs!
       - Ora essa!... disse a S. Joaneira.
       - Deixa l, o Agostinho tem um par de mil cruzados que lhe deixam as tias.  um partido!
       Ao outro dia,  hora do banho, a S. Joaneira vestia-se na sua barraca, e Amlia, sentada na areia, esperava, pasmada para o mar.
       - Ol! sozinha? disse uma voz por detrs.
       Era Agostinho. Amlia, calada, comeou a riscar a areia com a sombrinha. O Sr. Agostinho suspirou, alisou outro pedao de areia com o p, escreveu - AMLIA. 
Ela, muito vermelha, quis apagar com a mo.
       - Ento! disse ele. E debruando-se, baixo: -  o nome da Morena, bem v. O seu nome sabe a mel!...
       Ela sorriu:
       - Ande, que fez ontem desmaiar aquela pobre Juliana - disse.
       - Ora! importa-me a mim bem com ela! Estou farto daquele estafermo! Ento que quer? Eu c sou assim. Tanto digo que me no importo com ela, como digo que 
h uma pessoa por quem dava tudo... Eu sei...
       - Quem ?  a Sra. D. Bernarda?
       Era uma velha hedionda, viva de um coronel.
       - , disse ele rindo.  justamente por quem eu ando apaixonado  pela D. Bernarda.
       - Ah! o senhor anda apaixonado! disse ela devagar, com os olhos baixos, riscando a areia.
       - Diga-me uma coisa, est a mangar comigo? exclamou Agostinho puxando por uma cadeirinha, sentando-se junto dela.
       Amlia ps-se de p.
       - No quer que eu me sente ao p de si? perguntou ele ofendido.
       - Eu  que estava cansada de estar sentada.
       Calaram-se um momento.
       - J tomou banho? disse ela. 
       - J.
       - Estava frio hoje?
       - Estava.
       As palavras de Agostinho eram agora muito secas.
       - Zangou-se? disse ela docemente, pondo-lhe de leve a mo no ombro. Agostinho ergueu os olhos, e vendo o bonito rosto trigueiro, todo risonho, - exclamou 
com veemncia:
       - Estou mesmo doido por si!
       - Chut!... disse ela.
       A me de Amlia, levantando o pano da barraca, saa, muito abafada, de leno amarrado na cabea.
       - Mais fresquinha, hem? perguntou logo Agostinho, tirando o chapu de palha.
       - Estava por aqui?
       - Vim dar uma vista de olhos. E agora toca ao almocinho, hem?
       - Se  servido... disse a S. Joaneira.
       Agostinho, muito galante, ofereceu o brao  mam.
       E desde ento seguia sempre Amlia, de manh no banho, de tarde  beira-mar; apanhava-lhe conchas; e tinha-lhe feito outros versos - o Sonho. Uma estrofe 
era violenta:

Senti-te contra o meu peito
Tremer, palpitar, ceder...

       Ela murmurava-os com grande comoo, de noite, suspirando, abraando o travesseiro.
       Outubro findava, as frias tinham acabado. Uma noite o alegre rancho da Sra. D. Maria da Assuno e das amigas fora dar um passeio ao luar.  volta, porm, 
erguera-se vento, nuvens pesadas empastaram o cu, caram gotas de gua. Estavam ento junto a um pequeno pinheiral, e as senhoras, aos gritinhos, quiseram abrigar-se. 
Agostinho, com Amlia pelo brao, rindo alto, foi penetrando longe dos outros na espessura; e ento, sob o montono e gemente rumor das ramas, disse-lhe baixo, cerrando 
os dentes:
       - Estou doido por ti, filha!
       - Creio l nisso! murmurou ela.
       Mas Agostinho, tomando subitamente um tom grave:
       - Sabes? talvez eu tenha de me ir amanh embora.
       - Vai-se?
       - Talvez; no sei ainda. Alm de amanh  a matrcula.
       - Vai-se... suspirou Amlia.
       Ele ento tomou-lhe a mo, apertou-lha com furor:
       - Escreve-me! disse.
       - E a mim, escreve-me? disse ela.
       Agostinho agarrou-a pelos ombros e machucou-lhe a boca de beijos vorazes.
       - Deixe-me! deixe-me! dizia ela sufocada.
       De repente teve um gemido doce como um arrulho de ave, e abandonava-se - quando a voz aguda de D. Joaquina Gansoso gritou:
       - H uma aberta.  andar!  andar!
       E Amlia, desprendendo-se, atarantada, correu a agachar-se sob o guarda-chuva da mam.
       Ao outro dia, com efeito, o Sr. Agostinho partiu. Vieram as primeiras chuvas, e dentro em pouco tambm Amlia, a me, a Sra. D. Maria da Assuno voltaram 
para Leiria.
       Passou o Inverno.
       E um dia, em casa da S. Joaneira, D. Maria da Assuno deu parte que o Agostinho Brito, segundo lhe escreviam de Alcobaa, tinha o casamento justo com a menina 
do Vimeiro.
       - Cspite! exclamou D. Joaquina Gansoso, apanha nada menos que os seus trinta contos! Olha o meco!
       E diante de todos Amlia rompeu a chorar.
       Amava Agostinho; e no podia esquecer aqueles beijos de noite no pinheiral cerrado. Pareceu-lhe ento que no tornaria a ter alegria! Ainda lembrada daquele 
moo da histria do Tio Cegonha, que por amor se escondera na solido de um convento, comeou a pensar em ser freira: deu-se a uma forte devoo, manifestao exagerada 
das tendncias que desde pequenina as convivncias de padres tinham lentamente criado na sua natureza sensvel; lia todo o dia livros de rezas; encheu as paredes 
do quarto de litografias coloridas de santos; passava longas horas na igreja, acumulando Salve-Rainhas  Senhora da Encarnao. Ouvia todos os dias missa, quis comungar 
todas as semanas - e as amigas da me achavam-na "um modelo, de dar virtude a incrdulos" !
       Foi por esse tempo que o cnego Dias e sua irm, a Sra. D. Josefa Dias, comearam a freqentar a casa da S. Joaneira. Dentro em pouco o cnego tornou-se o 
"amigo da famlia". Depois do almoo era certo com a sua cadelinha, como outrora o chantre com o seu guarda-chuva.
       - Tenho-lhe muita amizade, faz-me muito bem, dizia a S. Joaneira. Mas o senhor chantre no h dia nenhum que me no lembre dele!
       A irm do cnego tinha ento organizado com a S. Joaneira a Associao das Servas da Senhora da Piedade. A Sra. D. Maria da Assuno, as Gansosos "filiaram-se"; 
e a casa da S. Joaneira tornou-se um centro eclesistico. Foi esse o momento melhor da vida da S. Joaneira; "a S, como dizia com tdio o Carlos da botica, era agora 
na Rua da Misericrdia". Parte dos cnegos, o novo chantre, vinham todas as sextas-feiras. Havia imagens de santos na sala de jantar e na cozinha. As criadas, por 
escrpulo, eram examinadas em doutrina antes de serem aceitas. Ali muito tempo fizeram-se as reputaes: se se dizia de um homem: no  temente a Deus, havia o dever 
de o desacreditar santamente. As nomeaes de sineiros, coveiros, serventes de sacristia arranjavam-se ali por intrigas sutis e palavras piedosas. Tinham tomado 
um certo vesturio entre o preto e o roxo; toda a casa cheirava a cera e a incenso; e a S. Joaneira, mesmo, monopolizara o comrcio das hstias.
       Assim passaram anos. Pouco a pouco, porm, o grupo devoto dispersou-se: a ligao do cnego Dias e da S. Joaneira, muito comentada, afastou os padres do cabido; 
o novo chantre morrera de apoplexia tambm - como era de tradio naquela diocese, fatal aos chantres; e j no eram divertidos os quinos das sextas-feiras. Amlia 
mudara muito; crescera: fizera-se uma bela moa de vinte e dois anos, de olhar aveludado, beios muito frescos - e achava a sua paixo pelo Agostinho uma "tontice 
de criana". A sua devoo subsistia, mas alterada: o que amava agora na religio e na igreja era o aparato, a festa - as belas missas cantadas ao rgo, as capas 
recamadas de ouro, reluzindo entre os tocheiros, o altar-mor na glria das flores cheirosas, o roar das correntes dos incensadores de prata, os unssonos que rompem 
briosamente no coro das aleluias. Tomava a S como a sua pera: Deus era o seu luxo. Nos domingos de missa gostava de se vestir, de se perfumar com gua-de-colnia, 
de se ir aninhar sobre o tapete do altar-mor, sorrindo ao padre Brito ou ao cnego Saldanha. Mas em certos dias, como dizia a me, "murchava"; voltavam ento os 
abatimentos de outrora, que a amarelavam, lhe punham duas rugas velhas ao canto dos lbios: tinha nessas ocasies horas duma vaga saudade parva e mrbida, em que 
s a consolava cantar pela casa o Santssimo ou as notas lgubres do toque da Agonia. Com a alegria voltava-lhe o rosto do culto alegre - e lamentava ento que a 
S fosse uma ampla estrutura de pedra dum estilo frio e jesutico: quereria uma igreja pequenina, muito dourada, tapetada, forrada de papel, iluminada a gs; e padres 
bonitos oficiando a um altar ornado como uma tagre.
       Fizera vinte e trs anos quando conheceu Joo Eduardo no dia da procisso de Corpus-Christi, em casa do tabelio Nunes Ferral, onde ele era escrevente. Amlia, 
a me, a Sra. D. Josefa Dias tinham ido ver a procisso da bela varanda do tabelio, guarnecida de colchas de damasco amarelo. Joo Eduardo estava l, modesto, srio, 
todo vestido de preto. Havia muito que Amlia o conhecia; mas naquela tarde, reparando na brancura da sua pele e na gravidade com que ajoelhava, pareceu-lhe "muito 
bom rapaz".
        noite, depois do ch, o gordalhufo Nunes, de colete branco, foi pela sala exclamando, entusiasmado, com a sua voz de grilo: -  tirar pares,  tirar pares! 
- enquanto a filha mais velha ao piano tocava com brio estridente uma mazurca francesa. Joo Eduardo aproximou-se de Amlia:
       - Ai, eu no dano! - disse ela logo com ar seco.
       Joo Eduardo no danou tambm; foi encostar-se a uma ombreira com a mo na abertura do colete, os olhos fitos em Amlia. Ela percebia, desviava o rosto, 
mas estava contente; e quando Joo Eduardo, vendo uma cadeira vazia, veio sentar-se ao p dela, Amlia fez-lhe logo lugar acomodando os folhos de seda, agradada. 
O escrevente, embaraado, torcia o bigode com a mo trmula. Por fim Amlia voltando-se para ele: 
       - Ento o senhor no dana tambm?
       - E a Sra. D. Amlia? disse ele baixo.
       Ela inclinou-se para trs, e batendo nas pregas do vestido:
       - Ai! eu estou velha para estes divertimentos, sou uma pessoa sria.
       - Nunca se ri? perguntou ele, pondo na voz uma inteno fina.
       - s vezes rio quando h de qu, disse ela olhando-o de lado.
       - De mim, por exemplo.
       - De si!? Ora essa! Est a caoar comigo? Por que me hei-de eu rir do senhor? Boa!... ento o senhor que tem que faa rir? - e agitava o seu leque de seda 
preta.
       Ele calou-se, procurando as idias, as delicadezas.
       - Ento srio, srio, no dana?
       - J lhe disse que no. Ai, que  to perguntador!
       -  porque me interesso por si.
       - Ora, deixe l! disse ela fazendo um indolente gesto de negativa.
       - Palavra!
       Mas a Sra. D. Josefa Dias, que os vigiava, aproximou-se, de testa muito franzida, e Joo Eduardo levantou-se, intimidado.
        sada, quando Amlia no corredor punha os seus agasalhos, Joo Eduardo veio dizer-lhe, de chapu na mo:
       - Cubra-se bem, no apanhe frio!
       - Ento continua a interessar-se por mim? - disse ela apertando em redor do pescoo as pontas da sua manta de l.
       - O mais possvel, creia.
       Duas semanas depois veio a Leiria uma companhia ambulante de zarzuela. Falava-se muito da contralto, a Gamacho. A Sra. D. Maria da Assuno tinha um camarote, 
levou a S. Joaneira e Amlia - que duas noites antes estivera costurando, com uma pressa comovida, um vestido de cassa todo florido de laos de seda azul. Joo Eduardo 
na platia - enquanto a Gamacho, empastada de p-de-arroz sob a sua mantilha valenciana, vibrando com uma graa decrpita o leque de lantejoulas, garganteava malaguenhas 
agudas - no se fartou de contemplar, de desejar Amlia.  sada veio cumpriment-la, oferecer-lhe o brao at a Rua da Misericrdia; a S. Joaneira, a Sra. D. Maria 
da Assuno seguiam atrs com o tabelio Nunes.
       - Ento gostou da Gamacho, Sr. Joo Eduardo?
       - A falar-lhe a verdade nem sequer reparei nela. 
       - Ento que fez?
       - Olhei para si, respondeu ele resolutamente.
       Ela parou imediatamente, disse com a voz um pouco alterada:
       - Onde vem a mam?
       - Deixe l a mam!
       E Joo Eduardo, ento, falando-lhe junto do rosto, disse-lhe "a sua grande paixo". Tomou-lhe a mo, repetia todo perturbado:
       - Gosto tanto de si! Gosto tanto de si!
       Amlia estava nervosa da msica, do teatro; a noite quente de Vero, com a sua vasta cintilao de estrelas tomava-a toda lnguida. Abandonou a mo, suspirou 
baixinho.
       - Gosta de mim, no  verdade? perguntou ele.
       - Sim, respondeu ela, e apertou os dedos de Joo Eduardo com paixo.
       Mas, como ela pensou, "fora decerto um fogacho" - porque, dias depois, quando conheceu mais Joo Eduardo, quando pde falar livremente com ele, reconheceu 
que ''no tinha nenhuma inclinao pelo rapaz''. Estimava-o, achava-o simptico, bom moo; poderia ser um bom marido; mas sentia dentro em si o corao adormecido.
       O escrevente porm comeou a ir  Rua da Misericrdia quase todas as noites. A S. Joaneira estimava-o pelo seu "propsito" e pela sua honradez. Mas Amlia 
ia-se mostrando "fria": esperava-o  janela pela manh quando ele passava para o cartrio, fazia-lhe olhos doces  noite, - mas s para o no descontentar, para 
ter na sua existncia desocupada um interessezinho amoroso.
       Joo Eduardo um dia falou  me em casamento:
       - Como a Amlia quiser, eu por mim... disse a S. Joaneira.
       E Amlia, consultada, respondeu ambiguamente:
       - Mais tarde, por ora no me parece, veremos.
Enfim acordou-se tacitamente em esperar, at que ele obtivesse o lugar de amanuense do governo civil, rasgadamente prometido pelo doutor Godinho - o temido doutor 
Godinho!
       Assim vivera Amlia at a chegada de Amaro: e, durante a noite, estas recordaes vinham-lhe por fragmentos, como pedaos de nuvens que o vento vai trazendo 
e desmanchando. Adormeceu tarde, acordou j o sol ia alto: e espreguiava-se, quando ouviu dizer a Rua na sala de jantar:
       -  o senhor proco que vai sair com o senhor cnego; vo  S.
       Amlia saltou da cama, correu  janela em camisa, ergueu uma pontinha da cortina de cassa, olhou. A manh resplandecia: e o padre Amaro pelo meio da rua conversando 
com o cnego, assoava-se ao seu leno branco, muito airoso na sua batina de pano fino.


VI


       Logo desde os primeiros dias, envolvido suavemente em comodidades, Amaro sentiu-se feliz. A S. Joaneira, muito maternal, tomava um grande cuidado na sua roupa 
branca, preparava-lhe petiscos, e o "quarto do senhor proco andava que nem um brinco"! Amlia tinha com ele uma familiaridade picante de parenta bonita: "tinham 
calhado um com o outro", como dissera, encantada, D. Maria da Assuno. Os dias iam assim passando para Amaro, fceis, com boa mesa, colches macios e a convivncia 
meiga de mulheres. A estao ia to linda que at as tlias floresceram no jardim do Pao: "quase milagre!", disse-se: o senhor chantre, contemplando-as todas as 
manhs da janela do seu quarto, em robe-de-chambre, citava versos das clogas. E depois das longas tristezas da casa do tio da Estrela, dos desconsolos do seminrio 
e do spero Inverno na Gralheira - aquela vida em Leiria era para Amaro como uma casa seca e abrigada onde o alegre lume estala e a sopa cheirosa fumega, depois 
duma noite de jornada na serra, sob troves e chuveiros.
       Ia cedo dizer a missa  S, bem embrulhado no seu grande capote, com luvas de casimira, meias de ls por baixo das botas de alto cano vermelho. As manhs 
estavam frias: e quela hora s algumas devotas, com o mantu escuro pela cabea, rezavam aqui e alm, ao p dum altar envernizado de branco.
Entrava logo na sacristia, revestia-se depressa batendo os ps no lajedo, enquanto o sacristo, pachorrento, contava "as novidades do dia".
       Depois, com o clice na mo, de olhos baixos, passava  igreja; e tendo dobrado o joelho rapidamente diante do Santssimo Sacramento, subia devagar ao altar 
onde duas velas de cera esmoreciam com uma claridade plida na larga luz da manh, juntava as mos, murmurava, curvado:
       - Introibo ad altare Dei.
       - Ad Deum qui laetificat juventutem meam, resmungava, num latim silabado, o sacristo.
       Amaro j no celebrava a missa como nos primeiros tempos, com uma devoo enternecida. "Estava agora habituado", dizia. E como no ceava, e quela hora em 
jejum, com a frescura cortante do ar, j sentia apetite, engrolava depressa, monotonamente, as santas leituras da Epstola e dos Evangelhos. Por trs o sacristo, 
com os braos cruzados, passava vagarosamente a mo pela sua espessa barba bem rapada, olhando de revs para a Casimira Frana, mulher do carpinteiro da S, muito 
devota, que  ele "trazia de olho" desde a Pscoa. Largas rstias de sol caiam das janelas laterais. Um vago aroma de junquilhos secos adocicava o ar.
       Amaro, depois de recitar rapidamente o ofertrio, limpava o clice com o purificador; o sacristo, um pouco vergado dos rins, ia buscar as galhetas, apresentava-as, 
curvado - e Amaro sentia o cheiro do leo ranoso que lhe reluzia no cabelo. Naquela parte da missa, por um antigo hbito de emoo mstica, Amaro tinha um recolhimento 
sentido: com os braos abertos, voltava-se para a igreja, clamava, com largueza, a exortao universal  orao - Orate, fratres! E as velhas encostadas aos pilares 
de pedra, com o aspecto idiota, a boca babosa, apertavam mais as mos contra o peito, de onde pendiam grandes rosrios negros. Ento o sacristo ia ajoelhar-se por 
trs dele, sustentando ligeiramente com uma das mos a capa, erguendo na outra a sineta. Amaro consagrava o vinho, levantava a hstia - Hoc est enim corpus meum! 
- elevando alto os braos para o Cristo cheio de chagas roxas sobre a sua cruz de pau preto; a campainha tocava devagar; as mos batiam concavamente nos peitos; 
e no silncio sentiam-se os carros de bois rolando, com solavancos, sobre o largo lajeado da S,  volta do mercado.
       - Ite, missa est! dizia Amaro enfim.
       - Deo gratias! respondia o sacristo respirando alto, com o alvio da obrigao finda.
       E quando, depois de ter beijado o altar, Amaro vinha do alto dos degraus dar a bno, era j pensando na alegria do almoo, na clara sala de jantar da S. 
Joaneira e nas boas torradas. quela hora j Amlia o esperava com o cabelo cado sobre o penteador, tendo na pele fresca um bom cheiro de sabo de amndoas.

***

       Pelo meio do dia ordinariamente Amaro subia  sala de jantar, onde a S. Joaneira e Amlia costuravam. "Estava aborrecido embaixo, vinha um bocado para o cavaco", 
dizia. A S. Joaneira, numa cadeira pequena, ao p da janela, com o gato aninhado na roda do vestido de merino, cosia de luneta na ponta do nariz. Amlia, junto da 
mesa, trabalhava com o cesto da costura ao lado; a cabea inclinada sobre o trabalho mostrava a sua risca fina, ntida, um pouco afogada na abundncia do cabelo; 
os seus grandes brincos de ouro, em forma de pingos de cera, oscilavam, faziam tremer e crescer sobre a finura do pescoo uma pequenina sombra; as olheiras leves 
cor de bistre esbatiam-se delicadamente sobre a pele de um trigueiro mimoso, que um sangue forte aviventava; e o seu peito cheio respirava devagar. s vezes, cravando 
a agulha na fazenda, espreguiava-se devagarinho, sorria, cansada. Ento Amare gracejava:
       - Ah preguiosa, preguiosa! Olha que mulher de casa!
       Ela ria; conversavam. A S. Joaneira sabia as coisas interessantes do dia: o major despedira a criada; ou havia quem oferecesse dez moedas pelo porco do Carlos 
do correio. De vez em quando a Rua vinha ao armrio buscar um prato ou uma colher; ento falava-se do preo dos gneros, do que havia para o jantar. A S. Joaneira 
tirava as lunetas, traava a perna, e balouando o p calado numa chinela de ourelo, punha-se a dizer os  pratos.
       - Hoje temos gro-de-bico. No sei se o senhor proco gostar, foi para variar...
       Mas Amaro gostava de tudo; e mesmo em certas comidas descobria afinidade de gostos com Amlia.
       Depois, animando-se, bulia-lhe no cesto da costura. Um dia encontrara uma carta; perguntou-lhe pelo derrio; ela respondeu, picando vivamente o pesponto:
       - Ai! a mim ningum me quer, senhor proco...
       - No  tanto assim, acudiu ele. Mas suspendeu-se, muito vermelho, afetando tossir.
       Amlia s vezes fazia-se muito familiar; um dia mesmo, pediu-lhe para sustentar nas mos uma meadinha de retrs que ela ia dobar.
       - Deixe falar, senhor proco! exclamou a S. Joaneira. Ora a tolice! Isto, em se lhe dando confiana!...
       Mas Amaro prontificou-se, rindo, todo contente: - ele estava ali para o que quisessem, at para dobadoura! Era mandarem, era mandarem!... E as duas mulheres 
riam, dum riso clido, enlevadas naquelas maneiras do senhor proco, "que at tocavam o corao" ! s vezes Amlia pousava a costura e tomava o gato no colo; Amaro 
chegava-se, corria a mo pela espinha do malts que se arredondava, fazendo um ronrom de gozo.
       - Gostas? dizia ela ao gato, um pouco corada, com os olhos muito  ternos.
       E a voz de Amaro murmurava, perturbada:
       - Bichaninho gato! bichaninho gato!
       Depois a S. Joaneira erguia-se para dar o remdio  idiota ou ir palrar  cozinha. Eles ficavam ss; no falavam, mas os seus olhos tinham um longo dilogo 
mudo, que os ia penetrando da mesma languidez dormente. Ento Amlia cantarolava baixo o Adeus ou o Descrente: Amaro acendia o seu cigarro, e escutava, bamboleando 
a perna.
       -  to bonito isso! dizia.
       Amlia cantava mais acentuadamente, cosendo depressa; e a espaos, erguendo o busto, mirava o alinhavado ou o pesponto, passando-lhe por cima, para o assentar, 
a sua unha polida e larga.
       Amaro achava aquelas unhas admirveis, porque tudo que era ela ou vinha dela lhe parecia perfeito: gostava da cor dos seus vestidos, do seu andar, do modo 
de passar os dedos pelos cabelos, e olhava at com ternura para as saias brancas que ela punha a secar  janela do seu quarto, enfiadas numa cana. Nunca estivera 
assim na intimidade duma mulher. Quando percebia a porta do quarto dela entreaberta, ia resvalar para dentro olhares gulosos, como para perspectivas dum paraso: 
um saiote pendurado, uma meia estendida, uma liga que ficara sobre o ba, eram como revelaes da sua nudez, que lhe faziam cerrar os dentes, todo plido. E no 
se saciava de a ver falar, rir, andar com as saias muito engomadas que batiam as ombreiras das portas estreitas. Ao p dela, muito fraco, muito langoroso, no lhe 
lembrava que era padre; o Sacerdcio, Deus, a S, o Pecado ficavam embaixo, longe, via-os muito esbatidos do alto do seu enlevo, como de um monte se vem as casas 
desaparecer no nevoeiro dos vales; e s pensava ento na doura infinita de lhe dar um beijo na brancura do pescoo, ou mordicar-lhe a orelhinha.
       s vezes revoltava-se contra estes desfalecimentos, batia o p:
       - Que diabo,  necessrio ter juzo!  necessrio ser homem!
       Descia, ia folhear o seu Brevirio; mas a voz de Amlia falava em cima, o tique-tique das suas botinas batia o soalho... Adeus! a devoo caia como uma vela 
a que falta o vento; as boas resolues fugiam, e l voltavam as tentaes em bando a apoderar-se do seu crebro, frementes, arrulhando, roando-se umas pelas outras 
como um bando de pombas que recolhem ao pombal. Ficava todo subjugado, sofria. E lamentava ento a sua liberdade perdida: como desejaria no a ver, estar longe de 
Leiria, numa aldeia solitria, entre gente pacifica, com uma criada velha cheia de provrbios e de economia, e passear pela sua horta quando as alfaces verdejam 
e os galos cacarejam ao sol! Mas Amlia, de cima, chamava-o - e o encanto recomeava, mais penetrante.
       A hora do jantar, sobretudo, era a sua hora perigosa e feliz, a melhor do dia. A S. Joaneira trinchava, enquanto Amaro conversava cuspindo os caroos das 
azeitonas na palma da mo e enfileirando-os sobre a toalha. A Rua, cada dia mais tica, servia mal, sempre a tossir; Amlia s vezes erguia-se para ir buscar uma 
faca, um prato ao aparador. Amaro queria levantar-se logo, atencioso.
       - Deixe-se estar, deixe-se estar, senhor proco! dizia ela. E punha- lhe a mo no ombro, e os seus olhos encontravam-se.
       Amaro, com as pernas estendidas e o guardanapo sobre o estmago, sentia-se regalado, gozava muito no bom calor da sala; depois do segundo copo da Bairrada 
tornava-se expansivo, tinha gracinhas; s vezes mesmo, com um brilho terno no olho, tocava fugitivamente o p de Amlia debaixo da mesa; ou, fazendo um ar sentido, 
dizia "que muito lhe pesava no ter uma irmzinha assim" !
       Amlia gostava de ensopar o miolo do po no molho do guisado: a me dizia-lhe sempre:
       - Embirro que faas isso diante do senhor proco.
       E ele ento rindo:
       - Pois olhe, tambm eu gosto. Simpatia! magnetismo!
       E molhavam ambos o po, e sem razo davam grandes risadas. Mas o crepsculo crescia, a Rua trazia o candeeiro. O brilho dos copos e das louas alegrava Amaro, 
enternecia-o mais; chamava  S. Joaneira mam; Amlia sorria, de olhos baixos, trincando com a ponta dos dentes cascas de tangerina. Da a pouco vinha o caf; e 
o padre Amaro ficava muito tempo partindo nozes com as costas da faca, e quebrando a cinza do cigarro na borda do pires.
       quela hora aparecia sempre o cnego Dias; sentiam-no subir pesadamente, dizendo da escada:
       - Licena para dois!
       Era ele e a cadela, a Trigueira.
       - Ora Nosso Senhor vos d muito boas-noites! dizia assomando   porta.
       - Vai a gotinha de caf, senhor cnego? perguntava logo a S. Joaneira.
       Ele sentava-se, exalando um profundo uff! V l a gotinha do caf! E batendo no ombro do proco, olhando para a S. Joaneira:
       - Ento, como vai c o seu menino?
       Riam; vinham as histrias do dia. O cnego costumava trazer no bolso o Dirio Popular; Amlia interessava-se pelo romance, a S. Joaneira pelas correspondncias 
amorosas nos anncios.
       - Ora vejam que pouca-vergonha!... dizia ela, deliciando-se.
       Amaro ento falava de Lisboa, de escndalos que lhe contara a tia: dos fidalgos que conhecera "em casa do Sr, conde de Ribamar". Amlia, enlevada, escutava-o 
com os cotovelos sobre a mesa, roendo vagarosamente a ponta do palito.
       Depois do jantar iam visitar a entrevada. A lamparina esmorecia  cabeceira da cama: e a pobre velha, com uma medonha touca de rendas negras que tornava mais 
lvida a sua carinha engelhada como uma ma reineta, fazendo debaixo da roupa uma salincia quase imperceptvel, fixava em todos, com susto, os seus olhinhos cncavos 
e chorosos.
       -  o senhor proco, tia Gertrudes! gritava-lhe Amlia ao ouvido. Vem ver como est.
       A velha fazia um esforo, e com uma voz gemida:
       - Ah!  o menino!
       -  o menino, , diziam rindo.
       E a velha ficava a murmurar, espantada:
       -  o menino,  o menino!
       - Pobre de Cristo! dizia Amaro. Pobre de Cristo! Deus lhe d uma  boa morte!
       E voltavam para a sala de jantar onde o cnego Dias, todo enterrado na velha poltrona de chita verde, com as mos cruzadas sobre o ventre, dizia logo:
       - Ora v um bocadinho de msica, pequena!
       Amlia ia sentar-se ao piano.
       -  filha, toca o Adeus! recomendava a S. Joaneira comeando a  sua meia.
       E Amlia, ferindo o teclado:

Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado...

       A sua voz arrastava-se com melancolia; e Amaro soprando o fumo do cigarro, sentia-se todo enleado num sentimentalismo agradvel.
       Quando descia para o seu quarto,  noite, ia sempre exaltado. Punha- se ento a ler os Cnticos a Jesus, traduo do francs publicada pela sociedade das 
Escravas de Jesus.  uma obrazinha beata, escrita com um lirismo equvoco, quase torpe - que d  orao a linguagem da luxria: Jesus  invocado, reclamado com 
as sofreguides balbuciantes de uma concupiscncia alucinada: "Oh! vem, amado do meu corao, corpo adorvel, minha alma impaciente quer-te! Amo-te com paixo e 
desespero! Abrasa-me! queima-me! Vem! esmaga-me! possui-me! " E um amor divino, ora grotesco pela inteno, ora obsceno pela materialidade, geme, ruge, declama assim 
em cem pginas inflamadas onde as palavras gozo, delcia, delrio, xtase, voltam a cada momento, com uma persistncia histrica. E depois de monlogos frenticos 
de onde se exala um bafo de cio mstico, vm ento imbecilidades de sacristia, notazinhas beatas resolvendo casos difceis de jejuns, e oraes para as dores do 
parto! Um bispo aprovou aquele livrinho bem impresso; as educandas lem-no no convento.  beato e excitante; tem as eloqncias do erotismo, todas as pieguices da 
devoo; encaderna-se em marroquim e d-se s confessadas;  a cantrida cannica!
       Amaro lia at tarde, um pouco perturbado por aqueles perodos sonoros, tmidos de desejo; e no silncio, por vezes, sentia em cima ranger o leito de Amlia; 
o livro escorregava-lhe das mos, encostava a cabea s costas da poltrona, cerrava os olhos, e parecia-lhe v-la em colete diante do toucador desfazendo as tranas; 
ou, curvada, desapertando as ligas, e o decote da sua camisa entreaberta descobria os dois seios muito brancos.
       Erguia-se, cerrando os dentes, com uma deciso brutal de a possuir.
       Comeara ento a recomendar-lhe a leitura dos Cnticos a Jesus.
       - Ver,  muito bonito, de muita devoo! disse ele, deixando-lhe o livrinho uma noite no cesto da costura.
       Ao outro dia, ao almoo, Amlia estava plida, com as olheiras at o meio da face. Queixou-se de insnia, de palpitaes.
       - E ento, gostou dos Cnticos?
       - Muito. Oraes lindas! respondeu.
       Durante todo esse dia no ergueu os olhos para Amaro. Parecia triste - e sem razo, s vezes, o rosto abrasava-se-lhe de sangue.

***

       Os piores momentos para Amaro eram as segundas e quartas-feiras, quando Joo Eduardo vinha passar as noites em famlia. At s nove horas o proco no saa 
do quarto; e quando subia para o ch desesperava-se de ver o escrevente embrulhado no seu xale-manta, sentado junto de Amlia.
       - Ai o que estes dois tm para a palrado, senhor proco! dizia a S. Joaneira.
       Amaro tinha um sorriso lvido, partindo devagar a sua torrada, com os olhos fitos na chvena.
       Amlia na presena de Joo Eduardo, agora, no tinha com o proco a mesma familiaridade alegre, mal levantava os olhos da costura; o escrevente, calado, chupava 
o cigarro; e havia grandes silncios em que se sentia o vento uivar, encanado na rua.
       - Olha quem andar agora nas guas no mar! dizia a S. Joaneira, fazendo devagar a sua meia.
       - Safa! acrescentava Joo Eduardo.
       As suas palavras, os seus modos irritavam o padre Amaro; detestava-o pela sua pouca devoo, pelo seu bonito bigode preto. E diante dele sentia-se mais enleado 
no seu acanhamento de padre.
       - Toca alguma coisa, filha, dizia a S. Joaneira.
       - Estou to cansada! respondia Amlia apoiando-se nas costas da cadeira, com um suspirozinho de fadiga.
       A S. Joaneira, ento, que no gostava de "ver gente mona", propunha uma bisca de trs; e o padre Amaro, tomando o seu candeeiro de lato, descia para o quarto, 
muito infeliz.
       Nessas noites quase detestava Amlia; achava-a casmurra. A intimidade do escrevente na casa parecia-lhe escandalosa: decidiu mesmo falar  S. Joaneira, dizer-lhe 
"que aquele namoro de portas adentro no podia ser agradvel a Deus". Depois, mais razovel, resolvia esquec-la, pensava em sair da casa, da parquia. Representava-se 
ento Amlia com a sua coroa de flores de laranjeira, e Joo Eduardo, muito vermelho, de casaca, voltando da S, casados... Via a cama de noivado com os seus lenis 
de renda... E todas as provas, as certezas do amor dela pelo "idiota do escrevente" cravavam-se-lhe no peito como punhais...
       - Pois que casem, e que os leve o diabo!...
       Odiava-a ento. Fechava violentamente a porta  chave como para impedir que lhe penetrasse no quarto o rumor da sua voz ou o frufru das suas saias. Mas da 
a pouco, como todas as noites, escutava com o corao aos saltos, imvel e ansioso, os rudos que ela fazia em cima ao despir-se, palrando ainda com a me.
       Um dia Amaro jantara em casa da Sra. D. Maria da Assuno; fora depois passear pela estrada de Marrazes, e  volta, ao fim da tarde, encontrou, ao entrar 
em casa, a porta da rua aberta; sobre o capacho, no patamar, estavam os chinelos de ourelo da Rua.
       - Tonta de rapariga! pensou Amaro, foi  fonte e esqueceu-se de fechar a porta.
       Lembrou-se que Amlia tinha ido passar a tarde com a Sra. D. Joaquina Gansoso, numa fazenda ao p da Piedade, e que a S. Joaneira falara em ir  irm do cnego. 
Fechou devagar a cancela, subiu  cozinha a acender o seu candeeiro; como as ruas estavam molhadas da chuva da manh, trazia ainda galochas de borracha; os seus 
passos no faziam rumor no soalho; ao passar diante da sala de jantar sentiu no quarto da S. Joaneira, atravs do reposteiro de chita, uma tosse grossa; surpreendido, 
afastou sutilmente um lado do reposteiro, e pela porta entreaberta espreitou. - Oh Deus de Misericrdia! a S. Joaneira, em saia branca, atacava o colete; e, sentado 
 beira da cama, em mangas de camisa, o cnego Dias resfolegava grosso!
       Amaro desceu, colado ao corrimo, fechou muito devagarinho a porta, e foi ao acaso para os lados da S. O cu enevoara-se, leves gotas de chuva caam.
       - E esta! E esta! dizia ele assombrado.
       Nunca suspeitara um tal escndalo! A S. Joaneira, a pachorrenta S. Joaneira! O cnego, seu mestre de Moral! E era um velho, sem os mpetos do sangue novo, 
j na paz que lhe deveriam ter dado a idade, a nutrio, as dignidades eclesisticas! Que faria ento um homem novo e forte, que sente uma vida abundante no fundo 
das suas veias reclamar e arder!... Era, pois, verdade o que se cochichava no seminrio, o que lhe dizia o velho padre Sequeira, cinqenta anos padre da Gralheira: 
- "Todos so do mesmo barro!" Todos so do mesmo barro, - sobem em dignidades, entram nos cabidos, regem os seminrios, dirigem as conscincias envoltos em Deus 
como numa absolvio permanente, e tm no entanto, numa viela, uma mulher pacata e gorda, em casa de quem vo repousar das atitudes devotas e da austeridade do ofcio, 
fumando cigarros de estanco e palpando uns braos rechonchudos!
       Vinham-lhe ento outras reflexes: que gente era aquela, a S. Joaneira e a filha, que viviam assim sustentadas pela lubricidade tardia de um velho cnego? 
A S. Joaneira fora decerto bonita, bem-feita, desejvel - outrora! Por quantos braos teria passado at chegar, pelos declives da idade, queles amores senis e mal 
pagos? As duas mulherinhas, que diabo, no eram honestas! Recebiam hspedes, viviam da concubinagem. Amlia ia sozinha  igreja, s compras,  fazenda; e com aqueles 
olhos to negros, talvez j tivesse tido um amante! - Resumia, filiava certas recordaes: um dia que ela lhe estivera mostrando na janela da cozinha um vaso de 
rainnculos, tinham ficado ss, e ela, muito corada, pusera-lhe a mo sobre o ombro e os seus olhos reluziam e pediam; outra ocasio ela roara-lhe o peito pelo 
brao! A noite cara, com uma chuva fina. Amaro no a sentia, caminhando depressa, cheio de uma s idia deliciosa que o fazia tremer: ser o amante da rapariga, 
como o cnego era o amante da me! Imaginava j a boa vida escandalosa e regalada; enquanto em cima a grossa S. Joaneira beijocasse o seu cnego cheio de dificuldades 
asmticas - Amlia desceria ao seu quarto, p ante p, apanhando as saias brancas, com um xale sobre os ombros nus... Com que frenesi a esperaria! E j no sentia 
por ela o mesmo amor sentimental, quase doloroso: agora a idia muito magana dos dois padres e as duas concubinas, de panelinha, dava quele homem amarrado pelos 
votos uma satisfao depravada! Ia aos pulinhos pela rua. - Que pechincha de casa!
       A chuva caa, grossa. Quando entrou havia j luz na sala de jantar. Subiu.
       - lh, como vem frio! disse-lhe Amlia sentindo, ao apertar-lhe a mo, a umidade da nvoa.
       Sentada  mesa, costurava com um xale-manta pelos ombros: Joo Eduardo, ao p, jogava a bisca com a S. Joaneira.
       Amaro sentou-se um pouco embaraado; a presena do escrevente dera-lhe de repente, sem saber por qu, o duro choque duma realidade antiptica: e todas as 
esperanas, que lhe tinham vindo a danar uma sarabanda na imaginao, encolhiam-se uma a uma, murchavam - vendo ali Amlia ao p do noivo, curvada sobre uma costura 
honesta, com o seu escuro vestido afogado, junto do candeeiro de famlia!
       E tudo em redor lhe parecia como mais recatado, as paredes com o seu papel de ramagens verdes, o armrio cheio de loua luzidia da Vista Alegre, o simptico 
e bojudo pote de gua, o velho piano mal firme nos seus trs ps torneados; o paliteiro to querido de todos - um Cupido rechonchudo com um guarda-chuva aberto eriado 
de palitos, e aquela tranqila bisca jogada com os dichotes clssicos. Tudo to decente!
       Afirmava-se ento nas grossas roscas do pescoo da S. Joaneira, como para descobrir nelas as marcas das beijocas do cnego: ah! tu, no h dvida, s "uma 
barreg de clrigo". Mas Amlia! com aquelas longas pestanas descidas, o beio to fresco!... Ignorava decerto as libertinagens da me; ou, experiente, estava bem 
resolvida a estabelecer-se solidamente na segurana dum amor legal! - E Amaro, da sombra, examinava-a longamente como para se certificar, na placidez do seu rosto, 
da virgindade do seu passado.
       - Cansadinho, senhor proco, hem? disse a S. Joaneira. E para Joo Eduardo: - Trunfo, faz favor, seu cabea no ar!
       O escrevente, namorado, distraa-se.
       -  o senhor a jogar, dizia-lhe a S. Joaneira a cada momento.
       Depois ele esquecia-se de comprar cartas.
       - Ah menino, menino! dizia ela com a sua voz pachorrenta, que lhe puxo essas orelhas!
       Amlia ia cosendo com a cabea baixa: tinha um pequeno casabeque preto com botes de vidro, que lhe disfarava a forma do seio.
       E Amaro irritava-se daqueles olhos fixos na costura, daquele casaco amplo escondendo a beleza que mais apetecia nela! E nada a esperar. Nada dela lhe pertenceria, 
nem a luz daquelas pupilas, nem a brancura daqueles peitos! Queria casar - e guardava tudo para o outro, o idiota, que sorria baboso, jogando paus! Odiou-o ento, 
dum dio complicado de inveja ao seu bigode negro e ao seu direito de amar...
       - Est incomodado, senhor proco? perguntou Amlia, vendo-o mexer-se bruscamente na cadeira.
       - No, disse ele secamente.
- Ah! fez ela, com um leve suspiro, picando rapidamente o pesponto.
       O escrevente, baralhando as cartas, comeara a falar de uma casa que queria alugar; a conversa caiu sobre arranjos domsticos.
       - Traz-me luz! gritou Amaro  Rua.
       Desceu para o seu quarto, desesperado. Ps a vela sobre a cmoda; o espelho estava defronte, e a sua imagem apareceu-lhe; sentiu-se feio, ridculo com a sua 
cara rapada, a volta hirta como uma coleira, e por trs a coroa hedionda. Comparou-se instintivamente com o outro que tinha um bigode, o seu cabelo todo, a sua liberdade! 
Para que hei-de eu estar a ralar- me? pensou. O outro era um marido; podia dar-lhe o seu nome, uma casa, a maternidade; ele s poderia dar-lhe sensaes criminosas, 
depois os terrores do pecado! Ela simpatizava talvez com ele, apesar de padre; mas antes de tudo, acima de tudo, queria casar; nada mais natural! Via-se pobre, bonita, 
s: cobiava uma situao legitima e duradoura, o respeito das vizinhas, a considerao dos lojistas, todos os proveitos da honra!
       Odiou-a ento, e o seu vestido afogado e a sua honestidade! A estpida, que no percebia que ao p dela, sob uma negra batina, uma paixo devota a espreitava, 
a seguia, tremia e morria de impacincia! Desejou que ela fosse como a me, - ou pior, toda livre, com vestidos garridos, uma cuia impudente, traando a perna e 
fitando os homens, uma fmea fcil como uma porta aberta...
       - Boa! Estou a desejar que a rapariga fosse uma desavergonhada! - pensou, recaindo em si um pouco envergonhado. Est claro: no podemos pensar em mulheres 
decentes, temos que reclamar prostitutas! Bonito dogma!
       Abafava. Abriu a janela. O cu estava tenebroso; a chuva cessara; o piar das corujas na Misericrdia cortava s o silncio.
       Enterneceu-se, ento, com aquela escurido, aquela mudez de vila adormecida. E sentiu subir outra vez, das profundidades do seu ser, o amor que sentira ao 
princpio por ela, muito puro, dum sentimentalismo devoto: via a sua linda cabea, duma beleza transfigurada e luminosa, destacar da negrura espessa do ar; e toda 
a sua alma foi para ela num desfalecimento de adorao, como no culto a Maria e na Saudao Anglica; pediu-lhe perdo ansiosamente de a ter ofendido; disse-lhe 
alto: s uma santa, perdoa! - Foi um momento muito doce, de renunciamento carnal...
       E, espantado quase daquelas delicadezas de sensibilidade que descobria subitamente em si, ps-se a pensar com saudade - que se fosse um homem livre seria 
um marido to bom! Amorvel, delicado, dengueiro, sempre de joelhos, todo de adoraes! Como amaria o seu filho, muito pequerruchinho, a puxar-lhe as barbas!  idia 
daquelas felicidades inacessveis, os olhos arrasaram-se-lhe de lgrimas. Amaldioou, num desespero, "a pega da marquesa que o fizera padre", e o bispo que o confirmara!
       - Perderam-me! perderam-me! dizia, um pouco desvairado.
       Sentiu ento os passos de Joo Eduardo que descia, e o rumor das saias de Amlia. Correu a espreitar pela fechadura, cravando os dentes no beio, de cime. 
A cancela bateu, Amlia subiu cantarolando baixo.
       - Mas a sensao do amor mstico que o penetrara um momento, olhando a noite, passara; e deitou-se, com um desejo furioso dela e dos seus beijos.


VII


       Dias depois o padre Amaro e o cnego Dias tinham ido jantar com o abade da Cortegassa. - Era um velho jovial, muito caridoso, que vivia h trinta anos naquela 
freguesia e passava por ser o melhor cozinheiro da diocese. Todo o clero das vizinhanas conhecia a sua famosa cabidela de caa. O abade fazia anos, havia outros 
convidados - o padre Natrio e o padre Brito: o padre Natrio era uma criaturinha biliosa, seca, com dois olhos encovados, muito malignos, a pele picada das bexigas 
e extremamente irritvel. Chamavam-lhe o Furo. Era esperto e questionador; tinha fama de ser grande latinista, e ter uma lgica de ferro; e dizia-se dele:  uma 
lngua de vbora! Vivia com duas sobrinhas rfs, declarava-se extremoso por elas, gabava-lhes sempre a virtude, e costumava chamar-lhes as duas rosas do seu canteiro. 
O padre Brito era o padre mais estpido e mais forte da diocese; tinha o aspecto, os modos, a forte vida de um robusto beiro que maneja bem o cajado, emborca um 
almude de vinho, pega alegremente  rabia do arado, serve de trolha nos arranjos de um alpendre, e nas sestas quentes de Junho atira brutalmente as raparigas para 
cima das medas de milho. O senhor chantre, sempre correto nas suas comparaes mitolgicas, chamava-lhe - o leo de Nemeia.
       A sua cabea era enorme, de cabelo langero que lhe descia at as . sobrancelhas: a pele curtida tinha um tom azulado, do esforo da navalha de barba; e, 
nas suas risadas bestiais, mostrava dentinhos muito midos e muito brancos do uso da broa.
       Quando iam sentar-se  mesa chegou o Libaninho todo azafamado, gingando muito, com a calva suada, exclamando logo em tons agudos:
       - Ai, filhos! desculpem-me, demorei-me mais um bocadinho. Passei pela igreja de Nossa Senhora da Ermida, estava o padre Nunes a dizer uma missa de inteno. 
Ai, filhos! papei-a logo, venho mesmo consoladinho!
       A Gertrudes, a velha e possante ama do abade, entrou ento com a vasta terrina do caldo de galinha: e o Libaninho, saltitando em redor dela, comeou os seus 
gracejos:
       - Ai, Gertrudinhas, quem tu fazias feliz, bem eu sei!
       A velha alde ria, com o seu espesso riso bondoso, que lhe sacudia a massa do seio.
       - Olha que arranjo me aparece agora pela tarde!...
       - Ai, filha! as mulheres querem-se como as pras, maduras e de sete cotovelos. Ento  que  chup-las!
       Os padres gargalharam; e, alegremente, acomodaram-se  mesa.
       O jantar fora todo cozinhado pelo abade: logo  sopa as exclamaes comearam:
       - Sim, senhor, famoso! Disto nem no Cu! Bela coisa!
       O excelente abade estava escarlate de satisfao. Era, como dizia o senhor chantre, "um divino artista" ! Lera todos os Cozinheiros completos, sabia inmeras 
receitas; era inventivo - e, como ele afirmava dando marteladinhas no crnio, "tinha-lhe sado muito petisco daquela cachimnia" ! Vivia to absorvido pela sua "arte" 
que lhe acontecia, nos sermes de domingo, dar aos fiis ajoelhados para receberem a palavra de Deus, conselhos sobre o bacalhau guisado ou sobre os condimentos 
do sarrabulho. E ali vivia feliz, com a sua velha Gertrudes, de muito bom paladar tambm, com o seu quintal de ricos legumes, sentindo uma s ambio na vida - ter 
um dia a jantar o bispo!
       - Oh senhor proco! dizia ele a Amaro, por quem ! mais um bocadinho de cabidela, faa favor! Essas codeazinhas de po ensopadas no molho! Isso! isso! Que 
tal, hem? - E com um aspecto modesto: - No  l por dizer, mas a cabidela hoje saiu-me boa!
       Estava com efeito, como disse o cnego Dias, de tentar Santo Anto no deserto! Todos tinham tirado as capas, e, s com as batinas, as voltas alargadas, comiam 
devagar, falando pouco. Como no dia seguinte era a festa da Senhora da Alegria, os sinos na capela, ao lado, repicavam; e o bom sol do meio-dia dava tons muito alegres 
 loua, s bojudas canecas azuis com vinho da Bairrada, aos pires de pimentes escarlates, s frescas malgas de azeitonas pretas - enquanto o bom abade, de olho 
arregalado, mordendo o beio, ia cortando com cuidado nacos brancos do peito do capo recheado.
       As janelas abriam para o quintal. Viam-se dois largos ps de camlias vermelhas crescendo junto ao peitoril, e para alm das copas das macieiras um pedao 
muito vivo de cu azul-ferrete. Uma nora chiava ao longe, lavadeiras batiam a roupa.
       Sobre a cmoda, entre in-folios, na sua peanha, um Cristo perfilava tristemente contra a parede o seu corpo amarelo, coberto de chagas escarlates: e, aos 
lados, simpticos santos sob redomas de vidro, lembravam legendas mais doces de religio amvel: o bom gigante S. Cristvo atravessando o rio com o divino pequerrucho 
que sorri, e faz saltar o mundo sobre a sua mozinha como uma pla; o doce pastor S. Joozinho coberto com uma pele de ovelha, e guardando os seus rebanhos, no 
com um cajado, mas com uma cruz; o bom porteiro S. Pedro, tendo na sua mo de barro as duas santas chaves que servem nas fechaduras do Cu! Nas paredes, em litografias 
de coloridos cruis, o patriarca S. Jos apoiava-se ao seu cajado onde florescem lrios brancos; o cavalo empinado do bravo S. Jorge pisava o ventre dum drago surpreendido; 
e o bom Santo Antnio,  beira dum regato, sorria, falando a um tubaro. O tlintlim dos copos, o rudo das facas animava a velha sala, de teto de carvalho defumado, 
duma alegria desusada. E Libaninho devorava, dizendo pilhrias.
       - Gertrudinhas, flor do canio, passa-me as bages. No me olhes assim, magana, que me fazes revolver os intestinos!
       - O diabo  o homem! dizia a velha. Olha para o que lhe deu! Falasse-me aqui h trinta anos, seu perdido!
       - Ai, filha! exclamava revirando os olhos, nem me digas isso que sinto coisas pela espinha acima!
       Os padres engasgavam-se de riso. J duas canecas de vinho estavam vazias: e o padre Brito desabotoara a batina, deixando ver a sua grossa camisola de l da 
Covilh, onde a marca da fbrica, feita de linha azul, era uma cruz sobre o corao.
       Um pobre ento viera  porta rosnar lamentosamente Padre-Nossos; e enquanto Gertrudes lhe metia no alforje metade duma broa, os padres falaram dos bandos 
de mendigos que agora percorriam as freguesias.
       - Muita pobreza por aqui, muita pobreza! dizia o bom abade.  Dias, mais este bocadinho da asa!
       - Muita pobreza, mas muita preguia, considerou duramente o padre Natrio. - Em muitas fazendas sabia ele que havia falta de jornaleiros, e viam-se marmanjos, 
rijos como pinheiros, a choramingar Padre-Nossos pelas portas. - Scia de mariolas, resumiu.
       - Deixe l, padre Natrio, deixe l! disse o abade. Olhe que h pobreza deveras. Por aqui h famlias, homem, mulher e cinco filhos, que dormem no cho como 
porcos e no comem seno ervas.
       - Ento que diabo querias tu que eles comessem? exclamou o cnego Dias lambendo os dedos depois de ter esburgado a asa do capo. Querias que comessem peru? 
Cada um como quem !
       O bom abade puxou, repoltreando-se, o guardanapo para o estmago, e disse com afeto:
       - A pobreza agrada a Deus Nosso Senhor.
       - Ai filhos! acudiu o Libaninho num tom choroso, se houvesse s pobrezinhos isto era o reininho dos Cus!
       O padre Amaro considerou com gravidade:
       -  bom que haja quem tenha cabedais para legados pios, edificaes de capelas...
       - A propriedade devia estar na mo da Igreja, interrompeu Natrio com autoridade.
       O cnego Dias arrotou com estrondo e acrescentou:
       - Para o esplendor do culto e propagao da f.
       - Mas a grande causa da misria, dizia Natrio com uma voz pedante, era a grande imoralidade.
       - Ah! l isso no falemos! exclamou o abade com desgosto. Neste momento h s aqui na freguesia mais de doze raparigas solteiras grvidas! Pois senhores, 
se as chamo, se as repreendo, pem-se a fungar de riso!
       - L nos meus stios, disse o padre Brito, quando foi pela apanha da azeitona, como h falta de braos, vieram as maltas trabalhar. Pois agora o vers! Que 
desaforo! - Contou a histria das maltas, trabalhadores errantes, homens e mulheres, que andam oferecendo os braos pelas fazendas, vivem na promiscuidade e morrem 
na misria. - Era necessrio andar sempre de cajado em cima deles!
       - Ai! disse o Libaninho para os lados apertando as mos na cabea. Ai, o pecado que vai pelo mundo! At se me esto a eriar os cabelos!
       Mas a freguesia de Santa Catarina era a pior! As mulheres casadas tinham perdido todo o escrpulo.
       - Piores que cabras, dizia o padre Natrio alargando a fivela do colete.
       E o padre Brito falou dum caso na freguesia de Amor: raparigas de dezesseis e dezoito anos que costumavam reunir-se num palheiro - o palheiro do Silvrio 
- e passavam l a noite com um bando de marmanjos!
       Ento o padre Natrio, que j tinha os olhos luzidios, a lngua solta, disse repoltreando-se na cadeira e espaando as palavras:
       - Eu no sei o que se passa l na tua freguesia, Brito; mas se h alguma coisa, o exemplo vem de alto... A mim tm-me dito que tu e a mulher do regedor...
       -  mentira! exclamou o Brito, fazendo-se todo escarlate. 
       - Oh, Brito! oh, Brito! disseram em redor, repreendendo-o com bondade.
       -  mentira! berrou ele.
       - E aqui para ns, meus ricos, disse o cnego Dias baixando a voz, com o olhinho aceso numa malcia confidencial, sempre lhes digo que  uma mulher de mo-cheia!
       -  mentira! clamou o Brito. E falando de um jato: - Quem anda a espalhar isso  o morgado da Cumiada, porque o regedor no votou com ele na eleio... Mas 
to certo como eu estar aqui, quebro-lhe os ossos! - Tinha os olhos injetados, brandia o punho: - Quebro-lhe os ossos!
       - O caso no  para tanto, homem, considerou Natrio.
       - Quebro-lhe os ossos! No lhe deixo um inteiro!
       - Ai, sossega, leozinho! disse o Libaninho com ternura. No te percas, filhinho!
       Mas recordando a influncia do morgado da Cumiada, que era ento oposio e que levava duzentos votos  uma, os padres falaram de eleies e dos seus episdios. 
Todos ali, a no ser o padre Amaro, sabiam, como disse Natrio, "cozinhar um deputadozinho". Vieram anedotas; cada um celebrou as suas faanhas.
       O padre Natrio na ltima eleio tinha arranjado oitenta votos!
       - Cspite! disseram.
       - Imaginem vocs como? Com um milagre!
       - Com um milagre? repetiram espantados.
       - Sim, senhores.
       Tinha-se entendido com um missionrio, e na vspera da eleio receberam-se na freguesia cartas vindas do Cu e assinadas pela Virgem Maria, pedindo, com 
promessas de salvao e ameaas do Inferno, votos para o candidato do governo. De chupeta, hem?
       - De mo-cheia! disseram todos.
       S Amaro parecia surpreendido.
       - Homem! disse o abade com ingenuidade, disso  que eu c precisava. Eu ento tenho de andar a a estafar-me de porta em porta. - E sorrindo bondosamente: 
- Com o que se faz ainda alguma coisita  com o relaxe da cngrua!
       - E com a confisso, disse o padre Natrio. A coisa ento vai pelas mulheres, mas vai segura! Da confisso tira-se grande partido.
       O padre Amaro, que estivera calado, disse gravemente:
       - Mas enfim a confisso  um ato muito srio, e servir, assim para eleies...
       O padre Natrio, que tinha duas rosetas escarlates na face e gestos excitados, soltou uma palavra imprudente:
       - Pois o senhor toma a confisso a srio?
       Houve uma grande surpresa.
       - Se tomo a confisso a srio? gritou o padre Amaro recuando a cadeira, com os olhos arregalados.
       - Ora essa! exclamaram. Oh, Natrio! Oh, menino!
       O padre Natrio exaltado queria explicar, atenuar:
       - Escutem, criaturas de Deus! Eu no quero dizer que a confisso seja uma brincadeira! Irra! Eu no sou pedreiro-livre! O que eu quero dizer  que um meio 
de persuaso, de saber o que se passa, de dirigir o rebanho para aqui ou para ali... E quando  para o servio de Deus,  uma arma. A est o que  - a absolvio 
 uma arma!
       - Uma arma! exclamaram.
       O abade protestava, dizendo:
       - Oh, Natrio! oh, filho! isso no!
       O Libaninho tinha-se benzido; e, dizia, "tinha j um tal terror que at lhe tremiam as pernas" !
Natrio irritou-se:
       - Ento talvez me queiram dizer, gritou, que qualquer de ns, pelo fato de ser padre, porque o bispo lhe imps trs vezes as mos e porque lhe disse o accipe, 
tem misso direta de Deus, -  Deus mesmo para absolver? !
       - Decerto! exclamaram, decerto!
       E o cnego Dias disse meneando uma garfada de bages:
       - Quorum remiseris peccata, remittuntur eis.  a frmula. A frmula  tudo, menino...
       - A confisso  a essncia mesma do sacerdcio, soltou o padre Amaro com gestos escolares, fulminando Natrio. Leia Santo Incio! Leia S. Toms!
       - Anda-me com ele! gritava o Libaninho pulando na cadeira, apoiando Amaro. - Anda-me com ele, amigo proco! Salta-me no cachao do mpio!
       - Oh, senhores! berrou Natrio furioso com a contradio, o que eu quero  que me respondam a isto. E voltando-se para Amaro: - O senhor, por exemplo, que 
acaba de almoar, que comeu o seu po torrado, tomou o seu caf, fumou o seu cigarro, e que depois se vai sentar no confessionrio, s vezes preocupado com negcios 
de famlia ou com faltas de dinheiro, ou com dores de cabea, ou com dores de barriga, imagina o senhor que est ali como um Deus para absolver?
       O argumento surpreendeu.
       O cnego Dias, pousando o talher, ergueu os braos, e com uma solenidade cmica exclamou:
       - Hereticus est!  herege!
       - Hereticus est! tambm eu digo, rosnou o padre Amaro.
       Mas a  Gertrudes entrava com a larga travessa do arroz-doce.
       - No falemos nessas coisas, no falemos nessas coisas, disse logo prudentemente o abade. Vamos ao arrozinho. Gertrudes, d c a garrafinha do Porto!
       Natrio, debruado sobre a mesa, ainda arremessava argumentos a Amaro:
       - Absolver  exercer a graa. A graa s  atributo de Deus: em nenhum autor encontro que a graa seja transmissvel. Logo...
       - Ponho duas objees... gritou Amaro, com o dedo em riste, em atitude de polmica.
       - Oh filhos! oh filhos, acudiu o bom abade aflito. Deixem a sabatina, que at nem lhes sabe o arrozinho!
       Serviu o vinho do Porto, para os acalmar, enchendo os copos devagar, com as precaues clssicas:
       - Mil oitocentos e quinze! dizia. Disto no se bebe todos os dias.
       Para o saborear, depois de o fazer reluzir  luz na transparncia dos copos, repoltreavam-se nas velhas cadeiras de couro; comearam as sades! A primeira 
foi ao abade, que murmurava: - Muita honra... muita honra... Tinha os olhos chorosos de satisfao.
       - A Sua Santidade Pio IX! gritou ento o Libaninho brandindo o clice. Ao mrtir!
       Todos beberam comovidos. Libaninho entoou em voz de falsete o hino de Pio IX: o abade, prudente, f-lo calar por causa do hortelo que no quintal aparava 
o buxo.
       A sobremesa foi longa, muito saboreada. Natrio tornara-se terno, falava das suas sobrinhas, "as suas duas rosas", e citava Virglio, molhando as castanhas 
em vinho. Amaro, todo deitado para trs na cadeira, as mos nos bolsos, olhava maquinalmente as rvores do jardim, pensando vagamente em Amlia, nas suas formas; 
suspirou mesmo com um desejo dela - enquanto o padre Brito, rubro, queria convencer os republicanos a marmeleiro.
       - Viva o marmeleiro do padre Brito! gritou entusiasmado o Libaninho.
       Mas Natrio comeara a discutir com o cnego histria eclesistica: e, muito questionador, voltou aos seus argumentos vagos sobre a doutrina da Graa: afirmava 
que um assassino, um parricida poderia ser canonizado - se se tivesse revelado o estado de Graa! Divagava, com frases de escola em que se lhe pegava a lngua. Citou 
santos que tinham sido escandalosos; outros que pela sua profisso deviam ter conhecido, praticado, amado o vcio. Exclamou com as mos na cinta:
       - Santo Incio foi militar!
       - Militar? gritou o Libaninho. - E erguendo-se, correndo a Natrio, lanando-lhe um brao ao pescoo com uma ternura pueril e avinhada: - Militar? E que era 
ele? Que era ele, o meu devoto Santo Incio?
       Natrio repeliu-o:
       - Deixe-me, homem! Era sargento de caadores.
       Houve uma enorme risada.
       O Libaninho ficara exttico.
       - Sargento de caadores! dizia erguendo as mos num mpeto beato. Meu rico Santo Incio! Bendito e louvado seja ele por toda a eternidade!
       E ento o abade props que fossem tomar caf para debaixo da parreira.
       Eram trs horas. Ao erguer-se todos cambaleavam um pouco, arrotando formidavelmente, com risadas espessas; s Amaro tinha a cabea lcida, as pernas firmes 
- e sentia-se muito terno.
       - Pois agora, colegas, disse o abade sorvendo o ltimo gole de caf, o que est a calhar  um passeio  fazenda.
       - Para esmoer, rosnou o cnego erguendo-se com dificuldade. vamos l  fazenda do abade!
       Foram pelo atalho da Barroca, um caminho estreito de carros. O dia estava muito azul, dum sol tpido. A vereda seguia entre valados eriados de silvas, para 
alm as terras lisas estendiam-se cobertas de restolho; a espaos as oliveiras destacavam, com grande nitidez, na sua folhagem fina; para o horizonte arredondavam-se 
colinas cobertas da rama verde-negra dos pinheiros; havia um grande silncio; s s vezes, ao longe, num caminho, um carro chiava. E naquela serenidade da paisagem 
e da luz, os padres iam caminhando devagar, tropeando um pouco, de olho aceso, estmago enfartado, chacoteando e achando a vida boa.
       O cnego Dias e o abade, de brao dado, caturravam. O Brito, ao lado de Amaro, jurava que havia de beber o sangue ao morgado da Cumeada.
       - Prudncia, colega Brito, prudncia, dizia Amaro chupando o cigarro.
       E o Brito, com passadas de carreto, rosnava.
       - Hei-de comer-lhe os fgados.
       O Libaninho atrs, s, cantarolava em falsete:

- Passarinho trigueiro,
Salta c fora...

       Adiante de todos ia o padre Natrio: levava a capa no brao, arrastando pelo cho; a batinha desabotoada por trs deixava ver o forro imundo do colete; e 
as suas pernas escanifradas, com as meias pretas de l cheias de passagens, faziam bordos que o atiravam contra o silvado. 
       E no entanto Brito, com grandes bafos de vinho, roncava:
       - Eu s me contentava em agarrar num cajado e correr tudo! tudo! - e gesticulava com um gesto imenso que abrangia o mundo!

- Tem as asas quebradas,
No pode agora...

       Gania atrs o Libaninho.
       Mas pararam de repente: Natrio adiante gritava com voz furiosa:
       - Seu burro, voc no v? Sua besta!
       Era  volta do atalho. Tropeara com um velho que conduzia uma ovelha; ia caindo; e ameaava-o com o punho fechado numa raiva avinhada.
       - Queira vossa senhoria perdoar, dizia humildemente o homem.
       - Sua besta! berrava Natrio com os olhos chamejantes. Que o racho!
       O homem balbuciava, tinha tirado o chapu; viam-se os seus cabelos brancos; parecia ser um antigo criado da lavoura envelhecido no trabalho; era talvez av 
- e curvado, vermelho de vergonha, encolhia-se com as sebes para deixar passar no estreito caminho de carros os senhores padres joviais e excitados da vinhaa!
       Amaro no os quis acompanhar at  fazenda. Ao fim da aldeia, no cruzeiro, tomou pelo caminho de Sobros, voltou para Leiria.
       - Olhe que  uma lgua  cidade, dizia o abade. Eu mando-lhe aparelhar a gua, colega.
       - Qual histria, abade, a perninha  rija! - e, traando alegremente a capa, partiu cantarolando o Adeus...
       Ao p da Cortegassa o atalho de Sobros alarga-se, ao comprido dum muro de quinta coberto de musgos e eriada no alto de luzidios fundos de garrafas. Quando 
Amaro chegou prximo ao porto de carros, baixo e pintado de vermelho, encontrou no meio do caminho, parada, uma grande vaca malhada; Amaro divertido espicaou-a 
com o guarda-chuva; a vaca trotou balouando a papeira - e Amaro ao voltar-se viu Amlia, ao porto, que saudava, dizendo toda risonha:
       - Ento est-me a espantar o gado, senhor proco?
       -  a menina! Que milagre  este?
       Ela fez-se um pouco vermelha:
       - Vim  quinta com a D. Maria da Assuno. Vim dar uma vista de olhos  fazenda.
       Ao p de Amlia uma rapariga acamava couves numa canastra.
       - Ento esta  que  a quinta da D. Maria?
       E Amaro deu um passo para dentro do porto.
       Uma rua larga de velhos sobreiros, dando uma sombra doce, estendia-se at  casa que se entrevia no fundo, branquejando ao sol.
       - . A nossa fazenda fica do outro lado, mas entra-se tambm por aqui. V, Joana, avia-te!
       A rapariga ps a canastra  cabea, deu as boas-tardes, meteu pelo caminho de Sobros, batendo muito os quadris.
       - Sim, senhor! sim, senhor! Parece uma boa propriedade, considerava o proco.
       - Venha ver a nossa fazenda! disse Amlia.  uma migalhinha de terra, mais para fazer uma idia. Vai-se por aqui mesmo... Olhe, vamos ter l baixo com a D. 
Maria, quer?
       - Valeu. Vamos l  D. Maria, disse Amaro.
       Foram subindo a rua dos sobreiros, calados. O cho estava cheio de folhas secas, e, entre os troncos espaados, moutas de hortnsias pendiam abatidas, amareladas 
dos chuveiros; ao fundo a casa baixa, velha, de um andar s, assentava pesadamente. Ao longo da parede grandes abboras amadureciam ao sol, e no telhado, todo negro 
do Inverno, esvoaavam pombos. Por trs o laranjal formava uma massa de folhagens verde- escuras; uma nora chiava monotonamente.
       Um rapazinho passou com um balde de lavagem.
       - Para onde foi a senhora, Joo? perguntou Amlia.
       - Foi pro olival, disse o rapaz com a sua vozinha arrastada. O olival era longe, no fundo da quinta: havia ainda grandes lamas, no se podia ir l sem tamancos.
       - Vai-se a gente sujar toda, disse Amlia. Deixar l a D. Maria, hem? Vamos ns ver a quinta... Por aqui, senhor proco...
       Estavam defronte dum velho muro onde cresciam clematites. Amlia abriu uma porta verde; e por trs degraus de pedra desconjuntados desceram a uma rua toldada 
por uma larga parreira. Junto do muro cresciam rosas de todo o ano; do outro lado, por entre os pilares de pedra que sustentavam a latada e os ps torcidos das cepas, 
via-se, batido de luz, com tons amarelados, um grande campo de erva; os tetos baixos do curral coberto de colmo destacavam ao longe em escuro, e desse lado um fumozinho 
leve e branco perdia-se no ar muito azul.
       Amlia a cada momento parava, explicava a quinta. - Ali ia semear- se cevada; alm havia de ver o cebolinho, estava muito bonito...
       - Ah! a D. Maria da Assuno traz isto muito bem tratado!
       Amaro ouvia-a falar, com a cabea baixa, olhando-a de lado; a sua voz naquele silncio dos campos parecia-lhe mais rica, mais doce; o grande ar dava-lhe uma 
cor mais picante s faces; o seu olhar rebrilhava. Para saltar umas lamas tinha apanhado o vestido; e a brancura da meia, que ele entreviu, perturbou-o como um comeo 
da sua nudez.
       Ao fundo da parreira atravessaram um campo ao comprido dum regueiro. Amlia riu muito do proco, que tinha medo dos sapos. Ele ento exagerou os seus sustos. 
 menina Amlia, haveria vboras? Ele roava-se por ela, afastando-se das ervas altas.
       - V aquele valado? Pois para o lado de l  a nossa fazenda. Entra- se pela cancela, v? Mas veja l se est cansado! Que o senhor parece-me que no  grande 
caminhador... Ai, um sapo!
       Amaro deu um pulinho, tocou-lhe o ombro. Ela empurrou-o docemente, e com um riso clido:
       - Seu medroso! seu medroso!
       Estava toda contente, toda viva. Falava na sua fazenda com uma vaidadezinha, satisfeita de entender da lavoura, de ser proprietria. - A cancela est fechada, 
parece - disse Amaro.
       - Est, fez ela. - Apanhou as saias, deu uma carreirinha. Estava fechada! Que pena! E abalava, impaciente, as grades estreitas, entre as duas fortes ombreiras 
de madeira encravadas na espessura do silvado.
       - Foi o caseiro que levou a chave!
       Agachou-se, gritou para o lado do campo, arrastando muito tempo a voz: - Antnio! Antnio!
       Ningum respondeu.
       - Anda l para o fundo da quinta! disse ela. Que seca! Se o senhor proco quisesse, aqui adiante pode-se passar. H uma abertura no valado, chamam-lhe o salto 
da cabra. Pode a gente saltar para o outro lado.
       E caminhando rente ao silvado, chapinhando a lama, toda alegre:
       - Quando eu era pequena nunca passava pela cancela! Saltava sempre por ali. E cada trambolho, quando o cho estava resvaladio com a chuva! Era um vivo demnio, 
aqui onde me v! Ningum h-de dizer, senhor proco, hem? Ai! vou-me a fazer velha! - E voltando-se para ele, com um risinho onde luzia o esmalte dos dentes:
       - No  verdade? Estou-me a fazer velha, hem?
       Ele sorria. Custava-lhe falar. O sol, batendo-lhe nas costas, depois do vinho do abade, amolecia-o: e a figura dela, os seus ombros, os seus encontros davam-lhe 
um desejo contnuo e intenso.
       - Aqui est o salto da cabra, disse Amlia parando.
       Era uma abertura estreita no valado: a terra do outro lado, mais baixa, estava toda lamacenta. Via-se dali a fazenda da S. Joaneira: o campo plano estendia-se 
at um olival, com a erva fina muito estrelada de pequenos malmequeres brancos; uma vaca preta, de grandes malhas, pastava; e para alm viam-se tetos aguados dos 
casais, onde voavam revoadas de pardais.
       - E agora? perguntou Amaro.
       - Agora saltar, disse ela rindo.
       - C vai! exclamou ele.
       Traou a capa, saltou: mas escorregou nas ervas midas, - e imediatamente Amlia, debruando-se, rindo muito, com grandes acenos de mos:
       - E agora adeus, senhor proco, que eu vou ter com a D. Maria. A fica preso na fazenda. Para cima no pode o senhor pular, pela cancela no pode o senhor 
passar!  o senhor proco que est preso...
       -  menina Amlia!  menina Amlia!
       Ela cantarolava-lhe, escarnecendo:

Fico sozinha  varanda,
Que o meu bem est na priso!

       Aquelas maneirinhas excitavam o padre - e com os braos erguidos, a voz clida:
       - Salte, salte!
       Ela ento fez voz de mimo:
       - Ai, tenho medinho! tenho medinho...
       - Salte, menina!
       - L vai! gritou ela bruscamente.
       Saltou, foi cair-lhe sobre o peito com um gritinho. Amaro resvalou, firmou-se - e sentindo entre os braos o corpo dela, apertou-a brutalmente e beijou-a 
com furor no pescoo
       Amlia desprendeu-se, ficou diante dele, sufocada, com a face em brasa, compondo na cabea e em roda do pescoo, com as mos trmulas, as pregas da manta 
de l. Amaro disse-lhe:
       - Ameliazinha!
       Mas ela de repente apanhou os vestidos, correu ao comprido do valado. Amaro, com grandes passadas, seguiu-a atarantado. Quando chegou  cancela, Amlia falava 
ao caseiro, que aparecia com a chave.
       Atravessaram o campo junto ao regueiro, depois a rua coberta com a parreira. Amlia adiante palrava com o caseiro; e atrs Amaro, de cabea baixa, seguia 
muito murcho. Ao p da casa Amlia parou, fazendo-se vermelha, compondo sempre a manta em redor do pescoo:
       -  Antnio, disse, ensine o porto ao senhor proco. Muito boas tardes, senhor proco.
       E atravs das terras midas correu para o fundo da quinta, para os lados do olival.
       A Sra. D. Maria da Assuno ainda l estava, sentada numa pedra, tagarelando com o tio Patrcio; um bando de mulheres, com grandes varas, batiam em redor 
a ramagem das oliveiras.
       - Que  isso, tonta? De onde vens tu a correr, rapariga? Credo! que doida!
       - Vim a correr, disse ela toda vermelha, sufocada.
       Sentou-se ao p da velha; e ficou imvel, com as mos cadas no regao, respirando fortemente, os beios entreabertos, os olhos fixos numa abstrao. Todo 
o seu ser se abismava numa s sensao:
       - Gosta de mim! Gosta de mim!

***

       Estava h muito namorada do padre Amaro - e s vezes, s, no seu quarto, desesperava-se por imaginar que ele no percebia nos seus olhos a confisso do seu 
amor! Desde os primeiros dias, apenas o ouvia pela manh pedir de baixo o almoo, sentia uma alegria penetrar todo o seu ser sem razo, punha-se a cantarolar com 
uma volubilidade de pssaro. Depois via-o um pouco triste. Por qu? No conhecia o seu passado; e lembrada do frade de vora, pensou que ele se fizera padre por 
um desgosto de amor. Idealizou-o ento: supunha-lhe uma natureza muito terna, parecia- lhe que da sua pessoa airosa e plida se desprendia uma fascinao. Desejou 
t-lo por confessor: como seria estar ajoelhada aos ps dele, no confessionrio, vendo de perto os seus olhos negros, sentindo a sua voz suave falar do Paraso! 
Gostava muito da frescura da sua boca; fazia-se plida  idia de o poder abraar na sua longa batina preta! Quando Amaro saa, ia ao quarto dele, beijava a travesseirinha, 
guardava os cabelos curtos que tinham ficado nos dentes do pente. As faces abrasavam-se-lhe quando o ouvia tocar a campainha.
       Se Amaro jantava fora com o cnego Dias, estava todo o dia impertinente, ralhava com a Rua, s vezes mesmo dizia mal dele, "que era casmurro, que era to 
novo que nem inspirava respeito". Quando ele falava de alguma nova confessada, amuava, com cime pueril. A sua antiga devoo renascia, cheia de um fervor sentimental: 
sentia um vago amor fsico pela Igreja; desejaria abraar, com pequeninos beijos demorados, o altar, o rgo, o missal, os santos, o Cu, porque no os distinguia 
bem de Amaro, e pareciam-lhe dependncias da sua pessoa. Lia o seu livro de missa pensando nele como no seu Deus particular. E Amaro no sabia, quando passeava agitado 
pelo quarto, que ela em cima o escutava, regulando as palpitaes do seu corao pelas passadas dele, abraando o travesseiro, toda desfalecida de desejos, dando 
beijos no ar, onde se lhe representavam os lbios do proco!

***

       A tarde caa quando D. Maria e Amlia voltaram para a cidade. Amlia adiante, calada, chibatava a sua burrinha, enquanto D. Maria da Assuno vinha palrando 
com o moo da quinta, que segurava a arreata. Ao passarem junto  S tocou a Ave-Maria. E Amlia, rezando, no podia destacar os olhos das cantarias da igreja to 
grandiosamente erguidas, decerto para que ele ali celebrasse! Lembravam-lhe ento domingos em que o vira, ao repicar dos sinos, dar a bno dos degraus do altar-mor: 
e todos se curvavam, mesmo as senhoras do morgado Carreiro, mesmo a Sra. baronesa da Via-Clara e a mulher do governador civil, to orgulhosa com o seu nariz de cavalete! 
Dobravam-se sob os seus dedos erguidos, e achavam decerto tambm bonitos os seus olhos negros! E era ele que a tinha apertado nos braos, ao p do valado! Sentia 
ainda no pescoo a presso clida dos seus beios: uma paixo flamejou como uma chama por todo o seu ser: largou a arreata do burrinho, apertou as mos contra o 
peito, e cerrando os olhos, lanando toda a sua alma numa devoo:
       - Oh, Nossa Senhora das Dores, minha madrinha, faz que ele goste de mim!
       No adro lajeado cnegos passeavam, conversando. A botica defronte j tinha luz, os bocais reluziam; e por detrs da balana a figura do farmacutico Carlos, 
com o seu bon bordado a mianga, movia-se majestosamente.


VIII


       O padre Amaro voltara para casa aterrado.
       - E agora? e agora? dizia ele, encostado ao canto da janela, sentindo o corao encolhido.
       Devia sair imediatamente da casa da S. Joaneira! No podia continuar ali, na mesma familiaridade, depois de ter tido "aquele atrevimento com a pequena".
       Que ela no ficara muito indignada -. apenas atordoada; contivera-a talvez o respeito eclesistico, a delicadeza para com o hspede, a ateno para com o 
amigo do cnego. Mas podia contar  me, ao escrevente... Que escndalo! E via o senhor chantre, traando a perna e fitando-o, - que era a sua atitude de repreenso 
- dizer-lhe com pompa: - "So esses desregramentos que desonram o sacerdcio. No se comportaria de outro modo um Stiro no monte Olimpo!" - Poderiam desterr-lo 
outra vez para alguma freguesia da serra!... Que diria a Sra. condessa de Ribamar?
       E depois, se persistisse em v-la na intimidade, ter constantemente presentes aqueles olhos negros, o sorriso clido que lhe fazia uma covinha no queixo, 
a curva daquele peito - a sua paixo, crescendo surdamente, irritada a toda a hora, recalcada para dentro, torn-lo-ia doido, "podia fazer alguma asneira"!
       Decidiu-se ento a ir falar ao cnego Dias: a sua natureza fraca necessitava sempre receber foras duma razo, duma experincia alheia: costumava consultar 
ordinariamente o cnego que, pelo hbito da disciplina eclesistica, ele julgava mais inteligente por ser seu superior na hierarquia; e no perdera, desde o seminrio, 
a sua dependncia de discpulo. Depois, se quisesse arranjar uma casa e uma criada para ir viver s, necessitava o auxlio do cnego, que conhecia Leiria como se 
a tivesse edificado.
       Encontrou-o na sala de jantar. O candeeiro de azeite esmorecia com um morro avermelhado. Os ties da braseira, cobertos duma pulverizao de cinza, revermelhavam 
vagamente. E o cnego, sentado numa cadeira de braos, com o capote pelos ombros, os ps embrulhados num cobertor, amodorrado no calor do lume, com o Brevirio sobre 
os joelhos, dormitava. Na dobra do cobertor, a Trigueira estirada dormitava como ele.
       Aos passos de Amaro o cnego abriu muito devagar os olhos, rosnou:
       - Ia adormecendo, hem!
       -  cedo, disse o padre Amaro. Ainda no tocou a recolher. Ento que preguia  essa?
       - Ah!  voc? disse o cnego com um enorme bocejo. Cheguei tarde de casa do abade, tomei uma gota de ch, veio o quebranto... Ento que  feito?
       - Vim por aqui.
       - Pois o abade deu-nos um rico jantar. A cabidela estava de mo- cheia! Eu carreguei-me um bocado, disse o cnego rufando com os dedos na capa do Brevirio.
       Amaro, sentado ao p dele, remexia devagar o brasido:
       - Sabe voc, padre-mestre? disse ele de repente. Ia acrescentar: - Aconteceu-me um caso! - Mas reteve-se, murmurou: - Estou hoje esquisito; tenho andado ultimamente 
fora dos eixos...
       - Voc, com efeito, anda amarelo, disse o cnego, considerando-o. Purgue-se, homem!
       Amaro esteve um momento calado, a olhar o lume.
       - Sabe? estou com idia de mudar de casa.
       O cnego ergueu a cabea, arregalou os olhinhos sonolentos:
       - Mudar de casa! Ora essa! por qu?
       O padre Amaro chegou a cadeira para ele, e falando baixo:
       - Voc percebe... Tenho estado a pensar,  assim esquisito estar em casa de duas mulheres, com uma rapariga...
       - Ora, histrias! Que me vem voc contar? Voc  hspede... Deixe- se disso, homem!  como quem est na hospedaria.
       - No, no, padre-mestre, eu c me entendo...
       E suspirou; desejava que o cnego o interrogasse, facilitasse as confidncias.
       - Ento s hoje  que pensa nisso, Amaro?!
       -  verdade, tenho estado a pensar hoje nisto. Tenho as minhas razes. - Ia a dizer: - Fiz uma tolice, - mas acanhou-se.
       O cnego olhou para ele um momento:
       - Homem! seja franco!
       - Sou.
       - Voc acha aquilo caro?
       - No! disse o outro com uma negao impaciente.
       - Bem, ento  outra coisa...
       - . Voc que quer? - E num tom magano, com que julgou agradar ao cnego: - A gente tambm gosta do que  bom...
       - Bem, bem, disse o cnego rindo, percebo. Voc, como eu sou amigo da casa, quer-me dizer por bons modos que tem nojo de tudo aquilo!
       - Tolice! disse Amaro, erguendo-se, irritado de tanta obtusidade.
       - Oh, homem! exclamou o cnego abrindo os braos. Voc quer sair da casa? Por alguma ! Ora a mim parece-me que melhor...
       -  verdade,  verdade, dizia Amaro que dava agora grandes passadas pela sala. Mas estou com esta ferrada! Veja voc se me arranja uma casita barata com alguma 
moblia... Voc entende melhor dessas coisas...
       O cnego ficou calado, muito enterrado na poltrona, coando devagar o queixo.
       - Uma casita barata, rosnou por fim. Eu verei, eu verei... talvez.
       - Voc compreende, acudiu vivamente Amaro, chegando-se ao cnego. A casa da S. Joaneira...
       Mas a porta rangeu, D. Josefa Dias entrou: e depois de conversarem sobre o jantar do abade, o catarro da pobre D. Maria da Assuno, a doena de fgado que 
ia minando o engraado cnego Sanches - Amaro saiu, quase contente agora de se no "ter desabotoado com o padre-mestre".
       O cnego ficou ainda ao p do lume, ruminando. Aquela resoluo de Amaro de deixar a casa da S. Joaneira era bem-vinda: quando ele o trouxera de hspede para 
a Rua da Misericrdia, combinara com a S. Joaneira diminuir-lhe a mesada que havia anos lhe dava, regularmente, no dia 30. Mas arrependeu-se logo: a S. Joaneira, 
se no tinha hspede, dormia s no primeiro andar: o cnego podia ento saborear livremente os carinhos da sua velhota;- e Amlia na sua alcova, em cima, era alheia 
a este "conchegozinho". Quando veio o padre Amaro, a S. Joaneira cedeu-lhe o quarto, e dormia numa cama de ferro ao p da filha: e o cnego ento reconheceu, como 
ele disse, desconsolado - "que aquele arranjo tinha estragado tudo". Para gozar as douras da sesta com a sua S. Joaneira, era necessrio que Amlia jantasse fora, 
que a Rua estivesse na fonte, outras combinaes importunas: e ele, cnego do cabido, na egosta velhice, quando precisava ter recato com a sua sade, via-se obrigado 
a esperar, a espreitar, a ter nos seus prazeres regulares e higinicos as dificuldades dum colegial que ama a senhora professora. Ora se Amaro sasse, a S. Joaneira 
descia ao seu quarto, no primeiro andar; vinham as antigas comodidades, as tranqilas sestas.  verdade que tinha de dar a antiga mesada... Daria a mesada!
       - Que diabo! ao menos est um homem  sua vontade, resumiu ele.
       - Que est para a o mano a falar s? perguntou a Sra. D. Josefa, despertando do quebranto em que ia caindo, ao p do lume.
       - Estava c a ma1ucar como hei-de castigar a carne na quaresma - disse o cnego com um riso grosso.

***

       A essa hora a Rua chamava o padre Amaro para o ch: e ele subia devagar, com o corao pequenino, receando encontrar a S. Joaneira muito carrancuda, j informada 
do insulto. Achou s Amlia - que tendo-lhe sentido os passos na escada tomara rapidamente a costura, e, com a cabea muito baixa, dava grandes agulhadas, vermelha 
como o leno que abainhava para o cnego.
       - Muito boa noite, menina Amlia.
       - Muito boa noite, senhor proco.
       Amlia costumava sempre ter um ol! ou um ora viva! muito amvel; aquela secura aterrou-o; disse-lhe logo muito perturbado:
       - Menina Amlia, eu peo-lhe que me perdoe... Foi um atrevimento... Eu nem soube o que fiz... Mas acredite... Estou resolvido a sair daqui. At j pedi ao 
Sr, cnego Dias que me arranjasse casa...
       Falava com o rosto baixo - e no via Amlia erguer os olhos para ele, surpreendida e toda desconsolada.
       Neste momento a S. Joaneira entrou, e logo da porta, abrindo os braos:
       - Viva! Ento j sei, j sei! Disse-me o Sr. padre Natrio: grande jantar! Conte l, conte l!
       Amaro teve de dizer os pratos, as pilhrias do Libaninho, a discusso teolgica; depois falaram da fazenda: e Amaro desceu, sem se ter atrevido a dizer  
S. Joaneira que ia deixar a casa, - o que era, coitada, para a pobre mulher, uma perda de seis tostes por dial
Na manh seguinte o cnego foi a casa de Amaro, pela manh, antes de ir ao coro. O proco fazia a barba  janela:
       - O1, padre-mestre! Que h de novo?
       - Parece-me que se arranja a coisa! E foi por acaso, esta manh... H uma casita l para os meus lados, que  um achado. Era do major Nunes, que vai mudado 
para o 5.
       Aquela precipitao desagradou a Amaro: perguntou, dando desconsoladamente o fio  navalha:
       - Tem moblia?
       - Tem moblia, tem louas, tem roupas, tem tudo.
       - Ento...
       - Ento  entrar e comear a gozar. E aqui para ns, Amaro, voc tem razo. Estive a pensar no caso...  melhor para voc viver s. De modo que vista-se, 
e vamos ver a casita.
       Amaro, calado, rapava a cara com desespero.
       A casa era na Rua das Sousas, de um andar, muito velha, com a madeira carunchosa: a moblia, como disse o cnego, "podia passar a veteranos"; algumas litografias 
desbotadas pendiam lugubremente de grandes pregos negros; e o imundo major Nunes deixara os vidros quebrados, os soalhos todos escarrados, as paredes riscadas de 
fsforos, e at sobre um poial da janela duas pegas quase negras.
Amaro aceitou a casa. E nessa mesma manh o cnego ajustou-lhe uma criada, a Sra. Maria Vicncia, pessoa muito devota, alta e magra como um pinheiro, antiga cozinheira 
do doutor Godinho. E (como considerou o cnego Dias) era a prpria irm da famosa Dionsia!
       A Dionsia fora outrora a Dama das Camlias, a Ninon de Lenclos, a Manon de Leiria: gozara a honra de ser concubina de dois governadores civis e do terrvel 
morgado da Sertejeira; e as paixes frenticas que inspirara tinham sido para quase todas as mes de famlia de Leiria causa de lgrimas e de fanicos. Agora engomava 
para fora, encarregava-se de empenhar objetos, entendia muito de partos, protegia "o rico adulteriozinho" segundo a singular expresso do velho D. Lus da Barrosa, 
cognominado o infame, fornecia lavradeirinhas aos senhores empregados pblicos, sabia toda a histria amorosa do distrito. E via-se sempre na rua a Dionsia com 
o seu xale de xadrez traado, o pesado seio tremendo dentro dum chambre sujo, o passinho discreto e os antigos sorrisos - mas a que faltavam j os dois dentes de 
diante.
       O cnego logo nessa tarde deu parte  S. Joaneira da resoluo de Amaro. Foi um grande espanto para a excelente senhora! Queixou-se, com amargura, da ingratido 
do senhor proco.
       O cnego tossiu grosso e disse:
       - Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. E eu lhe digo por qu:  que este arranjo do quarto em cima, etc., est-me a arrasar a sade.
       Deu outras razes de prudncia higinica, e acrescentou passando-lhe com bondade os dedos pelo pescoo:
       - E o que  perder a convenincia, no se aflija a senhora! Eu darei para a panela como dantes; e como a colheita foi boa porei mais meia moeda para os arrebiques 
da pequena. Ora venha de l uma beijoca, Augustinha, sua brejeira! E oua, como-lhe c as sopas.
       Amaro no entanto embaixo ia emalando a sua roupa. Mas a cada momento parava, dava um ai triste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama fofa, a mesa com 
a sua toalha branca, a larga cadeira forrada de chita onde ele lia o Brevirio, ouvindo, por cima, cantarolar Amlia.
       - Nunca mais! pensava. Nunca mais!
       Adeus as boas manhs passadas ao p dela, vendo-a costurar! Adeus as alegres sobremesas, que se prolongavam  luz do candeeiro! Adeus os chs, ao p da braseira, 
quando o vento uivava fora e cantavam as frias goteiras! Tudo tinha acabado!
       A S. Joaneira e o cnego apareceram ento  porta do quarto. O cnego resplandecia; e a S. Joaneira disse, muito magoada:
       - J sei, j sei, seu ingrato!
       -  verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo os ombros tristemente. Mas h razes... Eu sinto...
       - Olhe, senhor proco, disse a S. Joaneira, no se ofenda com o que lhe vou dizer, mas eu j lhe queria como filho... e levou o leno aos olhos.
       - Tolices, exclamou o cnego. Pois ento ele no pode vir aqui em amizade, passar as noites para o cavaco, tomar o seu caf?... O homem no vai para o Brasil, 
senhora!
       - Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, mas sempre era t-lo de portas adentro!
       Enfim, ela bem sabia que a gente na sua casa est muito melhor... Fez-lhe ento grandes recomendaes sobre a lavadeira, que mandasse buscar o que quisesse, 
louas, lenis...
       - E veja l, no lhe esquea alguma coisa, senhor proco!
       - Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado.
       E continuando a arrumar a sua roupa, o proco desesperava-se agora contra a resoluo que tomara. A pequena evidentemente no tinha aberto bico! Para que 
sairia ento daquela casa to barata, to confortvel, to amiga? E odiava o cnego pelo seu zelo to precipitado.
       O jantar foi triste. Amlia, decerto para explicar a sua palidez, queixava-se de dores na cabea. Ao caf o cnego quis a sua "dose de msica"; e Amlia, 
ou maquinalmente ou com inteno, disse a cano querida:

Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado!
Soa a hora, o momento fadado.
 foroso deixar-te e partir!

       Ento, quela chorosa melodia repassada das tristezas da separao, Amaro sentiu-se to perturbado que teve de se erguer bruscamente, ir encostar o rosto 
 vidraa, esconder as duas lgrimas que irreprimivelmente lhe saltavam das plpebras. Os dedos de Amlia embrulhavam-se tambm no teclado; at a mesma S. Joaneira 
disse:
       - Oh! filha, toca outra coisa, credo!
       Mas o cnego, erguendo-se pesadamente:
       - Pois senhores, vo sendo horas. Vamos l, Amaro. Eu vou consigo at a Rua das Sousas...
       Amaro ento quis dizer adeus  idiota; mas depois de um forte acesso de tosse, a velha dormia, muito fraca.
       - Deix-la sossegada, disse Amaro. E apertando a mo  S. Joaneira: - Muito obrigado por tudo, minha senhora, acredite...
       Calou-se, com um soluo na garganta.
       A S. Joaneira tinha levado aos olhos a ponta do seu avental branco.
       - Oh, senhora! disse o cnego rindo-se, j h bocado lhe disse, o homem no vai para as ndias!
       - A gente  pela amizade que lhes ganha, choramingou a S. Joaneira.
       Amaro tentou gracejar. Amlia, muito branca, mordia o beicinho.
       Enfim Amaro desceu: e o Joo Ruo, que na sua chegada a Leiria lhe trouxera o ba para a Rua da Misericrdia, muito bbedo, cantarolando o Bendito, - levava-lho 
agora para a Rua das Sousas, bbedo tambm, mas trauteando o Rei-chegou.

***

       Quando Amaro, nessa noite, se viu s naquela casa tristonha, sentiu uma melancolia to pungente e um tdio to negro da vida, que, com a sua natureza lassa, 
teve vontade de se encolher a um canto e ficar ali a morrer!
       Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em redor: a cama era de ferro, pequena, com um colcho duro e uma coberta vermelha; o espelho com o ao gasto luzia 
sobre a mesa; como no havia lavatrio, a bacia e o jarro, com um bocadinho de sabonete, estavam sobre o poial da janela; tudo ali cheirava a mofo; e fora, na rua 
negra, caia sem cessar a chuva triste. Que existncia! E seria sempre assim!...
       Desesperou-se ento contra Amlia: acusou-a, com o punho fechado, das comodidades que perdera, da falta de moblia, da despesa que ia ter, da solido que 
o regelava! Se fosse mulher de corao devia ter vindo ao seu quarto, dizer-lhe: Sr. padre Amaro, para que sai de casa? Eu no estou zangada! - Porque enfim quem 
irritara o seu desejo? Ela, com as suas maneirinhas temas, os seus olhinhos adocicados! Mas no, deixara-o ema. lar a roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, 
indo tocar com estrondo a valsa do Beijo!
       Jurou ento no voltar a casa da S. Joaneira. E, a grandes passadas pelo quarto, pensava - no que havia de fazer para humilhar Amlia. Q qu? Desprez-la 
como uma cadela! Ganhar influncia na sociedade devota de Leiria, ser muito do senhor chantre: afastar da Rua da Misericrdia o cnego e as Gansosos; intrigar com 
as senhoras da boa roda para que se afastassem dela, com secura, no altar-mor,  missa do domingo; dar a entender que a me era uma prostituta... Enterr-la! cobri-la 
de lama! E na S, ao sair da missa, regalar-se de a ver passar encolhida no seu mantelete preto, escorraada de todos, enquanto ele,  porta, de propsito, conversaria 
com a mulher do governador civil e seria galante com a baronesa de Via-Clara!... Depois pregaria um grande sermo, na quaresma, e ela ouviria dizer, na arcada, nas 
lojas: "Grande homem, o padre Amaro!". Tornar-se-ia ambicioso, intrigaria, e, protegido pela Sra. condessa de Ribamar, subiria nas dignidades eclesisticas: o que 
pensaria ela quando o visse um dia bispo de Leiria, plido e interessante na sua mitra toda dourada, passando, seguido dos incensadores, ao longo da nave da S, 
entre um povo ajoelhado e penitente, sob os roucos cantos do rgo? E ela o que seria ento? Uma magra criatura murcha, embrulhada num xale barato! E o Sr. Joo 
Eduardo, o escolhido de agora, o esposo? Seria um pobre amanuense mal pago, com uma quinzena roada, os dedos queimados do cigarro, curvado sobre o seu papel almao, 
imperceptvel na terra, adulando alto e invejando baixo! E ele, bispo, na vasta escadaria hierrquica que sobe at ao Cu, estaria j muito para cima dos homens, 
na zona de luz que faz a face de Deus-Padre! - E seria par do reino, e os padres da sua diocese tremeriam de o ver franzir a testa!
       Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.
       Que faria ela quela hora? pensava. Costurava decerto, na sala de jantar: estava o escrevente: jogavam a bisca, riam - ela roava-lhe talvez com o p, no 
escuro, debaixo da mesa. Recordou o seu p, o bocadinho da meia que vira quando ela saltava as lamas na quinta, e essa curiosidade inflamada subia pela curva da 
perna at ao seio, percorrendo belezas que suspeitava... O que ele gostava daquela maldita! E era impossvel obt-la! E todo o homem feio e estpido podia ir  Rua 
da Misericrdia, pedi-la  me, vir  S dizer-lhe: "Senhor proco, case-me com esta mulher", e beijar, sob a proteo da Igreja e do Estado, aqueles braos e aquele 
peito! Ele no. Era padre! Fora aquela infernal pega da marquesa de Alegros!...
       Abominava ento todo o mundo secular - por lhe ter perdido para sempre os privilgios: e como o sacerdcio o exclua da participao nos prazeres humanos 
e sociais, refugiava-se, em compensao, na idia da superioridade espiritual que lhe dava sobre os homens. Aquele miservel escrevente podia casar e possuir a rapariga 
- mas que era ele em comparao dum proco a quem Deus conferia o poder supremo de distribuir o Cu e o Inferno?... - E repastava-se deste sentimento, enchendo o 
esprito de orgulhos sacerdotais. Mas vinha-lhe bem depressa a desconsoladora idia que esse domnio s era vlido na regio abstrata das almas; nunca o poderia 
manifestar, por atos triunfantes, em plena sociedade. Era um Deus dentro da S - mas apenas saia para o largo, era apenas um plebeu obscuro. Um mundo irreligioso 
reduzira toda a ao sacerdotal a uma mesquinha influncia sobre almas de beatas... E era isto que lamentava, esta diminuio social da Igreja, esta mutilao do 
poder eclesistico, limitado ao espiritual, sem direito sobre o corpo, a vida e a riqueza dos homens... O que lhe faltava era a autoridade dos tempos em que a Igreja 
era a nao e o proco dono temporal do rebanho. Que lhe importava, no seu caso, o direito mstico de abrir ou fechar as portas do Cu? O que ele queria era o velho 
direito de abrir ou fechar a porta das masmorras! Necessitava que os escreventes e as Amlias tremessem da sombra da sua batina... Desejaria ser um sacerdote da 
antiga Igreja, gozar das vantagens que d a denncia e dos terrores que inspira o carrasco, e ali naquela vila, sob a jurisdio da sua S, fazer estremecer,  idia 
de castigos torturantes, aqueles que aspirassem a realizar felicidades - que lhe eram a ele interditas; e pensando em Joo Eduardo e em Amlia; lamentava no poder 
acender as fogueiras da Inquisio! - Assim aquele inofensivo moo tinha durante horas, sob a excitao colrica duma paixo contrariada, ambies grandiosas de 
tirania catlica: - porque todo o padre, o mais boal, tem um momento em que  penetrado pelo espirito da Igreja ou nos seus lances de renunciamento mstico ou nas 
suas ambies de dominao universal: todo o subdicono se julga uma hora capaz de ser santo ou de ser papa: no h seminarista que no tenha, durante um instante, 
aspirado com ternura  caverna no deserto em que S. Jernimo, olhando o cu estrelado, sentia descer-lhe sobre o peito a Graa, como um abundante rio de leite: e 
o abade panudo que  tardinha,  varanda, palita o dente furado saboreando o seu caf com um ar paterno, traz dentro em si os indistintos restos dum Torquemada.


IX


       A vida de Amaro tornou-se montona. Maro ia muito molhado, muito frio; e depois do servio na S, Amaro entrava em casa, tirava as botas enlameadas, ficava 
em chinelas a aborrecer-se. s trs horas jantava; e nunca levantava a tampa rachada da terrina sem se lembrar, com uma saudade pungente, do jantarinho na Rua da 
Misericrdia, quando Amlia, com o seu colar muito branco, lhe passava a sopa de gros-de-bico, sorrindo, toda carinhosa. Ao lado a Vicncia servia, tesa e enorme, 
com o seu corpo de soldado vestido de saias, sempre constipada; e de vez em quando, desviando a cabea, assoava-se ao avental com rudo. Era muito suja: as facas 
tinham o cabo mido da gua gordurosa das lavagens. Amaro, desgostoso e indiferente, no se queixava; comia mal,  pressa; mandava vir o caf, e ficava horas esquecidas 
sentado  mesa, quebrando a cinza do cigarro na borda do prato, perdido num tdio mudo, sentindo os ps e os joelhos frios do vento que entrava pelas frinchas da 
sala desabrigada.
s vezes o coadjutor, que nunca o visitara na Rua da Misericrdia, aparecia ao fim do jantar: sentava-se arredado da mesa, e ficava calado com o seu guarda-chuva 
entre os joelhos. Depois, julgando agradar ao proco, repetia, invariavelmente:
       - Vossa senhoria aqui est melhor, sempre  estar em sua casa.
       - Est claro, rosnava Amaro.
       Ao princpio, para consolar o seu despeito, dizia ligeiramente mal da S. Joaneira, provocando, animando o coadjutor (que era de Leiria) a contar os escndalos 
da Rua da Misericrdia. O coadjutor, por servilismo, tinha sorrisos mudos, repassados de perfdia.
       - Ali h podres, hem? dizia o proco.
       O outro encolhia os ombros, com as mos muito espalmadas ao p das orelhas, numa expresso de malcia; mas no pronunciava um som, receando que as suas palavras, 
repetidas, escandalizassem o senhor cnego. Ficavam ento soturnos, trocando, a espaos, frases moles; um batizado que havia; o que dissera o cnego Campos; um frontal 
do altar que era necessrio limpar. Aquela conversa enfastiava Amaro: sentia-se muito pouco padre, muito distante da panelinha eclesistica: no o interessavam as 
intriguinhas do cabido, as parcialidades to comentadas do senhor chantre, os roubos da Misericrdia, as turras da cmara eclesistica com o governo civil; e achava-se 
sempre alheio, mal informado, nas palestras eclesisticas em que to femininamente se deleitam os padres, e que tm a puerilidade duma caturrice e a tortuosidade 
duma conspirao.
       - O vento est sul? perguntava ele enfim, bocejando.
       - Sempre! respondia o coadjutor.
       Acendia-se a luz; o coadjutor erguia-se, sacudia o guarda-chuva, e saa com um olhar de revs  Vicncia.
Era aquela a pior hora, a da noite, quando ficava s. Procurava ler, mas os livros enfastiavam-no; desabituado da leitura no compreendia "o sentido". Ia olhar  
vidraa: a noite estava tenebrosa, o lajedo reluzia vagamente. Quando acabaria aquela vida? Acendia o cigarro, e do lavatrio para a janela recomeava os seus passeios, 
com as mos atrs das costas. Deitava-se sem rezar s vezes; e no tinha escrpulos: julgava que ter renunciado a Amlia era j uma penitncia, no necessitava cansar-se 
a ler oraes no livro; celebrara o "seu sacrifcio" - sentia-se vagamente quite com o Cu!
       E continuava a viver s: o cnego nunca vinha  Rua das Sousas, "porque, dizia, era casa que s o entrar nela at se lhe agoniava o estmago". E Amaro, cada 
dia mais amuado, no voltara a casa da S. Joaneira. Escandalizara-se muito que ela no lhe tivesse mandado pedir para ir s partidas da sexta-feira; atribura "a 
desfeita"  hostilidade de Amlia; e, mesmo para a no ver, trocara com o padre Silveira a missa do meio-dia onde ela costumava ir, e dizia a das nove horas, furioso 
com aquele novo sacrifcio!

***

       Todas as noites Amlia, ao ouvir tocar a campainha, tinha uma palpitao to forte no corao que ficava como sufocada um momento. Depois os botins de Joo 
Eduardo rangiam na escada, ou ela conhecia os passos fofos das galochas das Gansosos: apoiava-se ento s costas da cadeira, cerrando os olhos, como na fadiga duma 
desesperana repetida. Esperava o padre Amaro; e s vezes, pelas dez horas, quando j no era possvel que ele viesse, a sua melancolia era to pungente que se lhe 
intumescia a garganta de soluos, tinha de pousar a costura, dizer:
       - Vou-me deitar, estou com umas dores de cabea que no paro!
       Atirava-se para a cama de bruos, murmurava numa agonia:
       - Oh Senhora das Dores, minha madrinha! Por que no vem ele, por que no vem ele?
       Nos primeiros dias, apenas ele se fora embora, toda a casa lhe pareceu desabitada e lgubre! Quando vira no quarto dele os cabides sem a sua roupa, a cmoda 
sem os seus livros, rompeu a chorar. Foi beijar a travesseirinha onde ele dormia, apertou ao peito com delrio a ltima toalha a que ele limpara as mos! Tinha constantemente 
o seu rosto presente, ele entrara sempre nos seus sonhos. E com a separao o seu amor ardia mais forte e mais alto, como uma fogueira que se isola.
       Uma tarde, que fora visitar uma prima enfermeira no hospital, viu ao chegar  Ponte gente parada, embasbacada com gozo para uma rapariga de cuia  banda e 
garibaldi escarlate, que, de punho no ar, j rouca, praguejava contra um soldado: o rapazola, um beiro de cara redonda e lorpa coberta de penugem loura, virava-lhe 
as costas, encolhendo os ombros, as mos muito enterradas nos bolsos, rosnando:
       - No lhe fez mal, no lhe fez mal...
       O Sr. Vasques, com loja de panos na Arcada, parara a olhar, descontente daquela "falta de ordem pblica".
       - Algum barulho? perguntou-lhe Amlia.
       - O1, menina Amlia! No, uma brincadeira do soldado. Atirou- lhe um rato morto  cara, e a mulher est a fazer aquele espalhafato. Bbedas!
       Mas a rapariga de garibaldi vermelho voltara-se - e Amlia aterrada reconheceu a Joaninha Gomes, sua amiga da mestra, que fora amante do padre Ablio! O padre 
fora suspenso, deixara-a; ela partira para Pombal, depois para o Porto; de misria em misria voltara a Leiria, e a vivia nalguma viela ao p do quartel, entisicando, 
gasta por todo um regimento! - Que exemplo, Santo Deus, que exemplo!...
       E tambm ela gostava dum padre! Tambm ela, como outrora a Joaninha, chorava sobre a sua costura quando o Sr, padre Amaro no vinha! Onde a levava aquela 
paixo!  sorte da Joaninha! A ser a amiga do proco! E via-se j apontada a dedo, na rua e na Arcada, mais tarde abandonada por ele, com um filho nas entranhas, 
sem um pedao de po!... E, como uma rajada de vento que limpa num momento um cu enevoado, o terror agudo que lhe dera o encontro de Joaninha varreu-lhe do esprito 
as nvoas amorosas e mrbidas, em que ela se ia perdendo. Decidiu aproveitar a separao, esquecer Amaro; lembrou-se mesmo de apressar o seu casamento com Joo Eduardo, 
para se refugiar num dever dominante; durante alguns dias forou-se a interessar-se por ele; comeou mesmo a bordar-lhe umas chinelas...
       Mas pouco a pouco a idia m que, atacada, se encolhera e se fingira morta, - principiou lentamente a desenroscar-se, a subir, a invadi-la! De dia, de noite, 
costurando e rezando, a idia do padre Amaro, os seus olhos, a sua voz apareciam-lhe, tentaes teimosas! com um encanto crescente. Que faria ele? por que no vinha? 
gostava de outra? Tinha cimes indefinidos, mas mordentes, que a queimavam. E aquela paixo ia-a envolvendo como uma atmosfera de onde no podia sair, que a seguia 
se ela fugia, e que a fazia viver! As suas resolues honestas ressequiam-se, morriam como dbeis florinhas naquele fogo que a percorria. Se s vezes a lembrana 
de Joaninha ainda voltava, repelia-a com irritao; e acolhia alvoroadamente todas as razes insensatas que lhe vinham de amar o padre Amaro! Tinha agora s uma 
idia - atirar-lhe os braos ao pescoo e beij-lo, oh! beij-lo!... Depois, se fosse necessrio, morrer!
       Comeou ento a impacientar-se com o amor de Joo Eduardo. Achava-o "palerma".
       - Que maada! pensava quando lhe sentia os passos na escada,  noite.
       No o suportava com os seus olhos voltados sempre para ela, a sua quinzena preta, as suas montonas conversas sobre o governo civil.
       E idealizava Amaro! As suas noites eram sacudidas de sonhos lbricos; de dia vivia numa inquietao de cimes, com melancolias lgubres, que a tornavam, como 
dizia a me, "uma mona, que at enraivece"!
       O gnio azedava-se-lhe.
       - Credo, rapariga! que tens tu? exclamava a me.
       - No me sinto boa. Estou para ter alguma!
       Andava, com efeito, amarela, perdera o apetite. E enfim uma manh ficou de cama com febre. A me, assustada, chamou o doutor Gouveia. O velho prtico, depois 
de ver Amlia, veio  sala de jantar sorvendo com satisfao a sua pitada.
       - Ento, senhor doutor? disse a S. Joaneira.
       - Case-me esta rapariga, S. Joaneira, case-me esta rapariga. Tenho- lho dito tantas vezes, criatura!
       - Mas, senhor doutor...
       - Mas case-a por uma vez, S. Joaneira, case-a por uma vez! repetia ele pelas escadas, arrastando um pouco a perna direita que um reumatismo teimoso encolhia.
       Amlia enfim melhorou - com grande alegria de Joo Eduardo, que enquanto ela estivera doente vivera numa aflio, lamentando no poder ser seu enfermeiro, 
e derramando s vezes no cartrio uma lgrima triste sobre os papis selados do severo Nunes Ferral.

***

       No domingo seguinte,  missa das nove horas na S, Amaro, ao subir para o altar, entre as devotas que se arredavam, viu de relance Amlia ao p da me, com 
o seu vestido de seda preta de largos folhos. Cerrou um momento os olhos; e mal podia sustentar o clix com as mos trmulas.
       Quando, depois de resmungar o Evangelho, Amaro fez uma cruz sobre o missal, se persignou e se voltou para a igreja dizendo Dominus vobiscum - a mulher do 
Carlos da botica disse baixo a Amlia "que o senhor proco estava to amarelo, que devia ter alguma dor". Amlia no respondeu, curvada sobre o livro com todo o 
sangue nas faces. E durante a missa, sentada sobre os calcanhares, absorta, a face banhada num xtase baboso, gozou a sua presena, as suas mos magras erguendo 
a hstia, a sua cabea bem-feita curvando-se na adorao ritual; uma doura corria- lhe na pele quando a voz dele, apressada, dizia mais alto algum latim; e quando 
Amaro, tendo a mo esquerda no peito e a direita estendida, disse para a igreja o Benedicat vos, ela, com os olhos muito abertos, arremessou toda a sua alma para 
o altar, como se ele fosse o prprio Deus a cuja bno as cabeas se curvavam ao comprido da S, at ao fundo, onde os homens do campo com os seus varapaus pasmavam 
para os dourados do sacrrio.
        sada da missa comeara a chover; e Amlia e a me,  porta com outras senhoras, esperavam uma "aberta".
       - Ol! por aqui? disse de repente Amaro, chegando-se, muito branco.
       - Estamos  espera que passe a chuva, senhor proco, disse a S. Joaneira voltando-se. E imediatamente, muito repreensiva: - E por que no tem aparecido, senhor 
proco? Realmente! Que lhe fizemos ns? Credo, at d que falar...
       - Muito ocupado, muito ocupado... balbuciou o proco.
       - Mas um bocadinho  noite. Olhe, pode crer, tem-me causado desgosto... E todos tm reparado. No, l isso, senhor proco, tem sido ingratido!
       Amaro disse, corando:
       - Pois acabou-se. Hoje  noite l apareo, e esto as pazes feitas...
       Amlia, muito vermelha, para encobrir a sua perturbao olhava para todos os pontos o cu carregado, como assustada do temporal.
       Amaro ento ofereceu-lhe o seu guarda-chuva. E enquanto a S. Joaneira o abria, apanhando com cuidado o vestido de seda, Amlia disse ao proco:
       - At  noite, sim? - e mais baixo, olhando em redor, com medo: - Oh, v! Tenho estado to triste! tenho estado como doida! V, peo- lhe eu!
       Amaro, voltando para casa, continha-se para no correr pelas ruas de batina. Entrou no quarto, sentou-se aos ps da cama, e ali ficou saturado de felicidade, 
como um pardal muito farto num raio de sol muito quente: recordava o rosto de Amlia, a redondeza dos seus ombros, a beleza dos encontros, as palavras que lhe dissera: 
- Tenho estado como doida! A certeza de que "a rapariga gostava dele" entrou-lhe ento na alma com a violncia de uma rajada, e ficou a sussurrar por todos os recantos 
do seu ser com um murmrio melodioso de felicidades agitadas. E passeava pelo quarto com passadas de cvado, estendendo os braos, desejando a posse imediata do 
seu corpo: sentia um orgulho prodigioso: ia defronte ao espelho altear a arca do peito, como se o mundo fosse um pedestal expresso que s o sustentasse a ele! Mal 
pde jantar. Com que impacincia desejava a noite! A tarde clareava; a cada momento tirava o seu ''cebolo'' de prata, indo olhar  janela, com irritao, a claridade 
do dia que se arrastava devagar no horizonte. Engraxou ele mesmo os seus sapatos, lustrou o cabelo de banha. E antes de sair rezou cuidadosamente o seu Brevirio 
- porque, em presena daquele amor adquirido, viera-lhe um susto supersticioso que Deus ou os santos escandalizados o viessem perturbar; e no queria, com desleixos 
de devoo, dar-lhes razo de queixa.
       Ao entrar na rua de Amlia o corao bateu-lhe to forte que teve de parar, sufocado; pareceu-lhe melodioso o piar das corujas na velha Misericrdia, que 
h tantas semanas no ouvia.
       Que admirao quando ela apareceu na sala de jantar!
       - Ditosos olhos que o vem! Pensvamos que tinha morrido! Grande milagre!
       Estavam a Sra. D. Maria da Assuno, e as Gansosos. Arredaram as cadeiras com entusiasmo para lhe dar lugar, admir-lo.
       - Ento que tem feito, que tem feito? E olhe que est mais magro!
       O Libaninho, no meio da sala, imitava foguetes subindo ao ar. O Sr. Artur Couceiro improvisou-lhe um fadinho  viola:

Ora j c temos o senhor proco
Nos chs da S. Joaneira.
Isto j parece outra coisa,
Volta a bela cavaqueira!

       Houve palmas. E a S. Joaneira, toda banhada de riso.
       - Ai, tem sido uma ingratido dele!
       - Uma ingratido, diz a senhora? rosnou o cnego. Uma casmurrice, digo eu!
       Amlia no falava, com as faces abrasadas, os olhos midos pasmados para o padre Amaro - a quem tinham dado a poltrona do cnego, e que se repoltreava nela, 
tmido de gozo, fazendo rir as senhoras pelas pilhrias com que contava os desleixos da Vicncia.
       Joo Eduardo, isolado a um canto, ia folheando o velho lbum.

***

       Assim recomeou a intimidade de Amaro na Rua da Misericrdia. Jantava cedo, depois lia o seu Brevirio; e apenas na igreja batiam as sete horas, embrulhava-se 
no seu capote e dava volta pela Praa passando rente da botica, onde os freqentadores caturravam, com as mos moles apoiadas ao cabo dos guarda-chuvas. Mal avistava 
a janela da sala de jantar alumiada, todos os seus desejos se erguiam; mas ao toque agudo da campainha sentia s vezes um susto indefinido de achar a me j desconfiada 
ou Amlia mais fria!... Mesmo por superstio entrava sempre com o p direito.
       Encontrava  j as Gansosos, a D. Josefa Dias; e o cnego, que jantava agora muito com a S. Joaneira e que quela hora, estirado na poltrona, findava a sua 
soneca, dizia-lhe bocejando:
       - Ora viva o menino bonito!
       Amaro ia sentar-se ao p de Amlia, que costurava  mesa; o olhar penetrante que se trocavam era todos os dias como o mtuo juramento mudo que o seu amor 
crescera desde a vspera; e s vezes mesmo, debaixo da mesa, roavam os joelhos com furor. Comeava ento a cavaqueira. Eram sempre os mesmos interessezinhos, as 
questes que iam na Misericrdia, o que dissera o senhor chantre, o cnego Campos que despedira a criada, o que se rosnava da mulher do Novais...
       - Mais amor do prximo! resmungava o cnego mexendo-se na poltrona. E com um arroto curto tornava a cerrar as plpebras.
       Ento as botas de Joo Eduardo rangiam na escada, e Amlia imediatamente abria a mesinha para a partida de manilha: os parceiros eram a Gansoso, D. Josefa, 
o proco; e como Amaro jogava mal, Amlia, que era mestra, sentava-se por detrs dele para o "guiar". Logo s primeiras vasas havia altercaes. Ento Amaro voltava 
o rosto para Amlia, to perto que confundiam os seus hlitos.
       - Esta? perguntava, indicando a carta com olho lnguido.
       - No! no! espere, deixe ver, dizia ela, vermelha.
       O seu brao roava o ombro do proco: Amaro sentia o cheiro da gua-de-colnia que ela usava com exagero.
       Defronte, ao p de Joaquina Gansoso, Joo Eduardo, mordicando o bigode, contemplava-a com paixo; Amlia, para se desembaraar daqueles dois olhos langorosos 
fitos nela, tinha-lhe dito, por fim "que at era indecente, diante do proco que era de cerimnia, estar assim a coc-la toda a noite".
       s vezes mesmo dizia-lhe, rindo:
       -  Sr. Joo Eduardo, v conversar com a mam, se no temo-la aqui temo-la a dormir.
       E Joo Eduardo ia sentar-se ao p da S. Joaneira, que, de lunetas na ponta do nariz, fazia sonolentamente a sua meia.
       Depois do ch Amlia sentava-se ao piano. Causava ento entusiasmo em Leiria uma velha cano mexicana, a Chiquita. Amaro achava-a de apetite; e sorria de 
gozo, com os seus dentes muito brancos, apenas Amlia comeava com muita languidez tropical:

Quando sali de la Habana,
Valga-me Dios ! ...

       Mas Amaro amava sobretudo a outra estrofe, quando Amlia, com os dedos frouxos no teclado, o busto deitado para trs, rolando os olhos ternos, em movimentos 
doces de cabea, dizia, toda voluptuosa, silabando o espanhol:

Si  tua ventana llega
Una paloma,
Trata-la com cario
Que es mi persona.

       E como a achava graciosa, crioula, quando ela gorjeava:

Ay chiquita que si,
Ay chiquita que no-o-o-o!

       Mas as velhas reclamavam-no para continuar a manilha, e ele ia sentar-se, cantarolando as ltimas notas, com o cigarro ao canto da boca, os olhos midos de 
felicidade.
       s sextas-feiras era a grande partida. A Sra. D. Maria da Assuno aparecia sempre com o seu belo vestido de seda preta: e como era rica e tinha parentela 
fidalga, davam-lhe com deferncia o melhor lugar ao p da mesa - que ela ia ocupar, meneando pretensiosamente os quadris, com ruge-ruges de seda. Antes do ch, a 
S. Joaneira levava-a sempre ao seu quarto, onde guardava para ela uma garrafa de jeropiga velha: e ali as duas amigas tagarelavam muito tempo, sentadas em cadeirinhas 
baixas. Depois Artur Couceiro, cada dia mais chupado e mais tsico, cantava o fado novo que compusera, chamado o Fado da Confisso; eram quadras feitas para regalar 
aquela piedosa reunio de saias e de batinas:

Na capelinha do amor,
No fundo da sacristia,
Ao senhor padre Cupido
Confessei-me noutro dia...

       Vinha depois a confisso de pecadinhos doces, um ato de contrio de amor, uma penitncia terna:

Seis beijinhos de manh,
De tarde um abrao s...
E pra acalmar doces chamas
Jejuar a po-de-l.

       Aquela composio galante e devota fora muito apreciada na sociedade eclesistica de Leiria. O senhor chantre pedira uma cpia, e perguntara, referindo-se 
ao poeta:
       - Quem  o hbil Anacreonte?
       E informado que era o escrevente da administrao, falou dele com tanto apreo  esposa do senhor governador civil, que Artur obteve a gratificao de oito 
mil-ris, que havia anos implorava.
quelas reunies nunca faltava o Libaninho. A sua ltima pilhria era furtar beijos  Sra. D. Maria da Assuno; a velha escandalizava-se muito alto, e abanando-se 
com furor atirava-lhe de revs um olhar guloso. Depois o Libaninho desaparecia um momento, e entrava com uma saia de Amlia vestida, uma touca da S. Joaneira, fingindo 
uma chama lbrica por Joo Eduardo - que, entre as risadas agudas das velhas, recuava, muito escarlate. Brito e Natrio vinham s vezes: formava-se ento um grande 
quino. Amaro e Amlia ficavam sempre juntos; e toda a noite, com os joelhos colados, ambos vermelhos, permaneciam vagamente entorpecidos no mesmo desejo intenso.
       Amaro saa sempre de casa da S. Joaneira mais apaixonado por Amlia. Ia pela rua devagar, ruminando com gozo a sensao deliciosa que lhe dava aquele amor 
- uns certos olhares dela, o arfar desejoso do seu peito, os contatos lascivos dos joelhos e das mos. Em casa despia-se depressa, porque gostava de pensar nela, 
s escuras, atabafado nos cobertores; e ia percorrendo em imaginao, uma a uma, as provas sucessivas que ela lhe dera do seu amor, como quem vai aspirando uma e 
outra flor, at que ficava como embriagado de orgulho: era a rapariga mais bonita da cidade! e escolhera-o a ele, a ele padre, o eterno excludo dos sonhos femininos, 
o ser melanclico e neutro que ronda como um ser suspeito  beira do sentimento!  sua paixo misturava-se ento um reconhecimento por ela; e com as plpebras cerradas 
murmurava:
       - To boa, coitadinha, to boa!

***

       Mas na sua paixo havia s vezes grandes impacincias. Quando tinha estado, durante trs horas da noite, recebendo o seu olhar, absorvendo a voluptuosidade 
que se exalava de todos os seus movimentos, - ficava to carregado de desejos que necessitava conter-se "para no fazer um disparate ali mesmo na sala, ao p da 
me". Mas depois, em casa, s torcia os braos de desespero: queria-a ali de repente, oferecendo-se ao seu desejo; fazia ento combinaes - escrever-lhe-ia, arranjariam 
uma casinha discreta para se amarem, planeariam um passeio a alguma quinta! Mas todos aqueles meios lhe pareciam incompletos e perigosos, ao recordar o olho finrio 
da irm do cnego, as Gansosos to mexeriqueiras! E diante daquelas dificuldades que se erguiam como as muralhas sucessivas duma cidadela, voltavam as antigas lamentaes: 
no ser livre! no poder entrar claramente naquela casa, pedi-la  me, possu-la sem pecado, comodamente! Por que o tinham feito padre? Fora "a velha pega" da marquesa 
de Alegros! Ele no abdicava voluntariamente a virilidade do seu peito! Tinham-no impelido para o sacerdcio como um boi para o curral!
       Ento, passeando excitado pelo quarto, levava as suas acusaes mais longe, contra o Celibato e a Igreja: por que proibia ela aos seus sacerdotes, homens 
vivendo entre homens, a satisfao mais natural, que at tm os animais? Quem imagina que desde que um velho bispo diz - sers casto - a um homem novo e forte, o 
seu sangue vai subitamente esfriar-se? e que uma palavra latina - accedo - dita a tremer pelo seminarista assustado, ser o bastante para conter para sempre a rebelio 
formidvel do corpo? E quem inventou isto? Um conclio de bispos decrpitos, vindos do fundo dos seus claustros, da paz das suas escolas, mirrados como pergaminhos, 
inteis como eunucos! Que sabiam eles da Natureza e das suas tentaes? Que viessem ali duas, trs horas para o p da Ameliazinha, e veriam, sob a sua capa de santidade, 
comear a revoltar-se-lhe o desejo! Tudo se ilude e se evita, menos o amor! E se ele  fatal, por que impediram ento que o padre o sinta, o realize com pureza e 
com dignidade?  melhor talvez que o v procurar pelas vielas obscenas! - Porque a carne  fraca!
       A carne! Punha-se ento a pensar nos trs inimigos da alma - MUNDO, DIABO e CARNE. E apareciam  sua imaginao em trs figuras vivas: uma mulher muito formosa; 
uma figura negra de olho de brasa e p de cabra; e o mundo, coisa vaga e maravilhosa (riquezas, cavalos, palacetes) - de que lhe parecia uma personificao suficiente 
o Sr, conde de Ribamar! Mas que mal tinham eles feito  sua alma? O diabo nunca o vira; a mulher formosa amava-o e era a nica consolao da sua existncia; e do 
mundo, do senhor conde, s recebera proteo, benevolncia, tocantes apertos de mo... E como poderia ele evitar as influncias da Carne e do Mundo? A no ser que 
fugisse, como os santos de outrora, para os areais do deserto e para a companhia das feras! Mas no lhe diziam os seus mestres no seminrio que ele pertencia a uma 
Igreja militante? O ascetismo era culpado, sendo a desero dum servio santo. - No compreendia, no compreendia!
       Procurava ento justificar o seu amor com exemplos dos livros divinos. A Bblia est cheia de npcias! Rainhas amorosas adiantam-se nos seus vestidos recamados 
de pedras; o noivo vem-lhe ao encontro, com a cabea coberta de faixas de linho puro, arrastando pelas pontas um cordeiro branco; os levitas batem em discos de prata, 
gritam o nome de Deus; abrem-se as portas de ferro da cidade para deixar passar a caravana que leva os bem esposados; e as arcas de sndalo onde vo os tesouros 
do dote rangem, amarradas com cordas de prpura, sobre o dorso dos camelos! Os mrtires no circo casam-se num beijo, sob o bafo dos lees, s aclamaes da plebe! 
Jesus mesmo no vivera sempre na sua santidade inumana; era frio e abstrato nas ruas de Jerusalm, nos mercados do bairro de Davi; mas l tinha o seu lugar de ternura 
e de abandono em Betnia, sob os sicmoros do Jardim de Lzaro; ali, enquanto os magros nazarenos seus amigos bebem o leite e conspiram  parte, ele olha defronte 
os tetos dourados do templo, os soldados romanos que jogam o disco ao p da Porta de Ouro, os pares amorosos que passam sob os arvoredos de Getsmani - e pousa a 
mo sobre os cabelos louros de Marta, que ama e fia a seus ps!
       O seu amor era pois uma infrao cannica, no um pecado da alma: podia desagradar ao senhor chantre, no a Deus; seria legitimo num sacerdcio de regra mais 
humana. Lembrava-se de se fazer protestante: mas onde, como? Parecia-lhe mais extraordinariamente impossvel que transportar a velha S para cima do monte do Castelo.
       Encolhia ento os ombros, escarnecendo toda aquela vaga argumentao interior. "Filosofia e palhada!" Estava doido pela rapariga, - era o positivo. Queria-lhe 
o amor, queria-lhe os beijos, queria-lhe a alma... E o senhor bispo se no fosse velho faria o mesmo, e o papa faria o mesmo!
       Eram s vezes trs horas da manh, e ainda passeava no quarto, falando s.

***

       Quantas vezes Joo Eduardo, passando alta noite pela Rua das Sousas, tinha visto na janela do proco uma luz amortecida! Porque ultimamente Joo Eduardo, 
como todos que tm um desgosto amoroso, tomara o hbito triste de andar at tarde pelas ruas.
       O escrevente, logo desde os primeiros tempos, percebera a simpatia de Amlia pelo proco. Mas conhecendo a sua educao e os hbitos devotos da casa, atribua 
aquelas atenes quase humildes com Amaro ao respeito beato pela sua batina de padre, pelos seus privilgios de confessor.
       Instintivamente porm comeou a detestar Amaro. Sempre fora inimigo de padres! Achava-os um "perigo para a civilizao e para a liberdade"; supunha-os intrigantes, 
com hbitos de luxria, e conspirando sempre para restabelecer "as trevas da Meia-Idade"; odiava a confisso que julgava uma arma terrvel contra a paz do lar; e 
tinha uma religio vaga - hostil ao culto, s rezas, aos jejuns, cheia de admirao pelo Jesus potico, revolucionrio, amigo dos pobres, e "pelo sublime espirito 
de Deus que enche todo o Universo"! S desde que amava Amlia  que ouvia missa, para agradar  S. Joaneira.
       E desejaria sobretudo apressar o casamento, para tirar Amlia daquela sociedade de beatas e padres, receando ter mais tarde uma mulher que tremesse do Inferno, 
passasse horas a rezar estaes na S, e se confessasse aos padres "que arrancam s confessadas os segredos de alcova"!
       Quando Amaro voltara a freqentar a Rua da Misericrdia, ficou contrariado. "C temos outra vez o marmanjo!", pensou. Mas que desgosto, quando reparou que 
Amlia tratava agora o proco com uma familiaridade mais terna, que a presena dele lhe dava visivelmente uma animao singular, "e que havia uma espcie de namoro"! 
Como ela se fazia vermelha, mal ele entrava! Como o escutava, com uma admirao babosa! Como arranjava sempre a ficar ao p dele nas partidas de quino!
       Uma manh, mais inquieto, veio  Rua da Misericrdia, - e enquanto a S. Joaneira tagarelava na cozinha, disse bruscamente a Amlia:
       - Menina Amlia, sabe? Est-me a dar um grande desgosto com essas maneiras com que trata o Sr. padre Amaro.
       Ela ergueu os olhos espantados:
       - Que maneiras? Ora essa! Ento como quer que o trate?  um amigo da casa, esteve aqui de hspede...
       - Pois sim, pois sim...
       - Ah! mas sossegue. Se isso o quezila, ver. No me torno a chegar para ao p do homem.
       Joo Eduardo, tranqilizado, raciocinou que "no havia nada". Aqueles modos eram excessos de beatrio. Entusiasmo pela padraria!
       Amlia decidiu ento disfarar o que lhe ia no corao: sempre considerara o escrevente um pouco tapado - e se ele percebera, que fariam as Gansosos to finas, 
e a irm do cnego que era curtida em malcia! Por isso mal sentia Amaro na escada, da por diante, tomava uma atitude distrada, muito artificial; mas, ai! apenas 
ele lhe falava com a sua voz suave ou voltava para ela aqueles olhos negros que lhe faziam correr estremees nos nervos, - como uma ligeira camada de neve que se 
derrete a um sol muito forte, a sua atitude fria desaparecia, e toda a sua pessoa era uma expresso contnua de paixo. s vezes, absorvida no seu enlevo, esquecia 
que Joo Eduardo estava ali; e ficava toda surpreendida quando ouvia a um canto da sala a sua voz melanclica.
       Ela sentia de resto que as amigas da me envolviam a sua "inclinao" pelo proco numa aprovao muda e afvel. Ele era, como dizia o cnego, o menino bonito: 
e das maneirinhas e dos olhares das velhas exalava-se uma admirao por ele que fazia ao desenvolvimento da paixo de Amlia uma atmosfera favorvel. D. Maria da 
Assuno dizia-lhe s vezes ao ouvido:
       - Olha para ele!  de inspirar fervor.  a honra do clero. No h outro!...
       E todas elas achavam em Joo Eduardo "um presta para nada"! Amlia ento j no disfarava a sua indiferena por ele: as chinelas que lhe andava a bordar 
tinham h muito desaparecido do cesto do trabalho, e j no vinha  janela v-lo passar para o cartrio.
       A certeza agora tinha-se estabelecido na alma de Joo Eduardo - na alma, que como ele dizia, lhe andava mais negra que a noite.
       - A rapariga gosta do padre, tinha ele concludo. E  dor da sua felicidade destruda juntava-se a aflio pela honra dela ameaada.
       Uma tarde, tendo-a visto sair da S, esperou-a adiante da botica, e muito decidido:
       - Eu quero-lhe falar, menina Amlia... Isto no pode continuar assim... Eu no posso... A menina traz namoro com o proco!
       Ela mordeu o beio, toda branca:
       - O senhor est a insultar-me! - e queria seguir, toda indignada.
       Ele reteve-a pela manga do casabeque: '
       - Oua, menina Amlia. Eu no a quero insultar, mas  que no sabe. Tenho andado, que at se me parte o corao. - E perdeu a voz, de comovido.
       - No tem razo... No tem razo, balbuciava ela.
       - Jure-me ento que no h nada com o padre!
       - Pela minha salvao!... No h nada!... Mas tambm lhe digo, se tornar a falar em tal, ou a insultar-me, conto tudo  mam, e o senhor escusa de nos voltar 
a casa.
       - Oh menina Amlia...
       - No podemos continuar aqui a falar... Est ali j a D. Micaela a  cocar.
       Era uma velha, que levantara a cortina de cassa numa janela baixa, e espreita-la com olhinhos reluzentes e gulosos, a face toda ressequida encostada sofregamente 
 vidraa. Separaram-se ento, - e a velha desconsolada deixou cair a cortina. 
       Amlia nessa noite - enquanto as senhoras discutiam com algazarra os missionrios que ento pregavam na Barrosa - disse baixo a Amaro, picando vivamente a 
costura:
       - Precisamos ter cautela... No olhe tanto para mim nem esteja to chegado... J houve quem reparasse.
       Amaro recuou logo a cadeira para junto de D. Maria da Assuno; e, apesar da recomendao de Amlia, os seus olhos no se despregavam dela, numa interrogao 
muda e ansiosa, j assustado que as desconfianas da me ou a malcia das velhas "andassem armando escndalo". Depois do ch, no rumor das cadeiras que se acomodavam 
ao quino, perguntou-lhe rapidamente:
       - Quem reparou?
       - Ningum. Eu  que tenho medo.  preciso disfarar.
       Desde ento cessaram as olhadelas doces, os lugares chegadinhos  mesa, os segredos; e sentiam um gozo picante em afetar maneiras frias, tendo a certeza vaidosa 
da paixo que os inflamava. Era para Amlia delicioso - enquanto o padre Amaro afastado tagarelava com as senhoras - adorar a sua presena, a sua voz, as suas graas, 
com os olhos castamente aplicados s chinelas de Joo Eduardo que muito astutamente recomeara a bordar.
       Todavia o escrevente vivia ainda inquieto: amargurava-o encontrar o proco instalado ali todas as noites, com a face prspera, a pema traada, gozando a venerao 
das velhas. "A Ameliazinha, sim, agora portava-se bem, e era-lhe fiel, era-lhe fiel...": mas ele sabia que o proco a desejava, a "cocava"; e apesar do juramento 
dela pela sua salvao, da certeza que no havia nada - temia que ela fosse lentamente penetrada por aquela admirao caturra das velhas, para quem o senhor proco 
era um anjo: s se contentaria em arrancar Amlia (j empregado no governo civil) quela casa beata: mas essa felicidade tardava a chegar - e saa todas as noites 
da Rua da Misericrdia mais apaixonado, com a vida estragada de cimes, odiando os padres, sem coragem para desistir. Era ento que se punha a andar pelas ruas at 
tarde; s vezes voltava ainda ver as janelas fechadas da casa dela; ia depois  alameda ao p do rio, mas o frio ramaIhar das rvores sobre a gua negra entristecia-o 
mais; vinha ento ao bilhar, olhava um momento os parceiros carambolando, o marcador, muito esguedelhado, que bocejava encostado ao reste. Um cheiro de mau petrleo 
sufocava. Saa; e dirigia-se, devagar,  redao da Voz do Distrito.

X

       O redator da Voz do Distrito, o Agostinho Pinheiro, era ainda seu parente. Chamavam-lhe geralmente o Raqutico, por ter uma forte corcunda no ombro, e uma 
figurinha enfezada de tico. Era extremamente sujo; e a sua carita de fmea, amarelada, de olhos depravados, revelava vcios antigos, muito torpes. Tinha feito (dizia-se 
em Leiria) toda a sorte de maroteira. E ouvira tantas vezes exclamar: ''Se voc no fosse um raqutico, quebrava-lhe os ossos" - que, vendo na sua corcunda uma proteo 
suficiente, ganhara um descaro sereno. Era de Lisboa, o que o tomava mais suspeito aos burgueses srios: atribua-se a sua voz rouca e acre "a faltar-lhe as campainhas": 
e os seus dedos queimados terminavam em unhas muito compridas - porque tocava guitarra.
       A Voz do Distrito fora criada por alguns homens, a quem chamavam em Leiria o grupo da Maia, particularmente hostis ao senhor governador civil. O doutor Godinho, 
que era o chefe e o candidato do grupo, tinha encontrado em Agostinho, como ele dizia, o homem que se precisa: o que o grupo precisava era um patife com ortografia, 
sem escrpulos, que redigisse em linguagem sonora os insultos, as calnias, as aluses que eles traziam informemente  redao, em apontamentos. Agostinho era um 
estilista de vilezas. Davam-lhe quinze mil-ris por ms e casa de habitao na redao - um terceiro andar desmantelado numa viela ao p da Praa.
       Agostinho fazia o artigo de fundo, as locais, a Correspondncia de Lisboa; e o bacharel Prudncio escrevia o folhetim literrio sob o ttulo de Palestras 
Leirienses: era um moo muito honrado, a quem o Sr. Agostinho era repulsivo; mas tinha uma tal gula de publicidade, que se sujeitava a sentar-se todos os sbados 
fraternalmente  mesma banca, a rever as provas da sua prosa - prosa to florida de imagens, que se murmurava na cidade, ao l-la: "Que opulncia! Que opulncia, 
Jesus!"
       Joo Eduardo reconhecia tambm que o Agostinho era "um trastezito"; no se atreveria a passear com ele de dia nas ruas; mas gostava de ir para a redao, 
alta noite, fumar cigarros, ouvir o Agostinho falar de Lisboa, do tempo que l vivera empregado na redao de dois jornais, no teatro da Rua dos Condes, numa casa 
de penhores, e em outras instituies. Estas visitas eram segredo!
       quela hora da noite a sala da tipografia no primeiro andar estava fechada (o jornal tirava-se aos sbados); e Joo Eduardo encontrava em cima Agostinho abancado 
com uma velha jaqueta de peles cujos colchetes de prata tinham sido empenhados - ruminando, curvado,  luz dum medonho candeeiro de petrleo, sobre longas tiras 
de papel: estava fazendo o jornal, e a sala escura em redor tinha o aspecto duma caverna. Joo Eduardo estirava-se no canap de palhinha, ou indo buscar a um canto 
a velha guitarra de Agostinho, repenicava o fado corrido. O jornalista, no entanto, com a testa apoiada a um punho, produzia laboriosamente: "a coisa no lhe saa 
catita": e como nem o fadinho o inspirava, erguia-se, ia a um armrio engolir um copinho de genebra que gargarejava nas fauces estanhadas, espreguiava-se escancaradamente, 
acendia o cigarro, e aproveitando o acompanhamento cantarolava roucamente:

Ora foi o fado tirano
Que me levou  m vida,

       E a guitarra: dir-lim, dim, dim, dir-lim, dim, dom.

Na vida do negro fado
Ai! que me traz assim perdida...
       Isto trazia-lhe sempre as recordaes de Lisboa, porque terminava por dizer, com dio:
       - Que pocilga de terra, esta!
       No se podia consolar de viver em Leiria, de no poder beber o seu quartilho na taberna do tio Joo,  Mouraria, com a Ana Alfaiata ou com o Bigodinho - ouvindo 
o Joo das Biscas de cigarro ao canto da boca, o olho choroso meio fechado pelo fumo do tabaco, fazer chorar a guitarra dizendo a morte da Sofia!
       Depois, para se reconfortar com a certeza do seu talento, lia a Joo Eduardo os seus artigos, muito alto. E Joo interessava-se - porque essas "produes", 
sendo ultimamente sempre "desandas ao clero", correspondiam s suas preocupaes.
       Era por esse tempo que, em virtude da famosa questo da Misericrdia, o doutor Godinho se tomara muito hostil ao cabido e  padraria. Sempre detestara padres; 
tinha uma m doena de fgado, e como a Igreja o fazia pensar no cemitrio, odiava a sotaina, porque lhe parecia uma ameaa da mortalha. E Agostinho que tinha um 
profundo depsito de fel a derramar, instigado pelo doutor Godinho, exagerava as suas verrinas: mas, com o seu fraco literrio, cobria o vituprio de to espessas 
camadas de retrica que, como dizia o cnego Dias, "aquilo era ladrar, no era morder!"
       Uma dessas noites Joo Eduardo encontrou Agostinho todo entusiasmado com um artigo que compusera de tarde, e que lhe "sara cheio de piadas  Vtor Hugo!"
       - Tu vers! Coisa de sensao!
       Como sempre, era uma declamao contra o clero e o elogio do doutor Godinho. Depois de celebrar as virtudes do doutor, "esse to respeitvel chefe de famlia" 
e a sua eloquncia no tribunal que "arrancara tantos desventurados ao cutelo da lei", o artigo, tomando um tom roncante, apostrofava Cristo: - "Quem te diria a ti 
(bradava Agostinho),  imortal Crucificado! quem te diria, quando do alto do Glgota expiravas exangue, quem te diria que um dia, em teu nome,  tua sombra, seria 
expulso dum estabelecimento de caridade o doutor Godinho, - a alma mais pura, o talento mais robusto..." - E as virtudes do doutor Godinho voltavam, em passo de 
procisso, solenes e sublimadas, arrastando caudas de adjetivos nobres.
       Depois, deixando por um momento de contemplar o doutor Godinho, Agostinho dirigia-se diretamente a Roma: - " no sculo XIX que vindes atirar  face de 1,eiria 
liberal os ditames do Syllabus? Pois bem. Quereis a guerra? T-la-eis!" 
       - Hem, Joo?! dizia. Est forte! Est filosfico!
E retomando a leitura: - "Quereis a guerra? T-la-eis! Levantaremos bem alto o nosso estandarte, que no  o da demagogia, compreendei-o bem! e arvorando-o, com 
brao firme, no mais alto baluarte das liberdades pblicas, gritaremos  face de Leiria,  face da Europa: Filhos do sculo XIX! s armas! s armas, pelo progresso!"
       - Hem? Est de os enterrar!
       Joo Eduardo, que ficara um momento calado, disse ento, levantando as suas expresses em harmonia com a prosa sonora do Agostinho:
       - O clero quer-nos arrastar aos funestos tempos do obscurantismo!
       Uma frase to literria surpreendeu o jornalista: fitou Joo Eduardo, disse:
       - Por que no escreves tu alguma coisa, tambm?
       O escrevente respondeu, sorrindo:
       - E eu, Agostinho, eu  que te escrevia uma desanda aos padres... E eu tocava-lhes os podres. Eu  que os conheo!...
       Agostinho instou logo com ele para que escrevesse a desanda.
       - Vem a calhar, menino!
       O doutor Godinho ainda na vspera lhe recomendara: - "Em tudo que cheirar a padre, para baixo! Havendo escndalo, conta-se! no havendo, inventa-se!"
       E Agostinho acrescentou, com benevolncia:
       - E no te d cuidado o estilo, que eu c o florearei!
       - Veremos, veremos, murmurou Joo Eduardo.
       Mas da por diante Agostinho perguntava-lhe sempre:
       - E o artigo, homem? Traz-me o artigo.
       Tinha avidez dele, porque sabendo como Joo Eduardo vivia na intimidade da "panelinha cannica da S. Joaneira", supunha-o no segredo de infmias especiais.
       Joo Eduardo, porm, hesitava. Se se viesse a saber?
       - Qual! afirmava Agostinho. A coisa publica-se como minha.  artigo da redao. Quem diabo vai saber?
       Sucedeu na noite seguinte que Joo Eduardo surpreendeu o padre Amaro resvalando sorrateiramente um segredinho a Amlia - e ao outro dia apareceu de tarde 
na redao com a palidez de uma noite velada, trazendo cinco largas tiras de papel, miudamente escritas numa letra de cartrio. Era o artigo, e intitulava-se: Os 
modernos fariseus! - Depois de algumas consideraes, cheias de flores, sobre Jesus e o Glgota, o artigo de Joo Eduardo era, sob aluses to difanas como teias 
de aranha, um vingativo ataque ao cnego Dias, ao padre Brito, ao padre Amaro e ao padre Natrio!... Todos tinham a sua dose, como exclamou cheio de jbilo o Agostinho. 
       - E quando sai? perguntou Joo Eduardo.
       O Agostinho esfregou as mos, refletiu, disse:
       -  que est forte, diabo!  como se tivesse os nomes prprios! Mas descansa, eu arranjarei.
       Foi cautelosamente mostrar o artigo ao doutor Godinho - que o achou "uma catilinria atroz". Entre o doutor Godinho e a Igreja havia apenas um arrufo: ele 
reconhecia, em geral, a necessidade da religio entre as massas; sua esposa, a bela D. Cndida, era alm disso de inclinaes devotas, e comeava a dizer que aquela 
guerra do jornal ao clero lhe causava grandes escrpulos: e o doutor Godinho no queria provocar dios desnecessrios entre os padres, prevendo que o seu amor da 
paz domstica, os interesses da ordem e o seu dever de cristo o forariam bem cedo a uma reconciliao, - "muito contra as suas opinies, mas..."
       Disse por isso a Agostinho secamente:
       - Isto no pode ir como artigo da redao, deve aparecer como comunicado. Cumpra estas ordens.
       E Agostinho declarou ao escrevente - que a coisa publicava-se como um Comunicado, assinado: Um liberal. Somente Joo Eduardo terminava o artigo exclamando: 
- Alerta, mes de famlia! O Agostinho sugeriu que este final alerta podia dar lugar  rplica jocosa - Alerta est! E depois de largas combinaes decidiram-se 
por este fecho: - Cuidado, sotainas negras!
       No domingo seguinte apareceu o comunicado assinado: Um liberal.

***

       Durante toda essa manh de domingo, o padre Amaro,  volta da S, estivera ocupado em compor laboriosamente uma carta a Amlia. Impaciente, como ele dizia, 
"com aquelas relaes que no andavam nem desandavam, que era olhar e apertos de mo e dali no passava" - tinha-lhe dado uma noite,  mesa do quino, um bilhetinho 
onde escrevera com boa letra, a tinta azul; - Desejo encontr-la s, porque tenho muito que lhe falar. Onde pode ser sem inconveniente? Deus proteja o nosso afeto. 
Ela no respondera: - E Amaro despeitado, descontente tambm por no a ter visto nessa manh  missa das nove, resolveu "pr tudo a claro numa carta de sentimento": 
e preparava os perodos sentidos que lhe deviam ir revolver o corao, passeando pela casa, juncando o cho de pontas de cigarro, a cada momento curvado sobre o 
Dicionrio de Sinnimos.

    "Ameliazinha do meu corao, (escrevia ele) no posso atinar com as razes maiores que a no deixaram responder ao bilhetinho que lhe dei em casa da senhora 
sua mam; pois que era pela muita necessidade que tinha de lhe falar a ss, e as minhas intenes eram puras, e na inocncia desta a/ma que tanto lhe quer e que 
no medita o pecado. 
    Deve ter compreendido que lhe voto um fervente afeto, e pela sua parte me parece, (se no me enganam esses olhos que so os faris da minha vida, e como a estrela 
do navegante) que tambm tu, minha Ameliazinha, tens inclinao por quem tanto te adora; pois que at outro dia, quando o Libano quinou com os seis primeiros nmeros, 
e que todos fizeram tanta algazarra, tu apertaste-me a mo por baixo da mesa com tanta ternura, que at me pareceu que o Cu se abria e que eu sentia os anjos entoarem 
o Hossana! Por que no respondeste pois? Se pensas que o nosso afeto pode ser desagradvel aos nossos anjos da guarda, ento te direi que maior pecado cometes trazendo-me 
nesta incerteza e tortura, que at na celebrao da missa estou sempre com o pensar em ti, e nem me deixa elevar a minha a/ma no divino sacrifcio. Se eu visse que 
este mtuo afeto era obra do tentador, eu mesmo te diria: oh, minha bem amada filha, faamos o sacrifcio a Jesus, para lhe pagar parte do sangue que derramou por 
ns! Mas eu tenho interrogado a minha a/ma e vejo nela a brancura dos lrios. E o teu amor tambm  puro como a tua a/ma, que um dia se unir  minha, entre os coros 
celestes, na bem-aventurana. Se tu soubesses como eu te quero, querida Ameliazinha, que at s vezes me parece que te podia comer aos bocadinhos! Responde pois 
e dize se no te parece que poderia arranjar-se a vermo-nos no Morena/, pela tarde. Pois eu anseio por te exprimir todo o fogo que me abrasa, bem como falar-te de 
coisas importantes, e sentir na minha mo a tua que eu desejo que me guie pelo caminho do amor, at aos xtases duma felicidade celestial. Adeus, anjo feiticeiro, 
recebe a oferta do corao do teu amante e pai espiritual,

Amaro."

       Depois de jantar copiou esta carta a tinta azul, e com ela bem dobrada no bolso da batina foi  Rua da Misericrdia. Logo da escada sentiu em cima a voz aguda 
de Natrio, discutindo.
       - Quem est por c? - perguntou  Rua, que alumiava, encolhida no seu xale.
       -.As senhoras todas. Est o Sr, padre Brito.
       - Ol! Bela sociedade!
       Galgou os degraus, e  porta da sala, com o seu capote ainda pelos ombros, tirando alto o chapu:
       - Muito boas noites a todos, comeando pelas senhoras.
       Natrio, imediatamente, plantou-se diante dele e exclamou:
       - Ento que lhe parece?
       - O qu? perguntou Amaro. E reparando no silncio, nos olhos cravados nele: - O que ? Alguma coisa de novo?
       - Pois no leu, senhor proco? exclamaram. No leu o Distrito!?
       Era papel em que ele no pusera os olhos, disse. Ento as senhoras indignadas romperam:
       - Ai!  um desaforo!
       - Ai!  um escndalo, senhor proco!
       Natrio com as mos enterradas nas algibeiras contemplava o proco com um sorrizinho sarcstico, saltando dentre os dentes:
       - No leu! No leu! Ento que fez?
       Amaro reparava, j aterrado, na palidez de Amlia, nos seus olhos muito vermelhos. E enfim o cnego erguendo-se pesadamente:
       - Amigo proco, do-nos uma desanda...
       - Ora essa! exclamou Amaro.
       - Tesa!
       O senhor cnego, que trouxera o jornal, devia ler alto - lembraram.
       - Leia, Dias, leia, acudiu Natrio. Leia, para saborearmos!
       A S. Joaneira deu mais luz ao candeeiro: o cnego Dias acomodou- se  mesa, desdobrou o jornal, ps os culos cuidadosamente, e, com o leno do rap nos joelhos, 
comeou a leitura do Comunicado na sua voz pachorrenta.
       O princpio no interessava: eram perodos enternecidos em que o liberal exprobrava aos fariseus a crucificao de Jesus: - "Por que o matsteis? (exclamava 
ele). Respondei!" E os fariseus respondiam: - "Matamo-lo porque ele era a liberdade, a emancipao, a aurora de uma nova era", etc. O liberal ento esboava, a largos 
traos, a noite do Calvrio: - "Ei-lo pendente da cruz, traspassado de lanas, a sua tnica jogada aos dados, a plebe infrene", etc. E, voltando a dirigir-se aos 
fariseus infelizes, o liberal gritava-lhes com ironia: - "Contemplai a vossa bela obra!" Depois, por uma gradao hbil, o liberal descia de Jerusalm a Leiria: 
- "Mas pensam os leitores que os fariseus morreram? Como se enganam! Vivem! conhecemo-los ns; Leiria est cheia deles, e vamos apresent-los aos leitores..."
       - Agora  que elas comeam, disse o cnego olhando para todos em redor, por cima dos culos.
       Com efeito "elas comeavam"; era, numa forma brutal, uma galeria de fotografias eclesisticas: a primeira era a do padre Brito: - "Vede-o, (exclamava o liberal) 
grosso como um touro, montado na sua gua castanha..."
       - At a cor da gua! murmurou com uma indignao piedosa a Sra. D. Maria da Assuno.
       "... Estpido como um melo, sem sequer saber latim..."
       O padre Amaro, assombrado, fazia: Oh! oh! E o padre Brito, escarlate, mexia-se na cadeira, esfregando devagar os joelhos.
       "... Espcie de caceteiro", continuava o cnego, que lia aquelas frases cruis com uma tranqilidade doce, "desabrido de maneiras, mas que no desgosta de 
se dar  ternura, e, segundo dizem os bem informados, escolheu para Dulcinia a prpria e legtima esposa do seu regedor..."
       O padre Brito no se dominou:
       - Eu racho-o de meio a meio! exclamou erguendo-se e recaindo pesadamente na cadeira.
       - Escute, homem, disse Natrio.
       - Qual escute! O que ,  que o racho!
       Mas se ele no sabia quem era o liberal!
       - Qual liberal! Quem eu racho  o doutor Godinho. O doutor Godinho  que  o dono do jornal. O doutor Godinho  que eu racho!
       A sua voz tinha tons roucos: e atirava furioso grandes palmadas   coxa.
       Lembraram-lhe o dever cristo de perdoar as injrias! A S. Joaneira com uno citou a bofetada que Jesus Cristo suportou. Devia imitar Cristo.
       - Qual Cristo, qual cabaa! gritou Brito apopltico.
       Aquela impiedade criou um terror.
       - Credo! Sr, padre Brito, credo! exclamou a irm do cnego, recuando a cadeira.
       O Libaninho, com as mos na cabea, vergado sob o desastre, murmurava:
       - Nossa Senhora das Dores, que at pode cair um raio!
       E, vendo mesmo Amlia indignada, o padre Amaro disse gravemente:
       - Brito, realmente voc excedeu-se.
       - Pois se esto a puxar por mim!...
       - Homem, ningum puxou por voc, disse severamente Amaro. E com um tom pedagogo: - Apenas lhe lembrarei, como devo, que em tais casos, quando se diz a blasfmia 
m, o reverendo padre Scomelli recomenda confisso geral e dois dias de recolhimento a po e gua. 
       O padre Brito resmungava.
       - Bem, bem, resumiu Natrio. O Brito cometeu uma grande falta, mas saber pedir perdo a Deus, e a misericrdia de Deus  infinita!
       Houve uma pausa comovida, em que se ouviu a Sra. D. Maria da Assuno murmurar "que ficara sem pinga de sangue": e o cnego, que durante a catstrofe pousara 
os culos sobre a mesa, retomou-os, e continuou serenamente a leitura:
       "...Conheceis um outro com cara de furo?..."
       Olhares de lado fixaram o padre Natrio.
       "...Desconfiai dele: se puder trair-vos, no hesita; se puder prejudicar-vos, folga; as suas intrigas trazem o cabido numa confuso porque  a vbora mais 
daninha da diocese, mas com tudo isso muito dado  jardinagem, porque cultiva com cuidado duas rosas do seu canteiro."
       - Homem, essa! exclamou Amaro.
       -  para que voc veja, disse Natrio erguendo-se lvido. Que lhe parece? Voc sabe que eu, quando falo das minhas sobrinhas, costumo dizer as duas rosas 
do meu canteiro.  um gracejo. Pois, senhores, at vem com isto! - E com um sorriso macilento, de fel: - Mas amanh hei-de saber quem ! Olar! Eu hei-de saber quem 
!
       - Deite ao desprezo, Sr. padre Natrio, deite ao desprezo, disse a S. Joaneira pacificadora.
       - Obrigado, minha senhora, acudiu Natrio curvando-se com uma ironia rancorosa, obrigado! C recebi!
       Mas a voz imperturbvel do cnego retomara a leitura. Agora era o retrato dele, traado com dio:
       "...Cnego bojudo e gluto, antigo caceteiro do Sr. D. Miguel, que foi expulso da freguesia de Ourm, outrora mestre de Moral num seminrio e hoje mestre 
de imoralidade em Leiria..." 
       - Isso  infame! exclamou Amaro exaltado.
       O cnego pousou o jornal, e com a voz pachorrenta:
       - Voc pensa que me d isto cuidado? disse ele. Boa! Tenho que comer e que beber, graas a Deus! Deixar rosnar quem rosna!
       - No, mano, interrompeu a irm, mas a gente sempre tem o seu bocadinho de brio!
       - ora, mana! replicou o cnego Dias com um azedume de raiva concentrada. Ora, mana! ningum lhe pede a sua opinio!
       - Nem preciso que ma peam, gritou ela empertigando-se. Sei-a dar muito bem quando quero e como quero. Se no tem vergonha, tenho-a eu!
       - Ento! ento! disseram em roda, acalmando-a.
       - Menos lngua, mana, menos lngua! disse o cnego fechando os seus culos. Olhe, no lhe caiam os dentes postios!
       - Seu malcriado!
       Ia falar, mas sufocou-se; e comeou subitamente a soltar ais.
       Recearam logo que lhe desse o flato; a S. Joaneira e a D. Joaquina Gansoso levaram-na para o quarto, embaixo, amparando-a, com palavras brandas:
       - Ests doida! Por quem s, filha! Olha que escndalo! Nossa Senhora te valha!
       Amlia mandava buscar gua de flor de laranja.
       - Deixe-a l, rosnou o cnego, deixe-a l! Aquilo passa-lhe. So calores!
       Amlia deu um olhar triste ao padre Amaro, e desceu ao quarto com a Sra. D. Maria da Assuno e a Gansoso surda, que iam tambm "sossegar a D. Josefa, coitadita!" 
Os padres agora estavam ss e o cnego voltando-se para Amaro: - Oua voc, que  a sua vez - disse retomando o jornal.
       - E ver que dose! disse Natrio.
       O cnego escarrou, aproximou mais o candeeiro, e declamou:
       "... Mas o perigo so certos padres novos e ajanotados, procos por influncias de condes da capital, vivendo na intimidade das famlias de bem onde h donzelas 
inexperientes, e aproveitando-se da influncia do seu sagrado ministrio para lanar na alma da inocente a semente de chamas criminosas!"
       - Pouca vergonha! murmurou Amaro lvido.
       "... Dize, sacerdote de Cristo, onde queres arrastar a impoluta virgem? Queres arrast-la aos lodaais do vcio? Que vens fazer aqui ao seio desta respeitvel 
famlia? Por que rondas em volta da tua presa, como o milhafre em torno da inocente pomba? Para trs, sacrlego! Murmuras-lhe sedutoras frases, para a desviares 
do caminho da honra; condenas  desgraa e  viuvez algum honrado moo que lhe queira oferecer a sua mo trabalhadora; e vais-lhe preparando um horroroso futuro 
de lgrimas. E tudo para qu? Para saciares os torpes impulsos da tua criminosa lascvia..."
       - Que infame! rosnou com os dentes cerrados o padre Amaro.
       "...Mas acautela-te, presbtero perverso!" E a voz do cnego tinha tons cavos ao soltar aquelas apstrofes. "J o arcanjo levanta a espada da justia. E sobre 
ti, e teus cmplices, j a opinio da ilustrada Leiria fita seu olho imparcial. E ns c estamos, ns, filhos do trabalho, para vos marcar na fronte o estigma da 
infmia. Tremei, sectrios do Syllabus! cuidado, sotainas negras!"
       - De escacha! fez o cnego suado, dobrando a Voz do Distrito.
       O padre Amaro tinha os olhos enevoados de duas lgrimas de raiva: passou devagar o leno pela testa, soprou, disse com os beios a tremer:
       - Eu, colegas, nem sei o que hei-de dizer! Pelo Deus que me ouve, isto  a calnia das calnias.
       - Uma calnia infame... rosnaram.
       - E a mim, o que me parece, continuou Amaro,  que nos dirijamos  autoridade!
       -  o que eu tinha dito, acudiu Natrio,  necessrio falar ao secretrio-geral...
       - Um cacete  que ! rugiu o padre Brito. Autoridade! O que ,  rach-lo! Eu bebia-lhe o sangue!...
       O cnego, que meditava coando o queixo, disse ento:
       - E voc, Natrio,  que deve ir ao secretrio-geral. Voc tem lngua, tem lgica...
       - Se os colegas decidem, disse Natrio curvando-se, vou. E hei-de- lhas cantar,  autoridade!
Amaro ficara junto da mesa com a cabea entre as mos, aniquilado. E o Libaninho murmurava:
       - Ai, filhos, eu no  nada comigo, mas s de ouvir todo esse aranzel, at se me esto a vergar as pernas. Ai, filhos, um desgosto assim...
       Mas sentiram a voz da Sra. Joaquina Gansoso subindo a escada; e o cnego imediatamente com uma voz prudente:
       - Colegas, o melhor, diante das senhoras,  no se falar mais nisto. Bem basta o que basta.
       Da a momentos, apenas Amlia entrou, Amaro ergueu-se, declarou que estava com uma forte dor de cabea, e despediu-se das senhoras.
       - E sem tomar ch? acudiu a S. Joaneira.
       - Sim, minha senhora, disse ele embrulhando-se no seu capote, no me estou a sentir bem. Boas noites... E voc, Natrio, aparea amanh pela S  uma hora.
       Apertou a mo de Amlia, que se lhe abandonou entre os dedos passiva e mole, - e saiu com os ombros vergados.
       A S. Joaneira notou, desconsolada:
       - O senhor proco ia muito plido...
       O cnego levantou-se, e com um tom impaciente e quezilado:
       - Se ia plido, amanh estar corado. E agora quero dizer uma coisa. Esse aranzel do jornal  a calnia das calnias! Eu no sei quem o escreveu, nem para 
que o escreveu. Mas so tolices e so infmias.  pateta e maroto, quem quer que seja. O que devemos fazer j o sabemos, e como j se tagarelou bastante sobre o 
caso, a senhora mande vir o ch. E o que l vai, l vai, no se fala mais na questo.
       As faces em roda continuavam contristadas. - E ento o cnego acrescentou:
       - Ah! e quero dizer outra coisa: como no morreu ningum, no h necessidade de estar aqui com cara de psames. E tu, pequena, senta- te ao instrumento e 
repenica-me essa Chiquita!

***

       O secretrio-geral, o Sr. Gouveia Ledesma, antigo jornalista, e, em anos mais expansivos, autor do livro sentimental Devaneios de um Sonhador, estava ento 
dirigindo o distrito na ausncia do governador civil.
       Era um moo bacharel que passava por ter talento. Representara de gal no teatro acadmico, em Coimbra, com muito aplauso; e tomara a esse tempo o hbito 
de passear  tarde na Sofia, com o ar fatal com que no palco arrepelava os cabelos, ou levava, nos transes de amor, o leno aos olhos. Depois em Lisboa arruinara 
um pequeno patrimnio com o amor de Lolas e de Carmens, ceias no Mata, muita caa no Xafredo e perniciosas convivncias literrias: aos trinta anos estava pobre, 
saturado de mercrio e autor de vinte folhetins romnticos na Civilizao: mas tornara- se to popular, que era conhecido nos lupanares e nos cafs por um cognome 
carinhoso - era o Bibi. Julgando ento que conhecia a fundo a existncia, deixou crescer as suas, comeou a citar Bastiat, freqentou as cmaras e entrou na carreira 
administrativa; chamava agora  repblica que tanto exaltara em Coimbra uma absurda quimera; e Bibi era um pilar das instituies.
       Detestava Leiria, onde passava por espirituoso; e dizia s senhoras, nas soires do deputado Novais - "que estava cansado da vida". Rosnava- se que a esposa 
do bom Novais andava doida por ele: e em verdade Bibi escrevera a um amigo da capital: - "enquanto a conquistas, pouco por ora; tenho apenas no papo a Novaisitos".
       Levantava-se tarde; e nessa manh, de robe-de-chambre  mesa do almoo, partia os seus ovos quentes, lendo com saudade no jornal a narrao apaixonada duma 
pateada em S. Carlos, quando o criado, - um galego que trouxera de Lisboa - veio dizer que "estava ali um cura".
       - Um cura? Que entre para aqui! - E murmurou para sua satisfao pessoal: - o Estado no deve fazer esperar a Igreja.
       Ergueu-se, e estendeu as duas mos ao padre Natrio que entrava, muito composto, na sua longa batina de lustrina.
       - Uma cadeira, Trindade! Toma uma chvena de ch, senhor cura? Soberba manh, hem? Estava justamente pensando em si, - isto , estava pensando no clero em 
geral... Acabava de ler as peregrinaes que se esto fazendo a Nossa Senhora de Lourdes... Grande exemplo! Milhares de pessoas da melhor roda...  realmente consolador 
ver renascer a f... Ainda ontem eu disse em casa do Novais: "No fim de tudo a f  a mola real da sociedade". Tome uma chvena de ch... Ah!  um grande blsamo!...
       - No, obrigado, almocei j.
       - Mas no! Quando digo um grande blsamo refiro-me  f, no ao ch! Ah! ah!  boa, no?
E prolongou a sua risadinha com complacncia. Queria agradar a Natrio, pelo princpio que repetia muito, com um sorriso astuto - "que quem est metido na poltica 
deve ter por si a padraria".
       - E depois, acrescentou, como eu dizia ontem em casa do Novais, que vantagem para as localidades! Lourdes, por exemplo, era uma aldeola; pois com a afluncia 
dos devotos est uma cidade... Grandes hotis, bulevares, belas lojas...  por assim dizer o desenvolvimento econmico, correndo parelhas com o renascimento religioso.
       E deu com satisfao um puxozinho grave ao colarinho.
       - Pois eu vinha aqui falar a V. Ex.a a respeito dum comunicado na Voz do Distrito.
       - Ah! interrompeu o secretrio-geral, perfeitamente, li! Uma famosa verrina... Mas literariamente, como estilo e como imagens, que misria!
       - E que tenciona V. Ex.a fazer, senhor secretrio-geral?
       O Sr. Gouveia Ledesma apoiou-se nas costas da cadeira, perguntou pasmado:
       - Eu?
       Natrio disse, destilando as palavras:
       - A autoridade tem o dever de proteger a religio do Estado, e implicitamente os seus sacerdotes... Que tenha V. Ex.a em vista, eu no venho aqui em nome 
do clero...
       E acrescentou com a mo sobre o peito:
       - Sou apenas um pobre padre sem influncia... Venho, como particular, perguntar ao senhor secretrio-geral se se pode permitir que caracteres respeitveis 
da Igreja diocesana sejam assim difamados...
       -  certamente lamentvel que um jornal...
       Natrio interrompeu, empertigando o busto com indignao:
       - Jornal que j devia estar suspenso, senhor secretrio-geral!
       - Suspenso! Por quem , senhor cura! Mas V. St decerto no quer que eu volte ao tempo dos corredores-mores! - Suspender o jornal! Mas a liberdade de imprensa 
 um princpio sagrado! Nem as leis de imprensa o permitem... Mesmo querelar pelo ministrio pblico porque um peridico diz duas ou trs pilhrias sobre o cabido, 
impossvel! Tnhamos de querelar toda a imprensa de Portugal, com exceo da Nao e do Bem Pblico! Onde iria parar a liberdade de pensamento, trinta anos de progresso, 
a prpria idia governamental? Mas ns no somos os Cabrais, meu caro senhor! Ns queremos luz, muitssima luz! Justamente o que ns queremos  luz!
       Natrio tossiu devagarinho, disse: 
       - Perfeitamente. Mas ento quando pelas eleies, a autoridade nos vier pedir o nosso auxilio, ns vendo que no encontramos nela proteo, diremos simplesmente: 
"Non possumus!"
       - E pensa o senhor cura, que por amor de alguns votos que do os senhores abades, ns vamos trair a civilizao?
       E o antigo Bibi, tomando uma grande atitude, soltou esta frase:
       - Somos filhos da liberdade, no renegaremos nossa me!
       - Mas o doutor Godinho, que  a alma do jornal,  oposio, observou ento Natrio; proteger-lhe o jornal  implicitamente proteger-lhe as manobras...
       O secretrio-geral teve um sorriso:
       - Meu caro senhor cura, V. St no est no segredo da poltica. Entre o doutor Godinho e o governo civil no h inimizade, h apenas um arrufo... O doutor 
Godinho  uma inteligncia... Vai reconhecendo que o grupo da Maia no produz nada... O doutor Godinho aprecia a poltica do governo, e o governo aprecia o doutor 
Godinho.
       E, rebuando-se todo num mistrio de Estado, acrescentou:
       - Coisas de alta poltica, meu caro senhor.
       Natrio ergueu-se:
       - De modo que...
       - Impossibilis est, disse o secretrio. De resto acredite, senhor cura, que, como particular, revolto-me contra o Comunicado; mas como autoridade devo respeitar 
a expresso do pensamento... Mas creia, e pode diz-lo a todo o clero diocesano, a Igreja catlica no tem um filho mais fervente que eu, Gouveia Ledesma... Quero 
porm uma religio liberal, de harmonia com o progresso, com a cincia... Foram sempre as minhas idias; preguei-as bem alto, na imprensa, na universidade e no grmio... 
Assim, por exemplo, no acho que haja poesia maior que a poesia do cristianismo! E admiro Pio IX, uma grande figura! Somente lamento que ele no arvore a bandeira 
da civilizao! - E o antigo Bibi, contente da sua frase, repetia-a: - Sim, lamento que ele no arvore a bandeira da civilizao... O Syllabus  impossvel neste 
sculo de eletricidade, senhor cura! E a verdade  que ns no podemos querelar dum jornal, porque ele diz duas ou trs pilhrias sobre o sacerdcio, nem nos convm, 
por altas razes de poltica, escandalizar o doutor Godinho. Aqui tem o meu pensamento.
       - Senhor secretrio-geral, disse Natrio curvando-se.
       - Um criado de V. S.a. Sinto que no tome uma chvena de ch. E como vai o nosso chantre?
       - S. Ex. a nestes ltimos dias, segundo creio, tem tornado a sofrer de tonturas.
       - Sinto. Uma negligncia tambm! Grande latinista... Tenha cuidado com o degrau!...
       Natrio correu  S, com um passo nervoso, resmungando alto de clera. Amaro passeava devagar no terrao, com as mos atrs das costas: tinha as olheiras 
batidas e a face envelhecida.
       - Ento? disse ele, indo rapidamente ao encontro de Natrio.
       - Nada!
       Amaro mordeu o beio: e enquanto Natrio lhe contava, excitado, a conversao com o secretrio-geral, "e como argumentara com ele, e como o homem tagarelara, 
tagarelara", - a face do proco cobria-se duma sombra desconsolada, e ia arrancando raivosamente, com a ponta do guarda-sol, a erva que crescia nas fendas do terrao.
       - Um patarata! resumiu o padre Natrio com um grande gesto. Pela autoridade no se faz nada.  escusado... Mas a questo agora  entre mim e o liberal, padre 
Amaro! Eu hei-de saber quem , padre Amaro! E quem o esmaga sou eu, padre Amaro, sou eu!...

***

       No entanto, Joo Eduardo desde o domingo triunfava; o artigo fizera escndalo: tinham-se vendido oitenta nmeros avulsos do jornal, e o Agostinho afirmara-lhe 
que na botica da Praa a opinio era "que o liberal conhecia a padraria a fundo e tinha cabea" ! _
       - s um gnio, rapaz, disse o Agostinho.  trazer-me outro,  trazer-me outro!
Joo Eduardo gozava prodigiosamente "daquele falatrio que ia pela cidade".
Relia ento o artigo com uma deleitao paternal; se no receasse escandalizar a S. Joaneira, desejaria ir pelas lojas dizer bem alto: fui eu, eu  que o escrevi! 
- e j ruminava outro, mais terrvel, que se deveria intitular: O diabo feito eremita, ou O sacerdcio de Leiria perante o sculo XIX!
       O doutor Godinho encontrara-o na Praa, e parara com condescendncia, para lhe dizer:
       - A coisa tem feito barulho. Voc  o diabo! E a piada ao Brito  bem jogada. Que eu no sabia... E diz que  bonita, a mulher do regedor...
       - V. Ex.a no sabia?
       - No sabia, e saboreei. Voc  o diabo! Eu fui que disse ao Agostinho que publicasse a coisa como um comunicado. Voc compreende... Eu no me convm ter 
turras de mais com o clero... E depois l minha esposa tem seus escrpulos... Enfim,  melhor e  conveniente que as mulheres tenham religio... Mas no meu foro 
interior saboreei... Sobretudo a piada ao Brito. O patife fez-me uma guerra dos diabos na eleio passada... Ah! e outra coisa, o seu negcio arranja-se. L para 
o ms que vem tem o seu emprego no governo civil.
       - Oh, senhor doutor, V. Ex.a....
       - Qual histria, voc  um benemrito!
       Joo Eduardo foi para o cartrio, trmulo de alegria. O Sr. Nunes Ferral sara: o escrevente aparou devagar uma pena, comeou a cpia duma procurao, - e 
de repente, agarrando o chapu, correu  Rua da Misericrdia.
       A S. Joaneira costurava s  janela: Amlia fora ao Morenal: e Joo Eduardo, logo da porta:
       - Sabe, D. Augusta? Estive agora com o doutor Godinho. Diz que l para o ms que vem tenho o meu emprego...
       A S. Joaneira tirou a luneta, deixou cair as mos no regao:
       - Que me diz?...
       -  verdade,  verdade...
       E o escrevente esfregava as palmas, com risinhos nervosos de jbilo.
       - Que pechincha! exclamou. De modo que agora, se a Ameliazinha estiver de acordo...
       - Ai! Joo Eduardo! fez a S. Joaneira com um grande suspiro, que me tira um peso do corao... Que tenho estado... Olhe, nem tenho dormido!...
       Joo Eduardo pressentiu que ela ia falar do Comunicado. Foi pr o chapu numa cadeira ao canto; e voltando  janela, com as mos nos bolsos:
       - Ento por qu, por qu?
       - Aquela pouca-vergonha no Distrito! Que diz voc? Aquela calnia! Ai! tenho-me feito velha!
       Joo Eduardo escrevera o artigo sob as solicitaes do cime, s para "enterrar" o padre Amaro; no previra o desgosto das duas senhoras; e vendo agora a 
S. Joaneira com duas lgrimas no branco dos olhos, sentia-se quase arrependido. Disse ambiguamente:
       - Eu li,  o diabo...
       Mas aproveitando o sentimento da S. Joaneira para servir a sua paixo, acrescentou sentando-se, chegando a cadeira para ao p dela:
       - Eu nunca lhe quis falar disso, D. Augusta, mas... olhe que a Ameliazinha tratava o proco com muita familiaridade... E pelas Gansosos, pelo Libaninho, mesmo 
sem quererem, a coisa ia-se sabendo, ia-se rosnando... Eu bem sei que ela, coitada, no via o mal, mas... a D. Augusta sabe o que  Leiria. Que lnguas, hem!
       A S. Joaneira ento declarou que lhe ia falar como a um filho: o artigo afligira-a, sobretudo por causa dele, Joo Eduardo. Porque enfim ele podia acreditar 
tambm, desfazer o casamento, e que desgosto! E ela podia dizer-lhe como mulher de bem, como me, que no havia entre a pequena e o senhor proco, nada, nada, nada! 
Era a rapariga que tinha aquele gnio comunicativo! E o proco tinha boas palavras, sempre muito delicado... Que ela sempre o dissera, o Sr. padre Amaro tinha maneiras 
que tocavam o corao...
       - Decerto, disse Joo Eduardo mordendo o bigode, com a cabea baixa.
       A S. Joaneira ento ps a mo de leve sobre o joelho do escrevente, e fitando-o:
       - E olhe, no sei se me fica mal dizer-lho, mas a rapariga quer-lhe deveras, Joo Eduardo.
       O corao do escrevente teve uma palpitao comovida.
       - E eu! disse. A D. Augusta sabe a paixo que eu tenho por ela... E l do artigo que me importa a mim?
       Ento a S. Joaneira limpou os olhos ao avental branco. Ai! era uma alegria para ela! Ela sempre o dissera, como rapaz de bem, no havia outro na cidade de 
Leiria! .
       - Voc sabe, quero-lhe como filho!
       O escrevente enterneceu-se:
       - Pois vamos a isso, e tapam-se as bocas do mundo... E erguendo- se, com uma solenidade engraada:
       - Sra. D. Augusta! Tenho a honra de lhe pedir a mo...
       Ela riu-se, - e na sua alegria Joo Eduardo beijou-a na testa, filialmente.
       - E fale  noite  Ameliazinha, disse ao sair. Eu venho amanh, e felicidade no h-de faltar...
       - Louvado seja Nosso Senhor, acrescentou a S. Joaneira retomando a sua costura, com um suspiro de muito alivio.
       Apenas, nessa tarde, Amlia voltou do Morenal, a S. Joaneira, que estava pondo a mesa, disse-lhe:
       - Esteve ai o Joo Eduardo...
       - Ah!...
       - Ai esteve a falar, coitado...
       Amlia, calada, dobrava a sua manta de l.
       - A esteve a queixar-se, continuou a me.
       - Mas de qu? perguntou ela muito vermelha.
       - Ora de qu! Que se falava muito na cidade do artigo do Distrito; que se perguntava a quem aludia o peridico com as donzelas inexperientes, e que a resposta 
era: "Quem h-de ser? a Amlia da S. Joaneira, da Rua da Misericrdia!" O pobre Joo diz que tem andado to desgostoso!... No se atrevia, por delicadeza, a falar-te... 
Enfim...
       - Mas que hei-de eu fazer, minha me? exclamou Amlia com os olhos subitamente cheios de lgrimas, quelas palavras que caam sobre os seus tormentos como 
gotas de vinagre sobre feridas.
       - Eu digo-te isto para seu governo. Faz o que quiseres, filha. Eu bem sei que so calnias! Mas tu sabes o que so lnguas do mundo... O que te posso dizer 
 que o rapaz no acreditou no peridico. Que era isso que me dava cuidado!... Credo! tirou-me o sono... Mas no, diz que no lhe importa o artigo, que te quer da 
mesma maneira, e est a arder por que se faa o casamento... E eu por mim o que fazia, para calar toda essa gente, era casar-me j. Eu bem sei que tu no morres 
por ele, bem sei. Deixa l! Isso vem depois. O Joo  bom rapaz, vai ter o emprego...
       - Vai ter o emprego!?
       - Pois foi o que ele me veio dizer tambm... Esteve com o doutor Godinho, diz que l para o fim do ms est empregado... Enfim tu fazes o que entenderes... 
Que olha que eu estou velha, filha, posso faltar-te dum momento para o outro!...
       Amlia no respondeu, olhando de frente no telhado voarem os pardais - menos desassossegados, naquele instante, que os seus pensamentos.

***

       Desde domingo vivia atordoada. Sabia bem que a donzela inexperiente a que aludia o Comunicado era ela, Amlia, e torturava-a o vexame de ver assim o seu amor 
publicado no jornal. Depois (como ela pensava, mordendo o beio numa raiva muda, com os olhos afogados de lgrimas), aquilo vinha estragar tudo! Na Praa, na Arcada 
j se diria com risinhos perversos: - "Ento a Ameliazita da S. Joaneira metida com o proco, hem?" Decerto o senhor chantre, to severo em "coisas de mulheres", 
repreenderia o padre Amaro... E por alguns olhares, alguns apertos de mo, a estava a sua reputao estragada, estragado o seu amor!
       Na segunda-feira, ao ir ao Morenal, parecera-lhe sentir pelas costas risinhos a escarnec-la; no aceno que lhe fez da porta da botica o respeitvel Carlos 
julgou ver uma secura repreensvel;  volta encontrara o Marques da loja de ferragens, que no lhe tirou o chapu, e ao entrar em casa julgava-se desacreditada - 
esquecendo que o bom Marques era to curto de vista que usava na loja duas lunetas sobrepostas.
       - Que hei-de eu fazer? que hei-de eu fazer? murmurava, s vezes, com as mos apertadas na cabea. O seu crebro de devota apenas lhe fornecia solues devotas 
- entrar num recolhimento, fazer uma promessa a Nossa Senhora das Dores "para que a livrasse daquele apuro", ir confessar-se ao padre Silvrio... E terminava por 
se vir sentar resignadamente ao p da me com a sua costura, considerando, muito enternecida, que desde pequena fora sempre bem infeliz!
       A me no lhe falara claramente sobre o Comunicado: tivera apenas palavras ambguas:
       -  uma pouca-vergonha...  deitar ao desprezo... Quando a gente tem a sua conscincia sossegada, o mais histrias...
       Mas Amlia via-lhe bem o desgosto - na face envelhecida, nos tristes silncios, nos suspiros repentinos quando fazia meia  janela com a luneta na ponta do 
nariz: e ento mais se convencia que havia "grande falatrio na cidade", de que a me, coitada, estava informada pelas Gansosos e pela D. Josefa Dias - cuja boca 
produzia o mexerico mais naturalmente que a saliva. Que vergonha, Jesus!
       E ento o seu amor pelo proco, que at ai, naquela reunio de saias e batinas da Rua da Misericrdia se lhe afigurara natural, agora, julgando-o reprovado 
pelas pessoas que desde pequena fora acostumada a respeitar - os Guedes, os Marques, os Vaz, - aparecia-lhe j monstruoso: assim as cores dum retrato pintado  luz 
de azeite, e que  luz de azeite parecem justas, tomam tons falsos e disformes quando lhes cai em cima a luz do sol. E quase estimava que o padre Amaro no tivesse 
voltado  Rua da Misericrdia.
       No entanto, com que ansiedade esperava todas as noites o seu toque de campainha! Mas ele no vinha; e aquela ausncia, que a sua razo julgava prudente, dava 
ao seu corao o desespero de uma traio. Na quarta- feira  noite no se conteve, disse, corando sobre a sua costura: - Que ser feito do senhor proco?
       O cnego, que na sua poltrona parecia dormitar, tossiu grosso, mexeu-se, rosnou:
       - Mas que fazer... E escusam de esperar por ele to cedo!...
       E Amlia, que ficara branca como a cal, teve imediatamente a certeza que o proco, aterrado com o escndalo do jornal, aconselhado pelos padres timoratos, 
zelosos "do bom nome do clero" - tratava de se descartar dela! Mas, cautelosa, diante das amigas da me, escondeu o seu desespero: foi mesmo sentar-se ao piano, 
e tocou mazurcas to estrondosas - que o cnego, tomando a mexer-se na poltrona, grunhiu:
       - Menos espalhafato e mais sentimento, rapariga!
       Passou uma noite agoniada, e sem chorar. A sua paixo pelo proco flamejava mais irritada; e todavia detestava-o pela sua cobardia. Mal uma aluso num jornal 
o picara, ficara a tremer na sua batina, apavorado, no se atrevendo sequer a visit-la - sem se lembrar que tambm ela se via diminuda na sua reputao, sem ser 
satisfeita no seu amor! E fora ele que a tentara com as suas palavrinhas doces, as suas denguices! Infame!... Desejava violentamente apert-lo ao corao - e esbofete-lo. 
Teve a idia insensata de ir ao outro dia  Rua das Sousas atirar-se-lhe aos braos, instalar-se-lhe no quarto, fazer um escndalo que o obrigasse a fugir da diocese... 
Por que no? Eram novos, eram robustos, poderiam viver longe, noutra cidade, - e a sua imaginao comeou a repastar-se logo histericamente nas perspectivas deliciosas 
dessa existncia, em que se figurava constantemente a dar-lhe beijos! Atravs da sua intensa excitao, aquele plano parecia-lhe muito prtico, muito fcil: fugiriam 
para o Algarve; l, ele deixaria crescer o cabelo (que mais bonito seria ento!) e ningum saberia que era um padre; poderia ensinar latim, ela coseria para fora; 
e viveriam numa casinha - onde o que mais a atraia era o leito com as duas travesseirinhas chegadas... E a nica dificuldade que via em todo este plano radiante, 
era fazer sair de casa, s escondidas da me, o ba com a sua roupa! - Mas quando acordou, essas resolues mrbidas,  luz clara do dia, desfizeram-se como sombras: 
tudo aquilo que parecia agora to impraticvel, e ele to separado dela, como se entre a Rua da Misericrdia e a Rua das Sousas se erguessem inacessivelmente todas 
as montanhas da Terra. Ai, o senhor proco abandonara-a, era certo! No queria perder os lucros da sua parquia nem a estima dos seus superiores!... Pobre dela! 
Considerou-se ento para sempre infeliz e desinteressada da vida. Guardou, todavia, muito intenso, o desejo de se vingar do padre Amaro.
       Foi ento que refletiu, pela primeira vez, que Joo Eduardo desde a publicao do Comunicado no aparecera na Rua da Misericrdia. Tambm me volta as costas 
- pensou com amargura. Mas que lhe importava? No meio da aflio que lhe dava o abandono do padre Amaro, a perda do amor do escrevente, piegas e pesado, que lhe 
no trazia utilidade nem prazer, era uma contrariedade imperceptvel: uma infelicidade viera que lhe arrebatava bruscamente todas as afeies - a que lhe enchia 
a alma, e a que apenas lhe acariciava a vaidadezinha; e irritava-a, sim, no sentir j o amor do escrevente colado a suas saias, com a docilidade dum co - mas todas 
as suas lgrimas eram para o senhor proco "que j no queria saber dela"! S lamentava a desero de Joo Eduardo, porque perdia assim um meio sempre pronto de 
fazer enraivecer o padre Amaro...

***

       Por isso nessa tarde  janela, calada, olhando no telhado defronte voarem os pardais - depois de saber que Joo Eduardo certo do emprego, viera falar enfim 
a me - pensava com satisfao no desespero do proco ao ver publicados na S os banhos do seu casamento. Depois as palavras muito prticas da S. Joaneira trabalhavam-lhe 
silenciosamente na alma: o emprego do governo civil rendia 25$000 ris mensais; casando, reentrava logo na sua respeitabilidade de senhora; e se a me morresse, 
com o ordenado do homem e com o rendimento do Morenal, podia viver com decncia, ir mesmo no Vero aos banhos... E via-se j na Vieira, muito cumprimentada pelos 
cavalheiros, conhecendo talvez a do governador civil.
       - Que lhe parece, minha me? - perguntou bruscamente. Estava decidida pelas vantagens que entrevia; mas, com a sua natureza lassa, desejava ser persuadida 
e forada.
       - Eu ia pelo seguro, filha - foi a resposta da S. Joaneira.
       -  sempre o melhor - murmurou Amlia entrando no quarto. E sentou-se muito triste aos ps da cama porque a melancolia que lhe dava o crepsculo tornava-lhe 
agora mais pungente a saudade "dos seus bons tempos com o senhor proco".
       Nessa noite choveu muito, as duas senhoras passaram ss. A S. Joaneira, repousada agora das suas inquietaes, estava muito sonolenta, a cada momento cabeceava 
com a meia cada no regao. Amlia ento pousava a costura, e com o cotovelo sobre a mesa, fazendo girar o abajur verde do candeeiro, pensava no seu casamento: o 
Joo Eduardo era bom rapaz, coitado; realizava o tipo de marido to estimado na pequena burguesia - no era feio e tinha um emprego; decerto o oferecimento da sua 
mo, apesar das infmias do jornal, no lhe parecia, como a me dissera, "um rasgo de mo-cheia"; mas a sua dedicao lisonjeava-a, depois do abandono to cobarde 
de Amaro: e havia dois anos que o pobre Joo gostava dela... Comeou ento laboriosamente a lembrar tudo o que nele lhe agradava - o seu ar srio, os seus dentes 
muito brancos, a sua roupa asseada. 
       Fora ventava forte, e a chuva, fustigando friamente as vidraas, dava-lhe apetites de confortos, um bom lume, o marido ao lado, o pequerrucho a dormir no 
bero - porque seria um rapaz, chamar-se-ia Carlos e teria os olhos negros do padre Amaro. O padre Amaro... Depois de casada, decerto, tornaria a encontrar o Sr. 
padre Amaro... E ento uma idia atravessou todo o seu ser, f-la erguer bruscamente, ir por instinto procurar a escurido da janela para ocultar a vermelhido do 
rosto. Oh! isso no, isso no! Era horrvel!... Mas a idia implacavelmente apoderara-se dela como um brao muito forte que a sufocava e lhe dava uma agonia deliciosa. 
E ento o antigo amor, que o despeito e a necessidade tinham recalcado no fundo da sua alma, rompeu, inundou-a: murmurou repetidamente, com paixo, torcendo as mos, 
o nome de Amaro: desejou avidamente os seus beijos - oh! adorava-o! E tudo tinha acabado, tudo tinha acabado! E devia casar, pobre dela!... Ento  janela, com a 
face contra a escurido da noite, choramingou baixinho.
       Ao ch a S. Joaneira disse-lhe, de repente:
       - Pois a coisa, a fazer-se, filha, deve ser j... Era comear o enxoval, e se fosse possvel casar-te para o fim do ms.
       Ela no respondeu - mas a sua imaginao alvoroou-se quelas palavras. Casada da a um ms, ela! Apesar de Joo Eduardo lhe ser indiferente, a idia daquele 
rapaz, novo e apaixonado, que ia viver com ela, dormir com ela, deu uma perturbao a todo o seu ser.
       E quando a me ia descer ao quarto, disse-lhe:
       - Que lhe parece, minha me? Eu est-me a custar entrar em explicaes com o Joo Eduardo, dizer-lhe que sim. O melhor era escrever-lhe...
       - Tambm acho, filha, escreve-lhe... A Rua leva a carta pela manh... Uma carta bonita, e que agrade ao rapaz.
       Amlia ficou na sala de jantar at tarde fazendo o rascunho da carta. Dizia:

       "SR. JOO EDUARDO.
A mam c me ps ao fato da conversao que teve consigo. E se a sua afeio  verdadeira, como creio e me tem dado muitas provas, eu estou pelo que se decidiu com 
muito boa vontade, pois conhece os meus sentimentos. E a respeito de enxoval e papis, amanh se falar, pois que o esperamos para o ch. A mam est muito contente 
e eu desejo que tudo seja para nossa felicidade, como espero h-de ser, com a ajuda de Deus. A mam recomenda-se e eu sou 
a que muito lhe quer,
Amlia Caminha".

       Apenas fechou a carta, as folhas de papel branco espalhadas diante dela deram-lhe o desejo de escrever ao padre Amaro. Mas o qu? Confessar-lhe o seu amor, 
com a mesma pena, molhada na mesma tinta, com que aceitava por marido o outro?... Acus-lo da sua cobardia, mostrar o seu desgosto - era humilhar-se! E apesar de 
no ter motivo para lhe escrever, a sua mo ia traando com gozo as primeiras palavras: "Meu adorado Amaro..." Deteve-se, considerando que no tinha por quem mandar 
a carta. Ai! tinham de separar-se assim, em silncio, para sempre!... Separarem-se por qu? - pensou. Depois de casada podia bem ver o Sr, padre Amaro. E a mesma 
idia voltava, sutilmente, mas numa forma to honesta agora, que a no repelia: decerto, o Sr. padre Amaro podia ser o seu confessor; era em toda a cristandade a 
pessoa que melhor guiaria a sua alma, a sua vontade, a sua conscincia; haveria ento entre eles uma troca deliciosa e constante de confidncias, de doces admoestaes; 
todos os sbados iria receber ao confessionrio, na luz dos seus olhos e no som das suas palavras, uma proviso de felicidade; e aquilo seria casto, muito picante, 
e para a glria de Deus.
       Sentiu-se quase satisfeita com a impresso, que no definia bem, duma existncia em que a carne estaria legitimamente contente, e a sua alma gozaria os encantos 
duma devoo amorosa. Tudo vinha a calhar bem, por fim... E da a pouco dormia serenamente, sonhando que estava na sua casa, com o seu marido, e que jogava a manilha 
com as velhas amigas, no meio do contentamento de toda a S, sentada nos joelhos do senhor  proco.
       Ao outro dia a Rua levou a carta a Joo Eduardo, e toda a manh as duas senhoras, costurando  janela, falaram do casamento. Amlia no se queria separar 
da me, e, como a casa tinha acomodaes, os noivos viveriam no primeiro andar, e a S. Joaneira dormiria no quarto em cima; decerto o senhor cnego ajudaria para 
o enxoval; podiam ir passar a lua-de-mel para a fazenda da D. Maria. E Amlia quelas perspectivas felizes fazia-se toda escarlate, sob o olhar da me que, de luneta 
na ponta do nariz, a admirava, babosa.
       s Ave-Marias a S. Joaneira fechou-se embaixo no seu quarto a rezar a sua coroa, e deixou Amlia s "para se entender com o rapaz". - Dai a pouco, com efeito, 
Joo Eduardo bateu  campainha. Vinha muito nervoso, de luvas pretas, enfrascado em gua-de-colnia. Quando chegou  porta da sala de jantar no havia luz, e a bonita 
forma de Amlia destacava de p, junto  claridade da vidraa. Ele ps o xale-manta a um canto como costumava, e vindo para ela que ficara imvel, disse-lhe, esfregando 
muito as mos:
       - L recebi a cartinha, menina Amlia.
       - Eu mandei-a pela Rua logo pela manh para o pilhar em casa - disse ela imediatamente com as faces a arder.
       - Eu ia para o cartrio, at j ia na escada... Haviam de ser nove horas...
       - Haviam de ser... - disse ela.
       Calaram-se, muito perturbados. Ele ento tomou-lhe delicadamente os pulsos, e baixo:
       - Ento sempre quer?
       - Quero, murmurou Amlia.
       - E o mais depressa possvel, hem?
       - Pois sim...
       Ele suspirou, muito feliz.
       - Havemos de nos dar muito bem, havemos de nos dar muito bem, dizia. E as suas mos, com presses temas, iam-se apoderando dos braos dela, dos pulsos aos 
cotovelos.
       - A mam diz que podemos viver juntos, disse ela, esforando-se por falar tranqilamente.
       - Est claro, e eu vou mandar fazer lenis, acudiu ele, todo alterado.
       Atraiu-a ento a si, subitamente, beijou-lhe os lbios; ela teve um soluozinho, abandonou-se-lhe entre os braos, toda fraca, toda lnguida.
       - Oh filha! murmurava o escrevente.
       Mas os sapatos da me rangeram na escada, e Amlia foi vivamente para o aparador acender o candeeiro.
       A S. Joaneira parou  porta; e para dar a sua primeira aprovao maternal, disse, com bonomia:
       - Ento vocs esto aqui s escuras, filhos?
       Foi o cnego Dias que participou ao padre Amaro o casamento de Amlia, uma manh na S. Falou no ''a propsito do enlace'', e acrescentou:
       - Eu estimo, porque  a contento da rapariga, e  um descanso para a pobre velha...
       - Est claro, est claro... - murmurou Amaro, que se fizera muito branco.
       O cnego pigarreou grosso, e ajuntou:
       - E voc agora aparea por l, agora est tudo na ordem... A patifaria do jornal isso pertence  histria... O que l vai, l vai!
       - Est claro, est claro... - rosnou Amaro. Traou bruscamente a capa, saiu da igreja.
       Ia indignado; e continha-se, para no praguejar alto, pelas ruas.  esquina da viela das Sousas quase esbarrou com Natrio, que o agarrou, logo, pela manga, 
para lhe soprar ao ouvido:
       - Ainda no sei nada!
       - De qu?
       - Do liberal, do Comunicado. Mas trabalho, trabalho!
       Amaro, que ansiava por desabafar, disse logo:
       - Ento ouviu a novidade? O casamento de Amlia... Que lhe parece?
       - Disse-me o animal do Libaninho. Diz que o rapaz apanhou o emprego... Foi o doutor Godinho... E outro que tal!... Veja voc esta corja. O doutor Godinho 
do jornal s bulhas com o governo civil, e o governo civil a atirar postas aos afilhados do doutor Godinho. V l entend-los! Isto  um pas de biltres!
       - Diz que h grande alegro na casa da S. Joaneira! - disse o proco, com um azedume negro.
       - Que se divirtam! Eu no tenho tempo de l ir... Eu no tenho tempo para nada!... Eu c ando no meu fito, saber quem  o liberal e escach-lo! No posso 
ver esta gente que leva a chicotada, coa-se, e curva a orelha. Eu c no! eu guardo-as! - E, com uma contrao de rancor, que lhe curvou os dedos em garra, e lhe 
encolheu o peito magro, disse por entre os dentes cerrados: - Eu, quando odeio, odeio bem!
       Esteve um momento calado, gozando o sabor do seu fel.
       - Voc se for  Rua da Misericrdia d l os parabns a essa gente... - E acrescentou com os olhinhos em Amaro: - O palerma do escrevente leva a rapariga 
mais bonita da cidade! Vai encher o papo!
       - At  vista! exclamou bruscamente Amaro, abalando pela rua furioso.
       Depois daquele terrvel domingo em que aparecera o Comunicado, o padre Amaro, ao principio, muito egoistamente, apenas se preocupara com as conseqncias 
- "conseqncias fatais, Santo Deus!" - que lhe podia trazer o escndalo. Hem! se pela cidade se espalhasse que era ele o padre ajanotado que o liberal apostrofava! 
Viveu dois dias aterrado, tremendo de ver aparecer o padre Saldanha, com a sua cara ameninada e voz melflua, a dizer-lhe "que sua excelncia o senhor chantre reclamava 
a sua presena"! Passava j o tempo preparando explicaes, respostas hbeis, lisonjas a sua excelncia. - Mas quando viu que, apesar da violncia do artigo, sua 
excelncia parecia disposto "a fazer a vista grossa", ocupou-se ento, mais tranqilo, dos interesses do seu amor to violentamente perturbados. O medo tornava-o 
astucioso; e decidiu no voltar algum tempo  Rua da Misericrdia.
       - Deixar passar o aguaceiro, pensou.
       Ao fim de quinze dias, trs semanas, quando o artigo estivesse esquecido, apareceria de novo em casa da S. Joaneira: deixaria ver bem  rapariga que a adorava 
sempre, mas evitaria a antiga familiaridade, as conversazinhas baixas, os lugarzinhos chegados ao quino; depois, pela D. Maria da Assuno, pela D. Josefa Dias, 
obteria que Amlia deixasse o padre Silvrio e se confessasse a ele: poderiam ento entender-se, no segredo do confessionrio: combinariam uma conduta discreta, 
encontros cautelosos aqui e alm, cartinhas pela criada: e aquele amor assim conduzido, com prudenciazinha, no teria o perigo de aparecer uma manh anunciado no 
peridico! E regozijava-se j da habilidade desta combinao, quando lhe vinha o grande choque - casava-se a rapariga!
       Depois dos primeiros desesperos, desabafos em patadas no soalho e blasfmias de que pedia logo perdo a Nosso Senhor Jesus Cristo, quis serenar, estabelecer 
a razo das coisas. Aonde o levava aquela paixo? Ao escndalo. E assim, casada ela, cada um entrava no seu destino legitimo e sensato - ela na sua famlia, ele 
na sua parquia. Depois, quando se encontrassem, um cumprimento amvel; e ele poderia passear a cidade com a sua cabea bem direita, sem medo dos apartes da Arcada, 
das insinuaes da gazeta, das severidades de sua excelncia e das picadinhas da conscincia! E a sua vida seria feliz. - No, por Deus! a sua vida no poderia ser 
feliz sem ela! Tirado  sua existncia aquele interesse das visitas  Rua da Misericrdia, os apertozinhos de mo, a esperana de delicias melhores - que lhe restava 
a ele? Vegetar, como um dos tortulhos nos cantos midos da S! E ela, ela que o entontecera com os seus olhinhos e as suas maneirinhas, voltava-lhe as costas mal 
lhe aparecia outro, bom para marido, com 25$000 por ms! Todos aqueles suspiros, aquelas mudanas de cor - chalaa! Mangara com o senhor proco!
       O que a odiava! - menos que ao outro porm, o outro que triunfava porque era um homem, tinha a sua liberdade, o seu cabelo todo, o seu bigode, um brao livre 
para lhe dar na rua! Repastava ento a imaginao rancorosamente nas vises de felicidade do escrevente: via-o trazendo-a da igreja triunfantemente; via-o beijando-lhe 
o pescoo e o peito... E a estas idias dava patadas furiosas no soalho - que assustavam a Vicncia na cozinha
       Depois procurava sossegar, retomar a direo das suas faculdades, aplic-las todas a achar uma vingana, uma boa vingana! E voltava ento o antigo desespero 
de no viver no tempo da Inquisio, e com uma denncia de irreligio ou de feitiaria, mand-los ambos para um crcere. Ah! nesse tempo um padre gozava! Mas agora, 
com os senhores liberais, tinha de ver aquele miservel escrevente a seis vintns por dia apoderar-se lhe da rapariga - e ele, sacerdote instrudo, que podia ser 
bispo, que podia ser papa, tinha de vergar os ombros e ruminar solitariamente o seu despeito! Ah! se as maldies de Deus tinham algum valor - malditos fossem eles! 
Queria v-los cheios de filhos, sem po na prateleira, com o ltimo cobertor empenhado, ressequidos de fome, injuriando-se, - e ele a rir-se, ele a regalar-se!...

***

       Na segunda-feira no se conteve, foi  Rua da Misericrdia. A S. Joaneira estava embaixo na saleta com o cnego Dias. E apenas viu Amaro:
       - Oh! senhor proco, bem aparecido! Estava a falar em V. Sa ! J estranhava no o vermos, agora que h alegria em casa.
       - J sei, j sei, murmurou Amaro plido.
       - Alguma vez havia de ser, disse o cnego jovialmente. Deus os faa felizes e lhes d poucos filhos, que a carne est cara.
       Amaro sorriu - escutando em cima o piano.
       Era Amlia que tocava como outrora a valsa dos Dois Mundos; e Joo Eduardo, muito chegado a ela, voltava as folhas da msica.
       - Quem entrou, Rua? gritou ela, sentindo os passos da rapariga nas escadas.
       - O Sr. padre Amaro.
       Um fluxo de sangue abrasou-lhe o rosto - e o corao batia-lhe to forte, que ficou um momento com os dedos imveis sobre e teclado.
       - No se precisava c do Sr. padre Amaro, rosnou Joo Eduardo por entre dentes.
       Amlia mordeu o beio. Teve dio ao escrevente: num instante repugnou-lhe a sua voz, os seus modos, a sua figura de p junto dela: pensou com deleite, como 
depois de casada ( que tinha de casar) se confessaria toda ao padre Amaro, e no deixaria de o amar! No sentia naquele momento escrpulos; e quase desejava que 
o escrevente lhe visse no rosto a paixo que a revolvia.
       - Credo, criatura! disse-lhe. Chegue-se um pouco mais para l, que nem me deixa os braos livres para tocar!
       Terminou bruscamente a valsa dos Dois Mundos, comeou a cantar o Adeus:

Ai! adeus! acabaram-se os dias
Que ditoso vivi a teu lado!

       A sua voz elevava-se, com uma modulao ardente, - dirigindo o canto, atravs do soalho, ao corao do proco, embaixo.
       E o proco, com a sua bengala entre os joelhos, sentado no canap, devorava todos os tons da voz dela - enquanto a S. Joaneira tagarelava, contando as peas 
de algodo que comprara para lenis, os arranjos que ia fazer no quarto dos noivos, e as vantagens de viverem juntos...
       - Uma felicidade por a alm, interrompeu o cnego erguendo-se pesadamente. E vamos l para cima, que isto de noivos no se querem ss...
       - Ah, l nisso, disse a S. Joaneira rindo, fio-me nele, que  um homem de bem s direitas.
       Amaro, ao subir a escada, tremia - e, mal entrou na sala, o rosto de Amlia, alumiado pelas luzes do piano, deu-lhe um deslumbramento, como se as vsperas 
do noivado a tivessem embelezado, e a separao lha tornasse mais apetitosa. Foi dar-lhe gravemente um aperto de mo, outro ao escrevente, disse baixo, sem os olhar:
       - Os meus parabns... Os meus parabns...
       Voltou as costas, e foi conversar com o cnego que se enterrara na sua poltrona, queixando-se de enfastiamento e reclamando o ch.
       Amlia ficara como abstrata, correndo inconscientemente os dedos pelo teclado. Aquele modo do padre Amaro confirmava a sua idia: queria a todo o custo descartar-se 
dela, o ingrato! fazia "como se nada tivesse havido", o vilo! Na sua cobardia de padre, com o terror do senhor chantre, do jornal, da Arcada, de tudo - sacudia-a 
da sua imaginao, do seu corao, da sua vida como se sacode um inseto que tem peonha!... Ento, para o enraivecer, comeou a cochichar ternamente com o escrevente; 
roava-se lhe pelo ombro, rendida, com risinhos, segredinhos; tentaram, em alarido jovial, tocar uma pea a quatro mos; depois ela beliscou-o, ele deu um gritinho 
exagerado. - E a S. Joaneira contemplava-os babosa, enquanto o cnego dormitava j, e o padre Amaro, abandonado a um canto como outrora o escrevente, ia folheando 
o velho lbum.
       Mas um brusco repique da campainha veio sobressalt-los todos: passos rpidos galgaram a escada, pararam embaixo na saleta; e a Rua apareceu dizendo "que 
era o Sr, padre Natrio, que no desejava subir, e queria dar uma palavra ao senhor cnego".
       - Fracas horas para embaixadas, rosnou o cnego, arrancando-se com custo ao fundo confortvel da poltrona.
       Amlia fechou logo o piano - e a S. Joaneira pousando a meia foi em bicos de ps escutar ao alto da escada: fora ventava forte, e para os lados da Praa afastava-se 
o toque de retreta.
       Enfim a voz do cnego chamou, de baixo, da porta da saleta:
       -  Amaro?
       - Padre-mestre?
       - Venha c, homem. E diga  senhora que pode vir tambm.
       A S. Joaneira desceu logo, muito assustada: Amaro imaginava que o padre Natrio enfim descobrira o liberal!
       A saleta parecia muito fria com a luz pequenina da vela sobre a mesa: e na parede, num velho painel muito escuro - que ultimamente o cnego dera  S. Joaneira 
- destacava uma face lvida de monge e um osso frontal de caveira.
       O cnego Dias acomodara-se ao canto do canap, sorvendo refletidamente a pitada: e Natrio, que se agitava pela sala, exclamou logo:
       - Boas noites, senhora! Ol, Amaro! Trago novidades!... No quis subir porque imaginei que estaria o escrevente, e estas coisas so c para ns. Estava a 
comear a dizer ao colega Dias... Tive l em casa o padre Saldanha. Temo-las boas!
       O padre Saldanha era o confidente do senhor chantre. E o padre Amaro, j inquieto, perguntou:
       - Coisa que nos toca?
       Natrio comeou com solenidade erguendo alto o brao:
       - Primo: o colega Brito mudado da freguesia de Amor para ao p de Alcobaa, para a serra, para o inferno...
       - Que me diz? exclamou a S. Joaneira.
       - Obras do liberal, minha senhora! O nosso digno chantre levou-lhe tempo a meditar o Comunicado do Distrito, mas por fim saiu-se! O pobre Brito l vai esfogueteado!...
       - Sempre  o que se dizia da mulher do regedor, murmurou a boa senhora.
       - Ol! interrompeu severamente o cnego. Ento, senhora, ento! Isto aqui no  casa de murmurao!... Siga com o seu recado, colega Natrio.
       - Secundo, continuou Natrio:  o que eu ia dizer ao colega Dias... O senhor chantre, em vista do Comunicado e de outros ataques da imprensa, est decidido 
a "reformar os costumes do clero diocesano", palavras do padre Saldanha. Que lhe desagradam sumamente os concilibulos de eclesisticos e de senhoras... Que quer 
saber o que  isso de sacerdotes ajanotados tentando meninas bonitas... Enfim, palavras textuais de sua excelncia - est decidido a limpar as cavalarias de Augias!... 
- o que quer dizer em bom portugus, minha senhora, que vai andar tudo numa roda-viva.
Houve uma pausa consternada. E Natrio, plantado no meio da saleta com as mos enterradas nas algibeiras, exclamou:
       - Que lhes parece esta  ltima hora, hem?
       O cnego ergueu-se pachorrentamente:
       - Olhe, colega, disse, entre mortos e feridos h-de escapar algum. E a senhora no se fique ai com essa cara de Mater dolorosa, e mande servir o ch, que 
 o importante.
       - Eu l disse ao padre Saldanha... - comeou Natrio perorando.
       Mas o cnego interrompeu-o com fora:
       - O padre Saldanha  um patarata!... Vamos ns s torradinhas, e l em cima, diante dos rapazes, caluda.
       O ch foi silencioso. O cnego, a cada bocado de torrada, respirava afrontado, franzia muito o sobrolho: a S. Joaneira, depois de falar da D. Maria da Assuno 
que estava mal do catarro, ficou toda murcha, com a testa sobre o punho. Natrio, a grandes passadas, fazia uma ventania na sala com as abas do casaco.
       - E quando vem essa boda? exclamou ele, estacando subitamente diante de Amlia e do escrevente, que tomavam o ch sobre o piano,
       - Um dia cedo, respondeu ela sorrindo.
       Amaro ento ergueu-se devagar, e tirando o seu cebolo:
       - So horas de me ir chegando  Rua das Sousas, minhas senhoras, disse com uma voz desalentada.
       Mas a S. Joaneira no consentiu. Credo, estavam todos monos como se estivessem de psames!... Que fizessem um quino para espairecer... - O cnego porm, saindo 
do seu torpor, disse com severidade:
       - Est a senhora muito enganada, ningum est mono. No h razes seno para estar alegre. Pois no  verdade, senhor noivo?
       Joo Eduardo mexeu-se, sorriu:
       - Eu c por mim, senhor cnego, no tenho razo seno para estar feliz.
       - Pois est claro, disse o cnego. E agora Deus lhes d boas-noites a todos, que eu vou quinar para vale de lenis. E o Amaro tambm.
       Amaro foi apertar silenciosamente a mo de Amlia, - e os trs padres desceram calados.
       Na saleta a vela ainda ardia com um morro. O cnego entrou a buscar o seu guarda-chuva; e ento, chamando os outros, cerrando devagarinho a porta, disse-lhes 
baixo:
       - Eu, colegas, no quis assustar h pouco a pobre senhora, mas essas coisas do chantre, esses falatrios...  o diabo!
       -  ter cautelinha, meninos! aconselhou Natrio, abafando a voz.
       -  srio,  srio, murmurou lugubremente o padre Amaro.
       Estavam de p no meio da saleta. Fora o vento uivava: a luz da vela agitada fazia alternadamente destacar e reentrar na sombra do quadro o osso frontal da 
caveira: e em cima Amlia cantarolava a Chiquita.
       Amaro recordava outras noites felizes em que ele, triunfante e sem cuidados, fazia rir as senhoras, - e Amlia, gorjeando Ai chiquita que si, revirava-lhe 
olhares rendidos...
       - Eu, disse o cnego, os colegas sabem, tenho que comer e beber, no me importa... Mas  necessrio manter a honra da classe!
       - E no carece dvida, acrescentou Natrio, que se h outro artigo e mais falatrios, estala com certeza o raio...
       - Olha o padre Brito, murmurou Amaro, esfogueteado para a serra! 
       Em cima decerto houve alguma graa, porque sentiram as risadas do escrevente.
       Amaro rosnou com rancor:
       - Grande galhofa l em cima!...
       Desceram. Ao abrir a porta uma rajada de vento bateu a face de Natrio duma chuva miudinha.
       - Olha que noite! exclamou furioso.
       S o cnego tinha guarda-chuva: e abrindo-o devagar:
       - Pois meninos, no h que ver, estamos em calas pardas...
       Da janela de cima alumiada, saiam os sons do piano, nos acompanhamentos da Chiquita. O cnego soprava, agarrando fortemente o guarda- chuva contra o vento; 
ao lado Natrio, cheio de fel, rilhava os dentes, encolhido no seu casaco; Amaro caminhava de cabea cada, num abatimento de derrota; e enquanto os trs padres, 
assim agachados sob o guarda-chuva do cnego, iam chapinhando as poas pela rua tenebrosa, por trs a chuva penetrante e sonora ia-os ironicamente fustigando!


XI


       Da a dias, os freqentadores da botica, na Praa, viram com espanto o padre Natrio e o doutor Godinho conversando em harmonia,  porta da loja de ferragens 
do Guedes. O recebedor, - que era escutado com deferncia em questes de poltica estrangeira, - observou-os com ateno atravs da porta vidrada da farmcia, e 
declarou com um tom profundo "que no se admiraria mais se visse Vtor Manuel e Pio IX passearem de brao dado"!
       O cirurgio da Cmara porm no estranhava aquele "comrcio de amizade". - Segundo ele, o ltimo artigo da Voz do Distrito, evidentemente escrito pelo doutor 
Godinho (era o seu estilo incisivo, cheio de lgica, atulhado de erudio!), mostrava que a gente da Maia se queria ir aproximando da gente da Misericrdia. O doutor 
Godinho (na expresso do cirurgio da Cmara) fazia tagats ao governo civil e ao clero diocesano: a ltima frase do artigo era significativa - "No seremos ns 
que regatearemos ao clero os meios de exercer proficuamente a sua divina misso"!
       A verdade era (como observou um indivduo obeso, o amigo Pimenta), que se no havia ainda paz j havia negociaes - porque, na vspera ele vira com aqueles 
seus olhos que a terra tinha de comer, o padre Natrio saindo de manh muito cedo da redao da Voz do Distrito!
       - Oh amigo Pimenta, essa  fabricada!
       O amigo Pimenta ergueu-se com majestade, deu um puxo grave aos cs das calas, e ia indignar-se - quando o recebedor acudiu:
       - No, no, o amigo Pimenta tem razo. A verdade  que eu noutro dia vi o patife do Agostinho fazer grande barretada ao padre Natrio. E que o Natrio traz 
intriga na mo, isso  seguro! Eu gosto de observar as pessoas... Pois senhores, o Natrio que nunca aparecia aqui na Arcada, agora vejo-o sempre a com o nariz 
pelas lojas... Depois a grande amizade com o padre Silvrio... Ho-de reparar que so ambos certos a na Praa s Ave-Marias... E  negcio com a gente do doutor 
Godinho... O padre Silvrio  o confessor da mulher do Godinho... Umas coisas pegam com as outras!
       Era muito comentada, com efeito, a nova amizade do padre Natrio com o padre Silvrio. Havia cinco anos, tinha ocorrido na sacristia da S, entre os dois 
eclesisticos, uma questo escandalosa: Natrio correra at de guarda-chuva erguido para o padre Silvrio, quando o bom cnego Sarmento, banhado em lgrimas, o reteve 
pela batina, gritando: "Oh colega, que  a perdio da religio! ". Desde ento, Natrio e Silvrio no falavam - com desgosto de Silvrio, um bonacheiro, duma 
obesidade hidrpica, que, segundo diziam as suas confessadas, "era todo afeio e perdo". Mas Natrio, seco e pequeno, tinha tenacidade no rancor. Quando o Sr. 
chantre Valadares comeou a governar o bispado, chamou-os, e, depois de lhes lembrar com eloqncia a necessidade "de manter a paz na Igreja", de lhes recordar o 
exemplo tocante de Castor e Plux, empurrou Natrio com uma brandura grave para os braos do padre Silvrio - que o teve um momento sepultado na vastido do peito 
e do estmago, murmurando todo comovido:
       - Todos somos irmos, todos somos irmos!
       Mas Natrio, cuja natureza dura e grosseira nunca perdia, como o papelo, as dobras que tomava, conservou com o padre Silvrio um tom amuado; na S ou na 
rua, resvalando junto dele, com um jeito brusco do pescoo, rosnava apenas: "Sr. padre Silvrio, s ordens!"
       Havia porm duas semanas, uma tarde de chuva Natrio fizera repentinamente uma visita ao padre Silvrio - sob pretexto que "o pilhara ali uma pancada de gua, 
e que se vinha recolher um instante".
       - E tambm, acrescentou, para lhe pedir a sua receita para a dor de ouvidos, que uma das minhas sobrinhas, coitada, est como doida, colega!
       O bom Silvrio, esquecendo decerto que ainda nessa manh vira as duas sobrinhas de Natrio ss e satisfeitas como dois pardais, apressou-se a escrever a receita, 
todo feliz de utilizar os seus queridos estudos de medicina caseira; e murmurava, banhado de riso:
       - Ora que alegria, colega, v-lo aqui de novo nesta sua casa!
       A reconciliao foi to pblica - que o cunhado do Sr. baro de Via Clara, bacharel de grandes dotes poticos, lhe dedicou uma daquelas stiras que ele intitulava 
Ferres, que iam manuscritas de casa em casa, muito saboreadas e muito temidas; e chamara  composio, tendo presente decerto a figura dos dois sacerdotes: Famosa 
Reconciliao do Macaco e da Baleia! Era com efeito freqente, agora, ver a pequena figura de Natrio gesticulando e saltitando ao lado do vulto enorme e pachorrento 
do padre Silvrio.
       Uma manh mesmo os empregados da administrao (que era ento no Largo da S) gozaram muito, observando da sacada os dois padres que passeavam no terrao 
ao tpido sol de Maio. O senhor administrador, - que passava as horas da repartio namorando com um binculo, por trs da vidraa do seu gabinete, a esposa do Teles, 
alfaiate - comeara subitamente a dar gargalhadas  janela: o escrivo Borges correu logo, de pena na mo,  varanda, a ver de que ria sua senhoria, e, muito divertido, 
a fungar, chamou  pressa o Artur Couceiro que estava copiando, para estudar  guitarra, uma cano da Grinalda; o amanuense Pires, severo e digno, aproximou-se, 
carregando para a orelha o seu barretinho de seda, com horror s correntes de ar; e em grupo, de olho arregalado, observavam os dois padres, que tinham parado  
esquina da igreja. Natrio parecia excitado; procurava decerto persuadir, abalar o padre Silvrio; e em bicos de ps, plantado diante dele, agitava freneticamente 
as mos muito magras. Depois, subitamente, apoderou-se-lhe do brao, arrastou-o ao comprido do terrao lajeado: ao fundo parou, recuou, fez um gesto largo e desolado, 
como atestando a perdio possvel dele, da S ao lado, da cidade, do universo em redor; o bom Silvrio, com os olhos muito abertos, parecia apavorado. E recomearam 
a passear. Mas Natrio exaltava-se; dava recues bruscos, atirava estocadas com um longo dedo ao vasto estmago de Silvrio, batia patadas furiosas nas lajes polidas; 
e de repente, de braos pendentes, mostrava-se acabrunhado. Ento o bom Silvrio falou um momento com a mo espalmada sobre o peito; imediatamente, a face biliosa 
de Natrio iluminou-se; pulou, bateu no ombro do colega palmadinhas de muito jbilo, - e os dois sacerdotes entraram na S, chegados e rindo baixinho. 
       - Que patuscos! disse o escrivo Borges, que detestava sotainas. 
       - Aquilo tudo  a respeito do jornal, disse Artur Couceiro, vindo retomar o seu trabalho lrico. O Natrio no sossega enquanto no souber quem escreveu o 
Comunicado; disse-o ele em casa da S. Joaneira... E a coisa pelo Silvrio vai bem, que  o confessor da mulher do Godinho.
       - Corja! rosnou o Borges com nojo. E continuou pachorrentamente o ofcio que compunha, remetendo para Alcobaa um preso - que ao fundo da saleta, entre dois 
soldados, esperava sobre um banco, prostrado e embrutecido, com uma face de fome e as mos em ferros.

***

       Dai a dias tinha havido na S o Ofcio de corpo presente pelo rico proprietrio Morais, que morrera dum aneurisma, e a quem sua esposa (em penitncia decerto 
dos desgostos que lhe dera com a sua afeio desordenada por tenentes de infantaria), estava fazendo, como se disse, "exquias de pessoa real". - Amaro desvestira-se, 
e na sacristia,  luz dum velho candeeiro de lato, escrevia assentos atrasados, quando a porta de carvalho rangeu, e a voz agitada de Natrio disse:
       -  Amaro, voc est a?
       - Que temos?
       O padre Natrio fechou a porta, e atirando os braos para o ar:
       - Grande novidade,  o escrevente!
       - Que escrevente?
       - O Joo Eduardo!  ele!  o liberal! Foi ele que escreveu o Comunicado!
       - Que me diz voc? fez Amaro atnito.
       - Tenho provas, meu amigo! Vi o original, escrito pela letra dele. O que se chama ver! Cinco tiras de papel!
       Amaro, com os olhos esgazeados, fitava Natrio.
       - Custou, exclamou Natrio. Custou, mas soube-se tudo! Cinco tiras de papel! E quer escrever outro! O Sr. Joo Eduardo! O nosso rico amigo Sr. Joo Eduardo!
       - Voc est certo disso?
       - Se estou certo! Estou a dizer-lhe que vi, homem!
       - E como soube voc, Natrio?
       Natrio dobrou-se; e com a cabea enterrada nos ombros, arrastando as palavras:
       - Ah, colega, l isso... Os comos e os porqus... Voc compreende... Sigillus magnus!
       E com uma voz aguda de triunfo, a largos passos pela sacristia:
       - Mas ainda isto no  nada! o Sr. Eduardo, que ns vamos ali na casa da S. Joaneira, to bom mocinho,  um patife antigo.  o intimo do Agostinho, o bandido 
da Voz do Distrito! Est metido na redao at altas horas da noite... Uma orgia, vinhaa, mulheres... E gaba-se de ser ateu... H seis anos que se no confessa... 
Chama-nos a canalha cannica...  republicano... Uma fera, meu caro senhor, uma fera!
       Amaro, escutando Natrio, arrumava atarantadamente, com as mos trmulas, papis no gaveto da escrivaninha.
       - E agora?... perguntou.
       - Agora? exclamou Natrio. Agora  esmag-lo!
       Amaro fechou o gaveto, e, muito nervoso, passando o leno pelos lbios secos:
       - Uma assim, uma assim! E a pobre rapariga, coitada... Casar agora com um homem desses... Um perdido!
       Os dois padres, ento, olharam-se fixamente. No silncio, o velho relgio da sacristia punha o seu tiquetaque plangente. Natrio tirou da algibeira dos cales 
a caixa do rap, e com os olhos ainda fixos em Amaro, a pitada nos dedos, disse sorrindo friamente:
       - Desmanchar-lhe o casamentozinho, hem?
       - Voc acha? perguntou sofregamente Amaro.
       - Caro colega,  uma questo de conscincia... Para mim era uma questo de dever! No se pode deixar casar a pobre pequena com um brejeiro, um pedreiro-livre, 
um ateu...
       - Com efeito! com efeito! murmurava Amaro.
       - Vem a calhar, hem? fez Natrio; e sorveu com gozo a pitada. Mas o sacristo entrou; eram as horas de fechar a igreja; vinha perguntar a suas senhorias se 
demoravam.
       - Um instante, Sr. Domingos.
       E, enquanto o sacristo corria os pesados ferrolhos da porta interior do ptio, os dois padres muito chegados falavam baixo.
       - Voc vai ter com a S. Joaneira, dizia Natrio. No, escute,  melhor que lhe fale o Dias; o Dias  que deve falar  S. Joaneira. Vamos pelo seguro. Voc 
fale  pequena e diga-lhe simplesmente que o ponha fora de casa! - E ao ouvido de Amaro: - Diga  rapariga que ele vive ai de casa e pucarinho com uma desavergonhada!
       - Homem! disse Amaro recuando, no sei se isso  verdade!
       - H-de ser. Ele  capaz de tudo. E depois  um meio de levar a  pequena.
       E foram descendo a igreja atrs do sacristo, que fazia tilintar o seu molho de chaves, pigarreando grosso.
       Nas capelas pendiam as armaes de paninho negro agaloadas de prata; ao centro, entre quatro fortes tocheiras de grosso morro, estava a essa, com o largo 
pano de veludilho cobrindo o caixo do Morais, recaindo em pregas franjadas;  cabeceira tinha uma larga coroa de perptuas; e aos ps pendia, dum grande lao de 
fita escarlate, o seu hbito de cavaleiro de Cristo. 
       O padre Natrio ento parou; e tomando o brao de Amaro, com satisfao:
       - E depois, meu caro amigo, tenho outra preparada ao cavalheiro...
       - O qu?
       - Cortar-lhe os vveres!
       - Cortar-lhe os vveres?
       - O pateta estava para ser empregado no governo civil, primeiro amanuense, hem? Pois vou-lhe desmanchar o arranjinho!... E o Nunes Ferral que  dos meus, 
homem de boas idias, vai p-lo fora do cartrio... E que escreva ento Comunicados!
       Amaro teve horror quela intriga rancorosa:
       - Deus me perdoe, Natrio, mas isso  perder o rapaz.
       - Enquanto o no vir por essas ruas a pedir um bocado de po, no o largo, padre Amaro, no o largo!
       - Oh, Natrio! oh, colega! isso  de pouca caridade... Isso no  de cristo... E ento aqui que Deus est a ouvi-lo...
       - No lhe d isso cuidado, meu caro amigo... Deus serve-se assim, no  a resmungar Padre-Nossos. Para mpios no h caridade! A Inquisio atacava-os pelo 
fogo, no me parece mau atac-los pela fome. Tudo  permitido a quem serve uma causa santa... Que se no metesse comigo! 
Iam a sair; mas Natrio deitou um olhar para o caixo do morto, e apontando com o guarda-chuva:
       - Quem est ali?
       - O Morais, disse Amaro.
       - O gordo, picado das bexigas?
       - Sim.
       - Boa besta!
       E depois de um silncio:
       - Foram os Ofcios do Morais... Eu nem dei por isso, ocupado c na minha campanha... E a viva fica rica.  generosa,  presenteadora... Quem a confessa  
o Silvrio, hem? Tem as melhores pechinchas de Leiria, aquele elefante!
       Saram. A botica do Carlos estava fechada, o cu muito escuro.
       No largo, Natrio parou:
       - Resumindo: o Dias fala  S. Joaneira, e voc fala  pequena. Eu por mim me entenderei com a gente do governo civil e com o Nunes Ferral. Encarreguem-se 
vocs do casamento, que eu me encarrego do emprego! - E batendo no ombro do proco jovialmente: -  o que se pode dizer atac-lo pelo corao e pelo estmago! E 
adeusinho, que as pequenas esto  espera para a ceia! Coitadita, a Rosa tem estado com um defluxo!...  fraquita, aquela rapariga, d-me muito cuidado... Que eu 
em a vendo murcha at perco logo o sono. Que quer voc? Quando se tem bom corao... At amanh, Amaro.
       - At amanh, Natrio.
       E os dois padres separaram-se, quando davam nove horas na S.

***

       Amaro entrou em casa ainda um pouco trmulo, mas muito decidido, muito feliz: tinha um dever delicioso a cumprir! E dizia alto, com passos graves pela casa, 
para se compenetrar bem dessa responsabilidade estimada:
       -  do meu dever!  do meu dever!
       Como cristo, como proco, como amigo da S. Joaneira, o seu dever era procurar Amlia, e, com simplicidade, sem paixo interessada, contar- lhe que fora Joo 
Eduardo, o seu noivo, que escrevera o Comunicado.
       Foi ele! Difamou os ntimos da casa, sacerdotes de cincia e de posio; desacreditou-a a ela; passa as noites em deboche na pocilga do Agostinho; insulta 
o clero, baixamente; gaba-se de irreligio; h seis anos que se no confessa! Como diz o colega Natrio,  uma fera! Pobre menina! No, no podia casar com um homem 
que lhe impediria a vida perfeita, lhe achincalharia as boas crenas! No a deixaria rezar, nem jejuar, nem procurar no confessor a direo salutar, e, como diz 
o santo padre Crisstomo, "amadureceria a sua alma para o inferno"! Ele no era seu pai, nem seu tutor; mas era proco, era pastor: - e se a no subtrasse quele 
destino hertico pelos seus conselhos graves, pela influncia da me e das amigas, - seria como aquele que tem a guarda dum rebanho numa herdade, e abre indignamente 
a cancela ao lobo! No, a Ameliazinha no havia de casar com o ateu!
       E o seu corao ento batia forte sob a efuso daquela esperana. No, o outro no a possuiria! Quando viesse a apoderar-se legalmente daquela cinta, daqueles 
peitos, daqueles olhos, daquela Ameliazinha - ele, proco, l estava para dizer alto: Para trs, seu canalha! isto aqui  de Deus!
       E tomaria ento bem cuidado em guiar a pequena  salvao! Agora o Comunicado estava esquecido, o senhor chantre tranqilizado: da a dias poderia voltar 
sem susto  Rua da Misericrdia, recomear os deliciosos seres - apoderar-se de novo daquela alma, form-la para o Paraso...
       E aquilo, Jesus! no era uma intriga para a arrancar ao noivo: os seus motivos (e dizia-o alto, para se convencer melhor) eram muito retos, muito puros: aquilo 
era um trabalho santo para a arrancar ao Inferno: ele no a queira para si, queria-a para Deus!... Casualmente, sim, os seus interesses de amante coincidiam com 
os seus deveres de sacerdote. Mas se ela fosse vesga e feia e tola, ele iria igualmente  Rua da Misericrdia, em servio do Cu, desmascarar o Sr. Joo Eduardo, 
difamador e ateu!
       E, sossegado por esta argumentao, deitou-se tranqilamente.
       Mas toda a noite sonhou com Amlia. Tinha fugido com ela: e ia-a levando por uma estrada que conduzia ao Cu! O diabo perseguia-o; ele via-o, com as feies 
de Joo Eduardo, soprando e rasgando com os cornos os delicados seios das nuvens. E ele escondia Amlia no seu capote de padre, devorando-a por baixo de beijos! 
Mas a estrada do Cu no findava. - "Onde  a porta do paraso?" perguntava ele a anjos de cabeleiras de ouro que passavam, num doce rumor de asas, levando almas 
nos braos. E todos lhe respondiam: - "Na Rua da Misericrdia, na Rua da Misericrdia nmero nove!" Amaro sentia-se perdido; um vasto ter cor de leite, penetrvel 
e macio como uma penugem de ave, envolvia-o; e ele procurava debalde uma tabuleta de hospedaria! Por vezes resvalava junto dele um globo reluzente de onde saa o 
rumor duma criao; ou um esquadro de arcanjos, com couraas de diamantes, erguendo alto espadas de fogo, galopavam num ritmo nobre...
       Amlia tinha fome, tinha frio. "Pacincia, pacincia, meu amor!" dizia-lhe ele. Caminhando, vieram a encontrar uma figura branca, que tinha na mo uma palma 
verde. "Onde est Deus, nosso pai?" perguntou-lhe Amaro, com Amlia conchegada ao peito. A figura disse: - "Eu fui um confessor, e sou um santo: os sculos passam, 
e imutavelmente, sempiternamente sustento na mo esta palma e banha-me um xtase igual! Nenhuma tinta modifica esta luz para sempre branca; nenhuma sensao sacode 
o meu ser para sempre imaculado; e imobilizado na bem-aventurana, sinto a monotonia do Cu pesar-me como uma capa de bronze. Oh! pudesse eu caminhar a passos largos 
nas torpezas diferentes da Terra - ou bracejar, sob as variedades da dor, nas chamas do purgatrio!"
       Amaro murmurou: "Bem fazemos ns em pecar!" - Mas Amlia desfalecia fatigada... "Durmamos, meu amor!" E, deitados, viam estrelas flutuando numa poeirada como 
o joio sacudido vivamente do crivo. Ento nuvens comearam a dispor-se em torno deles, em pregas de cortinados, dando um perfume de sachets: Amaro pousou a sua mo 
sobre o peito de Amlia: um enleio muito doce enervava-os: enlaaram-se, os seus lbios pegavam-se midos e quentes: - "Oh, Ameliazinha! " murmurava ele. - "Amo- 
te, Amaro, amo-te! " suspirava ela. - Mas de repente as nuvens afastaram- se como os cortinados dum leito; e Amaro viu diante o diabo que os alcanara, e que, com 
as garras na cinta, esgaava a boca numa risada muda. Com ele estava outro personagem: era velho como a substncia; nos anis dos seus cabelos vegetavam florestas; 
a sua pupila tinha a vastido azul dum oceano; e nos dedos abertos com que cofiava a barba infindvel, caminhavam, como em estradas, filas de raas humanas. - "Aqui 
esto os dois sujeitos", dizia-lhe o diabo retorcendo a cauda. E por trs Amaro via aglomerarem-se legies de santos e de santas. Reconheceu S. Sebastio com as 
suas setas cravadas; Santa Ceclia trazendo na mo o seu rgo; por entre eles sentia balarem os rebanhos de S. Joo; e no meio erguia-se o bom gigante S. Cristvo 
apoiado ao seu pinheiro. Espreitavam, cochichavam! Amaro no se podia desenlaar de Amlia, que chorava muito baixo; os seus corpos estavam sobrenaturalmente colados; 
e Amaro, aflito, via que as saias dela levantadas descobriam os seus joelhos brancos. - "Aqui estio os dois sujeitos", dizia o diabo ao velho personagem "e repare 
o meu prezado amigo, porque todos aqui somos apreciadores, que a pequena tem bonitas pernas! " Santos vetustos alaram-se sofregamente em bicos de ps, estendendo 
pescoos onde se viam cicatrizes de martrios: e as onze mil virgens bateram o vo como pombas espavoridas! Ento o personagem, esfregando as mos de onde se esfarelavam 
universos, disse grave: "Fico inteirado, meu caro amigo, fico inteirado! Com que, senhor proco, vai-se  Rua da Misericrdia, arruina-se a felicidade do Sr. Joo 
Eduardo (um cavalheiro), arranca-se a Ameliazinha  mam, e vem-se saciar concupiscncias reprimidas a um cantinho da Eternidade? Eu estou velho - e est rouca esta 
voz que outrora to sabiamente discursava pelos vales. Mas pensa que me assombra o Sr. conde de Ribamar, seu protetor, apesar de ser um pilar da Igreja e uma coluna 
da Ordem? Fara era um grande rei - e eu afoguei-o, e os seus prncipes cativos, os seus tesouros, os seus carros de guerra, e as manadas dos seus escravos! Eu c 
sou assim! E se os senhores eclesisticos continuarem a escandalizar Leiria - eu ainda sei queimar uma cidade como um papel intil, e ainda me resta gua para dilvios!" 
E voltando-se para dois anjos armados de espadas e lanas, o personagem bradou: "Chumbem uma grilheta aos ps do padre, e levem-no ao abismo nmero sete!". E o diabo 
gania: "A esto as conseqncias, Sr. padre Amaro!" Ele sentiu-se arrebatado de sobre o seio de Amlia por mos de brasa; e ia lutar, bradar contra o juiz que o 
julgava - quando um sol prodigioso que vinha nascendo do Oriente bateu no rosto do personagem, e Amaro, com um grito, reconheceu o Padre Eterno!
       Acordou banhado em suor. Um raio de sol entrava pela janela.

***

       Nessa noite Joo Eduardo, indo da Praa para casa da S. Joaneira, ficou assombrado, ao ver aparecer  outra boca da rua, do lado da S, o Santssimo em procisso.
       E vinha para casa das senhoras! Por entre as velhas de mantu pela cabea, as tochas faziam destacar opas de paninho escarlate; sob o plio os dourados da 
estola do proco reluziam; uma campainha tocava adiante, s vidraas apareciam luzes; - e na noite escura o sino da S repicava, sem descontinuar.
       Joo Eduardo correu aterrado - e soube logo que era a extrema-uno  entrevada.
       Tinham posto na escada um candeeiro de petrleo sobre uma cadeira. Os serventes encostaram  parede da rua os varais do plio, e o proco entrou. Joo Eduardo, 
muito nervoso, subiu tambm: ia pensando que a morte da entrevada, o luto retardariam o seu casamento; contrariava-o a presena do proco e a influncia que ele 
adquiria naquele momento; e foi quase quezilado que perguntou  Rua na saleta:
       - Ento como foi isto?
       - Foi a pobre de Cristo que esta tarde comeou a esmorecer, o senhor doutor veio, diz que estava a acabar e a senhora mandou pelos  sacramentos.
       Joo Eduardo, ento, julgou delicado ir assistir " cerimnia".
       O quarto da velha era junto  cozinha; e tinha naquele momento uma solenidade lgubre. Sobre uma mesa coberta de toalha de folhos, estava um prato com cinco 
bolinhas de algodo entre duas velas de cera. A cabea da entrevada, toda branca, a sua face cor de cera mal se distinguiam do linho do travesseiro; tinha os olhos 
estupidamente dilatados; e ia apanhando incessantemente com um gesto lento a dobra do lenol bordado.
       A S. Joaneira e Amlia rezavam ajoelhadas  beira da cama; a Sra. D. Maria da Assuno (que casualmente entrara, ao voltar da fazenda) ficara  porta do quarto 
aterrada, agachada sobre os calcanhares, murmurando Salve-Rainhas. Joo Eduardo, sem rudo, dobrou o joelho junto dela.
O padre Amaro, curvado quase ao ouvido da entrevada, exortava-a a que se abandonasse  Misericrdia divina; mas vendo que ela no compreendia, ajoelhou, recitou 
rapidamente o Misereatur; e no silncio, a sua voz erguendo-se nas slabas latinas mais agudas, dava uma sensao de enterro que enternecia, fazia soluar as duas 
senhoras. Depois ergueu-se, molhou o dedo nos santos leos; murmurando as expresses penitentes do ritual ungiu os olhos, o peito, a boca, as mos - que h dez anos 
s se moviam para chegar a escarradeira, e as plantas dos ps que h dez anos s se aplicavam a buscar o calor da botija. E depois de queimar as bolinhas de algodo 
midas de leo, ajoelhou-se, ficou imvel, com os olhos postos no Brevirio.
       Joo Eduardo voltou em pontas de ps  sala, sentou-se no mocho do piano: agora decerto, durante quatro ou cinco semanas, Amlia no tornaria a tocar... E 
uma melancolia amoleceu-o, vendo no doce progresso do seu amor aquela brusca interrupo da morte e dos seus cerimoniais.
A Sra. D. Maria entrou ento, toda transtornada daquela cena - e seguida de Amlia que trazia os olhos muito vermelhos.
       - Ah! ainda bem que aqui est, Joo Eduardo! disse logo a velha. Que quero que me faa um favor, que  acompanhar-me a casa... Estou toda a tremer... Estava 
desprevenida, e com perdo de Deus seja dito, no posso ver gente na agonia... Que ela, coitadinha, vai-se como um passarinho... E pecados no os tem... Olhe, vamos 
pela Praa que  mais perto. E desculpe... Tu, filha, dispensa, mas no posso ficar...  que me dava a dor... Ai! que desgosto... Que para ela at  melhor... Pois 
olhem, sinto- me a desfalecer...
       Foi mesmo necessrio que Amlia a levasse a baixo, ao quarto da S. Joaneira, a reconfort-la caridosamente com um clice de jeropiga.
       - Ameliazinha, disse ento Joo Eduardo, se eu sou c necessrio para alguma coisa...
       - No, obrigada. Ela est por instantes, coitadinha...
       - No te esqueas, filha, recomendou descendo a Sra. D. Maria da Assuno, pe-lhe as duas velas bentas  cabeceira... Alivia muito na agonia... E se tiver 
muitos arrancos, pe outras duas apagadas, em cruz... Boas noites... Ai, que nem me sinto!
        porta, mal viu o plio, os homens com as tochas, apoderou-se do brao de Joo Eduardo, colou-se toda a ele com terror - um pouco tambm com o acesso de 
ternura que lhe dava sempre a jeropiga.

***

       Amaro prometera voltar mais tarde, para "as acompanhar, como amigo, naquele transe". E o cnego (que chegara, quando a procisso como o plio dobrava a esquina 
para o lado da S), informado desta delicadeza do senhor proco, declarou logo que visto que o colega Amaro vinha fazer a noitada, ele ia descansar o corpo porque, 
Deus bem o sabia, aquelas comoes arrasavam-lhe a sade.
       - E a senhora no havia de querer que eu apanhasse alguma, e me visse nos mesmos assados...
       - Credo, senhor cnego! exclamou a S. Joaneira, nem diga isso!...
       - E comeou a choramingar, muito abalada.
       - Pois ento boas noites, disse o cnego, e nada de afligir. Olhe, a pobre criatura, alegria no a tinha: e como no tem pecados no lhe importa achar-se 
na presena de Deus. Tudo bem considerado, senhora,  uma pechincha! E adeusinho, que me no estou a sentir bem...
       Tambm a S. Joaneira no se sentia bem. O choque, logo depois do jantar, dera-lhe ameaas de enxaqueca: - e quando Amaro voltou, s onze, Amlia que fora 
abrir a porta, disse-lhe, ao subir  sala de jantar:
       - O senhor proco desculpe... A mam veio-lhe a enxaqueca, coitada... Estava que nem via... Deitou-se, ps gua sedativa e adormeceu...
       - Ah! deix-la dormir!
       Entraram no quarto da entrevada. Tinha a cabea virada para a parede; dos seus beios abertos saa um gemido muito dbil e contnuo. Sobre a mesa agora, uma 
grossa vela benta, de morro negro, erguia uma luz triste; e ao canto, transida de medo, a Rua, segundo as recomendaes da S. Joaneira, ia rezando a coroa.
       - O senhor doutor, disse Amlia baixo, diz que morre sem o sentir... Diz que h-de gemer, gemer, e de repente acabar como um passarinho...
       - Seja feita a vontade de Deus, murmurou gravemente o padre Amaro.
       Voltaram  sala de jantar. Toda a casa estava silenciosa: fora ventava forte. Havia muitas semanas que no se encontravam assim ss. Muito embaraado, Amaro 
aproximou-se da janela: Amlia encostou-se ao aparador.
       - Vamos ter uma noite de gua, disse o proco.
       - E est frio, disse ela, encolhendo-se no xale. Eu tenho estado passada de medo...
       - Nunca viu morrer ningum?
       - Nunca.
       Calaram-se - ele imvel ao p da janela, ela encostada ao aparador, de olhos baixos.
       - Pois est frio, disse Amaro, com a voz alterada da perturbao que lhe ia dando a presena dela quela hora da noite.
       - Na cozinha est a braseira acesa, disse Amlia.  melhor irmos para l.
       -  melhor.
       Foram. Amlia levou o candeeiro de lato: e Amaro, indo remexer com as tenazes o brasido vermelho, disse:
       - H que tempo que eu no entro aqui na cozinha... Ainda tem os vasos com os raminhos fora da janela?
       - Ainda,  um craveiro...
       Sentaram-se em cadeirinhas baixas, ao lado da braseira. Amlia, inclinada para o lume, sentia os olhos do padre Amaro devor-la silenciosamente. Ele ia falar-lhe, 
decerto! Tinha as mos a tremer; no ousava mover- se, erguer as plpebras, com medo que lhe rompessem as lgrimas; mas ansiava pelas suas palavras, ou amargas ou 
doces...
       Elas vieram enfim, muito graves.
       - Menina Amlia, disse, eu no esperava poder assim falar-lhe a ss. Mas as coisas arranjaram-se...  decerto a vontade de Nosso Senhor! E depois, como as 
suas maneiras mudaram tanto...
       Ela voltou-se bruscamente, toda escarlate, o beicinho trmulo:
       - Mas bem sabe por qu! exclamou quase chorando.
       - Sei. Se no fosse aquele infame Comunicado, e as calnias... nada se tinha passado, e a nossa amizade seria a mesma, e tudo iria bem...  justamente a esse 
respeito que eu lhe quero falar.
       Chegou a cadeira mais para junto dela, e muito suave, muito tranqilo:
       - Lembra-se desse artigo em que todos os amigos da casa eram insultados? em que eu era arrastado pela rua da amargura? em que a menina mesma, a sua honra 
era ofendida?... Lembra-se, hem? Sabe quem o escreveu?
       - Quem? perguntou Amlia toda surpreendida.
       - O Sr. Joo Eduardo! disse o proco muito tranqilamente cruzando os braos diante dela.
       - No pode ser!
       Tinha-se erguido. Amaro puxou-lhe devagarinho pelas saias para a fazer sentar; e a sua voz continuou paciente e suave:
       - Oua. Sente-se. Foi ele que o escreveu. Soube ontem tudo. O Natrio viu o original escrito pela letra dele. Foi ele que descobriu. Por meios dignos decerto,.. 
e porque era a vontade de Deus que a verdade aparecesse. Agora escute. A menina no conhece esse homem. - Ento, baixo, contou-lhe o que sabia de Joo Eduardo, por 
Natrio: as suas noitadas com o Agostinho, as suas injrias contra os padres, a sua irreligio...
       - Pergunte-lhe se ele se confessa h seis anos, e pea-lhe os bilhetes da confisso!
       Ela murmurava, com as mos cadas no regao:
       - Jesus, Jesus...
       - Eu ento entendi que como ntimo da casa, como proco, como cristo, como seu amigo, menina Amlia... porque acredite que lhe quero... enfim, entendi que 
era o meu dever avis-la! Se eu fosse seu irmo, dizia-lhe simplesmente: "Amlia, esse homem fora de casa!". No o sou, infelizmente. Mas venho, com dedicao de 
alma, dizer-lhe: "O homem com quem quer casar surpreendeu a sua boa-f e de sua mam; vem aqui, sim senhor, com aparncias de bom moo, e no fundo ..."
       Ergueu-se, como ferido duma indignao irreprimvel:
       - Menina Amlia,  o homem que escreveu esse Comunicado! que fez ir o pobre Brito para a serra de Alcobaa! que me chamou a mim sedutor! que chamou devasso 
ao Sr. cnego Dias! Devasso! Que lanou veneno nas relaes de sua mam com o cnego! e que a acusou  menina, em bom portugus, de se deixar seduzir! Diga, quer 
casar com esse homem?
       Ela no respondeu, com os olhos cravados no lume, duas lgrimas mudas sobre as faces.
       Amaro deu passos irritados pela cozinha; e voltando ao p dela, com a voz abrandada, gestos muito amigos:
       - Mas suponhamos que no era ele o autor do Comunicado, que no tinha insultado em letra redonda a sua mam, o senhor cnego, os seus amigos: resta ainda 
a sua impiedade! Veja que destino o seu se casasse com ele! Ou teria de condescender com opinies do homem, abandonar as suas devoes, romper com os amigos de sua 
me, no pr os ps na igreja, dar escndalo a toda a gente honesta, ou teria de se pr em oposio com ele, e a sua casa seria um inferno! Por tudo uma questo! 
Por jejuar  sexta-feira, por ir  exposio do Santssimo, por cumprir o domingo... Se se quisesse confessar, que desavenas! Um horror! E sujeitar-se a ouvi-lo 
escarnecer os mistrios da f! Ainda me lembro, na primeira noite que aqui passei, com que desacato ele falou da Santa da Arregaa!... E ainda me lembro uma noite 
que o padre Natrio aqui falava dos sofrimentos do nosso santo padre Pio IX, que seria preso, se os liberais entrassem em Roma... Como ele tinha risinhos de escrnio, 
como disse que eram exageraes!... Como se no fosse perfeitamente certo que por vontade dos liberais veramos o chefe da Igreja, o vigrio de Cristo, dormir num 
calabouo em cima dumas poucas de palhas! So as opinies dele, que ele apregoa por toda parte! O padre Natrio diz que ele e o Agostinho estavam no caf ao p do 
Terreiro, a dizer que o batismo era um abuso, porque cada um devia escolher a religio que quisesse, e no ser forado, de pequeno, a ser cristo! Hem, que lhe parece? 
Como seu amigo lho digo... Para bem da sua alma antes a queria ver morta, do que ligada a esse homem! Case com ele, e perde para sempre a graa de Deus!
       Amlia levou as mos s fontes, e deixando-se cair para as costas da cadeira, murmurou, muito desgraada:
       - Oh meu Deus, meu Deus!
       Amaro ento sentou-se ao p dela, tocando-lhe quase o vestido com o joelho, pondo na voz uma bondade paternal:
       - E depois, minha filha, pensa que um homem assim pode ter bom corao, apreciar a sua virtude, querer-lhe como um marido cristo? Quem no tem religio no 
tem moral. Quem no cr no ama, diz um dos nossos santos padres. Depois de lhe passar o fogacho da paixo, comearia a ser duro consigo, mal-humorado, voltaria 
a freqentar o Agostinho e as mulheres da vida e maltrat-la-ia talvez... E que susto constante para si! Quem no respeita a religio no tem escrpulos: mente, 
rouba, calunia... Veja o Comunicado. Vir aqui apertar a mo ao senhor cnego, e ir para o jornal chamar-lhe devasso! Que remorsos no sentiria a menina, mas tarde, 
 hora da morte!  muito bom enquanto se tem sade e se  nova; mas quando chegasse a sua ltima hora, quando se achasse, como aquela pobre criatura que est ali, 
nos ltimos arrancos, que terror no sentiria de ter de aparecer diante de Jesus Cristo, depois de ter vivido em pecado ao lado desse homem! Quem sabe se ele no 
recusaria que lhe dessem a extrema-uno! Morrer sem sacramentos, morrer como um animal! 
       - Pelo amor de Deus! Pelo amor de Deus, senhor proco! exclamou Amlia rompendo num choro nervoso. 
       - No chore, disse ele tomando-lhe suavemente a mo entre as suas, muito trmulas. Escute, abra-se comigo... V, esteja sossegada, tudo se remedeia. No h 
banhos publicados... Diga-lhe que no quer casar, que sabe tudo, que o odeia...
       Esfregava, apertava devagarinho a mo de Amlia. E subitamente, com voz dum ardor brusco:
       - No se importa com ele, no  verdade?
       Ela respondeu muito baixo, com a cabea cada sobre o peito:
       - No.
       - Ento, ai tem! fez excitado. E diga-me, gosta de outro?
       Ela no respondeu, com o peito a arfar fortemente, os olhos dilatados para o lume.
       - Gosta? Diga, diga!
       Passou-lhe o brao sobre o ombro, atraindo-a docemente. Ela tinha as mos abandonadas no regao; sem se mover voltou devagar para ele os olhos resplandecentes 
sob uma nvoa de lgrimas; e entreabriu devagar os lbios, plida, toda desfalecida. Ele estendeu os beios a tremer - e ficaram imveis, colados num s beijo, muito 
longo, profundo, os dentes contra os dentes.
       - Minha senhora! minha senhora! gritou de repente, num terror, a voz da Rua, dentro.
       Amaro ergueu-se dum salto, correu ao quarto da entrevada. Amlia estava to trmula, que precisou encostar-se  porta da cozinha um momento, com as pernas 
vergadas, a mo sobre o corao. Recuperou-se, desceu a acordar a me.
       Quando entraram no quarto da idiota, Amaro ajoelhado, com a face quase sobre o leito, rezava: as duas senhoras rojaram-se no cho: uma respirao acelerada 
sacudia o peito, as ilhargas da velha: e  medida que o arquejo se tornava mais rouco, o proco precipitava as suas oraes. Subitamente o som agonizante cessou: 
ergueram-se: a velha estava imvel, com os bugalhos dos olhos sados e baos. Expirara.
       O padre Amaro trouxe logo as senhoras para a sala; - e a a S. Joaneira, curada, pelo choque, da sua enxaqueca, desabafou, em acessos de choro, recordando 
o tempo em que a pobre mana era nova, e que bonita era! e que bom casamento estivera para fazer com o morgado da Vigareira!...
       - E o gnio mais dado, senhor proco! Uma santa! E quando a Amlia nasceu, e que eu estive to mal, que no se tirou de ao p de mim, noite e dia!... E alegre, 
no havia outra... Ai Deus da minha alma, Deus da minha alma!
       Amlia, encostada  vidraa na sombra da janela, olhava entorpecida a noite negra.
       Bateram ento  campainha. Amaro desceu, com uma vela. Era Joo Eduardo que, ao ver o proco quela hora na casa, - ficou petrificado, junto da porta aberta; 
enfim balbuciou:
       - Eu vinha saber se havia novidade...
       - A pobre senhora expirou agora mesmo...
       - Ah!
       Os dois homens olharam-se um instante fixamente.
       - Se eu sou preciso para alguma coisa... - disse Joo Eduardo.
       - No, obrigado. As senhoras vo-se deitar.
       Joo Eduardo fez-se plido da clera que lhe davam aqueles modos de dono da casa. Esteve ainda um momento, hesitando - mas vendo o proco abrigar a luz, com 
a mo, contra o vento da rua:
       - Bem, boa noite, disse.
       - Boa noite.
       O padre Amaro subiu: e depois de deixar as duas senhoras no quarto da S. Joaneira (porque, cheias de terror, queriam dormir juntas), voltou ao quarto da morta, 
despertou a vela sobre a mesa, acomodou-se numa cadeira, e comeou a ler o Brevirio.
       Mais tarde, quando toda a casa estava silenciosa, o proco, sentindo o sono entorpec-lo, veio  sala de jantar; reconfortou-se com um clice de vinho do 
Porto que achara no aparador; e saboreava regaladamente o cigarro, quando ouviu na rua passos de botas fortes que iam, vinham, por baixo das janelas. Como a noite 
estava escura no pde distinguir "o passeante". Era Joo Eduardo que rondava a casa, furioso.


XII


       Ao outro dia cedo, a Sra. D. Josefa Dias que entrara, havia pouco, da missa, ficou muito surpreendida, ouvindo a criada que lavava as escadas dizer de baixo:
       - Est aqui o Sr, padre Amaro, Sra. D. Josefa!
       O proco ultimamente raras vezes vinha a casa do cnego; e D. Josefa gritou logo lisonjeada e j curiosa:
       - Que suba para aqui, no  de cerimnia!  como de famlia. Que suba!
       Estava na sala de jantar, arranjando numa travessa ladrilhos de marmelada, com um vestido de barege preto esgaado na ilharga e arqueado em redor dos tornozelos 
por uma crinoline dum s arco; trazia nessa manh culos azuis; e foi logo ao patamar, arrastando os seus medonhos chinelos de ourelo, e preparando, por baixo do 
leno preto repuxado sobre a testa, um ar agradvel para o senhor proco.
       - Ora ditosos olhos, exclamou. Eu entrei h bocadinho, e j c tenho a primeira missinha. Fui hoje  capela de Nossa Senhora do Rosrio... Disse-a o padre 
Vicente. Ai! e que virtude, que me fez hoje, senhor proco! Sente-se. A no, que lhe vem ar da porta... E ento a pobre entrevada l se foi... Conte l, senhor 
proco...
       O proco teve de descrever a agonia da entrevada, a dor da S. Joaneira; como depois de morta a face da velha parecera remoar; o que as senhoras tinham decidido 
a respeito da mortalha...
       - Aqui para ns, D. Josefa,  um grande alvio para a S. Joaneira... - E de repente, puxando-se para a beira da cadeira, assentando as mos nos joelhos: - 
E que me diz  do Sr. Joo Eduardo? J sabe? Foi ele que escreveu o artigo!
       A velha exclamou, levando as mos  cabea:
       - Ai! nem me fale nisso, senhor proco! Nem me fale nisso, que at tenho estado doente!
       - Ah, j sabe?
       - E mais que sei, senhor proco! O Sr. padre Natrio, devo-lhe esse favor, esteve aqui ontem e contou-me tudo! Ai, que maroto! Ai, que alma perdida!
       - E sabe que  o ntimo do Agostinho, que so bebedeiras na redao at de madrugada, que vai para o bilhar do Terreiro achincalhar a religio...
       - Ai, por quem , senhor proco, nem me diga, nem mo diga! Que ontem, quando o Sr. padre Natrio esteve ai, at tive escrpulos de ouvir tanto pecado... Que 
lhe devo esse favor, ao Sr. padre Natrio, logo que soube veio-me contar...  de muito delicado... E olhe, senhor proco, a mim sempre me quis parecer isso mesmo 
do homem. Eu nunca o disse, nunca o disse! Que l isso, esta boquinha nunca se ps em vidas alheias... Mas tinha c dentro um palpite. Ele ia  missa, cumpria o 
jejum; mas eu c tinha a desconfiana que aquilo era para enganar a S. Joaneira e a pequena. Agora se v! Ele foi criatura que nunca me caiu em graa! Nunca, senhor 
proco! - E de repente, com os olhinhos luzidios duma alegria perversa: - E agora, j se sabe, o casamento desmancha-se?
       O padre Amaro recostou-se na cadeira, e muito pausadamente:
       - Ora, minha senhora, seria notrio que uma rapariga de bons princpios fosse casar com um pedreiro-livre, que no se confessa h seis anos!
       - Credo, senhor proco! antes v-la morta!  necessrio dizer tudo  rapariga.
       O padre Amaro interrompeu, chegando rapidamente a cadeira para ao p dela:
       - Pois foi justamente para isso mesmo que eu a vim procurar, minha senhora. Eu ontem j falei com a pequena... Mas compreende, no meio daquele desgosto, com 
a pobre senhora a expirar ao lado, no pude insistir muito. Enfim disse-lhe o que havia, aconselhei-a por bons modos, expus-lhe que ia perder a sua alma, ter uma 
vida desgraada, etc. Fiz o que pude, minha senhora, como amigo e como proco. E como era o meu dever (ainda que me custou, realmente custou-me), lembrei-lhe que, 
como crist e como senhora, tinha obrigao de romper com o escrevente.
       - E ela?
       O padre Amaro fez uma visagem descontente:
       - No disse que sim nem que no. Ps-se a fazer biquinho, a choramingar.  verdade que estava muito alterada com a morte em casa. Que a rapariga no morre 
por ele, isso  claro; mas quer casar, tem medo que a me morra, que se veja s... Enfim sabe o que so raparigas! Que as minhas palavras fizeram-lhe efeito, ficou 
muito indignada, etc. ... Mas enfim, eu pensei que o melhor era a senhora falar-lhe. A senhora  a amiga da casa,  madrinha, conheceu-a de pequena... Estou certo 
que no seu testamento havia de lhe deixar uma boa lembrana... Tudo isto so consideraes...
       - Ai, fica por minha conta, senhor proco, exclamou a velha, hei- de-lhas contar!
       - A rapariga o que precisa  quem a dirija. Aqui para ns, precisa quem a confesse! Ela confessa-se ao padre Silvrio; mas, sem querer dizer mal, o padre 
Silvrio, coitado, pouco vale. Muito caridoso, muita virtude; mas o que se chama jeito, no tem. Para ele a confisso  a desobriga. Pergunta doutrina, depois faz 
o exame pelos mandamentos da lei de Deus... Veja a senhora!... Est claro que a rapariga no furta, nem mata, nem deseja a mulher do seu prximo! A confisso assim 
no lhe aproveita: o que ela precisa  um confessor teso, que lhe diga - para ali! e sem rplica. A rapariga  um esprito fraco; como a maior parte das mulheres 
no se sabe dirigir por si; necessita por isso um confessor que a governe com uma vara de ferro, a quem ela obedea, a quem conte tudo, a quem tenha medo...  como 
deve ser um confessor.
       - O senhor proco  que lhe servia...
       Amaro sorriu modestamente:
       - No digo que no. Havia de aconselh-la bem; sou amigo da me, acho que ela  boa rapariga e digna da graa de Deus. Que eu, sempre que converso com ela, 
todos os conselhos que posso, em tudo, dou- lhos... Mas a senhora compreende, h coisas em que se no pode estar a falar na sala, com gente  volta... S se est 
 vontade no confessionrio. E  o que me falta, so as ocasies de lhe falar s. Mas enfim eu no posso ir dizer-lhe: "a menina agora h-de confessar-se comigo"! 
Eu nisso sou muito escrupuloso...
       - Mas digo-lhe eu, senhor proco! Ah, digo-lhe eu!...
       - Ora isso  que era um grande favor! Era um bem que fazia quela alma! Porque se a rapariga me entrega a direo da sua alma, ento podemos dizer que lhe 
acabaram as dificuldades, e temo-la no caminho da graa... E quando lhe vai falar, D. Josefa?
       D. Josefa, "como julgava pecado adiar", estava decidida a falar-lhe essa mesma noite.
       - No me parece, D. Josefa. Hoje  noite de psames... O escrevente naturalmente est l...
       - Credo, senhor proco! Pois eu e as outras pequenas havemos de passar a noite debaixo das mesmas telhas com o herege?
       - Tem de ser. Enfim, o rapaz por ora  considerado da famlia... Alm disso, D. Josefa, a senhora, a D. Maria e as Gansosinhos so pessoas da maior virtude... 
Mas ns no devemos ter orgulho da nossa virtude... Arriscamo-nos a perder-lhe todos os frutos. E  um ato de humildade, que agrada muito a Deus, o misturar-nos 
s vezes com os maus;  como quando um grande fidalgo tem de estar lado a lado com um trabalhador de enxada...  como se dissssemos: "Eu sou-te superior em virtude, 
mas comparado com o que devia ser para entrar na glria, quem sabe se no sou to pecador como tu!..." E esta humilhao da alma  a melhor oferta que podemos fazer 
a Jesus.
       D. Josefa escutava-o, babosa; e numa admirao:
       - Ai, senhor proco, que at d virtude ouvi-lo!
       Amaro curvou-se:
       - Deus s vezes, na sua bondade, inspira-me justas palavras... Pois, minha senhora, eu no quero maar mais. Ficamos entendidos. A senhora fala  pequena 
amanh; e se, como  de crer, ela consentir em escutar os meus conselhos, traz-ma  S, no sbado, s oito horas. E fale-lhe teso, D. Josefa!
       - Deixe-a comigo, senhor proco!... Ento no quer provar da minha marmelada?
       - Provarei, disse Amaro, tomando um ladrilho em que cravou os dentes com dignidade.
       -  dos marmelos da D. Maria. Saiu-me melhor que a das Gansosinhos...
       - Pois adeus, D. Josefa... Ah,  verdade, que diz o nosso cnego deste caso do escrevente?
       - O mano?...
       Neste momento a campainha embaixo repicou com furor.
       - H-de ser ele, disse logo D. Josefa. E vem zangado!
       Vinha, com efeito, da fazenda - furioso com o caseiro, o regedor, o governo e a perversidade dos homens. Tinham-lhe roubado uma poro de cebolinho; e, abafado 
de clera, aliviava-se repetindo com gozo o nome do Inimigo.
       - Credo, mano, que at lhe fica mal! - exclamou D. Josefa tomada de escrpulos.
       - Ora, mana, deixemos essas pieguices para a quaresma! Digo co'os diabos! e repito co'os diabos! Mas eu l disse ao caseiro, que se sentir gente na fazenda, 
carregue a espingarda e faa fogo!
       - H uma falta de respeito pela propriedade... disse Amaro.
       - H uma falta de respeito por tudo! exclamou o cnego. Um cebolinho que dava sade s olhar para ele! Pois senhores, l vai! Isto  o que eu chamo um sacrilgio!... 
Um desaforado sacrilgio! - acrescentou com convico; porque o roubo do seu cebolinho, o cebolinho dum cnego, parecia-lhe um ato to negro de impiedade como se 
tivessem sido furtados os vasos santos da S.
       - Falta de temor a Deus, falta de religio, observou D. Josefa.
       - Qual falta de religio! replicou o cnego exasperado. Falta de cabos de polcia,  o que ! - E voltando-se para Amaro: - Hoje  o enterro da velha, hem? 
Inda mais essa! V, mana, mande-me l dentro uma volta lavada e os sapatos de fivela!
       O padre Amaro ento, retomado pela sua preocupao:
       - Estvamos c a falar do caso do Joo Eduardo: o Comunicado!
       - Isso  outra maroteira que tal, fez logo o cnego. Vejam essa, tambm! Que quadrilha vai pelo mundo, que quadrilha! - e ficou de braos cruzados, com os 
olhos arregalados, como contemplando uma legio de monstros, soltos pelo universo, e arremessando-se com impudncia contra as reputaes, os princpios da Igreja, 
a honra das famlias e o cebolinho do clero.
Ao sair, o padre Amaro renovou ainda as suas recomendaes a D. Josefa, que o acompanhara ao patamar.
       - Ento hoje, noite de psames, no se faz nada. Amanh fala  rapariga, e l para o fim da semana leva-ma  S. Bem. E convena a rapariga, D. Josefa, trate 
de salvar aquela alma! Olhe que Deus tem os olhos em si. Fale-lhe teso, fale-lhe teso!... E o nosso cnego que se entenda com a S. Joaneira.
       - Pode ir descansado, senhor proco. Sou madrinha, e, quer ela queira quer no, hei-de p-la no caminho da salvao...
       - Amm, disse o padre Amaro.
       Nessa noite, com efeito, D.Josefa "no fez nada". Eram os psames na Rua da Misericrdia. Estavam embaixo, na saleta, alumiada lugubremente por uma s vela 
com um abajur verde-escuro. A S. Joaneira e Amlia, de luto, ocupavam tristemente o canap ao centro; e em redor, nas fileiras de cadeiras apoiadas  parede, as 
amigas, cobertas de negro pesado, conservavam-se funebremente imveis, de faces contristadas, num torpor mudo: s vezes duas vozes ciciavam, ou dum canto, na sombra, 
saa um suspiro: depois o Libaninho, ou Artur Couceiro, ia em bicos de ps espevitar o morro da vela; a D. Maria da Assuno expectorava o seu catarro com um som 
choroso: e no silncio ouviam tamancos bater no lajedo da rua, ou os quartos de hora no relgio da Misericrdia.
       A intervalos a Rua, toda de negro, entrava com o tabuleiro de doces e copos de chazada; levantava-se ento o abajur; e as velhas, que j iam cerrando as 
plpebras, sentindo a sala mais clara, levavam logo os lenos aos olhos, e, com ais, serviam-se de bolinhos da Encarnao.
       Joo Eduardo l estava, a um canto, ignorado, ao p da Gansoso surda que dormia com a boca aberta: toda a noite o seu olhar procurara debalde o olhar de Amlia, 
que no se movia, com o rosto sobre o peito, as mos no regao, torcendo e destorcendo o seu leno de cambraieta. O Sr. padre Amaro e o Sr. cnego Dias vieram s 
nove horas: o proco com passos graves foi dizer  S. Joaneira:
       - Minha senhora, o golpe  grande. Mas consolemo-nos, pensando que sua excelentssima mana est a esta hora gozando a companhia de Jesus Cristo.
       Houve em redor uma murmurao de soluos; e como no restavam cadeiras, os dois eclesisticos sentaram-se aos dois cantos do canap, tendo no meio a S. Joaneira 
e Amlia em lgrimas. Eram assim reconhecidos pessoas de famlia; a Sra. D. Maria da Assuno notou baixinho a D. Joaquina Gansoso:
       - Ai, at d gosto v-los assim todos quatro!
       E at s dez horas a noite de psames continuou soturna e sonolenta, perturbada apenas pela tosse constante de Joo Eduardo que estava constipado, e que (na 
opinio da Sra. D. Josefa Dias que o disse a todos, depois), "tossia s para fazer troa e para achincalhar o respeito aos mortos".

***

       Da a dois dias, s oito horas da manh, a Sra. D. Josefa Dias e Amlia entraram na S - depois de terem falado no terrao  Amparo, mulher do boticrio, 
que tinha uma criana com sarampo, e, apesar de no ser coisa de cuidado, "viera  cautela fazer uma promessa".
       O dia estava enevoado, a igreja tinha luz parda. Amlia, plida sob a sua mantilha de renda, parou defronte do altar de Nossa Senhora das Dores, deixou-se 
cair de joelhos, e ficou imvel, com o rosto sobre o livro de missa. A Sra. D. Josefa Dias, com passos fofos, depois de se ter prostrado diante da capela do Santssimo 
e do altar-mor, foi empurrar devagarinho a porta da sacristia: o padre Amaro l passeava, com os ombros vergados, as mos atrs das costas:
       - Ento? perguntou logo, erguendo para D. Josefa a sua face muito barbeada, onde os olhos reluziam inquietos.
       - Est ali, disse a velha baixinho, numa expresso de triunfo. Fui eu mesma busc-la! Ai, falei-lhe teso, senhor proco, no lhas poupei! Agora  consigo!
       - Obrigado, obrigado, D. Josefa! disse o padre, apertando-lhe as mos ambas com fora. Deus h-de-lho levar em conta.
       Olhou em redor, nervoso; apalpou-se para sentir o leno, a carteira dos papis; e, cerrando devagarinho a porta da sacristia, desceu  igreja. Amlia ainda 
estava ajoelhada, fazendo um vulto negro imvel contra o pilar branco.
       - Pst, fez-lhe D. Josefa.
       Ela ergueu-se devagar, muito escarlate, compondo tremulamente com as mos as pregas da mantilha em roda do pescoo.
       - Aqui lha deixo, senhor proco, disse a velha. Vou  Amparo da botica, e venho depois por ela. Ora vai filha, vai, Deus te alumie essa alma!
       E saiu com mesuras a todos os altares.
       O Carlos da botica - que era inquilino do cnego e um pouco ronceiro na renda - desbarretou-se com espalhafato apenas D. Josefa apareceu  porta, e conduziu-a 
logo acima,  sala de cortinas de cassa, onde a Amparo costurava  janela.
       - Ai, no se prenda, Sr. Carlos, dizia-lhe a velha. No largue os seus afazeres. Eu deixei a afilhada na S, e venho aqui descansar um bocadinho.
       - Ento, se me d licena... E como vai o nosso cnego?
       - No tornou a ter a dor. Mas tem sofrido de tonturas.
       - Comeos de Primavera, disse o Carlos que retomara o seu ar majestoso, de p no meio da sala, com os dedos nas aberturas do colete. Tambm eu me tenho sentido 
perturbado... Ns, as pessoas sangneas, sofremos sempre disto que se pode chamar o renascimento da seiva... H uma abundncia de humores no sangue, que, no sendo 
eliminados pelos canais prprios, vo, por assim dizer, abrir caminho, aqui e alm, pelo corpo, sob a forma de furnculo, espinha, nascida, s vezes, em lugares 
bem incmodos, e, ainda que em si insignificantes, acompanhados sempre, por assim dizer, dum cortejo... Perdo, sinto o praticante a palrar... Se me d licena... 
Respeitos ao nosso cnego. Que use a magnsia de James!
       D. Josefa ento quis ver a menina com o sarampo. Mas no passou da porta do quarto, recomendando  pequena, que arregalava uns olhos de febre, muito abafada 
na roupa, "no se descuidasse das suas oraezinhas de manh e  noite". Aconselhou  Amparo alguns remdios, que eram milagrosos no sarampo; mas se a promessa fora 
feita com f, a menina podia considerar-se curada... Ai, todos os dias dava graas a Deus de se no ter casado! Que filhos eram s para dar trabalho e canseiras; 
e com as quezlias que traziam e o tempo que tomavam, eram at causa duma mulher se descuidar das suas prticas e meter a alma no Inferno.
       - Tem razo, D. Josefa, disse a Amparo,  um castigo... E eu com cinco! s vezes fazem-me to doida, que me sento aqui na cadeirinha, e ponho-me a chorar 
s comigo...
       Tinham voltado para junto da janela, e gozaram muito, espreitando o senhor administrador do conselho, que, por trs da vidraa da repartio, namorava de 
binculo a do Teles alfaiate. - Ai, era um escndalo! Que nunca houvera em Leiria autoridades assim! O secretrio-geral era um desaforo com a Novais... Que se podia 
esperar de homens sem religio, educados em Lisboa, que, segundo D. Josefa, estava predestinada a perecer como Gomorra pelo fogo do Cu! - A Amparo cosia com a cabea 
baixa, envergonhada talvez diante daquela indignao piedosa, dos desejos culpados que a roam de ver o Passeio Pblico e de ouvir os cantores em S. Carlos.
       Mas bem depressa a Sra. D. Josefa comeou a falar do escrevente. A Amparo no sabia nada; e a velha teve a satisfao de contar prolixamente, "tintim por 
tintim", a histria do Comunicado, o desgosto na Rua da Misericrdia, e a campanha de Natrio para descobrir o liberal. Alargou-se principalmente sobre o carter 
de Joo Eduardo, a sua impiedade, as suas orgias... E, considerando um dever de crist aniquilar o ateu, deu mesmo a entender que alguns roubos ultimamente cometidos 
em Leiria, eram "obra de Joo Eduardo".
       A Amparo declarou-se "banzada". O casamento ento, com a Ameliazinha...
       - Isso pertence  histria, declarou com jbilo D. Josefa Dias. Vo p-lo fora de casa! E por muito feliz se deve o homem dar em no ir parar ao banco dos 
rus... Que a mim o deve, e  prudncia do mano e do Sr. padre Amaro. Que havia motivos para o ferrar na cadeia!
       - Mas a pequena gostava dele, ao que parece.
       D. Josefa indignou-se. Credo, a Amlia era uma rapariga de juzo, de muita virtude! Apenas conheceu os desaforos, foi a primeira a dizer que no, e que no! 
Ai! detestava-o... - E D. Josefa, baixando a voz em confidncia, contou "que era positivo que ele vivia com uma desgraada para os lados do quartel".
       - Disse-o o Sr. padre Natrio, afirmou. - E aquilo  homem que da sua boca nunca sai seno a verdade pura... Foi muito delicado comigo, devo-lhe esse favor. 
Apenas soube veio-me logo dizer a casa, pedir-me conselhos... Enfim, muito atencioso.
       Mas o Carlos apareceu de novo. Tinha a botica desembaraada um momento (que no o tinham deixado respirar toda a manh!) e vinha fazer companhia s senhoras.
       - Ento j sabe, Sr. Carlos, exclamou logo D. Josefa, o caso do Comunicado e do Joo Eduardo?
O farmacutico arregalou os seus olhos redondos. Que relao havia entre um artigo to indigno, e esse mancebo que lhe parecia honesto?
       - Honesto? ganiu a Sra. D. Josefa Dias. Foi ele que o escreveu, Sr. Carlos!
       E vendo o Carlos morder o beio de surpresa, D. Josefa, entusiasmada, repetiu a histria da "maroteira".
       - Que lhe parece, Sr. Carlos, que lhe parece?
       O farmacutico deu a sua opinio, numa voz vagarosa, sobrecarregada da autoridade dum vasto entendimento:
       - Nesse caso digo, e todas as pessoas de bem o diro comigo,  uma vergonha para Leiria. Eu j tinha observado, quando li o Comunicado: a religio  a base 
da sociedade, e min-la , por assim dizer, querer aluir o edifcio...  uma desgraa que haja na cidade desses sectrios do materialismo e da repblica, que, como 
 sabido, querem destruir tudo o que existe; proclamam que os homens e as mulheres se devem unir com a promiscuidade de ces e cadelas... (Desculpem exprimir-me 
assim, mas a cincia  a cincia.) Querem ter o direito de entrar em minha casa, levar- me as pratas e o suor do meu rosto; no admitem que haja autoridades, e se 
os deixassem seriam capazes de cuspir na sagrada hstia...
D. Josefa encolheu-se com um gritinho, muito arrepiada.
       - E ousa esta seita falar em liberdade! Eu tambm sou liberal... Que, francamente o digo, eu no sou fantico... Nem pelo fato dum homem pertencer ao sacerdcio, 
o julgo um santo, no... Por exemplo, sempre embirrei com o proco Miguis... Era uma jibia! Desculpe-me a senhora, mas era uma jibia. Disse-lho na cara, porque 
a lei das rolhas j l vai... Derramamos o nosso sangue nas trincheiras do Porto, justamente para no haver lei das rolhas... Disse-lho na cara: "Vossa senhoria 
 uma jibia!" Mas, enfim, quando um homem veste uma batina deve ser respeitado... E o Comunicado, repito,  uma vergonha para Leiria... E tambm lhe digo, com esses 
ateus, esses republicanos, no deve haver considerao!... Eu sou um homem pacfico, aqui a Amparozinho conhece-me bem; pois se eu tivesse de aviar uma receita para 
um republicano declarado, no tinha dvida, em lugar de lhe dar uma dessas composies benficas que so o orgulho da nossa cincia, de lhe mandar uma dose de cido 
prssico... No, no direi que lhe mandasse cido prssico... mas se estivesse no banco dos jurados, havia de lhe fazer cair em cima todo o peso da lei!
       E balanou-se um momento sobre a ponta das chinelas, lanando um grande gesto em redor, como se esperasse os aplausos dum conselho de distrito ou duma municipalidade 
em sesso.
       Mas na S bateram ento devagar as onze; e D. Josefa embrulhou- se  pressa no seu mantelete para ir buscar a pequena, coitada, que havia de estar farta de 
esperar.
       O Carlos acompanhou-a, desbarretando-se, e dizendo-lhe (como um mimo que remetia ao seu senhorio):
       - Repita ao nosso cnego quais so as minhas opinies... Que nessa questo do Comunicado e de ataques ao clero, estou de alma e corao com suas senhorias... 
Criado seu, minha senhora... O tempo vai-se a embrulhar.
       Quando D. Josefa entrou na igreja, Amlia estava ainda no confessionrio. A velha tossiu alto, ajoelhou, e, com as mos sobre a face, abismou-se numa devoo 
 Senhora do Rosrio. A igreja ficou numa imobilidade e num silncio. Depois D. Josefa, voltando-se para o confessionrio, espreitou por entre os dedos; Amlia conservava-se 
imvel, com a mantilha muito puxada para o rosto, a roda do vestido negro espalhada em redor; e D. Josefa recaiu na sua reza. Uma chuva fina fustigava agora os vidros 
duma janela, ao lado. Enfim, houve no confessionrio um rangido de madeira, um frufru de vestidos nas lajes, - e D. Josefa, voltando-se, viu de p diante dela Amlia 
com a face escarlate e o olhar reluzindo muito.
       - Est h muito tempo  espera, madrinha?
       - Um bocadinho. Ests prontinha, hem?
       Ergueu-se, persignou-se, e as duas senhoras saram da S. Ainda caa uma chuva fina; mas o Sr. Artur Couceiro, que passava no largo com ofcios para o governo 
civil, foi lev-las  Rua da Misericrdia debaixo do seu guarda-chuva.


XIII


       Joo Eduardo,  noitinha, ia sair de casa para a Rua da Misericrdia, levando debaixo do brao um rolo de amostras de papel de parede para Amlia escolher, 
quando  porta encontrou a Rua que ia puxar a campainha.
       - Que , Rua?
       - As senhoras foram passar a noite fora de casa, e aqui est esta carta que manda a senhora.
       Joo Eduardo sentiu apertar-se-lhe o corao, e seguia com o olhar pasmado a Rua, que descia a rua, batendo os tamancos. Foi ao p do candeeiro, defronte, 
abriu a carta:

"SR. JOO EDUARDO.
O que estava decidido a respeito do nosso casamento era na persuaso que era V. Sa. uma pessoa de bem e que me poderia fazer feliz,' mas como se sabe tudo, e que 
foi o senhor que escreveu o artigo do Distrito, e caluniou os amigos da casa e me insultou a mim, e como os seus costumes no me do garantia de felicidade na vida 
de casada, deve desde hoje, considerar tudo acabado entre ns, pois no h banhos publicados nem despesas feitas. E eu espero, bem como a mam, que o senhor seja 
bastante delicado para no nos voltar a casa, nem perseguir-nos na rua. O que tudo lhe comunico por ordem da mam, e sou
criada de V. Sa.
Amlia Caminha'' .

       Joo Eduardo ficou a olhar estupidamente a parede defronte onde batia a claridade do candeeiro, imvel como uma pedra, com o seu rolo de papis pintados debaixo 
do brao. Maquinalmente, voltou a casa. As mos tremiam-lhe tanto, que mal podia acender o candeeiro. De p, junto da mesa, releu a carta. Depois ficou ali, fatigando 
a vista contra a chama da torcida, com uma sensao arrefecedora de Imobilidade e de Silncio, como se subitamente, sem choque, toda a vida universal tivesse emudecido 
e parado. Pensou onde teriam elas ido passar a noite. Lembranas de seres felizes na Rua da Misericrdia atravessaram-lhe devagar na memria: Amlia trabalhava, 
com a cabea baixa, e entre o cabelo muito preto e o colar muito branco o seu pescoo tinha uma palidez que a luz amaciava... Ento a idia de que a perdera para 
sempre varou-lhe o corao com um frio de punhalada. Apertou as fontes entre as mos, tonto. Que havia de fazer? que havia de fazer? Resolues bruscas relampejavam-lhe 
um momento no esprito, esvaam-se. Queria escrever-lhe! Tir-la por justia! Ir para o Brasil! Saber quem descobrira que ele era o autor do artigo! - E como isto 
era o mais praticvel quela hora, correu  redao da Voz do Distrito.
       Agostinho, estirado no canap, com a vela ao p sobre uma cadeira, saboreava os jornais de Lisboa. A face descomposta de Joo Eduardo assustou-o.
       - Que ?
       -  que me perdeste, maroto!
       E de um s flego acusou furiosamente o corcunda de o ter trado.
       Agostinho erguera-se devagar, procurando sem perturbao a bolsa do tabaco na algibeira da jaqueta.
       - Homem, disse, nada de espalhafatos... Eu dou-te a minha palavra de honra que no disse a ningum do Comunicado.  verdade que ningum me perguntou...
       - Mas quem foi, ento? gritou o escrevente.
       Agostinho enterrou a cabea nos ombros.
       - Eu o que sei  que os padres andavam numa azfama para saber quem era. O Natrio esteve a uma manh, por causa do anncio de uma viva que recorre  caridade 
pblica, mas do Comunicado no se disse nem palavra... O doutor Godinho  que sabia, entende-te com ele! Mas ento fizeram-te alguma?
       - Mataram-me! disse Joo Eduardo lugubremente.
       Ficou um momento a fixar o soalho, aniquilado, e saiu arremessando a porta. Passeou na Praa; foi ao acaso pelas ruas; depois, atrado pela obscuridade,  
estrada de Marrazes. Abafava, sentindo uma intolervel palpitao surda latejar-lhe interiormente contra as fontes; apesar de ventar forte nos campos, parecia-lhe 
seguir um silncio universal; por vezes a idia da sua desgraa rasgava-lhe subitamente o corao, e ento imaginava ver toda a paisagem oscilar e o cho da estrada 
afigurava-se-lhe mole como um lamaal. Voltou pela S quando batiam onze horas; e achou-se na Rua da Misericrdia, com o olhar cravado para a janela da sala de jantar, 
onde havia ainda luz; a vidraa do quarto de Amlia alumiou-se tambm; ela ia deitar-se, decerto... Veio-lhe um desejo furioso da sua beleza, do seu corpo, dos seus 
beijos. Fugiu para casa; uma fadiga intolervel prostrou-o sobre a cama; depois uma saudade indefinida, profunda, foi-o amolecendo, e chorou muito tempo, enternecendo-se 
mais com o som dos seus prprios soluos, - at que ficou adormecido, de bruos, numa massa inerte.

***

       Ao outro dia, cedo, Amlia vinha da Rua da Misericrdia para a Praa, quando ao p do Arco, Joo Eduardo lhe saiu de emboscada.
       - Quero falar-lhe, menina Amlia.
       Ela recuou assustada, disse a tremer:
       - No tem que me falar...
       Mas ele plantara-se diante dela, muito decidido, com os olhos vermelhos como carves:
       - Quero-lhe dizer... L do artigo,  verdade, fui eu que o escrevi, foi uma desgraa; mas a menina tinha-me ralado de cimes... Mas o que a menina diz de 
maus costumes  uma calnia. Eu sempre fui um homem de bem...
       - O Sr. padre Amaro  que o conhece! Faz favor de me deixar passar...
       Ao nome do proco, Joo Eduardo fez-se lvido de raiva:
       - Ah!  o Sr. padre Amaro!  o maroto do padre! Pois veremos Oua...
       - Faz favor de me deixar passar! disse ela irritada, to alto, que um sujeito gordo de xale-manta parou olhando.
       Joo Eduardo recuou, tirando o chapu; e ela, imediatamente, refugiou-se na loja do Fernandes.
       Ento, num desespero, correu a casa do doutor Godinho. J na vspera, por entre os seus acessos de choro, sentindo-se to abandonado, se lembrara do doutor 
Godinho. Fora outrora seu escrevente; e como por pedido dele entrara no cartrio do Nunes Ferral, e por sua influncia ia ser acomodado no governo civil, julgava-o 
uma Providncia prdiga e inesgotvel! Demais, desde que escrevera o Comunicado considerava-se da redao da Voz do Distrito, do grupo da Maia; agora, que era atacado 
pelos padres, devia claramente ir acolher-se  forte proteo do seu chefe, do doutor Godinho, do inimigo da reao, o "Cavour de Leiria", como dizia, arregalando 
os olhos, o bacharel Azevedo, autor dos Ferres! - E Joo Eduardo, dirigindo-se ao casaro amarelo, ao p do Terreiro onde o doutor vivia, ia num alvoroo de esperanas, 
contente em se refugiar, como um co escorraado, entre as pernas daquele colosso!
       O doutor Godinho descera j ao escritrio, e repoltreado na sua poltrona abacial de pregos amarelos, com os olhos no teto de carvalho escuro, acabava com 
beatitude o charuto do almoo. Recebeu com majestade os "bons-dias" de Joo Eduardo.
       - E ento que temos, amigo?
       As altas estantes de in-flios graves, as resmas de autos, o aparatoso painel representando o marqus de Pombal, de p num terrao sobre o Tejo, expulsando 
com o dedo a esquadra inglesa - acanharam como sempre Joo Eduardo; e foi com voz embaraada que disse vinha ali para que sua excelncia lhe desse remdio numa desgraa 
que lhe sucedia.
       - Desordens, bordoada?
       - No, senhor, negcios de famlia.
       Contou ento, prolixamente, a sua histria desde a publicao do Comunicado; leu, muito comovido, a carta de Amlia; descreveu a cena ao p do Arco... Ali 
estava agora, escorraado da Rua da Misericrdia por obras do senhor proco! E parecia-lhe a ele, apesar de no ser formado em Coimbra, que contra um padre que se 
introduzia numa famlia, desinquietava uma menina simples, levava por intrigas a romper com o noivo e ficava de portas adentro senhor dela - devia haver leis!
       - Eu no sei, senhor doutor, mas deve haver leis!
       O doutor Godinho parecia contrariado.
       - Leis! exclamou traando vivamente a perna. Que leis quer voc que haja? Quer querelar do proco?... Por qu? Ele bateu-lhe? Roubou- lhe o relgio? Insultou-o 
pela imprensa? No. Ento?...
       - Oh, senhor doutor, mas intrigou-me com as senhoras! Eu nunca fui homem de maus costumes, senhor doutor! Caluniou-me!
       - Tem testemunhas?
       - No, senhor.
       - Ento?
       E o doutor Godinho, assentando os cotovelos sobre a banca, declarou que, como advogado, no tinha nada a fazer. Os tribunais no tomavam conhecimento dessas 
questes, desses dramas morais por assim dizer, que se passavam nas alcovas domsticas... Como homem, como particular, como Alpio de Vasconcelos Godinho, tambm 
no podia intervir porque no conhecia o Sr. padre Amaro, nem essas senhoras da Rua da Misericrdia... Lamentava o fato, porque enfim fora novo, sentira a poesia 
da mocidade, e sabia (infelizmente sabia!) o que eram esses transes do corao... E ai est tudo o que ele podia fazer - lamentar! Tambm para que tinha ele dado 
a sua afeio a uma beata?...
Joo Eduardo interrompeu-o:
       - A culpa no  dela, senhor doutor! A culpa  do padre que a anda a desencaminhar! A culpa  dessa canalha do cabido!
       O doutor Godinho estendeu com severidade a mo, e aconselhou o Sr. Joo Eduardo que tivesse cuidado com semelhantes asseres! Nada provava que o senhor proco 
possusse nessa casa outra influncia, que no fosse a dum hbil diretor espiritual... E recomendava ao Sr. Joo Eduardo, com a autoridade que lhe davam os anos 
e a sua posio no pais, que no fosse espalhar, por despeito, acusaes que s serviam para destruir o prestigio do sacerdcio, indispensvel numa sociedade bem 
constituda! - Sem ele, tudo seria anarquia e orgia!
       E recostou-se, pensando, satisfeito, que estava nessa manh com "o dom da palavra".
       Mas a face consternada do escrevente, que no se movia, de p junto da banca, impacientava-o; e disse com secura, puxando para diante de si um volume de autos:
       - Enfim, acabemos, que quer o amigo? J v, eu no lhe posso dar remdio.
       Joo Eduardo replicou, com um movimento de coragem desesperada:
       - Eu imaginei que o senhor doutor podia fazer alguma coisa por mim... Porque enfim eu fui uma vitima... Tudo isto vem de se saber que eu escrevi o Comunicado. 
E tinha-se combinado que havia de ser segredo. O Agostinho no disse, s o senhor doutor o sabia...
       O doutor pulou de indignao na sua cadeira abacial:
       - Que quer o senhor insinuar? Quer-me dar a entender que fui eu que o disse? No disse... Isto , disse; disse-o a minha mulher, porque numa famlia bem constituda 
no deve haver segredos entre esposo e esposa. Ela perguntou-me, disse-lho... Mas suponhamos que fui eu que o espalhei pelas ruas. De duas uma: ou o Comunicado era 
uma calnia, e ento sou eu que devo acus-lo de ter poludo um jornal honrado com um acervo de difamaes; ou era verdade, e ento que homem  o senhor que se envergonha 
das verdades que solta e que no se atreve a manter  luz do dia as opinies que redigiu na escurido da noite?
       Duas lgrimas enevoaram os olhos de Joo Eduardo. Ento, diante daquela expresso esmorecida, satisfeito de o ter esmagado com uma argumentao to lgica 
e to poderosa, o doutor Godinho abrandou:
       - Bem, no nos zanguemos, disse. No se fala mais em pontos de honra... O que pode acreditar  que lamento o seu desgosto.
       Deu-lhe conselhos duma solicitude paternal. Que no sucumbisse; havia mais meninas em Leiria e meninas de bons princpios que no viviam sob a direo da 
sotaina. Que fosse forte, e que se consolasse pensando que ele, doutor Godinho - e era ele! - tambm tivera em moo desgostos do corao. Que evitasse o domnio 
das paixes que lhe seria prejudicial na carreira pblica. E que se o no fizesse por seu interesse prprio, o fizesse ao menos em ateno a ele, doutor Godinho!
       Joo Eduardo saiu do escritrio, indignado, julgando-se trado pelo doutor.
       - Isto sucede-me a mim, resmungava, porque sou um pobre-diabo, no dou votos nas eleies, no vou s soires do Novais, no subscrevo para o clube. Ah, que 
mundo! Se eu tivesse um par de contos de ris!...
       Veio-lhe ento um desejo furioso de se vingar dos padres, dos ricos, e da religio que os justifica. Voltou muito decidido ao escritrio, e entreabrindo a 
porta:
       - Vossa excelncia ao menos agora d licena que eu desabafe no jornal?... Queria contar esta maroteira, cascar nessa canalha...
       Esta audcia do escrevente indignou o doutor. Endireitou-se com severidade na poltrona, e cruzando terrivelmente os braos:
       - O Sr. Joo Eduardo est realmente a abusar! Pois o senhor vem- me pedir que transforme um jornal de idias num jornal de difamaes? V, no se prenda! 
Pede-me que insulte os princpios da religio, que achincalhe o Redentor, que repita as baboseiras de Renan, que ataque as leis fundamentais do Estado, que injurie 
o rei, que vitupere a instituio da famlia! O senhor est brio.
       - Oh, senhor doutor!
       - O senhor est brio! Cuidado, meu caro amigo, cuidado, olhe que vai por um declive!  por esse caminho que se chega a perder o respeito da autoridade, da 
lei, das coisas santas e do lar.  por esse caminho que se vai ao crime! Escusa de arregalar os olhos... Ao crime, digo-lho eu! Tenho a experincia de vinte anos 
de foro. Homem, detenha-se! Refreie essas paixes. Safa! Que idade tem o senhor?
       - Vinte e seis anos. 
       - Pois no h desculpa para um homem de vinte e seis anos ter essas idias subversivas. Adeus, feche a porta. E escute. Escusa de pensar em mandar outro Comunicado 
para outro qualquer jornal. No lho consinto, eu que o tenho protegido sempre! Havia de querer fazer espalhafato... Escusa de negar, estou-lho a ler nos olhos. Pois 
no lho consinto!  para seu bem, para lhe poupar uma m ao social!
       Tomou uma grande atitude na poltrona, repetiu com fora:
       - Uma pssima ao social! Aonde nos querem os senhores levar com os seus materialismo, os seus atesmos? Quando tiverem dado cabo da religio de nossos pais, 
que tm os senhores para a substituir? Que tm? Mostre l!
       A expresso embaraada de Joo Eduardo (que no tinha ali, para a mostrar, um religio que substitusse a de nossos pais) fez triunfar o doutor.
       - No tm nada! Tm lama, quando muito tm palavreado! Mas enquanto eu for vivo, pelo menos em Leiria, h-de ser respeitada a F e o principio da Ordem! Podem 
pr a Europa a fogo e sangue, em Leiria no ho-de erguer cabea. Em Leiria estou eu alerta, e juro que lhes hei-de ser funesto!
       Joo Eduardo recebia de ombros vergados estas ameaas, sem as compreender. Como podia o seu Comunicado e as intrigas da Rua da Misericrdia produzirem assim 
catstrofes sociais e revolues religiosas? Tanta severidade aniquilava-o. Ia perder decerto a amizade do doutor, o emprego no governo civil... Quis abrand-lo:
       - Oh, senhor doutor, mas vossa excelncia bem v...
       O doutor interrompeu-o com um grande gesto:
       - Eu vejo perfeitamente. Vejo que as paixes, a vingana o vo levando por um caminho fatal... O que espero  que os meus conselhos o detenham. Bem, adeus. 
Feche a porta. Feche a porta, homem!
       Joo Eduardo saiu acabrunhado. Que havia de fazer agora? O doutor Godinho, aquele colosso, repelia-o com palavras tremendas! E que podia ele, pobre escrevente 
de cartrio, contra o padre Amaro que tinha por si o clero, o chantre, o cabido, os bispos, o papa, classe solidria e compacta que lhe aparecia como uma medonha 
cidadela de bronze erguendo- se at ao cu! Eram eles que tinham causado a resoluo de Amlia, a sua carta, a dureza das suas palavras. Era uma intriga de procos, 
cnegos e beatas. Se ele pudesse arranc-la quela influncia, ela tomaria a ser bem depressa a sua Ameliazinha que lhe bordava chinelas, e que vinha toda corada 
v-lo passar  janela! As suspeitas que outrora tivera tinham-se desvanecido naqueles seres felizes, depois de decidido o casamento, quando ela, costurando junto 
do candeeiro, falava da moblia que havia de comprar e dos arranjos da sua casinha. Ela amava-o, decerto... Mas qu, tinham- lhe dito que ele era o autor do Comunicado, 
que era herege, que tinha costumes devassos; o proco, na sua voz pedante, ameaara-a com o Inferno; o cnego, furioso, e todo-poderoso na Rua da Misericrdia porque 
dava para a panela, falara teso - e a pobre menina, assustada, dominada, com aquele bando tenebroso de padres e de beatas a cochicharem-lhe ao ouvido, coitada, cedera! 
Estava talvez persuadida, de boa-f, que ele era uma fera! E quela hora, enquanto ele ali andava pelas ruas, escorraado e desgraado, o padre Amaro, na saleta 
da Rua da Misericrdia, enterrado na poltrona, senhor da casa e senhor da rapariga, de pema traada, palrava de alto! Canalha! E no haver leis que o vingassem! 
E no poder sequer "fazer escndalo", agora que a Voz do Distrito se lhe tomava inacessvel!
       Vinham-lhe ento desejos furiosos de demolir o proco aos murros, com a fora do padre Brito. Mas o que o satisfaria mais seriam artigos tremendos num jornal, 
que revelassem as intrigas da Rua da Misericrdia, amotinassem a opinio, cassem sobre o padre como catstrofes, o forassem a ele, ao cnego e aos outros a desaparecerem 
corridos da casa da S. Joaneira! Ah! estava certo que a Ameliazinha, livre daqueles galfarros, correria logo aos seus braos, com lgrimas de reconciliao...
       Procurava assim  fora convencer-se que "a culpa no era dela"; recordava os meses de felicidade antes da chegada do proco; arranjava explicaes naturais 
para aquelas maneirinhas ternas que ela outrora tinha para o padre Amaro, e que lhe tinham dado cimes desesperados: era o desejo, coitada, de ser agradvel ao hspede, 
ao amigo do senhor cnego, de o reter para vantagem da me e da casa! E alm disso, como ela andava contente depois de resolvido o casamento! A sua indignao contra 
o Comunicado, estava certo, no era natural dela - vinha-lhe soprada pelo proco e belas beatas. E achava uma consolao nesta idia que no era repelido como namorado, 
como marido - mas que era uma vtima das intrigas do torpe padre Amaro, que lhe desejava a noiva e que o odiava como liberal! Isto acumulava-lhe na alma um rancor 
desordenado contra o padre; descendo a rua procurava ansiosamente uma vingana, atirando a imaginao, aqui e alm - mas vinha-lhe sempre a mesma idia, o artigo 
do jornal, a verrina, a imprensa! A certeza da sua fraqueza desprotegida revoltava-o. Ah, se tivesse por si um figuro!
       Um homem do campo, amarelo como uma cidra, que ia caminhando devagar, com o brao ao peito, deteve-o a perguntar-lhe onde morava o doutor Gouveia.
       - Na primeira rua,  esquerda, o porto verde ao p do lampio, disse Joo Eduardo.
       E uma esperana imensa alumiou-lhe bruscamente a alma: o doutor Gouveia  que o podia salvar! O doutor era seu amigo; tratava-o por tu desde que o curara 
havia trs anos da pneumonia; aprovava muito o seu casamento com Amlia; havia ainda semanas perguntara-lhe ao p da Praa: - "Ento, quando se faz essa rapariga 
feliz?" E que respeitado, que temido na Rua da Misericrdia! Era mdico de todas as amigas da casa que, apesar de se escandalizarem com a sua irreligio, dependiam 
humildemente da sua cincia para os achaques, os flatos, os xaropes. Alm disso, o doutor Gouveia, inimigo decidido da padraria, decerto se ia indignar com aquela 
intriga beata: e Joo Eduardo via-se j entrando na Rua da Misericrdia atrs do doutor Gouveia, que repreendia a S. Joaneira, arrasava o padre Amaro, convencia 
as velhas, - e a sua felicidade recomeava, inabalvel agora!
       - O senhor doutor est? perguntou ele quase alegre,  criada que no ptio estendia a roupa ao sol.
       - Est na consulta, Sr. Joozinho, faa favor de entrar.
       Em dias de mercado os doentes do campo afluam sempre. Mas quela hora - quando os vizinhos das freguesias se renem nas tabernas - havia s um velho, uma 
mulher com uma criana ao colo e o homem do brao ao peito, esperando numa saleta baixa com bancos, dois manjerices na janela e uma grande gravura da Coroao da 
Rainha Vitria. Apesar do sol claro que entrava no ptio, e de uma fresca folhagem de tlia que roava o peitoril da janela, a saleta dava tristeza, como se as paredes, 
os bancos, os mesmos manjerices estivessem saturados da melancolia das doenas que ali tinham passado. Joo Eduardo entrou e sentou-se a um canto.
       Tinha batido meio-dia, e a mulher estava-se queixando de ter esperado tanto: era de uma freguesia distante; deixara no mercado a irm, e havia uma hora que 
o senhor doutor estava com duas senhoras! A cada momento a criana rabujava, ela sacudia-a nos braos: calavam-se depois: o velho arregaava a cala, contemplava 
com satisfao uma chaga na canela envolta em trapos: e o outro homem dava bocejos desconsolados que tomavam mais lgubre a sua longa face amarela. Aquela demora 
enervava, amolecia o escrevente; sentia perder gradualmente o nimo de ocupar o doutor Gouveia; preparava laboriosamente a sua histria, mas ela parecia-lhe agora 
bem insuficiente para o interessar. Vinha-lhe ento um desalento, que as faces inspidas dos doentes tomavam ainda mais intenso. Positivamente era uma coisa bem 
triste esta vida, cheia s de misrias, de sentimentos trados, de aflies, de doenas! Erguia-se; e com as mos atrs das costas ia olhar desconsoladamente a Coroao 
da Rainha Vitria.
       De vez em quando a mulher entreabria a porta, a espreitar se as duas senhoras ainda l estariam. L estavam; e atravs do batente de baeta verde, que fechava 
o gabinete do doutor, sentia-se as suas vozes pachorrentas palrarem.
       - Em caindo aqui,  dia perdido! rosnava o velho.
       Tambm ele deixara a cavalgadura  porta do Fumaa, e a rapariga na Praa... E o que teria a esperar na botica, depois! Com trs lguas ainda a fazer para 
voltar  freguesia!... Ser doente  bom, mas para quem  rico e tem vagares!
       A idia da doena, da solido que ela traz, faziam agora parecer a Joo Eduardo mais amarga a perda de Amlia. Se adoecesse, teria de ir para o hospital. 
O malvado do padre tirara-lhe tudo - mulher, felicidade, confortos de famlia, doces companhias da vida!
       Enfim, sentiram no corredor as duas senhoras que saam. A mulher com a criana apanhou o seu cabaz, precipitou-se. E o velho, apoderando- se logo do banco 
junto da porta, disse com satisfao:
       - Agora c o patro!
       - Vossemec tem muito que consultar? perguntou-lhe Joo Eduardo.
       - No senhor,  s receber a receita.
       E imediatamente contou a histria da sua chaga: fora uma trave que lhe cara em cima; no fizera caso; depois a ferida assanhara-se; e agora ali estava, manco 
e curtidinho de dores.
       - E vossa senhoria,  coisa de cuidado? perguntou ele.
       - Eu no estou doente, disse o escrevente. So negcios com o senhor doutor.
       Os dois homens olharam-se com inveja.
       Enfim foi a vez do velho, depois a do homem amarelo de brao ao peito. Joo Eduardo, s, passeava nervoso pela saleta. Parecia-lhe agora muito difcil ir 
assim, sem cerimnia, pedir proteo ao doutor. Com que direito?... Lembrou-se de se queixar primeiro de dores do peito ou desarranjos do estmago, e depois, incidentalmente, 
contar os seus infortnios... 
       Mas a porta abriu-se. O doutor estava diante dele, com sua longa barba grisalha que lhe caa sobre a quinzena de veludo preto, o largo chapu desabado na 
cabea, calando as luvas de fio de Esccia.
       - Ol! s tu, rapaz! H novidade na Rua da Misericrdia? Joo Eduardo corou.
       - No senhor, senhor doutor, queria falar-lhe em particular.
       Seguiu-o ao gabinete - o conhecido gabinete do doutor Gouveia que, com o seu caos de livros, o seu tom poeirento, uma panplia de flechas selvagens e duas 
cegonhas empalhadas, tinha na cidade a reputao duma "Cela de Alquimista".
       O doutor puxou o seu cebolo.
       - Um quarto para as duas. S breve.
       A face do escrevente exprimiu o embarao de condensar uma narrao to complicada.
       - Est bom, disse o doutor, explica-te como puderes. No h nada mais difcil que ser claro e breve;  necessrio ter gnio. Que ?
       Joo Eduardo ento tartamudeou a sua histria, insistindo sobretudo na perfdia do padre, exagerando a inocncia de Amlia...
       O doutor escutava-o, cofiando a barba.
       - Vejo o que . Tu e o padre, disse ele, quereis ambos a rapariga. Como ele  o mais esperto e o mais decidido, apanhou-a ele.  lei natural: o mais forte 
despoja, elimina o mais fraco; a fmea e a presa pertencem-lhe.
       Aquilo pareceu a Joo Eduardo um gracejo. Disse, com a voz perturbada:
       - Vossa excelncia est a caoar, senhor doutor, mas a mim retalhasse-me o corao!
       - Homem, acudiu o doutor com bondade, estou a filosofar, no estou a caoar... Mas enfim, que queres tu que eu te faa?
       Era o que o doutor Godinho lhe tinha dito, tambm, com mais pompa!
       - Eu tenho a certeza que se vossa excelncia lhe falasse...
       O doutor sorriu:
       - Eu posso receitar  rapariga este ou aquele xarope, mas no lhe posso impor este ou aquele homem! Queres que lhe v dizer: "A menina h-de preferir aqui 
o Sr. Joo Eduardo?" Queres que v dizer ao padre, um magano que eu nunca vi: "O senhor faz favor de no seduzir esta menina?"
       - Mas caluniaram-me, senhor doutor, apresentaram-me como um homem de maus costumes, um patife...
       - No, no te caluniaram. Sob o ponto de vista do padre e daquelas senhoras que jogam a noite o quino na Rua da Misericrdia, tu s um patife: um cristo 
que nos peridicos vitupera abades, cnegos, curas, personagens to importantes para se comunicar com Deus e para se salvar a alma,  um patife. No te caluniaram, 
amigo!
       - Mas, senhor doutor...
       - Escuta. E a rapariga, descartando-se de ti em obedincias s instrues do senhor padre fulano ou sicrano, comporta-se como uma boa catlica.  o que te 
digo. Toda a vida do bom catlico, os seus pensamentos, as sua idias, os seus sentimentos, as suas palavras, o emprego dos seus dias e das suas noites, as sua relaes 
de famlia e de vizinhana, os pratos do seu jantar, o seu vesturio e os seus divertimentos - tudo isto  regulado pela autoridade eclesistica (abade, bispo ou 
cnego), aprovado ou censurado pelo confessor, aconselhado e ordenado pelo diretor da conscincia. O bom catlico, como a tua pequena, no se pertence; no tem razo, 
nem vontade, nem arbtrio, nem sentir prprio; o seu cura pensa, quer, determina, sente por ela. O seu nico trabalho neste mundo, que  ao mesmo tempo o seu nico 
direito e o seu nico dever,  aceitar esta direo; aceit-la sem a discutir; obedecer-lhe, d por onde der; se ela contraria as suas idias, deve pensar que as 
suas idias so falsas; se ela fere as suas afeies, deve pensar que as suas afeies so culpadas. Dado isto, se o padre disse  pequena que no devia nem casar, 
nem sequer falar contigo, a criatura prova, obedecendo-lhe, que  uma boa catlica, uma devota conseqente, e que segue na vida, logicamente, a regra moral que escolheu. 
Aqui est, e desculpa o sermo.
       Joo Eduardo ouvia com respeito, com espanto estas frases, a que a face plcida, a bela barba grisalha do doutor davam uma autoridade maior. Parecia-lhe agora 
quase impossvel recuperar Amlia, se ela pertencia assim to absolutamente, alma e sentidos, ao padre que a confessava. Mas enfim, por que era ele considerado um 
marido prejudicial?
       - Eu compreenderia, disse ele, se fosse um homem de maus costumes, senhor doutor. Mas eu porto-me bem. Eu no fao seno trabalhar. Eu no freqento tabernas, 
nem troas. Eu no bebo, eu no jogo. As minhas noites passo-as na Rua da Misericrdia, ou em casa a fazer sero para o cartrio...
       - Meu rapaz, tu podes ter socialmente todas as virtudes; mas, segundo a religio de nossos pais, todas as virtudes que no so catlicas so inteis e perniciosas. 
Ser trabalhador, casto, honrado, justo, verdadeiro, so grandes virtudes; mas para os padres e para a Igreja no contam. Se tu fores um modelo de bondade mas no 
fores  missa, no jejuares, no te confessares, no te desbarretares para o senhor cura - s simplesmente um maroto. Outros personagens maiores que tu, cuja alma 
foi perfeita e cuja regra de vida foi impecvel, tm sido julgados verdadeiros canalhas, porque no foram batizados antes de terem sido perfeitos. Hs-de ter ouvido 
falar de Scrates, dum outro chamado Plato, de Cato, etc... Foram sujeitos famosos pelas suas virtudes. Pois um certo Bossuet, que  o grande chavo da doutrina, 
disse que das virtudes desses homens estava cheio o Inferno... Isto prova que a moral catlica  diferente da moral natural e da moral social... Mas so coisas que 
tu compreendes mal... Queres tu um exemplo? Eu sou, segundo a doutrina catlica, um dos grandes desavergonhados que passeiam as ruas da cidade; e o meu vizinho Peixoto, 
que matou a mulher com pancadas e que vai dando cabo pelo mesmo processo de uma filhita de dez anos,  entre o clero um homem excelente, porque cumpre os seus deveres 
de devoto e toca figle nas missas cantadas. Enfim, amigo, estas coisas so assim. E parece que so boas, porque h milhares de pessoas respeitveis que as consideram 
boas, o Estado mantm-nas, gasta at um dinheiro para as manter, obriga-nos mesmo a respeit-las, - e eu, que estou aqui a falar, pago todos os anos um quartinho 
para que elas continuem a ser assim. Tu naturalmente pagas menos...
       - Pago sete vintns, senhor doutor.
       - Mas enfim vais s festas, ouves msica, sermo, desforras-te dos teus sete vintns. Eu, o meu quartinho perco-o; consolo-me apenas com a idia de que vai 
ajudar a manter o esplendor da Igreja - da Igreja que em vida me considera um bandido, e que para depois de morto me tem preparado um inferno de primeira classe. 
Enfim, parece-me que temos cavaqueado bastante... Que queres mais?
       Joo Eduardo estava acabrunhado. Agora que escutava o doutor, parecia-lhe, mais que nunca, que se um homem de palavras to sbias, de tantas idias, se interessasse 
por ele, toda a intriga seria facilmente desfeita e a sua felicidade, o seu lugar na Rua da Misericrdia recobrados para sempre.
       - Ento vossa excelncia no pode fazer nada por mim? disse muito desconsolado.
       - Eu posso talvez curar-te de outra pneumonia. Tens outra pneumonia a curar? No? Ento...
       Joo Eduardo suspirou:
       - Sou uma vtima, senhor doutor!
       - Fazes mal. No deve haver vtimas, quando no seja seno para impedir que haja tiranos - disse o doutor, pondo o seu largo chapu desabado.
       - Porque no fim de tudo, exclamou ainda Joo Eduardo que se prendia ao doutor com uma sofreguido de afogado, no fim de tudo o que o patife do proco quer, 
com todos os seus pretextos,  a rapariga! Se ela fosse um camafeu, bem se importava o maroto que eu fosse um mpio ou no! O que ele quer  a rapariga! 
       O doutor encolheu os ombros.
       -  natural, coitado - disse, j com a mo no fecho da porta. Que queres tu? Ele tem para as mulheres, como homem, paixes e rgos; como confessor, a importncia 
dum Deus.  evidente que h-de utilizar essa importncia para satisfazer essas paixes; e que h de cobrir essa satisfao natural com as aparncias e com os pretextos 
do servio divino...  natural.
       Joo Eduardo ento, vendo-o abrir a porta, desvanecer-se a esperana que o trouxera ali, furioso, vergastando o ar com o chapu:
       - Canalha de padres! Foi raa que sempre detestei! Queria-a ver varrida da face da Terra, senhor doutor!
       - Isso  outra tolice, disse o doutor, resignando-se a escut-lo ainda, e parando  porta do quarto. Ouve l. Tu crs em Deus? No Deus do Cu, no Deus que 
l est no alto do Cu, e que  l de cima o princpio de toda a justia e de toda a verdade?
       Joo Eduardo, surpreendido, disse:
       - Eu creio, sim senhor.
       - E no pecado original?
       - Tambm...
       - Na vida futura, na redeno, etc.?
       - Fui educado nessas crenas...
       - Ento para que queres varrer os padres da face da Terra? Deves pelo contrrio ainda achar que so poucos. s um liberal racionalista nos limites da Carta, 
ao que vejo... Mas se crs no Deus do Cu, que nos dirige l de cima, e no pecado original, e na vida futura, precisas duma classe de sacerdotes que te expliquem 
a doutrina e a moral revelada de Deus, que te ajudem a purificar da mcula original e te preparem o teu lugar no Paraso! Tu necessitas dos padres. E parece-me mesmo 
uma terrvel falta de lgica que os desacredites pela imprensa...
       Joo Eduardo, atnito, balbuciou:
       - Mas vossa excelncia, senhor doutor... Desculpe-me vossa excelncia, mas...
       - Dize, homem. Eu qu?
       - Vossa excelncia no precisa dos padres neste mundo...
       - Nem no outro. Eu no preciso dos padres no mundo, porque no preciso do Deus do Cu. Isto quer dizer, meu rapaz, que tenho o meu Deus dentro de mim, isto 
, o princpio que dirige as minhas aes e os meus juzos. Vulgo Conscincia... Talvez no compreendas bem... O fato  que estou aqui a expor doutrinas subversivas... 
E realmente so trs horas...
       E mostrou-lhe o cebolo.
        porta do ptio, Joo Eduardo disse-lhe ainda:
       - Vossa excelncia ento desculpe, senhor doutor...
       - No h de qu... Manda a Rua da Misericrdia ao diabo!
       Joo Eduardo interrompeu com calor:
       - Isso  bom de dizer, senhor doutor, mas quando a paixo est a roer c por dentro!...
       - Ah! fez o doutor,  uma bela e grande coisa a paixo! O amor  uma das grandes foras da civilizao. Bem dirigida levanta um mundo e bastava para nos fazer 
a revoluo moral... - E mudando de tom: - Mas escuta. Olha que isso s vezes no  paixo, no est no corao... O corao  ordinariamente um termo de que nos 
servimos, por decncia, para designar outro rgo.  precisamente esse rgo o nico que est interessado, a maior parte das vezes, em questes de sentimento. E 
nesses casos o desgosto no dura. Adeus, estimo que seja isso!


XIV


       Joo Eduardo desceu a rua, embrulhando o cigarro. Sentia-se enervado, todo cansado da noite desesperada que passara, daquela manh cheia de passos inteis 
das conversas do doutor Godinho e do doutor Gouveia.
       - Acabou-se, pensava, no posso fazer mais nada!  agentar.
       Tinha a alma extenuada de tantos esforos de paixo, de esperana e de clera. Desejaria ir estirar-se ao comprido, num stio isolado, longe de advogados, 
de mulheres e de padres, e dormir durante meses. Mas como j passava das trs horas, apressava-se para o cartrio do Nunes. Teria talvez ainda de ouvir um sermo 
por ter chegado to tarde! Triste vida a sua!
       Dobrava a esquina no Terreiro, quando ao p da casa de pasto do Osrio se encontrou com um moo de quinzena clara, debruada de uma fita negra muito larga, 
e com um bigodinho to preto que parecia postio sobre as suas feies extremamente plidas.
       - Ol! Que  feito, Joo Eduardo?
       Era um Gustavo, tipgrafo da Voz do Distrito, que havia dois meses fora para Lisboa. Segundo dizia o Agostinho, era "rapaz de cabea e instruidote, mas de 
idias do diabo". Escrevia s vezes artigos de poltica estrangeira, onde introduzia frases poticas e retumbantes, amaldioando Napoleo III, o czar e os opressores 
do povo, chorando a escravido da Polnia e a misria do proletrio. A simpatia entre ele e Joo Eduardo proviera de conversas sobre religio, em que ambos exalavam 
o seu dio ao clero e a sua admirao por Jesus Cristo. A revoluo de Espanha entusiasmara-o tanto que aspirara a pertencer  Internacional; e o desejo de viver 
num centro operrio, onde houvesse associaes, discursos e fraternidade, levara-o a Lisboa. Encontrara l bom trabalho e bons camaradas. Mas como sustentava a me, 
velha e doente, e como era mais econmico viverem juntos, voltara a Leiria. O Distrito, alm disso, na perspectiva de eleies, prosperava a ponto de aumentar o 
salrio aos trs tipgrafos.
       - De modo que l estou outra vez com o raqutico... Vinha jantar, e convidou logo Joo Eduardo a que lhe fizesse companhia. No havia de acabar o mundo, que 
diabo, por ele faltar um dia ao cartrio!
       Joo Eduardo ento lembrou-se que desde a vspera no tinha comido. Era talvez a debilidade que o trouxera assim estonteado, to pronto a desanimar... Decidiu-se 
logo - contente, depois das emoes e das fadigas da manh, de se estirar no banco da taberna, diante dum prato cheio, na intimidade com um camarada de dios iguais 
aos seus. Demais, os repeles que sofrera davam-lhe uma necessidade, uma avidez de simpatia; e foi com calor que disse:
       - Homem, valeu! Cais-me do cu! Este mundo  uma choldra. Se no fosse por alguma hora que se passa em amizade, caramba, no valia a pena andar por c! .
       Este modo, to novo no Joo Eduardo, no Pacatinho, espantou Gustavo.
       - Por qu? As coisas no correm bem? Turras com a besta do Nunes, hem? perguntou-lhe.
       - No, um bocado de spleen. 
       - Isso de spleen  de ingls! Oh menino, havias de ver o Taborda no Amor londrino!... Deixa l o spleen.  deitar lastro para dentro e carregar no lquido!
       Travou-lhe do brao, meteu-o pela porta da taberna.
       - Viva o tio Osrio! Sade e fraternidade!
       O dono da casa de pasto, o tio Osrio, personagem obeso e contente da vida, com as mangas da camisa arregaadas at aos ombros, os braos nus muito brancos 
apoiados sobre o balco, a face balofa e finria, felicitou logo Gustavo de o ver de novo em Leiria. Achava-o mais magrito... Havia de ser das ms guas de Lisboa 
e do muito paucampeche nos vinhos... E que havia dele servir aos cavalheiros?
       Gustavo, plantando-se diante do contador, de chapu para nuca, apressou-se a soltar o gracejo, que tanto o entusiasmara em Lisboa:
       - Tio Osrio, sirva-nos fgado de rei, com rim grelhado de padre! O tio Osrio, pronto  rplica, disse logo, dando um raspo de rodilha sobre o zinco do 
contador:
       - No temos c disso, Sr. Gustavo. Isso  petisco da capital.
       - Ento esto vocs muito atrasados! Em Lisboa era todos os dias o meu almoo... Bem, acabou-se, d-nos duas iscas com batatas... E bem saltadinho, isso!
       - Ho-de ser servidos como amigos.
       Acomodaram-se  "mesa dos envergonhados", entre dois tabiques de pinho fechados por uma cortina de chita. O tio Osrio, que apreciava Gustavo, "moo instrudo 
e de pouca troa", veio ele mesmo trazer a garrafa do tinto e as azeitonas; e limpando os copos ao avental enxovalhado:
       - Ento que h de novo pela capital, Sr. Gustavo? Como vai por l aquilo?
O tipgrafo deu imediatamente seriedade ao rosto: passou a mo pelos cabelos, e deixou cair algumas frases enigmticas:
       Tremidito... Muito pouca-vergonha em poltica... A classe operria comea a mexer-se... Falta de unio, por ora... Est-se  espera de ver como as coisas 
correm em Espanha... H-de hav-las bonitas! Tudo depende de Espanha...
       Mas o tio Osrio, que juntara alguns vintns e comprara uma fazenda, tinha horror a tumultos... O que se queria no pas era paz... Sobretudo o que lhe desagradava 
era contar-se com espanhis... De Espanha, deviam os cavalheiros sab-lo, "nem bom vento nem bom casamento"!
       - Os povos so todos irmos! exclamou Gustavo. Quando se tratar de atirar abaixo Bourbons e imperadores, camarilhas e fidalguia, no h portugueses nem espanhis, 
todos so irmos! Tudo  fraternidade, tio Osrio!
       - Pois ento  beber-lhe  sade, e beber-lhe rijo, que isso  que faz andar o negcio, disse o tio Osrio tranqilamente, rolando a sua obesidade para fora 
do cubculo.
       - Elefante! rosnou o tipgrafo, chocado com aquela indiferena pela Fraternidade dos Povos. Que se podia esperar, de resto dum proprietrio e dum agente de 
eleies?
       Trauteou a Marselhesa, enchendo os copos do alto, e quis saber o que tinha feito o amigo Joo Eduardo... J se no ia pelo Distrito? O raqutico dissera-lhe 
que no havia despeg-lo da Rua da Misericrdia.
       - E quando  esse casamento, por fim? Joo Eduardo corou, disse vagamente:
       - Nada decidido... Tem havido dificuldades. E acrescentou com um sorriso desconsolado: - Temos tidos arrufos.
       - Pieguices! soltou o tipgrafo, com um movimento de ombros, que exprimia um desdm de revolucionrio pelas frivolidades do sentimento.
       - Pieguices... No sei se so pieguices, disse Joo Eduardo. O que sei  que do desgostos... Arrasam um homem, Gustavo...
       Calou-se, mordendo o beio, para recalcar a emoo que o revolvia.
       Mas o tipgrafo achava todas essas histrias de mulheres ridculas. O tempo no estava para amores... O homem do povo, o operrio que se agarrava a uma saia 
para no despegar era um intil... era um vendido! Em que se devia pensar no era em namoros: era em dar a liberdade ao povo, livrar o trabalho das garras do capital, 
acabar com os monoplios, trabalhar para a repblica! No se queria lamria, queria-se ao, queria- se a fora! - E carregava furiosamente no r da palavra - a forrra! 
- agitando os seus pulsos magrssimos de tsico sobre o grande prato de iscas que o moo trouxera.
       Joo Eduardo, escutando-o, lembrava-se do tempo em que o tipgrafo, doido pela Jlia padeira, aparecia sempre com os olhos vermelhos como carves, e atroava 
a tipografia com suspiros medonhos. A cada ai os camaradas, troando, davam uma tossezinha de garganta. Um dia mesmo, Gustavo e o Medeiros tinham-se esmurrado no 
ptio...
       - Olha quem fala! disse por fim. s como os outros... Ests a a palrar, e quando te chega s como os outros.
       O tipgrafo ento - que, desde que em Lisboa freqentara um clube democrtico de Alcntara e ajudara a redigir um manifesto aos irmos cigarreiros em greve, 
se considerava exclusivamente votado ao servio do Proletariado e da Repblica - escandalizou-se. Ele? Ele como os outros? Perder o seu tempo com saias?...
       - Est vossa senhoria muito enganado! - e recolheu-se a um silncio chocado, partindo com furor a sua isca.
       Joo Eduardo receou t-lo ofendido.
       -  Gustavo, sejamos razoveis! um homem pode ter os seus princpios, trabalhar pela sua causa, mas casar, arranjar o seu conchego, ter uma famlia.
       - Nunca! exclamou o tipgrafo exaltado. O homem que casa est perdido! Da por diante  ganhar a papa, no se mexer do buraco, no ter um momento para os 
amigos, passear de noite os marmanjos quando eles berram com os dentes.  um intil!  um vendido! As mulheres no entendem nada de poltica. Tm medo que o homem 
se meta em barulhos, tenha turras com a polcia. Est um patriota atado de ps e mos! E quando h um segredo a guardar? O homem casado no pode guardar um segredo?... 
E ai est s vezes uma revoluo comprometida... Sebo para a famlia! Outra de azeitonas, tio Osrio!
       A pana do tio Osrio apareceu entre os tabiques.
       - Ento que esto os senhores aqui a questionar, que parece que entraram os da Maia no concelho de distrito?
       Gustavo atirou-se para o fundo do banco, de pema estirada, e interpelando-o de alto:
       - O tio Osrio  que vai dizer. Diga l o amigo. Vossemec era homem de mudar as suas opinies polticas para fazer a vontade  sua patroa?
       O tio Osrio acariciou o cachao e disse com um tom finrio:
       - Eu lhe respondo, Sr. Gustavo. Mulheres so mais espertas que ns... E em poltica, como em negcio, quem for com o que elas dizem vai pelo seguro... Eu 
sempre consulto a minha, e se quer que lhe diga, j vai em vinte anos e no me tenho achado mal.
       Gustavo pulou no banco:
       - Voc  um vendido! gritou.
       O tio Osrio, acostumado quela expresso querida do tipgrafo, no se escandalizou: gracejou at com o seu amor s boas rplicas:
       - Vendido no direi, mas vendedor pro que quiser... Pois  o que lhe digo, Sr. Gustavo. O senhor casar, e depois mas contar.
       - O que hei-de contar, , quando houver uma revoluo, entrar-lhe por aqui de espingarda ao ombro, e met-lo em conselho de guerra, seu capitalista!
       - Pois enquanto isso no chega,  beber-lhe e beber-lhe rijo, disse o tio Osrio retirando-se com pachorra.
       - Hipoptamo - resmungou o tipgrafo.
       E, como adorava discusses, recomeou logo - sustentando que o homem, embeiado por uma saia, no tem firmeza nas suas convices polticas...
       Joo Eduardo sorria tristemente, numa negao muda, pensando consigo que, apesar da sua paixo por Amlia, no se tinha confessado nos dois ltimos anos!
       - Tem provas! berrava Gustavo.
       Citou um livre-pensador das suas relaes que, para manter a paz domstica, se sujeitava a jejuar s sextas-feiras, e palmilhar aos domingos o caminho da 
capela de ripano debaixo do brao...
       - E  o que te h-de suceder!... Tu tens idias menos ms a respeito da religio, mas ainda te hei-de ver de opa vermelha e crio na procisso do Senhor dos 
Passos... Filosofia e atesmo no custam nada quando se conversa no bilhar entre rapazes... Mas pratic-los em famlia, quando se tem uma mulher bonita e devota, 
 o diabo!  o que te h-de suceder, se  que te no vai sucedendo j hs-de atirar as tuas convices liberais para o caixo do cisco, e fazer barretadas ao confessor 
da casa!
       Joo Eduardo fazia-se escarlate de indignao. Mesmo nos tempos da sua felicidade, quando tinha Amlia certa, aquela acusao (que o tipgrafo fazia s para 
questionar, para palrar) t-lo-ia escandalizado. Mas hoje! Justamente quando ele perdera Amlia por ter dito de alto, num jornal, o seu horror a beatos! Hoje que 
se achava ali, com o corao partido, roubado de toda a alegria, exatamente pelas suas opinies liberais!...
       - Isso dito a mim tem graa! disse com uma amargura sombria.
       O tipgrafo galhofou:
       - Homem, no me constou ainda que fosses um mrtir da liberdade!
       - Por quem s no apoquentes, Gustavo, disse o escrevente muito chocado. Tu no sabes o que se tem passado. Se soubesses no me dizias isso!
       Contou-lhe ento a histria do Comunicado - calando todavia que o escrevera num fogo de cimes, e apresentando-o como uma pura afirmao de princpios... 
E que notasse esta circunstncia, ia ento casar com uma rapariga devota, numa casa que era mais freqentada por padres que a sacristia da S...
       - E assinaste? perguntou Gustavo, espantado da revelao.
       - O doutor Godinho no quis, disse o escrevente corando um pouco.
       - E deste-lhes uma desanda, hem?
       - A todos, de rachar!
       O tipgrafo, entusiasmado, berrou por "outra de tinto"!
       Encheu os copos com transporte, bebeu uma grande sade a Joo Eduardo.
       - Caramba, quero ver isso! Quero mand-lo  rapaziada em Lisboa!... E que efeito fez?
       - Um escndalo, mestre.
       - E os padrecas?
       - Em brasa!
       - Mas como souberam que eras tu?
       Joo Eduardo encolheu os ombros. O Agostinho no o dissera. Desconfiava da mulher do Godinho, que o sabia pelo marido, e que o fora meter no bico do padre 
Silvrio, seu confessor, o padre Silvrio da Rua das Teresas...
       - Um gordo, que parece hidrpico?
       - Sim.
       - Que besta! rugiu o tipgrafo com rancor.
       Olhava agora Joo Eduardo com respeito, aquele Joo Eduardo que se lhe revelara inesperadamente um paladino do livre pensamento.
       - Bebe, amigo, bebe! dizia-lhe, enchendo-lhe o copo com afeto, como se aquele esforo herico de liberalismo necessitasse ainda, depois de tantos dias, reconfortos 
excepcionais. 
       E que se tinha passado? Que tinha dito a gente da Rua da Misericrdia?
       Tanto interesse comoveu Joo Eduardo: e dum flego fez a sua confidncia. Mostrou-lhe mesmo a carta de Amlia que ela decerto, coitada, fora levada a escrever 
num terror do Inferno, sob a presso dos padres furiosos...
       - E aqui tens a vtima que eu sou, Gustavo!
       Era-o com efeito; e o tipgrafo considerava-o com uma admirao crescente. J no era o Pacatinho, o escrevente do Nunes, o chichisbu da Rua da Misericrdia 
- era uma vtima das perseguies religiosas. Era a primeira que o tipgrafo via; e, apesar de no lhe aparecer na atitude tradicional das estampas de propaganda, 
amarrado a um poste de fogueira ou fugindo com a famlia espavorida a soldados que galopam da sombra do ltimo plano, achava-o interessante. Invejava-lhe secretamente 
aquela honra social. Que chique que lhe daria a ele entre a rapaziada de Alcntara! Famosa pechincha, ser uma vtima da reao, sem perder o conforto das iscas do 
tio Osrio e os salrios inteiros ao sbado! - Mas sobretudo o procedimento dos padres enfurecia-o! Para se vingarem dum liberal, intrigarem-no, tirarem-lhe a noiva! 
- Oh, que canalha!... E esquecendo os seus sarcasmos ao Casamento e  Famlia, trovejou de alto contra o clero, que  quem sempre destri essa instituio social, 
perfeita, de origem divina!
       - Isso precisa uma vingana medonha, menino!  necessrio arras-los! Uma vingana? Joo Eduardo desejava-a, vorazmente! Mas qual?
       - Qual? Contar tudo no Distrito, num artigo tremendo!
       Joo Eduardo citou-lhe as palavras do doutor Godinho: dali por diante o Distrito estava fechado aos senhores livres-pensadores!
       - Cavalgadura! rugiu o tipgrafo.
       Mas tinha uma idia, caramba! Publicar um folheto! Um folheto de vinte pginas, o que se chama no Brasil uma mofina, mas num estilo floreado (ele se encarregava 
disso), caindo sobre o clero com um desabamento de verdades mortais!
       Joo Eduardo entusiasmou-se. E diante daquela simpatia ativa de Gustavo, vendo nele um irmo, soltou as ltimas confidncias, as mais dolorosas. O que havia 
no fundo da intriga era a paixo do padre Amaro pela pequena, e era para se apoderar dela que o escorraava a ele... O inimigo, o malvado, o carrasco - era o proco!
       O tipgrafo apertou as mos na cabea: semelhante caso (que todavia era para ele trivial, nas locais que compunha) sucedido a um amigo seu que estava ali 
bebendo com ele, a um democrata, parecia-lhe monstruoso, alguma coisa semelhante aos furores de Tibrio na velhice, violando, em banhos perfumados, as carnes delicadas 
de mancebos patrcios.
       No queria acreditar. Joo Eduardo acumulou as provas. E ento Gustavo, que tinha molhado vastamente de tinto as iscas de fgado, ergueu os punhos fechados, 
e com a face intumescida, dente rilhado, berrou em  rouco:
       - Abaixo a religio!
       Do outro lado do tabique uma voz trocista grasnou em rplica:
       - Viva Pio Nono!
       Gustavo ergueu-se para ir esbofetear o entremetido. Mas Joo Eduardo sossegou-o. E o tipgrafo, sentando-se tranqilamente, rechupou o fundo do copo.
       Ento, com os cotovelos sobre a mesa, a garrafa entre eles, conversaram baixo, de rosto a rosto, sobre o plano do folheto. A coisa era fcil: escrev-lo-iam 
ambos. Joo Eduardo queria-o em forma de romance, de enredo negro, dando ao personagem do proco os vcios e as perversidades de Calgula e de Heliogbalo. O tipgrafo 
porm queria um livro filosfico, de estilo e de princpios, que demolisse de uma vez para sempre o Ultramontanismo! Ele mesmo se encarregava de imprimir a obra 
aos seres, grtis, j se sabe. - Mas apareceu-lhes ento, bruscamente, uma dificuldade.
       - O papel? Como se h-de arranjar o papel?
Era uma despesa de nove ou dez mil-ris; nenhum os tinha - nem um amigo que, por dedicao aos princpios, lhos adiantasse.
       - Pede-os ao Nunes por conta do teu ordenado! lembrou vivamente o tipgrafo.
       Joo Eduardo coou desconsoladamente a cabea. Estava justamente pensando no Nunes e na sua indignao de devoto, de membro da junta de parquia, amigo do 
chantre, apenas lesse o panfleto! E se soubesse que era o seu escrevente que o compusera, com as penas do cartrio, no papel almao do cartrio... Via-o j roxo 
de clera, alando sobre o bico dos sapatos brancos a sua pessoa gordalhufa, e gritando na voz de grilo - "Fora daqui, pedreiro-livre, fora daqui!"
       - Ficava eu bem arranjado, disse Joo Eduardo muito srio, nem mulher, nem po!
       Isto fez lembrar tambm a Gustavo a clera provvel do doutor Godinho, dono da tipografia. O doutor Godinho, que depois da reconciliao com a gente da Rua 
da Misericrdia, retomara publicamente a sua considervel posio de pilar da Igreja e esteio da F...
       -  o diabo, pode-nos sair caro, disse ele.
       -  impossvel! disse o escrevente.
       Ento praguejaram de raiva. Perder uma ocasio daquelas para pr a calva  mostra ao clero!
       O plano do folheto, como uma coluna tombada que parece maior, afigurava-se-lhes, agora que estava derrubado, duma altura, duma importncia colossal. No era 
j a demolio local dum proco celerado, era a runa, ao longe e ao largo, de todo o clero, dos jesutas, do poder temporal, de outras coisas funestas... - Maldio! 
se no fosse o Nunes, se no fosse o Godinho, se no fossem os nove mil-ris do papel!
       Aquele perptuo obstculo do pobre, falta de dinheiro e dependncia do patro, que at para um folheto era estorvo, revoltou-os contra a sociedade.
       - Positivamente  necessrio uma revoluo, afirmou o tipgrafo.  necessrio arrasar tudo, tudo! - E o seu largo gesto sobre a mesa indicava, num formidvel 
nivelamento social, uma demolio de igrejas, palcios, bancos, quartis, e prdios de Godinhos ! - Outra do tinto, tio Osrio!...
Mas o tio Osrio no aparecia. Gustavo martelou a mesa a toda a fora com o cabo da faca. E enfim, furioso, saiu fora ao contador "para arrebentar a pana quele 
vendido que fazia assim esperar um cidado".
       Encontrou-o desbarretado, radiante, conversando com o baro de Via-Clara, que, em vsperas de eleies, vinha pelas casas de pasto apertar a mo aos compadres. 
E ali na taberna, parecia magnfico o baro, com a sua luneta de ouro, os botins de verniz sobre o solo trreo, tossicando ao cheiro acre do azeite fervido e das 
emanaes das borras de vinho.
       Gustavo, avistando-o, recolheu discretamente ao cubculo.
       - Est com o baro, disse numa surdina respeitosa.
       Mas vendo Joo Eduardo aniquilado, com a cabea entre os punhos, o tipgrafo exortou-o a no esmorecer. Que diabo! No fim, livrava-se de casar com uma beata...
       - No me pode vingar daquele maroto! interrompeu Joo Eduardo com um repelo ao prato.
       - No te aflijas, prometeu o tipgrafo com solenidade, que a vingana no vem longe!
       Fez-lhe ento, baixo, a confidncia "das coisas que se preparavam em Lisboa". Tinham-lhe afianado que havia um clube republicano a que at pertenciam figures 
- e que era para ele uma garantia superior de triunfo. Alm disso, a rapaziada do trabalho mexia-se... Ele mesmo - e murmurava quase contra a face de Joo Eduardo, 
estirado sobre a mesa - fora falado para pertencer a uma seo da Internacional, que devia organizar um espanhol de Madri; nunca vira o espanhol, que se disfarava 
por causa da policia; e a coisa falhara porque o Comit tinha falta de fundos... Mas era certo haver um homem, que possua um talho, que prometera cem mil-ris... 
O exrcito, alm disso, estava na coisa: tinha visto numa reunio um sujeito barrigudo que lhe tinham dito que era major, e que tinha cara de major... - De modo 
que, com todos estes elementos, a opinio dele Gustavo, era que dentro de meses, governo, rei, fidalgos, capitalistas, bispos, todos esses monstros iam pelos ares!
       - E ento somos ns os reizinhos, menino! Godinho, Nunes toda a cambada ferramo-la na enxovia de S. Francisco. Eu a quem me atiro  ao Godinho... Padres, 
derreamo-los  pancada! E o povo respira, enfim!
       - Mas daqui at l! suspirou Joo Eduardo, que pensava com amargura que, quando a revoluo viesse j seria tarde para recuperar a Ameliazinha...
       O tio Osrio ento apareceu com a garrafa.
       - Ora at que enfim, seu fidalgo! disse o tipgrafo a trasbordar de  sarcasmo.
       - No se pertence  classe, mas -se tratado por ela com considerao, replicou logo o tio Osrio, que a satisfao fazia parecer mais panudo.
       - Por causa de meia dzia de votos!
       - Dezoito na freguesia, e esperanas de dezenove. E que se h-de servir mais aos cavalheiros? Nada mais?... Pois  pena. Ento  beber-lhe,  beber-lhe!
       E correu a cortina, deixando os dois amigos em frente da garrafa cheia, aspirarem a uma Revoluo que lhes permitisse - a um reaver a menina Amlia, a outro 
espancar o patro Godinho.
       Eram quase cinco horas quando saram enfim do cubculo. O tio Osrio, que se interessava por eles por serem rapazes de instruo, notou logo, examinando-os 
do canto do balco onde saboreava o seu Popular, que vinham tocaditos. Joo Eduardo, sobretudo, de chapu carregado e beio trombudo: "pessoa de mau vinho", pensou 
o tio Osrio, que o conhecia pouco. Mas o Sr. Gustavo, como sempre, depois dos trs litros, resplandecia de jbilo. Grande rapaz! Era ele que pagava a conta; e gingando 
para o balco, batendo de alto com as suas duas placas:
       - Encafua mais essas na burra, Osrio pipa!
       - O que  pena  que sejam s duas, Sr. Gustavo.
       - Ah bandido! imaginas que o suor do povo, o dinheiro do trabalho  para encher a pana dos Filistinos? Mas no as perdes! Que no dia do ajuste de contas 
quem h-de ter a honra de te furar esse bandulho h-de ser c o Bibi... E o Bibi sou eu... Eu  que sou o Bibi! No  verdade, Joo, quem  o Bibi?
       Joo Eduardo no escutava; muito carrancudo, olhava com desconfiana um borracho, que na mesa do fundo, diante do seu litro vazio, com o queixo na palma da 
mo e o cachimbo nos dentes, embasbacara, maravilhado, para os dois amigos.
       O tipgrafo puxou-o para o balco:
       - Diz aqui ao tio Osrio quem  o Bibi! Quem  o Bibi?... Olhe para isto, tio Osrio! Rapaz de talento, e dos bons! Veja-me isto! Com duas penadas d cabo 
do Ultramontanismo!  c dos meus! Tambm entre ns  para a vida e para a morte. Deixa l a conta, Osrio barrigudo, ouve o que te digo! Este  dos bons... E se 
ele aqui voltar e quiser dois litros a crdito,  dar-lhos... C o Bibi responde por tudo.
       - Temos pois, comeou o tio Osrio, iscas a dois, salada a dois...
       Mas o borracho arrancara-se com esforo ao seu banco: de cachimbo espetado, arrotando forte, veio plantar-se diante do tipgrafo, e, tremeleando nas pernas, 
estendeu-lhe a mo aberta.
Gustavo considerou-o de alto, com nojo:
       - Que quer voc? Aposto que foi voc que berrou h pouco: Viva Pio Nono! Seu vendido... Tire para l a pata!
       O borracho, repelido, grunhiu; e, embicando contra Joo Eduardo, ofereceu-lhe a mo espalmada.
       - Arrede para l, seu animal! disse-lhe o escrevente desabrido.
       - Tudo amizade... Tudo amizade... resmungava o borracho.
       E no se arredava, com os cinco dedos muito espetados, despedindo um hlito ftido.
       Joo Eduardo, furioso, atirou-o de repelo contra o contador.
       - Brincadeiras de mos, no! exclamou logo severamente o tio Osrio. Brutalidades, no!
       - Que se no metesse comigo, rosnou o escrevente. E a voc fao- lhe o mesmo...
       - Quem no tem decncia vai para a rua, disse muito grave o tio Osrio.
       - Quem vai para a rua, quem vai para a rua? rugiu o escrevente, empinando-se, de punho fechado. Repita l isso de ir para a rua! Com quem est voc a falar?
       O tio Osrio no replicava, apoiado sobre as mos ao balco, patenteando os seus enormes braos que lhe faziam o estabelecimento respeitado.
       Mas Gustavo, com autoridade, ps-se entre os dois, e declarou que era necessrio ser-se cavalheiro! Questes e ms palavras, no! Podia-se chalacear e troar 
os amigos, mas como cavalheiros! E ali s havia cavalheiros.
       Arrastou para um canto o escrevente, que resmungava muito ressentido.
       - Oh, Joo! oh, Joo! dizia-lhe com grandes gestos, isso no  dum homem ilustrado!
       Que diabo! Era necessrio ter-se boas maneiras! Com repentes, com vinho desordeiro, no havia pndega, nem sociedade, nem fraternidade!
       Voltou ao tio Osrio, falando-lhe sobre o ombro, excitado:
       - Eu respondo por ele, Osrio!  um cavalheiro! Mas tem tido desgostos, e no est acostumado a um litro de mais.  o que ! Mas  dos bons... Voc desculpe, 
tio Osrio. Que eu respondo por ele...
Foi buscar o escrevente, persuadiu-o a apertar a mo ao tio Osrio. O taberneiro declarou com nfase que no quisera insultar o cavalheiro. Os shake-hands ento 
sucederam-se com veemncia. Para consolidar a reconciliao, o tipgrafo pagou trs canas brancas. Joo Eduardo, por brio, ofereceu tambm um giro de conhaque. E 
com os copos em fila sobre o balco, trocavam boas palavras, tratavam-se de cavalheiros, - enquanto o borracho, esquecido ao seu canto, derreado para cima da mesa, 
a cabea sobre os punhos e o nariz sobre o litro, se babava silenciosamente, com o cachimbo cravado nos dentes.
       - Disto  que eu gosto, dizia o tipgrafo a quem a aguardente aumentara a ternura. Harmonia! C o meu fraco  a harmonia! Harmonia entre a rapaziada e entre 
a humanidade... O que eu queria era ver uma grande mesa, e toda a humanidade sentada num banquete, e fogo preso, e chalaa, e decidirem-se as questes sociais! E 
o dia no vem longe em que voc o h-de ver, tio Osrio!... Em Lisboa as coisas vo-se preparando para isso. E o tio Osrio  que h-de fornecer o vinho... Hem, 
que negociozinho! Diga que no sou amigo!
       - Obrigado, Sr. Gustavo, obrigado...
       - Isto aqui entre ns, hem? Que somos todos cavalheiros! E c este - abraava Joo Eduardo -  como se fosse irmo! Entre ns  pra vida e pra morte! E  
mandar a tristeza ao diabo, rapazo! Toca a escrever o folheto... O Godinho, e o Nunes...
       - O Nunes racho-o! soltou com fora o escrevente, que, depois das sades com cana, parecia mais sombrio.
       Dois soldados entraram ento na taberna - e Gustavo julgou que eram horas de ir para a tipografia. Seno, no se haviam de separar todo o dia, no se haviam 
de separar toda a vida!... Mas o trabalho  dever, o trabalho  virtude!
       Saram, enfim, depois de mais shake-hands com o tio Osrio.  porta, Gustavo jurou ainda ao escrevente uma lealdade de irmo; obrigou-o a aceitar a sua bolsa 
de tabaco; e desapareceu  esquina da rua, de chapu para a nuca, trauteando o Hino do Trabalho.

***

       Joo Eduardo, s, abalou logo para a Rua da Misericrdia. Ao chegar  porta da S. Joaneira, apagou com cuidado o cigarro na sola do sapato, e deu um puxo 
tremendo ao cordo da campainha.
       A Rua veio, correndo.
       - A Ameliazinha? Quero-lhe falar!
       - As senhoras saram, disse a Rua espantada do modo do Sr. Joozinho.
       - Mente, sua bbeda! berrou o escrevente.
       A rapariga, aterrada, fechou a porta de estalo.
       Joo Eduardo foi-se encostar  parede defronte, e ficou ali, de braos cruzados, observando a casa: as janelas estavam fechadas, as cortinas de cassa corridas; 
dois lenos de rap do cnego secavam embaixo na varanda.
       Aproximou-se de novo e bateu devagarinho a aldrava. Depois repicou com furor a campainha. Ningum apareceu: ento, indignado, partiu para os lados da S.
       Ao desembocar no largo, diante da fachada da igreja, parou, procurando em redor com o sobrolho carregado: mas o largo parecia deserto;  porta da farmcia 
do Carlos um rapazito, sentado no degrau, guardava pela arreata um burro carregado de erva; aqui e alm, galinhas iam picando o cho vorazmente; o porto da igreja 
estava fechando; e apenas se ouvia o rudo de marteladas numa casa ao p em que havia obras.
       E Joo Eduardo ia seguir para os lados da alameda - quando apareceram no terrao da igreja, da banda da sacristia, o padre Silvrio e o padre Amaro, conversando, 
devagar.
       Batia ento um quarto na torre, e o padre Silvrio parou a acertar o seu cebolo. Depois os dois padres observaram maliciosamente a janela da administrao 
de vidraas abertas, onde se via, no escuro, o vulto do senhor administrador de binculo cravado para a casa do Teles alfaiate. E desceram enfim a escadaria da S, 
rindo de ombro a ombro, divertidos com aquela paixo que escandalizava Leiria.
       Foi ento que o proco viu Joo Eduardo que estacara no meio do largo. Parou para voltar  S decerto, evitar o encontro; mas viu o porto fechado, e ia seguir 
de olhos baixos, ao lado do bom Silvrio que tirava tranqilamente a sua caixa de rap, - quando Joo Eduardo, arremessando-se, sem uma palavra, atirou a toda a 
fora um murro no ombro de Amaro.
       O proco, aturdido, ergueu frouxamente o guarda-chuva.
       - Acudam! berrou logo o padre Silvrio, recuando de braos no ar. Acudam!
       Da porta da administrao um homem correu, agarrou furiosamente o escrevente pela gola:
       - Est preso! rugia. Est preso!
       - Acudam, acudam! berrava Silvrio a distncia.
       Janelas no largo abriam-se  pressa. A Amparo da botica, em saia branca, apareceu  varanda, espavorida; o Carlos precipitara-se do laboratrio em chinelas; 
e o senhor administrador, debruado na sacada, bracejava, com o binculo na mo.
       Enfim o escrivo da administrao, o Domingos, compareceu, muito grave, de mangas de lustrina enfiadas; e com o cabo de polcia levou logo para a administrao 
o escrevente, que no resistia, todo plido...
       O Carlos, esse, apressou-se a conduzir o senhor proco para a botica; fez preparar, com estrpito, flor de laranja e ter; gritou pela esposa, para arranjar 
uma cama... Queria examinar o ombro de sua senhoria: haveria intumescncia?
       - Obrigado, no  nada, dizia o proco muito branco. No  nada. Foi um raspo. Basta-me uma gota de gua...
       Mas a Amparo achava melhor um clice de vinho do Porto; e correu acima a buscar-lho, tropeando nos pequenos que se lhe despenduravam das saias, dando ais, 
explicando pela escada  criada que tinham querido matar o senhor proco!
        porta da botica juntara-se gente, que embasbacava para dentro; um dos carpinteiros que trabalhavam nas obras afirmava que "fora uma facada"; e uma velha 
por trs debatia-se, de pescoo esticado, para ver o sangue. Enfim, a pedido do proco, que receava escndalo, o Carlos veio majestosamente declarar que no queria 
motim  porta! O senhor proco estava melhor. Fora apenas um soco, um raspo de mo... Ele respondia por sua senhoria.
       E como o burro ao lado comeara a ornear, o farmacutico voltando- se indignado para o rapazito que o segurava pela arreata:
       - E tu no tens vergonha, no meio dum desgosto destes, um desgosto para toda a cidade, de ficar aqui com esse animal, que no faz seno zurrar? Para longe, 
insolente, para longe!
       Aconselhou ento os dois sacerdotes a que subissem para a sala, para evitar a "curiosidade da populaa". E a boa Amparo apareceu logo com dois clices do 
Porto, um para o senhor proco, outro para o Sr. padre Silvrio que se deixara cair a um canto do canap apavorado ainda, extenuado de emoo.
       - Tenho cinqenta e cinco anos, disse ele depois de ter chupado a ltima gota de Porto, e  a primeira vez que me vejo num barulho!
       O padre Amaro, mais sossegado agora, afetando bravura, chasqueou o padre Silvrio:
       - Voc tomou o caso muito ao trgico, colega... E l ser a primeira, vamos l... Todos sabem que o colega esteve pegado com o Natrio...
       - Ah, sim, exclamou o Silvrio, mas isso era entre sacerdotes, amigo!
       Mas a Amparo, ainda muito trmula, enchendo outro clice ao senhor proco, quis saber "os particulares, todos os particulares..."
       - No h particulares, minha senhora, eu vinha aqui com o colega... Vnhamos cavaqueando... O homem chegou-se a mim, e, como eu estava desprevenido, deu-me 
um raspo no ombro.
       - Mas por qu, por qu? exclamou a boa senhora, apertando as mos, num assombro.
       O Carlos ento deu a sua opinio. Ainda havia dias, ele dissera, diante da Amparozinho e de D. Josefa, a irm do respeitvel cnego Dias, que estas idias 
de materialismo e atesmo estavam levando a mocidade aos mais perniciosos excessos... E mal sabia ele ento que estava profetizando!
       - Vejam vossas senhorias este rapaz! Comea por esquecer todos os deveres de cristo (assim no-lo afirmou D. Josefa), associa-se com bandidos, achincalha 
os dogmas nos botequins... Depois (sigam vossas senhorias a progresso), no contente com estes extravios, publica nos peridicos ataques abjetos contra a religio... 
E enfim, possudo duma vertigem de atesmo, atira-se, diante mesmo da catedral, sobre um sacerdote exemplar (no  por vossa senhoria estar presente) e tenta assassin-lo! 
Ora, pergunto eu, o que h no fundo de tudo isto? dio, puro dio  religio de nossos pais!
       - Infelizmente assim , suspirou o padre Silvrio.
       Mas a Amparo, indiferente s causas filosficas do delito, ardia na curiosidade de saber o que se passaria na administrao, o que diria o escrevente, se 
o teriam posto a ferros... O Carlos prontificou-se logo a ir averiguar.
       De resto, disse ele, era o seu dever, como homem de cincia, esclarecer a justia sobre as conseqncias que podia ter trazido um murro,  fora de brao, 
na regio delicada da clavcula... (ainda que, louvado Deus, no havia fratura, nem inchao), e sobretudo queria revelar  autoridade, para que ela tomasse as suas 
providncias, que aquela tentativa de espancamento no provinha de vingana pessoal. Que podia ter feito o senhor proco da S ao escrevente do Nunes? Provinha duma 
vasta conspirao de ateus e republicanos contra o sacerdcio de Cristo!
       - Apoiado, apoiado! disseram os dois sacerdotes gravemente.
       - E  o que eu vou provar cabalmente ao senhor administrador do concelho!
       Na sua precipitao zelosa de conservador indignado, ia mesmo de chinelas e quinzena de laboratrio: mas Amparo alcanou-os no corredor:
       - Oh filho, a sobrecasaca, pe a sobrecasaca ao menos, que o administrador  de cerimnias!
       Ela mesmo lha ajudou a enfiar, enquanto o Carlos, com a imaginao trabalhando viva (aquela desgraada imaginao que, como ele dizia, at s vezes lhe dava 
dores de cabea), ia preparando o seu depoimento, que faria rudo na cidade. Falaria de p. Na saleta da administrao seria um aparato judicial;  sua mesa, o senhor 
administrador, grave como a personificao da Ordem; em redor os amanuenses, ativos sobre o seu papel selado; e o ru, defronte, na atitude tradicional dos criminosos 
polticos, os braos cruzados sobre o peito, a fronte alta desafiando a morte. Ele, Carlos, ento, entraria e diria: "Senhor administrador, aqui venho espontaneamente 
pr-me ao servio da vindita social!"
       - Hei-de-lhes mostrar, com uma lgica de ferro, que  tudo resultado duma conspirao do racionalismo. Podes estar certa, Amparozinho,  uma conspirao do 
racionalismo! disse, puxando, com um gemido de esforo, as presilhas dos botins de cano.
       - E repara se ele fala da pequena, da S. Joaneira...
       - Hei-de tomar notas. Mas no se trata da S. Joaneira. Isto  um processo poltico!
       Atravessou o largo majestosamente, certo que os vizinhos, pelas portas, murmuravam: L vai o Carlos depor... Ia depor, sim, mas no sobre o murro no ombro 
de sua senhoria. Que importava o murro? O grave era o que estava por trs do murro - uma conspirao contra a Ordem, a Igreja, a Carta e a Propriedade!  o que ele 
provaria de alto ao senhor administrador. Este murro, ilustrssimo senhor,  o primeiro excesso duma grande revoluo social!
       E empurrando o batente de baeta que dava acesso para a administrao do concelho de Leiria, ficou um momento com a mo no ferrolho, enchendo o vo da porta 
da pompa da sua pessoa. No, no havia o aparato judicial que ele concebera. O ru l estava, sim, o pobre Joo Eduardo, mas sentado  beira do banco, com as orelhas 
em brasa, olhando estupidamente o soalho. Artur Couceiro, embaraado com a presena daquele ntimo dos seres da S. Joaneira, ali no assento dos presos, para o no 
olhar fixara o nariz sobre o imenso copiador de ofcios, onde desdobrara o Popular da vspera. O amanuense Pires, de sobrancelhas muito erguidas e muito srias, 
embebia-se na ponta da pena de pato que aparava sobre a unha. O escrivo Domingos, esse sim, vibrava de atividade! O seu lpis rascunhava com furor; o processo estava-se 
decerto apressando; era tempo de trazer a sua idia... E o Carlos ento adiantando-se:
       - Meus senhores! O senhor administrador?
       Justamente, a voz de sua excelncia chamou de dentro do seu gabinete:
       -  Sr. Domingos?
       O escrivo perfilou-se, puxando os culos para a testa.
       - Senhor administrador!
       - O senhor tem fsforos?
       O Domingos procurou ansiosamente pela algibeira, na gaveta, entre os papis...
       - Algum dos senhores tem fsforos?
       Houve um rebuscar de mos sobre a mesa... No, no havia fsforos.
       -  Sr. Carlos, o senhor tem fsforos?
       - No tenho, Sr. Domingos. Sinto.
       O senhor administrador apareceu ento, ajeitando as suas lunetas de tartaruga:
       - Ningum tem fsforos, hem?  extraordinrio que no haja aqui nunca fsforos! Uma repartio destas sem um fsforo... Que fazem os senhores aos fsforos? 
Mande buscar por uma vez meia dzia de caixas!
       Os empregados olhavam-se consternados dessa falta flagrante no material do servio administrativo. E o Carlos, apoderando-se logo da presena e da ateno 
de sua excelncia:
       - Senhor administrador, eu aqui venho... Aqui venho solicito e espontneo, por assim dizer...
       - Diga-me uma coisa, Sr. Carlos, interrompeu a autoridade. O proco e o outro ainda esto l na botica?
       - O senhor proco e o Sr. padre Silvrio ficaram com minha esposa a repousar da comoo que...
       - Tem a bondade de lhes dizer que so c precisos...
       - Eu estou  disposio da lei.
       - Que venham quanto antes... So cinco horas e meia, queremo-nos ir embora! Vejam que maada tem sido esta aqui, todo o dia! A repartio fecha-se s trs!
       E sua excelncia, rodando, sobre os taces, foi debruar-se  sacada do seu gabinete - quela sacada de onde ele diariamente, das onze s trs, retorcendo 
o bigode louro e entesando o plastro azul, depravava a mulher do Teles.
       O Carlos abria j o batente verde, quanto um pst do Domingos o deteve.
       -  amigo Carlos .- e o sorrisinho do escrivo tinha uma suplicao tocante - desculpe, hem? Mas... Traz-me de l uma caixita de fsforos?
       Neste momento  porta aparecia o padre Amaro; e por trs a massa enorme do Silvrio.
       - Eu desejava falar ao senhor administrador em particular, disse Amaro.
       Todos os empregados se ergueram; Joo Eduardo tambm, branco como a cal do muro. O proco, com as sua passadas sutis de eclesistico, atravessou a repartio, 
seguido do bom Silvrio que ao passar diante do escrevente descreveu de esguelha um semicrculo cauteloso, com terror ao ru; o senhor administrador acudira a receber 
suas senhorias; e a porta do gabinete fechou-se discretamente.
       - Temos composio, rosnou o experiente Domingos, piscando o olho aos colegas.
       O Carlos sentara-se descontente. Viera ali para esclarecer a autoridade sobre os perigos sociais que ameaavam Leiria, o Distrito e a Sociedade, para ter 
o seu papel naquele processo, que, segundo ele, era um processo poltico - e ali estava calado, esquecido, no mesmo banco ao lado do ru! Nem lhe tinham oferecido 
uma cadeira! Seria realmente intolervel que as coisas se arranjassem entre o proco e o administrador sem o consultarem a ele! Ele, o nico que percebera naquele 
murro dado no ombro do padre - no o punho do escrevente, mas a mo do Racionalismo! Aquele desdm pelas suas luzes parecia-lhe um erro funesto da administrao 
do Estado. Positivamente o administrador no tinha a capacidade necessria para salvar Leiria dos perigos da revoluo! Bem se dizia na Arcada - era uma bambocha!
       A porta do gabinete entreabriu-se, e as lunetas do administrador reluziram.
       -  Sr. Domingos, faz favor, vem-nos falar? disse sua excelncia.
       O escrivo apressou-se com importncia; e a porta cerrou-se de novo, confidencialmente. Ah! aquela porta, fechada diante dele, deixando-o de fora, indignava 
o Carlos. Ali ficava, com o Pires, com o Artur, entre as inteligncias subalternas, ele que prometera  Amparozinho falar de alto ao administrador! E quem era ouvido, 
e quem era chamado? O Domingos, um animal notrio, que comeava satisfao com c cedilhado! Que se podia de resto esperar duma autoridade que passava as manhs de 
binculo a desonrar uma famlia? Pobre Teles, seu vizinho, seu amigo!... No, realmente devia falar ao Teles!
       Mas a sua indignao cresceu, quando viu o Artur Couceiro, um empregado da repartio, na ausncia do seu chefe, erguer-se da sua escrivaninha, vir familiarmente 
junto do ru, dizer-lhe com melancolia:
       - Ah, Joo, que rapaziada, que rapaziada!... Mas a coisa arranja- se, vers!
       Joo tinha encolhido tristemente os ombros. Havia meia hora que ali estava, sentado  beira daquele banco, sem se mexer, sem despregar os olhos do soalho, 
sentindo-se interiormente to vazio de idias, como se lhe tivessem tirado os miolos. Todo o vinho, que na taberna do Osrio e no Largo da S lhe acendia na alma 
fogachos de clera, lhe retesava os pulsos num desejo de desordem, parecia subitamente eliminado do seu organismo. Sentia-se agora to inofensivo como quando no 
cartrio aparava cautelosamente a sua pena de pato. Um grande cansao entorpecia-o; e ali esperava, sobre o banco, numa inrcia de todo o seu ser, pensando estupidamente 
que ia viver para uma enxovia em S. Francisco, dormir numa palhoa, comer da Misericrdia... No tornaria a passear na alameda, no veria mais Amlia... A casita 
em que vivia seria alugada a outro... Quem tomaria conta do seu canrio? Pobre animalzinho, ia morrer de fome, decerto... A no ser que a Eugnia, a vizinha, o recolhesse...
       O Domingos de repente saiu do gabinete de sua excelncia, e fechando vivamente a porta sobre si, em triunfo:
       - Que lhes dizia eu? Composio! Arranjou-se tudo!
       E para Joo Eduardo:
       - Seu felizo! Parabns! parabns!
       O Carlos pensou que aquele era o maior escndalo administrativo desde o tempo dos Cabrais! E ia retirar-se enojado (como no quadro clssico o Estico que 
se afasta duma orgia Patrcia) quando o senhor administrador abriu a porta do seu gabinete. Todos se ergueram.
Sua excelncia deu dois passos na repartio, e revestido de gravidade, destilando as palavras, com as lunetas cravadas no ru:
       - O Sr, padre Amaro, que  um sacerdote todo caridade e bondade, veio-me expor... Enfim, veio-me suplicar que no desse mais andamento a este negcio... Sua 
senhoria com razo no quer ver o seu nome arrastado nos tribunais. Alm disso, como sua senhoria disse muito bem, a religio, de que ele ... de que ele , posso 
diz-lo, a honra e o modelo, impe- lhe o perdo da ofensa... Sua excelncia reconhece que o ataque foi brutal, mas frustrado... Alm disso parece que o senhor estava 
bbedo...
       Todos os olhos se fixaram em Joo Eduardo, que se fez escarlate. Aquilo pareceu-lhe nesse momento pior que a priso.
       - Enfim, continuou o administrador, por altas consideraes que eu pesei devidamente, tomo a responsabilidade de o soltar. Veja agora como se porta. A autoridade 
no o perde de olho... Bem, pode ir com Deus!
       E sua excelncia recolheu-se ao gabinete. Joo Eduardo ficou imvel,  como parvo.
       - Posso ir, hem? balbuciou.
       - Para a China, para onde quiser! Liberus, libera, liberum! exclamou o Domingos que, interiormente detestando padres, jubilava com aquele final.
Joo Eduardo olhou um momento em redor os empregados, o carrancudo Carlos; duas lgrimas bailavam-lhe nas plpebras; de repente agarrou o chapu e abalou.
       - Poupa-se um rico trabalhinho! resumiu o Domingos, esfregando vivamente as mos.
       Imediatamente a papelada foi arrumada, aqui e alm,  pressa.  que era tarde! O Pires recolhia as suas mangas de lustrina e a sua almofadinha de vento. O 
Artur enrolou os seus papis de msica. E no vo da janela, amuado, esperando ainda, o Carlos olhava sombriamente o largo.
       Enfim os dois padres saram acompanhados at  porta pelo senhor administrador, que, terminados os deveres pblicos, reaparecia homem de sociedade. - Ento 
por que no tinha o amigo Silvrio vindo a casa da baronesa de Via-Clara? Houvera um voltarete furibundo. O Peixoto levara dois codilhos. Tinha dito blasfmias medonhas!... 
Criado de suas excelncias. Estimava bem que tudo se tivesse harmonizado. Cuidado com o degrau... s ordens de suas excelncias...
       Ao voltar porm ao seu gabinete dignou-se parar diante da mesa do Domingos, e retomando alguma solenidade:
       - A coisa passou-se bem.  um bocado irregular, mas sensata! Bem basta j os ataques que h contra o clero nos jornais... A coisa podia fazer barulho. O rapaz 
era capaz de dizer que tinham sido cimes do padre, que queria desinquietar a rapariga, etc.  mais prudente abafar a coisa. Quanto mais que, segundo o proco me 
provou, toda a influncia que ele tem exercido. na Rua da Misericrdia ou onde diabo , tem tido por fim livrar a rapariga de casar com aquele amigo, que, como se 
v,  um bbedo e uma fera!
       O Carlos roa-se. Todas aquelas explicaes eram dadas ao Domingos! A ele, nada! Ali ficava, esquecido no vo da janela!
       Mas no! Sua excelncia, de dentro do seu gabinete, chamou-o misteriosamente com o dedo.
       Enfim! Precipitou-se, radiante, subitamente reconciliado com a autoridade.
       - Eu estava para passar pela botica - disse-lhe o administrador baixo e sem transio, dando-lhe um papel dobrado - para que me mandasse isto a casa, hoje. 
 um receita do doutor Gouveia... Mas j que o amigo aqui est...
       - Eu tinha vindo para me pr  disposio da vindita...
       - Isso est acabado! interrompeu vivamente sua excelncia. No se esquea, mande-me isso antes das seis.  para tomar ainda esta noite. Adeus. No se esquea!
       - No faltarei, disse secamente o Carlos.
       Ao entrar na botica, a sua clera flamejava. Ou ele no se chamava Carlos, ou havia de mandar uma correspondncia tremenda ao Popular!... Mas a Amparo, que 
lhe espreitara a volta da varanda, correu, atirando-lhe as perguntas:
       - Ento? Que se passou? O rapaz foi para a rua? Que disse ele? Como foi?
       O Carlos fixava-a, com as pupilas chamejantes.
       - No foi culpa minha, mas triunfou o materialismo1 Eles o pagaro!
       - Mas tu que disseste?
       Ento, vendo os olhos da Amparo e os do praticante abertos para devorar a citao do seu depoimento - o Carlos, tendo de ressalvar a dignidade de esposo e 
a superioridade de patro, disse laconicamente:
       - Dei a minha opinio, com firmeza!
       - E ele que disse, o administrador?
       Foi ento que o Carlos, recordando-se, leu a receita que amarrotara na mo. A indignao emudeceu-o - vendo que era aquele todo o resultado da sua grande 
entrevista com a autoridade!
       - Que ? perguntou sofregamente a Amparo.
       O que era? e no seu furor, desdenhando o segredo profissional e o bom renome da autoridade, o Carlos exclamou:
       -  um frasco de xarope de Gibert para o senhor administrador! A tem a receita, Sr. Augusto.
       Amparo, que, com alguma prtica de farmcia, conhecia os benefcios do mercrio, fez-se to escarlate como as fitas flamejantes que lhe enfeitavam a cuia.

***

       Toda essa tarde se falou com excitao pela cidade da "tentativa de assassinato de que estivera para ser vitima o senhor proco". Algumas pessoas censuravam 
o administrador por no ter procedido: os cavalheiros da oposio sobretudo, que viram na debilidade daquele funcionrio uma prova incontestvel de que o governo 
ia, com os seus desperdcios e as suas corrupes, levando o pas a um abismo!
Mas o padre Amaro, esse, era admirado como um santo. Que piedade! que mansido! O senhor chantre mandou-o chamar  noitinha, recebeu-o paternalmente com um "viva 
o meu cordeiro pascal!". E depois de escutar a histria do insulto, a generosa interveno...
       - Filho, exclamou, isso  aliar a mocidade de Telmaco  prudncia de Mentor! Padre Amaro, voc era digno de ser sacerdote de Minerva na cidade de Salento!
       Quando Amaro entrou  noite em casa da S. Joaneira - foi como a apario dum santo escapo s feras do Circo ou  plebe de Diocleciano! Amlia, sem disfarar 
a sua exaltao, apertou-lhe ambas as mos, muito tempo, toda trmula, com os olhos midos. Deram-lhe, como nos grandes dias, a poltrona verde do cnego. A Sra. 
D. Maria da Assuno quis mesmo que se lhe pusesse uma almofada para ele apoiar o ombro dorido. Depois, teve de contar miudamente toda a cena, desde o momento em 
que, conversando com o colega Silvrio (que se portara muito bem), avistara o escrevente no meio do largo, de bengalo alado e ar de mata-mouros...
       Aqueles detalhes indignavam as senhoras. O escrevente aparecia-lhes pior que Longuinhos e que Pilatos. Que malvado! O senhor proco devia-o ter calcado aos 
ps! Ah! era dum santo, ter perdoado!
       - Fiz o que me inspirou o corao, disse ele baixando os olhos. Lembrei-me das palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo: ele manda oferecer a face esquerda depois 
de ter sido esbofeteado na face direita...
       O cnego, a isto, escarrou grosso e observou:
       - Eu lhe digo. Eu, se me atirarem um bofeto  face direita... Enfim, so ordens de Nosso Senhor Jesus Cristo, ofereo a face esquerda. So ordens de cima!... 
Mas depois de ter cumprido esse dever de sacerdotes, oh, senhoras, desanco o patife!
       - E doeu-lhe muito, senhor proco? perguntou do canto uma vozinha expirante e desconhecida.
       Acontecimento extraordinrio! Era a Sra. D. Ana Gansoso que falara depois de dez longos anos de taciturnidade sonolenta! Aquele torpor que nada sacudira, 
nem festas, nem lutos, tinha enfim, sob um impulso de simpatia pelo senhor proco, uma vibrao humana! - Todas as senhoras lhe sorriram, agradecidas: e Amaro, lisonjeado, 
respondeu com bondade:
       - Quase nada, Sra. D. Ana, quase nada, minha senhora... Que ele deu de rijo! Mas eu sou de boa carnadura.
       - Ai, que monstro! exclamou D. Josefa Dias, furiosa  idia do punho do escrevente descarregado sobre aquele ombro santo. Que monstro! Eu queria-o ver com 
uma grilheta a trabalhar na estrada ! Que eu  que o conhecia! A mim nunca ele me enganou... Sempre lhe achei cara de assassino!
       - Estava embriagado, homens com vinho... arriscou timidamente a S. Joaneira.
       Foi um clamor. Ai, que o no desculpasse! Parecia at sacrilgio! Era uma fera, era uma fera!
E a exultao foi grande quando Artur Couceiro, aparecendo, deu logo da porta a novidade, a ltima: o Nunes mandara chamar o Joo Eduardo e dissera-lhe (palavras 
textuais): "Eu, bandidos e malfeitores no os quero no meu cartrio. Rua!"
       A S. Joaneira ento comoveu-se:
       - Pobre rapaz, fica sem ter que comer... ,
       - Que beba! que beba! gritou a Sra. D. Maria da Assuno.
       Todos riram. S Amlia, curvada sobre a sua costura, se fizera muito plida, aterrada quela idia que Joo Eduardo teria talvez fome...
       - Pois olhem, no acho caso para rir! disse a S. Joaneira.  at coisa que me vai tirar o sono.., Pensar que o rapaz h-de querer um bocado de po e no o 
h-de ter... Credo! No, isso no! E o Sr. padre Amaro desculpe...
       Mas Amaro tambm no desejava que o rapaz casse em misria! No era homem de rancor, ele! E se o escrevente viesse  sua porta, com necessidade, duas ou 
trs placas (no era rico, no podia mais), mas trs ou quatro placas dava-lhas... Dava-lhas de corao.
       Tanta santidade fanatizou as velhas. Que anjo! Olhavam-no, babosas, com as mos vagamente postas. A sua presena, como a dum S. Vicente de Paula, exalando 
caridade, dava  sala uma suavidade de capela: e a Sra. D, Maria da Assuno suspirou de gozo devoto.
       Mas Natrio apareceu, radiante. Deu grandes apertos de mos em redor, rompeu em triunfo:
       - Ento j sabem? O patife, o assassino, escorraado de toda a parte como um co! O Nunes expulsou-o do cartrio. O doutor Godinho disse-me agora que no governo 
civil no punha ele os ps. Enterrado, demolido!  um alvio para a gente de bem!
       - E ao Sr. padre Natrio se deve! exclamou D. Josefa Dias.
       Todos o reconheciam. Fora ele, com a sua habilidade, a sua lbia, que descobrira a perfdia de Joo Eduardo, salvara a Ameliazinha, Leiria, a Sociedade.
       - E em tudo o que pretender, o maroto, h-de encontrar-me pela frente. Enquanto ele estiver em Leiria no o largo! Que lhes disse eu, minha senhoras?.,, "Eu 
 que o esmago!" Pois a o tm esmagado!
       A sua face biliosa resplandecia. Estirou-se na poltrona, regaladamente, no repouso merecido de uma vitria difci1. E voltando-se para Amlia;
       - E agora, o que l vai, l vai! Livrou-se de uma fera,  o que lhe posso dizer!
       Ento os louvores - que j lhe tinham repetido prolixamente desde que ela rompera com a fera - recomearam, mais vivos:
       - Foi a coisa de mais virtude que tens feito em toda a tua, vida!
       -  a graa de Deus que te tocou!
       - Ests em graa, filha!
       - Enfim  Santa Amlia, disse o cnego erguendo-se, enfastiado daquelas glorificaes. Pois parece-me que temos falado bastante do patife... Mande agora a 
senhora vir o ch, hem?
Amlia permanecia calada, cosendo  pressa; erguia s vezes rapidamente para Amaro um olhar desassossegado; pensava em Joo Eduardo, nas ameaas de Natrio; e imaginava 
o escrevente com as faces encovadas de fome, foragido, dormindo pelas portas dos casais... E enquanto as senhoras se acomodavam, palrando,  mesa do ch, ela pde 
dizer baixo a Amaro:
       - No posso sossegar com a idia que o rapaz sofra necessidades... Eu bem sei que  um malvado, mas...  como um espinho c por dentro. Tira-me toda a alegria.
       O padre Amaro disse-lhe ento, com muita bondade, mostrando-se superior  injria, num alto espirito de caridade crist:
       - Minha rica filha, so tolices... O homem no morre de fome. Ningum morre de fome em Portugal.  novo, tem sade, no  tolo, h-de- se arranjar... No 
pense nisso... Aquilo  palavreado do padre Natrio... O rapaz naturalmente sai de Leiria, no tomamos a ouvir falar dele... E em toda a parte h-de ganhar a vida... 
Eu por mim perdoei-lhe, e Deus h-de tomar isso em conta...
       Estas palavras to generosas, ditas baixo, com um olhar amante, tranqilizaram-na inteiramente. A clemncia, a caridade do senhor proco pareceram-lhe melhores 
que tudo o que ouvira ou lera de santos e de monges piedosos.
       Depois do ch, ao quino, ficou junto dele. Uma alegria plena e suave penetrava-a deliciosamente. Tudo o que at a a importunara e a assustara, Joo Eduardo, 
o casamento, os deveres, desaparecera enfim da sua vida: o rapaz iria para longe, empregar-se - e o senhor proco ali estava, todo dela, todo apaixonado! Por vezes, 
por baixo da mesa, os seus joelhos tocavam-se, a tremer; num momento em que todos faziam um alarido indignado contra Artur Couceiro que pela terceira vez quinara 
e brandia o carto triunfante, foram as mos que se encontraram, se acariciaram; um pequeno suspiro simultneo, perdido na gralhada das velhas, ergueu o peito de 
ambos; e at ao fim da noite foram marcando os seus cartes, muitos calados, com as faces acesas, sob a presso brutal do mesmo desejo.
       Enquanto as senhoras se agasalhavam, Amlia aproximou-se do piano para correr uma escala, e Amaro pde murmurar-lhe ao ouvido:
       - Oh filhinha, que te quero tanto! E no podermos estar ss...
       Ela ia responder - quando a voz de Natrio, que se embrulhava no seu capote ao p do aparador, exclamou, muito severa:
       - Ento as senhoras deixam andar por aqui semelhante livro?
       Todos se voltaram, na surpresa que dava aquela indignao, a olhar o largo volume encadernado que Natrio indicava com a ponta do guarda- chuva, como um objeto 
abominvel. D. Maria da Assuno aproximou-se logo de olho reluzente, imaginando que seria alguma dessas novelas, to famosas, em que se passam coisas imorais. E 
Amlia chegando-se tambm, disse, admirada de tal reprovao: .
       - Mas  o Panorama...  um volume do Panorama...
       - Que  o Panorama vejo eu, disse Natrio, com secura. Mas tambm veio isto. - Abriu o volume na primeira pgina branca, e leu alto: - "Pertence-me este volume 
a mim, Joo Eduardo Barbosa, e serve-me de recreio nos meus cios". No compreende, hem? Pois  muito simples... Parece incrvel que as senhoras no saibam que esse 
homem, desde que ps as mos num sacerdote, est ipso facto excomungado, e excomunga- dos todos os objetos que lhe pertencem!
       Todas as senhoras, instintivamente, afastaram-se do aparador onde jazia aberto o Panorama fatal, arrebanhando-se, num arrepiamento de medo, quela idia da 
Excomunho que se lhes representava com um desabamento de catstrofes, um aguaceiro de raios despedidos das mos do Deus Vingador: e ali ficaram mudas, num semicrculo 
apavorado, em torno de Natrio, que, de capoto pelos ombros e braos cruzados, gozava o efeito da sua revelao.
       Ento a S. Joaneira, no seu assombro, arriscou-se a perguntar:
       - O Sr. padre Natrio est a falar srio?
       Natrio indignou-se:
       - Se estou a falar srio!? Essa  forte! Pois eu havia de gracejar sobre um caso de excomunho, minha senhora? Pergunte a ao senhor cnego se eu estou a 
gracejar!
       Todos os olhos se voltaram para o cnego, essa inesgotvel fonte de saber eclesistico.
       Ele ento, tomando logo o ar pedaggico que lhe voltava dos seus antigos hbitos do seminrio sempre que se tratava de doutrina, declarou que o colega Natrio 
tinha razo. Quem espanca um sacerdote, sabendo que  um sacerdote, est ipso facto excomungado.  doutrina assente.  o que se chama a excomunho latente; no necessita 
a declarao do pontfice ou do bispo, nem o cerimonial, para ser vlida, e para que todos os fiis considerem o ofensor como excomungado. Devem-no tratar portanto 
como tal... Evit-lo a ele, e ao que lhe pertence... E este caso de pr mos sacrlegas num sacerdote era to especial, continuava o cnego num tom profundo, que 
a bula do papa Martinho V, limitando os casos de excomunho tcita, conserva-a todavia para o que maltrata um sacerdote... - Citou ainda mais bulas, as constituies 
de Inocncio IX e de Alexandre VII, a Constituio Apostlica, outras legislaes temerosas; rosnou latins, aterrou as senhoras.
       - Esta  a doutrina, concluiu dizendo; mas a mim parece-me melhor no se fazer disso espalhafato...
       D. Josefa Dias acudiu logo:
- Mas ns  que no podemos arriscar a nossa alma a encontrar aqui por cima das mesas coisas excomungadas.
       -  destruir! exclamou D. Maria da Assuno.  queimar,  queimar!
D. Joaquina Gansoso arrastara Amlia para o vo da janela, perguntando-lhe se tinha outros objetos pertencentes ao homem. Amlia, atarantada, confessou que tinhas 
algures, no sabia onde, um leno, uma luva desirmanada, e uma cigarreira de palhinha.
       -  para o fogo,  para o fogo! gritava a Gansoso excitada.
       A sala vibrava agora com a gralhada das senhoras, arrebatadas num furor santo. D. Josefa Dias, D. Maria da Assuno falavam com gozo do fogo, enchendo a boca 
com a palavra, numa delcia inquisitorial de exterminao devota. Amlia e a Gansoso, no quarto, rebuscavam pelas gavetas, por entre a roupa branca, as fitas e as 
calcinhas,  caa dos "objetos excomungados". E a S. Joaneira assistia, atnita e assustada, quele alarido de auto-de-f que atravessava bruscamente a sua pacata, 
refugiada ao p do cnego, que depois de ter rosnado algumas palavras sobre "a Inquisio em casas particulares", se enterrara comodamente na poltrona.
       -  para lhes fazer sentir que se no perde impunemente o respeito  batina, dizia Natrio baixo a Amaro.
       O proco assentiu, com um gesto mudo de cabea, contente daquelas cleras beatas que eram como a afirmao ruidosa do amor que lhe tinham as senhoras.
       Mas D. Josefa impacientava-se. Agarrara j o Panorama com as pontas do xale, para evitar o contgio, e gritava para dentro, para o quarto, onde continuava 
pelos gavetes uma rebusca furiosa:
       - Ento apareceu?
       - C est, c est!
       Era a Gansoso que entrava triunfante com a cigarreira, a velha luva e o leno de algodo.
       E as senhoras, com alarido, arremeteram para a cozinha. A mesmas S. Joaneira as seguiu, como boa dona de casa, para fiscalizar a fogueira.
       - Os trs padres ento, ss, olharam-se - e riram.
       - As mulheres tm o diabo no corpo, disse o cnego filosoficamente.
       - No senhor, padre-mestre, no senhor, acudiu logo Natrio fazendo-se srio. Eu rio, porque a coisa, assim vista, parece patusca. Mas o sentimento  bom. 
Para a verdadeira devoo ao sacerdcio, horror  impiedade... enfim o sentimento  excelente.
       - O sentimento  excelente, confirmou Amaro, tambm srio.
       O cnego ergueu-se:
       - E  que se pilhassem o homem eram capazes de o queimar... No lho digo a brincar, que a mana tem fgados para isso...  um Torquemada de saias...
       - Est na verdade, est na verdade, afirmou Natrio.
       - Eu no resisto a ir ver a execuo! exclamou o cnego. Eu quero ver com os meus olhos!
E os trs padres ento foram at  porta da cozinha. As senhoras l estavam, em p diante da lareira, batidas da luz violenta da fogueira que fazia destacar estranhamente 
as mantas de agasalho de que j se tinham coberto. A Rua, de joelhos, soprava esfalfada. Tinham cortado com o faco a encadernao do Panorama; e as folhas retorcidas 
e negras, com um faiscar de fagulhas, voavam pela chamin nas lnguas de fogo claro. S a luva de pelica no se consumia. Debalde com as tenazes a punham no vivo 
da chama: tisnava, reduzida a um caroo engorolado; mas no ardia. E z sua resistncia aterrava as senhoras.
       -  que  da mo direita com que cometeu o desacato! dizia furiosa D. Maria da Assuno.
       - Bufa-lhe, rapariga, bufa-lhe, aconselhava da porta o cnego muito divertido.
       - O mano faz favor de no troar com coisas srias! gritou D. Josefa.
       - Oh, mana! A senhora quer saber melhor que um sacerdote como  que se queima um mpio? A pretenso no est m!  bufar-lhe,  bufar-lhe! 
       Ento, confiadas na cincia do senhor cnego, a Gansoso e D. Maria da Assuno, acocoradas, bufaram tambm. As outras olhavam, num sorriso mudo, o olho brilhante 
e cruel, no gozo daquela exterminao grata a Nosso Senhor. O fogo estalava, pulando com uma fora galharda, na glria da sua antiga funo de purificador dos pecados. 
- E por fim sobre as achas em brasa, nada restou do Panorama, do leno e da luva do mpio.
       A essa hora Joo Eduardo, o mpio, no seu quarto, sentado aos ps da cama, soluava, com a face banhada em lgrimas, pensando em Amlia, nos bons seres da 
Rua da Misericrdia, na cidade para onde iria, na roupa que empenharia e perguntando em vo a si mesmo por que o tratavam assim, ele que era to trabalhador, que 
no queria mal a ningum, e que a adorava tanto, a ela.


XV


       No domingo seguinte havia missa cantada na S, e a S. Joaneira e Amlia atravessaram a Praa para ir buscar D. Maria da Assuno, que em dias de mercado e 
de "populacho" nunca saia s, receosa que lhe roubassem as jias ou lhe insultassem a castidade.
       Nessa manh, com efeito, a afluncia das freguesias enchia a Praa: os homens em grupo, atravancando a rua, muito srios, muito barbeados, de jaqueta ao ombro; 
as mulheres aos pares, com uma fortuna de grilhes e de coraes de ouro sobre peitos pejados; nas lojas, os caixeiros azafamavam-se por trs dos balces alastrados 
de lenaria e de chitas; nas tabernas apinhadas gralhava-se alto; pelo mercado, entre os sacos de farinha, os montes de loua, os cestos de broa, ia um regatear 
sem fim; havia multido ao p das tendas onde reluzem os espelhinhos redondos e trasbordam os molhos de rosrios; velhas faziam prego por trs dos seus tabuleiros 
de cavacas; e os pobres, afreguesados  cidade, choramigavam Padre-Nossos pelas esquinas.
       J senhoras passavam para a missa, todas em sedas, de rostinho sisudo; e a Arcada estava cheia de cavalheiros, tesos nos seus fatos de casimira nova, fumando 
caro, gozando o domingo.
       Amlia foi muito olhada: o filho do recebedor, um atrevido, disse mesmo alto dum grupo: Ai, que me leva o corao! E as duas senhoras, apressando-se, dobravam 
para a Rua do Correio, quando lhes apareceu o Libaninho de luvas pretas e cravo ao peito. No as tinha visto desde "o desacato do Largo da S", e rompeu logo em 
exclamaes. Ai, filhas, que desgosto aquele! O malvado do escrevente! Ele tinha tido tanto que fazer, que s nessa manh  que pudera ir ao senhor proco dar-lhe 
os sentimentos; o santinho recebera-o muito bem, estava-se a vestir; ele quis ver-lhe o brao e felizmente, louvores a Deus, nem uma pisadura... E se elas vissem, 
que carnadura to delicada, que pele to branca... Uma pelinha de arcanjo !
       - Mas querem vocs saber, filhas? Encontrei-o numa grande aflio!
       As duas senhoras assustaram-se. Por qu, Libaninho?
       A criada, a Vicncia, que havia dias se queixava, tinha ido nessa madrugada para o hospital com um febro...
       - E ali est o pobre santo sem criada, sem nada! Vejam vocs! Para hoje bem, que vai jantar com o nosso cnego (tambm l estive, ai, que santo!), mas amanh, 
mas depois? Que ele j tem em casa a irm da Vicncia, a Dionsia... Mas, oh, filhas, a Dionsia! Foi o que eu lhe disse: a Dionsia pode ser uma santa, mas que 
reputao!...  que no h pior em Leiria... Uma perdida que no pe os ps na igreja... Tenho a certeza que o senhor chantre at havia de reprovar!
       As duas senhoras concordaram logo que a Dionsia (mulher que no cumpria os preceitos, que representara em teatros de curiosos) no convinha ao senhor proco...
       - Olha, S. Joaneira, disse Libaninho, sabes o que lhe convinha? Eu l lho disse, l lhe fiz a proposta.  ferrar-se outra vez em sua casa. Que  onde est 
bem, com gente que o acarinha, que lhe trata da roupa, que lhe sabe os gostos, e onde tudo  virtude! Ele no disse que no, nem que sim. Mas olha que se lhe podia 
ler na cara que est a morrer por isso... Tu  que lhe devias falar S. Joaneirinha!
       Amlia fizera-se to escarlate como a sua gravata de seda da ndia. E a S. Joaneira disse ambiguamente:
       - Falar-lhe, no... Eu nessas coisas sou muito delicada... Bem compreendes...
       - Era como teres um santo de portas adentro, filha! disse com calor o Libaninho. Lembra-te disso! E era um gosto para todos... Tenho a certeza que at Nosso 
Senhor se havia de alegrar... E agora adeus, pequenas, que vou de fugida. No vos demoreis, que est a missinha a cair.
       As duas senhoras continuaram caladas at casa de D. Maria da Assuno. Nenhuma queria arriscar primeiro uma palavra sobre aquela possibilidade to inesperada, 
to grave, do senhor proco voltar para a Rua da Misericrdia! Foi s quando pararam que a S. Joaneira disse, ao puxar a campainha:
       - Ai, o senhor proco realmente no pode ter a Dionsia de portas adentro..,
       - Credo, at causa horror!
       Foi tambm a expresso da Sra. D. Maria da Assuno quando lhe contaram, em cima, a doena da Vicncia e a instalao da Dionsia: causava horror!
       - Que eu no a conheo, disse a excelente senhora. E tenho at vontade de a conhecer. Que me dizem que  dos ps  cabea uma crosta de pecado!
       A S. Joaneira ento falou da "proposta do Libaninho". D. Maria da Assuno declarou logo com ardor que era uma inspirao de Nosso Senhor. Que nunca o senhor 
proco devia ter sado da Rua da Misericrdia! At parece que mal ele se fora embora, Deus retirara a sua graa da casa... No houvera seno desgostos - o Comunicado, 
a dor de estmago do cnego, a morte da entrevadinha, aquele desgraado casamento (que estivera por um triz, que horror!), o escndalo do Largo da S... A casa tinha 
parecido enguiada!... E era at pecado deixar viver o santinho naquele desarranjo, com a suja da Vicncia, que nem lhe sabia dar uma passagem nas meias!
       - Em parte nenhuma pode estar melhor que em tua casa... Tem tudo o que necessita, de portas adentro... E para ti  uma honra,  estar em graa. Olha, filha, 
se eu no fosse s, sempre o digo, quem o hospedava era eu! Que aqui  que ele estava bem... Que salinha para ele, hem?
       Riam-se-lhe os olhos, contemplando em redor as suas preciosidades.
       A sala com efeito era toda ela uma imensa armazenagem de santaria e de bric--brac devoto; sobre as duas cmodas de pau-preto com fechaduras de cobre apinhavam-se, 
sobre redomas, em peanhas, as Nossas Senhoras vestidas de seda azul, os Meninos Jesus frisados com o ventrezinho gordo e a mo abenoadora, os Santos Antnios no 
seu burel, os S. Sebasties bem frechados, os S. Joss barbudos. Havia santos exticos, que eram o seu orgulho, que lhe fabricavam em Alcobaa - S. Pascoal Bailo, 
S. Didcio, S. Crisolo, S. Gorislano... Depois eram os bentinhos, os rosrios de metal e de caroos de azeitonas, contas de cores, rendas amarelas de antigas alvas, 
coraes de vidro escarlate, almofadinhas com J. M, entrelaados a mianga, ramos bentos, palmas de mrtires, cartuchinhos de incenso. As paredes desapareciam forradas 
de estampas de Virgens de todas as devoes, - equilibradas sobre o orbe, enrodilhadas aos ps da cruz, traspassadas de espadas. Coraes de onde gotejava sangue, 
coraes de onde saia uma fogueira, coraes de onde dardejavam raios; oraes encaixilhadas para as festas particularmente amadas - o Casamento de Nossa Senhora, 
a Inveno da Santa Cruz, os Estigmas de S. Francisco, sobretudo o Parto da Santa Virgem, a mais devota, que vem pelas quatro tmporas. Sobre as mesas lamparinas 
acesas, para serem colocadas sem demora aos santos especiais, quando a boa senhora tivesse a sua citica, ou que o catarro se assanhasse, ou lhe viessem as cibras. 
Ela mesma, s ela, arrumava, espanejava, lustrava toda aquela santa populao celeste, aquele arsenal beato, que era apenas suficiente para a salvao da sua alma 
e o alvio dos seus achaques. O seu grande cuidado era a colocao dos santos; alterava-a constantemente, porque s vezes, por exemplo, sentia que Santo Eleutrio 
no gostava de estar ao p de S. Justino, e ia ento pendur-lo a distncia, numa companhia mais simptica ao santo. E distinguia-os (segundo os preceitos do ritual 
que o confessor lhe explicava), dando-lhes uma devoo graduada, e no tendo por S. Jos de segunda classe o respeito que sentia por S. Jos de primeira classe. 
Aquela riqueza era a inveja das amigas, a edificao dos curiosos, e fazia sempre dizer ao Libaninho quando a vinha visitar, abrangendo a sala num olhar langoroso: 
- Ai, filha,  o reininho dos Cus!
       - No  verdade, continuava a excelente senhora radiante, que ele aqui  que estava bem, o santinho do proco?  como ter o Cu debaixo da mo! 
       As duas senhoras concordaram. Ela podia ter a sua casa arranjada com devoo, ela que era rica...
       - No o nego, tenho aqui empregadinhos alguns centos de mil-ris. Sem contar o que est no relicrio...
       Ah, o famoso relicrio de sndalo forrado de cetim! Tinha l uma lascazinha da verdadeira Cruz, um bocado quebrado do espinho da Coroa, um farrapinho do cueiro 
do Menino Jesus. E murmurava-se com azedume, entre as devotas, que coisas to preciosas, de origem divina, deviam estar no sacrrio da S. D. Maria da Assuno temendo 
que o senhor chantre soubesse daquele tesouro serfico, s o mostrava s ntimas, misteriosamente. E o santo sacerdote, Que lho obtivera, fizera-a jurar sobre o 
Evangelho de no revelar a procedncia "para evitar falatrios".
       A S. Joaneira, como sempre, admirou sobretudo o farrapinho do cueiro.
       - Que relquia, que relquia! murmurava.
       E D. Maria da Assuno muito baixo:
       - No h melhor. Trinta mil-ris me custou... Mas dava sessenta, mas dava cem! mas dava tudo! - E babando-se toda, diante do trapinho precioso: - O cueirinho! 
dizia Quase a chorar. Meu rico Menino, o seu cueirinho...
       Deu-lhe um beijo muito repenicado, e foi fechar o relicrio no gaveto.
       Mas o meio-dia ia bater - e as trs senhoras apressaram-se para a S, para pilhar lugar no altar-mor.
       J no largo encontraram D. Josefa Dias, que se precipitava para a igreja, sfrega da missa, com o mantelete descado sobre o ombro e uma pluma do chapu a 
despregar-se. Tinha estado toda a manh num frenesi com a criada! Fora necessrio fazer ela todos os preparos para o jantar... Ai, tinha medo que nem a missinha 
lhe desse virtude, de nervosa que estava...
       - Que temos l o senhor proco hoje... Vocs sabem que adoeceu a criada... Ah, j me esquecia, o mano quer que tu l vs jantar tambm, Amlia. Diz Que  
para haverem duas damas e dois cavalheiros...
Amlia riu de alegria.
       - E tu vai depois busc-la, S. Joaneira,  noitinha... Credo, vesti- me tanto  pressa, que at parece que me est a cair o saiote!
       Quando as Quatro senhoras entraram, a igreja estava j cheia. Era uma missa cantada ao Santssimo. E apesar de contrrio ao rigor do ritual, por um costume 
diocesano (Que o bom Silvrio, muito estrito na liturgia, nunca cessava de reprovar) havia, estando presente a Eucaristia, msica de rabeca, violoncelo e flauta. 
O altar, muito ornado, com as relquias expostas, destacava numa alvura festiva; dossel, frontal, paramentos dos missas eram brancos, com relevos de ouro desmaiado; 
nos vasos erguiam- se ramos piramidais de flores e folhagens brancas; os veludilhos decorativos, dispostos como velrios, punham dos dois lados do tabernculo a 
brancura de duas vastas asas desdobradas, lembrando a Pomba Espiritual; e os vinte castiais erguiam a suas chamas amarelas em trono at ao sacrrio aberto, que 
mostrava de alto, engastada num rebrilhar de ouros vivos, a hstia redonda e baa. Por toda a igreja apinhada corria uma sussurrao lenta; aqui e alm um catarro 
expectorava, uma criana choramingava; o ar adensava-se j dos hlitos juntos e de um cheiro de incenso; e do coro, onde as figuras dos msicos se moviam por trs 
dos braos dos rabeces e das estantes, vinha a cada momento um afinar gemido de rabeca, ou um pio de flautim. As quatro amigas tinham-se apenas acomodado junto 
ao altar-mor, quando os dois aclitos, um teso como um pinheiro, o outro gordalhufo e enxovalhado, entraram do lado da sacristia, sustentando alto e direito nas 
mos os dois castiais consagrados; atrs o Pimenta vesgo, com uma sobrepeliz muito vasta para ele, lanando os seus sapates em passadas pomposas, trazia o incensador 
de prata; depois sucessivamente, durante o rumor do ajoelhar pela nave e do folhear ds livrinhos, apareceram os dois diconos; e enfim, paramentado de branco, de 
olhos baixos e mos postas, com aquele recolhimento humilde que pede o ritual e que exprime a mansido de Jesus marchando ao Calvrio, entrou o padre Amaro - ainda 
vermelho da questo furiosa que tivera na sacristia, antes de se revestir, por causa da lavagem das alvas.
       E o coro imediatamente atacou o Intrito.

***

       Amlia passou a sua missa embevecida, pasmada para o proco - que era, como dizia o cnego, "um grande artista para missas cantadas"; todo o cabido, todas 
as senhoras o reconheciam. Que dignidade, que cavalheirismo nas saudaes cerimoniosas aos diconos! Como se prostrava bem diante do altar, aniquilado e escravizado, 
sentindo-se cinza, sentindo-se p diante de Deus, que assiste de perto, cercado da sua corte e da sua famlia celeste! Mas era sobretudo admirvel nas bnos; passava 
devagar as mos sobre o altar como para apanhar, recolher a graa que ali caa do Cristo presente, e atirava-a depois com um gesto largo de caridade por toda a nave, 
por sobre o estendal de lenos brancos de cabea, at ao fundo onde os homens do campo muito apertados, de varapau na mo, pasmavam para a cintilao do sacrrio! 
Era ento que Amlia o amava mais, pensando que aquelas mos abenoadoras lhas apertava ela core paixo por baixo da mesa do quino: aquela voz, com que ele lhe chamava 
filhinha, recitava agora as oraes inefveis, e parecia-lhe melhor que o gemer das rabecas, revolvia-a mais que os graves do rgo! Imaginava com orgulho que todas 
as senhoras decerto o admiravam tambm; mas s tinha cimes, um cime de devota que sente os encantos do Cu, quando ele ficava diante do altar, na posio esttica 
que manda o ritual, to imvel como se a sua alma se tivesse remontado longe, para as alturas, para o Eterno e para o Insensvel. Preferia-o, por o sentir mais humano 
e mais acessvel, quando, durante o Kyrie ou a leitura da Epistola, ele se sentava com os diconos no banco de damasco vermelho; ela queria ento atrair-lhe um olhar; 
mas o senhor proco permanecia de olhos baixos, numa compostura modesta.
       Amlia, sentada sobre os calcanhares, com a face banhada num sorriso, admirava-lhe o perfil, a cabea bem-feita, os paramentos dourados - e lembrava-se quando 
o vira a primeira vez descendo a escada da Rua da Misericrdia, com o seu cigarro na mo. Que romance se passara desde essa noite! Recordava o Morenal, o salto do 
valado, a cena da morte da titi, aquele beijo ao p da lareira... Ai, como acabaria tudo aquilo? Queria ento rezar; folheava o livro, mas vinha-lhe  idia o que 
o Libaninho nessa manh dissera: "O senhor proco tinha uma pelezinha to branca como um arcanjo..." Devia-a ter decerto muito delicada, muito tenra... Um desejo 
intenso queimava-a: imaginava que era uma tentadora visitao do demnio, - e para a repelir arregalava os olhos para o sacrrio e para o trono que o padre Amaro, 
cercado dos diconos, incensava em semicrculos significando a Eternidade dos Louvores, enquanto o coro berrava o Ofertrio... Depois ele mesmo, de p, no segundo 
degrau do altar, de mos postas, foi incensado; o Pimenta vesgo fazia ranger galhardamente as correntes de prata do turbulo; um perfume de incenso derramava-se, 
como uma anunciao celeste; enevoava-se o sacrrio sob os rolos alvos de fumo; e o proco aparecia a Amlia transfigurado, quase divinizado!... Oh, adorava-o ento!
A igreja tremia ao clamor do rgo em pleno; de bocas abertas, os coristas solfejavam a toda a fora; em cima, alando-se entre os braos dos rabeces, o mestre 
da capela, no fogo da execuo, brandia desesperadamente a sua batuta feita dum rolo de cantocho. 

***

       Amlia saiu da igreja muito fatigada, muito plida. 
       Ao jantar, em casa do cnego, a Sra. D. Josefa censurou-a repetidamente de "no dar palavra". 
No falava, mas debaixo da mesa o seu pezinho no cessava de roar, pisar o do padre Amaro. Como escurecera cedo tinham acendido as velas; o cnego abrira uma garrafa, 
no do seu famoso duque de 1815, mas do "1847", para acompanhar a travessa de aletria que enchia o centro da mesa, com as iniciais do proco desenhadas a canela; 
era, como explicara o cnego, "uma galantaria da mana ao convidado". Amaro fizera logo uma sade com o 1847 " digna dona da casa". Ela resplandecia, medonha no 
seu vestido de barege verde. O que sentia  que o jantar fosse to mau... Que aquela Gertrudes estava-se a fazer uma desleixada... Ia-lhe deixando esturrar o pato 
com macarro!
       - Oh, minha senhora, estava delicioso! protestou o proco.
       - So favores do senhor proco.  porque eu lhe acudi a tempo... Mais uma colherzinha de aletria, senhor proco.
       - Nada mais, minha senhora, tenho a minha conta.
       - Ento para desgastar, v mais esse copito do 47, disse o cnego.
       Ele mesmo bebeu pausadamente um bom gole, deu um ah de satisfao, e repoltreando-se:
       - Boa gota! assim pode-se viver!
       Estava j rubro, e parecia mais obeso, com o seu grosso jaqueto de flanela e o guardanapo atado ao pescoo.
       - Boa gota, repetiu, deste no provou hoje voc nas galhetas.
       - Credo, mano! exclamou D. Josefa com a boca cheia de fios de aletria, muito escandalizada da irreverncia.
       O cnego encolheu os ombros com desprezo.
       - O credo  para a missa! Esta pretenso de se meter sempre em questes que no percebe! Pois fique sabendo que  duma grande importncia a questo da qualidade 
do vinho, na missa.  que  necessrio que o vinho seja bom...
       - Concorre para a dignidade do santo sacrifcio, disse o proco muito srio, fazendo uma carcia de joelho a Amlia.
       - E no  s isso, disse o cnego tomando logo o tom de pedagogo.  que o vinho, quando no  bom ou tem ingredientes, deixa um depsito nas galhetas; e, 
se o sacristo no  cuidadoso e no as limpa, as galhetas ganham um cheiro pssimo. E sabe a senhora o que acontece? Acontece que o sacerdote, quando vai a beber 
o sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, no est prevenido e faz-lhe uma careta. Ora a tem a senhora!
       E deu um forte chupo ao clice. Mas estava falador nessa noite, e depois de arrotar devagar, interpelou de novo D. Josefa, assombrada de tanta cincia.
       - E diga-me l ento a senhora, j que  to doutora. O vinho, no divino sacrifcio, deve ser branco ou tinto?
       D. Josefa parecia-lhe que devia ser tinto, para se parecer mais com o sangue de Nosso Senhor.
       - Emende a menina, mugiu o cnego de dedo em riste para Amlia.
       Ela recusou-se, com um risinho. Como no era sacristo, no sabia...
       - Emende o senhor proco!
       Amaro galhofou. Se era erro ser tinto, ento devia ser branco...
       - E por qu?
       Amaro ouvira dizer que era o costume em Roma.
       - E por qu? continuava o cnego, pedante e ronco. No sabia.
       - Porque Nosso Senhor Jesus Cristo, quando pela primeira vez consagrou, f-lo com vinho branco. E a razo  muito simples:  porque na Judia nesse tempo, 
como  notrio, no se fabricava vinho tinto... Repita- me a senhora a aletria, faa favor.
Ento, a propsito do vinho e da limpeza das galhetas, o padre Amaro queixou-se do Bento sacristo. Nessa manh antes de se paramentar - justamente quando entrara 
o senhor cnego na sacristia - acabava de lhe dar uma desanda a respeito das alvas. Em primeiro lugar dava-as a lavar a uma Antnia que vivia amancebada com um carpinteiro, 
em grande escndalo, e que era indigna de tocar os paramentos santos. Esta era a primeira. Depois, a mulher trazia-as to enxovalhadas que era um desacato us-las 
no divino sacrifcio...
       - Ai, mande-mas a mim, senhor proco, mande-mas a mim, acudiu D. Josefa. Dou-as  minha lavadeira, que  pessoa de muita virtude e traz a roupa escarolada. 
Ai, at era uma honra para mim! Eu mesmo as passava a ferro, e at se podia benzer o ferro...
       Mas o cnego (que positivamente estava naquela noite duma loquacidade copiosa) interrompeu-a, e voltando-se para o padre Amaro, fixando-o profundamente:
       - Ora a propsito de eu entrar na sacristia, sempre lhe quero dizer, amigo e colega, que cometeu hoje um erro de palmatria.
       Amaro pareceu inquieto.
       - Que erro, padre-mestre?
       - Depois de se revestir, continuou o cnego pausadamente, j com os diconos ao lado, quando fez a cortesia  imagem da sacristia, em lugar de fazer a cortesia 
profunda, fez s a meia cortesia.
       - Alto l, padre-mestre! exclamou o padre Amaro.  o texto da rubrica. Facta reverentia cruci, feita a reverncia  cruz; isto , a reverncia simples, abaixar 
ligeiramente a cabea...
       E, para exemplificar, fez uma cortesia a D. Josefa que lhe sorriu toda, torcendo-se.
       - Nego! exclamou formidavelmente o cnego que em sua casa,  sua mesa, punha de alto as suas opinies. E nego com os meus autores. Eles a vo! - e deixou-lhe 
cair em cima, como penedos de autoridade, os nomes venerados de Laboranti, Baldeschi, Merati, Turrino e Pavnio.
       Amaro afastara a cadeira, pusera-se em atitude de controvrsia, contente de poder, diante de Amlia, "enterrar" o cnego, mestre de teologia moral e um colosso 
de liturgia prtica.
       - Sustento, exclamou, sustento com Castaldus...
       - Alto, ladro, bramiu o cnego. Castaldus  meu!
       - Castaldus  meu, padre-mestre!
       E encarniaram-se, puxando cada um para si o venervel Castaldus e a autoridade da sua facndia. D. Josefa pulava de gozo na cadeira, murmurando para Amlia 
com a cara franzida de riso:
       - Ai, que gostinho v-los! Ai, que santos!
       Amaro continuava, com gesto alto:
       - E alm disso, tenho por mim o bom senso, padre-mestre. Primo, a rubrica, como expus. Segundo, o sacerdote, tendo na sacristia o barrete na cabea, no deve 
fazer cortesia inteira, porque lhe pode cair o barrete e temos desacato maior. Tertio, seguir-se-ia um absurdo, porque ento a cortesia antes da missa  cruz da 
sacristia seria maior que a que se faz depois da missa  cruz do altar!
       - Mas a cortesia  cruz do altar... bradou o cnego.
       -  meia cortesia. Leia a rubrica: Caput inclinat. Leia Gavantus, leia Garriffaldi. E nem podia deixar de ser assim! Sabe por qu? Porque depois da missa 
o sacerdote est no auge da dignidade, uma vez que tem dentro em si o corpo e sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Logo, o ponto  meu!
E de p, esfregou vivamente as mos, triunfando.
       O cnego abatera a papeira sobre as pregas do guardanapo, como um boi atordoado. E depois dum momento:
       - Voc no deixa de ter razo... Eu fui para o ouvir... Faz-me honra c o discpulo, acrescentou piscando o olho a Amlia. Pois  beber,  beber! E depois 
salta o cafezinho bem quente, mana Josefa! 
       Mas um forte repique  campainha sobressaltou-os. 
       -  a S. Joaneira, disse D. Josefa.
       A Gertrudes entrou com um xale e uma manta de l:
       - Aqui est isto que vem de casa da menina Amlia. A senhora manda muitos recados, que no pode vir, que se achou incomodada.
       - Ento com quem hei-de eu ir? disse logo Amlia, inquieta.
       O cnego estendeu o brao sobre a mesa, e dando-lhe uma palmadinha na mo:
       - Em ltimo caso com este seu criado. E essa virtudezinha podia ir sossegada... 
       - Tem coisas, mano! gritou a velha.
       - Deixa l, mana. O que passa pela boca dum santo, santo fica.
       O proco aprovou ruidosamente:
       - Tem muita razo o senhor cnego Dias! O que passa pela boca de um santo, santo fica! Para que viva!
       -  sua!
       E tocaram os copos, com um olho gaiato, reconciliados da controvrsia.
       Mas Amlia ficara assustada.
       - Jesus, que ter a mam? Que ser?
       - Ora que h-de ser? preguia! disse-lhe o proco, rindo.
       - No te agonies, filha, disse D. Josefa. Vou-te eu levar, vamos todos levar-te...
       - Vai a menina em charola, rosnou o cnego descascando a sua pra.
       Mas de repente pousou a faca, arregalou os olhos em redor, e passando a mo pelo estmago:
       - Pois olhem, disse, no me estou tambm a sentir bem...
       - Que ? que ?
       - Um ameaozito da dor. Passou, no vale nada.
       D. Josefa, j assustada, no queria que ele comesse a pra. Que a ltima vez que lhe dera fora por causa da fruta...
       Mas ele, obstinado, cravou os dentes na pra.
       - Passou, passou, rosnava.
       - Foi simpatia com a mam, disse o proco baixo a Amlia.
       De repente o cnego afastou a cadeira, e torcendo-se de lado:
       - No estou bem, no estou bem! Jesus! Oh, diabo! Oh, caramba! Ai! ai! morro!
       Alvoroaram-se em volta dele. D. Josefa amparou-o pelo brao at o quarto, gritando  criada que fosse buscar o doutor. Amlia correu  cozinha a aquecer 
uma flanela para lhe pr no estmago. Mas no aparecia flanela. Gertrudes topava contra as cadeiras, espavorida,  procura do seu xale para sair.
       - V sem xale, sua estpida! gritou-lhe Amaro.
       A rapariga abalou. Dentro o cnego dava urros.
       Amaro ento, realmente assustado, entrou-lhe no quarto. D. Josefa de joelhos diante da cmoda gemia oraes a uma grande litografia de Nossa Senhora das Dores; 
e o pobre padre-mestre, estirado de barriga sobre a cama, rilhava o travesseiro.
       - Mas minha senhora, disse o proco severamente, no se trata agora de rezar.  necessrio fazer-lhe alguma coisa... Que se lhe costuma fazer?
       - Ai, senhor proco, no h nada, no h nada, choramigou a velha.  uma dor que vem e vai num momento. No d tempo pra nada! Um ch de tlia alivia-o s 
vezes... Mas por desgraa hoje nem tlia tenho! Ai, Jesus!
       Amaro correu a casa a buscar tlia. E dai a pouco voltava esbaforido com a Dionsia, que vinha oferecer a sua atividade e a sua experincia.
       Mas o senhor cnego, felizmente, sentira-se de repente aliviado!
       - Muito agradecida, senhor proco, dizia D. Josefa. Rica tlia!  de muita caridade. Ele agora naturalmente cai em sonolncia. Vem-lhe sempre depois da dor... 
Eu vou para ao p dele, desculpem-me... Esta foi pior que as outras... So estas frutas mald... - reteve a blasfmia, aterrada. - So as frutas de Nosso Senhor. 
 a sua divina vontade... Desculpem- me, sim?
       Amlia e o proco ficaram ss na sala. Os seus olhares reluziram logo do desejo de se tocar, de se beijar, mas as portas estavam abertas; e sentiam no quarto 
ao lado, as chinelas da velha. O padre Amaro disse ento alto:
       - Pobre padre-mestre!  uma dor terrvel.
       - D-lhe todos os trs meses, disse Amlia. A mam j andava com o pressentimento. Ainda me tinha dito antes de ontem:  o tempo da dor do senhor cnego, 
estou com mais cuidado...
       O proco suspirou, e baixinho:
       - Eu  que no tenho quem pense nas minhas dores...
       Amlia pousou nele longamente os seus belos olhos umedecidos de  ternura.
       As suas mos iam apertar-se ardentemente por sobre a mesa; mas D. Josefa apareceu, encolhida no seu xale. O mano tinha adormecido. E ela estava que no se 
podia ter nas pernas. Ai, aqueles abalos arrasavam-lhe a sade! Acendera duas velas a S. Joaquim, e fizera uma promessa a Nossa Senhora da Sade. Era a segunda aquele 
ano, por causa da dor do mano. E Nossa Senhora no lhe tinha faltado...
       - Nunca falta a quem a implora com f, minha senhora, disse com uno o padre Amaro.
       O alto relgio de armrio bateu ento cavamente oito horas. Amlia falou outra vez no cuidado em que estava pela mam... De mais a mais ia- se a fazer to 
tarde...
       - E  que quando eu sai estava a chuviscar, disse Amaro.
       Amlia correu  janela, inquieta. O lajedo defronte, debaixo do candeeiro, reluzia muito molhado. O cu estava tenebroso.
       - Jesus, vamos ter uma noite de gua!
       D. Josefa estava aflita com o contratempo; mas a Amlia bem via, ela agora no podia despegar de casa; a Gertrudes fora ao doutor; naturalmente no o encontrara; 
andava a procur-lo de casa em casa, quem sabe quando viria...
       O proco ento lembrou que a Dionsia (que viera com ele e esperava na cozinha) podia ir acompanhar a Sra. D. Amlia. Eram dois passos, no havia ningum 
pelas ruas. Ele mesmo iria com elas at  esquina da Praa... Mas deviam apressar-se que ia cair gua!
       D. Josefa foi logo buscar um guarda-chuva para Amlia. Recomendou-lhe muito que contasse  mam o que tinha sucedido. Mas que no se afligisse ela, que o 
mano estava melhor...
       - E olha! gritou-lhe ainda de cima da escada. Diz-lhe que se fez tudo o que se pde, mas que a dor no deu tempo para nada!
       - Sim, l direi. Boa noite.
       Ao abrirem a porta a chuva caa grossa. Amlia ento quis esperar. Mas o proco, apressado, puxou-a pelo brao:
       - No vale nada, no vale nada!
       Desceram a rua deserta, aconchegados debaixo do guarda-chuva, com a Dionsia ao lado, muito calada, de xale pela cabea. Todas as janelas estavam apagadas; 
no silncio as goteiras cantavam de enxurro.
       - Jesus, que noite! disse Amlia. Vai-se-me a perder o vestido.
       Estavam ento na Rua das Sousas.
       -  que agora cai a cntaros, disse Amaro. Realmente parece-me que o melhor  entrar no ptio de minha casa e esperar um bocado...
       - No, no! acudiu Amlia.
       - Tolices! exclamou ele impaciente. Vai-se-lhe estragar o vestido...  um instante,  um aguaceiro. Para aquele lado, v, est a aliviar. Vai passar...  
uma tolice... A mam, se a visse aparecer debaixo duma carga de gua, zangava-se, e com razo!
       - No, no!
       Mas Amaro parou, abriu rapidamente a porta, empurrando Amlia de levei
       -  um instante, vai passar, entre...
       E ali ficaram, calados, no ptio escuro, olhando as cordas de gua que reluziam  luz do candeeiro defronte. Amlia estava toda atarantada. A negrura do ptio 
e o silncio assustavam-na; mas parecia-lhe delicioso estar assim naquela escurido, ao p dele, ignorada de todos... Insensivelmente atrada, roava-se-lhe pelo 
ombro; e recuava logo, inquieta de ouvir a sua respirao to agitada, de o sentir to junto das saias. Percebia por trs, sem a ver, a escada que levava ao quarto 
dele; e tinha um desejo imenso de lhe ir ver, acima, os seus mveis, os seus arranjos... A presena da Dionsia, encolhida contra a porta e muito calada, embaraava-a; 
todavia a cada momento voltava os olhos para ela, receando que desaparecesse, se sumisse na negrura do ptio ou da noite...
       Amaro ento comeou a bater com os ps no cho, a esfregar as mos, arrepiado.
       - Estamos aqui a apanhar alguma, dizia. As lajes esto regeladas. Realmente era melhor esperar em cima na sala de jantar...
       - No, no! disse ela.
       - Pieguices! At a mam se havia de zangar... V, Dionsia, acenda luz em cima.
       A matrona imediatamente galgou os degraus.
       Ele ento, muito baixo, tomando o brao de Amlia:
       - Por que no? Que pensas tu?  uma pieguice.  enquanto no passa o aguaceiro. Dize...
       Ela no respondia, respirando muito forte. Amaro pousou-lhe a mo sobre o ombro, sobre o peito, apertando-lho, acariciando a seda. Toda ela estremeceu. E 
foi-o enfim seguindo pela escada, como tonta, com as orelhas a arder, tropeando a cada degrau na roda do vestido.
       - Entra para a,  o quarto, disse-lhe ao ouvido.
       Correu  cozinha. Dionsia acendia a vela.
       - Minha Dionsia, tu percebes... Eu fiquei de confessar aqui a menina Amlia.  um caso muito srio... Volta daqui a meia hora. Toma! meteu-lhe trs placas 
na mo.
       A Dionsia descalou os sapatos, desceu em pontas de ps e fechou- se na loja do carvo.
       Ele voltou ao quarto com a luz. Amlia l estava, imvel, toda plida. O proco fechou a porta - e foi para ela, calado, com os dentes cerrados, soprando 
como um touro.

***

       Meia hora depois Dionsia tossiu na escada. Amlia desceu logo, muito embrulhada na manta: ao abrirem a porta do ptio passavam na rua dois borrachos galrando: 
Amlia recuou rapidamente para o escuro. Mas Dionsia da a pouco espreitou; e vendo a rua deserta:
       - Est a barra livre, minha rica menina...
       Amlia embrulhou mais o rosto e apressaram o passo para a Rua da Misericrdia. J no chovia; havia estrelas; e uma frialdade seca anunciava o Norte e o bom 
tempo.


XVI


       Ao outro dia Amaro, vendo no relgio que tinha  cabeceira que ia chegando a hora da missa, saltou alegremente da cama. E, enfiando o velho palet que lhe 
servia de robe-de-chambre, pensava nessa outra manh em Feiro em que acordara aterrado, por ter na vspera, pela primeira vez depois de padre, pecado brutalmente 
sobre a palha da estrebaria da residncia com a Joana Vaqueira. E no se atrevera a dizer missa com aquele crime na alma, que o abafava com um peso de penedo. Considerara-se 
contaminado, imundo, maduro para o inferno, segundo todos os santos padres e o serfico concilio de Trento. Trs vezes chegara  porta da igreja, trs vezes recuara 
assombrado. Tinha a certeza de que, se ousasse tocar na Eucaristia com aquelas mos com que repanhara os saiotes da Vaqueira, a capela se aluiria sobre ele, ou ficaria 
paralisado vendo erguer-se diante do sacrrio, de espada alta, a figura rutilante de S. Miguel Vingador! Montara a cavalo e trotara duas horas, pelos barreiros de 
D. Joo, para ir  Gralheira confessar-se ao bom abade Sequeira... Ah! Era nos seus tempos de inocncia, de exageraes piedosas e de terrores novios! Agora tinha 
aberto os olhos em redor  realidade humana. Abades, cnegos, cardeais e monsenhores no pecavam sobre a palha da estrebaria, no - era em alcovas cmodas, com a 
ceia ao lado. E as igrejas no se aluam, e S. Miguel Vingador no abandonava por to pouco os confortos do Cu!
       No era isso o que o inquietava - o que o inquietava era a Dionsia, que ele ouvia na cozinha, arrumando e tossicando, sem se atrever a pedir- lhe gua para 
a barba. Desagradava-lhe sentir aquela matrona introduzida, instalada no seu segredo. No duvidava decerto da sua discrio, era o seu ofcio; e algumas meias libras 
manteriam a sua fidelidade. Mas repugnava ao seu pudor de padre saber que aquela velha concubina de autoridades civis e militares, que rolara a sua massa de gordura 
por todas as torpezas seculares da cidade, conhecia as suas fragilidades, as concupiscncias que lhe ardiam sob a batina de proco. Preferiria que fosse o Silvrio 
ou Natrio que o tivesse visto na vspera, todo inflamado: era entre sacerdotes, ao menos!... E o que o incomodava era a idia de ser observado por aqueles olhinhos 
cnicos, que no se impressionavam nem com austeridade das batinas nem com a responsabilidade dos uniformes, porque sabiam que por baixo estava igualmente a mesma 
misria bestial da carne...
       - Acabou-se, pensou, dou-lhe uma libra e imponho-a.
       Ns de dedos bateram discretamente  porta do quarto.
       - Entre! disse Amaro sentando-se logo, curvando-se vivamente sobre a mesa, como absorvido, abismado nos seus papis.
       A Dionsia entrou, pousou o pcaro da gua sobre o lavatrio, tossiu, e falando sobre as costas de Amaro: 
       -  senhor proco, olhe que isto assim no tem jeito. Ontem iam vendo sair daqui a pequena.  muito srio, menino... Para bem de todos  necessrio segredo!
       No, no a podia impor! A mulher estabelecia-se,  fora, na sua confidncia. Aquelas palavras mesmo, murmuradas com medo das paredes, revelando uma prudncia 
de ofcio, mostravam-lhe a vantagem duma cumplicidade to experiente.
       Voltou-se na cadeira, muito vermelho.
       - Iam vendo, hem?
       - Iam vendo. Eram dois bbedos... Mas podiam ser dois cavalheiros.
       -  verdade.
       - E na sua posio, senhor proco, na posio da pequena!... Tudo se deve fazer pelo calado... Nem os mveis do quarto devem saber! Em coisas que eu protejo, 
exijo tanta cautela como se se tratasse da morte!
       Amaro ento decidiu-se bruscamente a aceitar a proteo da Dionsia.
       Rebuscou num canto da gaveta, meteu-lhe meia libra na mo.
       - Seja pelo amor de Deus, filho, murmurou ela.
       - Bem; e agora, Dionsia, que lhe parece? perguntou ele, recostado na cadeira, esperando os conselhos da matrona.
       Ela disse, muito naturalmente, sem afetao de mistrio ou de malcia:
       - A mim parece-me que para ver a pequena no h como a casa do sineiro!
       - A casa do sineiro?
       Ela recordou-lhe, muito tranqilamente, a excelente disposio do stio?. Um dos quartos ao p da sacristia, como ele sabia, dava para um ptio onde se tinha 
feito um barraco no tempo das obras. Pois bem, justamente do outro lado eram as traseiras da casa do sineiro... A porta , da cozinha do tio Esguelhas abria para 
o ptio: era sair da sacristia, atravess-lo, e o senhor proco estava no ninho!
       - E ela?
       - Ela entra pela porta do sineiro, pela porta da rua que d para o adro. No passa viva alma,  um ermo. E se algum visse, nada mais natural, era a menina 
Amlia que ia dar um recado ao sineiro... Isto, j se v,   ainda pelo alto, que o plano pode-se aperfeioar...
       - Sim, compreendo,  um esboo, disse Amaro que passeava pelo quarto refletindo.
       - Eu conheo bem o stio, senhor proco, e creia o que lhe digo: para um senhor eclesistico que tem o seu arranjinho, no h melhor que  a casa do sineiro!
       Amaro parou diante dela, rindo, familiarizando-se:
       -  tia Dionsia, diga l com franqueza: no  a primeira vez que voc aconselha a casa do sineiro, hem?
       Ela ento negou, muito decisivamente. Era homem que nem conhecia, o tio Esguelhas! Mas tinha-lhe vindo aquela idia de noite, a malucar na cama. Pela manh 
cedo fora examinar o stio, e reconhecera que estava a calhar. 
       Tossicou, foi-se aproximando sem rudo da porta: e voltando-se ainda, com um ltimo conselho:
       - Tudo est em que vossa senhoria se entenda bem com o sineiro.

***

       Era isso agora o que preocupava o padre Amaro.
       O tio Esguelhas passava na S, entre os serventes e os sacristes, por um macambzio. Tinha uma perna cortada e usava muleta: e alguns sacerdotes, que desejariam 
o emprego para os seus protegidos, sustentavam mesmo que aquele defeito o tornava, segundo a Regra, imprprio para o servio da Igreja. Mas o antigo proco Jos 
Miguis, em obedincia ao senhor bispo, conservara-o na S, argumentando que o trambolho desastroso que motivara a amputao fora na torre, numa ocasio de festa, 
colaborando no culto: ergo estava claramente indicada a inteno de Nosso Senhor em no prescindir do tio Esguelhas. E quando Amaro tomara conta da parquia, o coxo 
valera-se da influncia da S. Joaneira e de Amlia para conservar, como ele dizia, a corda do sino. Era alm disso (e fora a opinio da Rua da Misericrdia) uma 
obra de caridade. O tio Esguelhas, vivo, tinha uma filha de quinze anos paraltica, desde pequena, das pernas. "O diabo embirrou com as pernas da famlia", costumava 
dizer o tio Esguelhas. Era decerto esta desgraa que lhe dava uma tristeza taciturna. Contava-se que a rapariga (cujo nome era Antnia, e que o pai chamava Tot) 
o torturava com perrices, frenesis, caprichos abominveis. O doutor Gouveia declarara-a histrica: mas era uma certeza, para as pessoas de bons princpios, que a 
Tot estava possuda do Demnio. Houvera mesmo o plano de a exorcismar; o senhor vigrio-geral, porm, sempre assustado com a imprensa, hesitara em conceder a permisso 
ritual, e tinham-lhe feito apenas, sem resultado, as asperses simples de gua benta. De resto no se sabia a natureza do endemoninhamento da paraltica: a Sra. 
D. Maria da Assuno ouvira dizer que consistia em uivar como um lobo; a Gansosinho, em outra verso, assegurava que a desgraada se dilacerava com as unhas... O 
tio Esguelhas, esse, quando lhe perguntavam pela rapariga, respondia secamente:
       - L est.
       Os intervalos do seu servio da igreja passava-os todos com a filha no casebre. S atravessava o largo para ir  botica por algum remdio, ou comprar bolos 
 confeitaria da Teresa. Todo o dia aquele recanto da S, o ptio, o barraco, o alto muro ao lado coberto de parietrias, a casa ao fundo com a sua janela de portada 
negra numa parede lazeirenta, permaneciam num silncio, numa sombra mida: e os meninos do coro, que s vezes se arriscavam a ir p ante p, pelo ptio, espreitar 
o tio Esguelhas, viam-no invariavelmente curvado  lareira, com o cachimbo na mo, cuspilhando tristemente para as cinzas.
       Costumava todos os dias respeitosamente ouvir a missa do senhor proco. E Amaro, nessa manh, ao revestir-se, sentindo-lhe nas ljeas do ptio a muleta, ia 
j ruminando a sua histria - porque no podia pedir ao tio Esguelhas o uso do seu casebre sem explicar, de algum modo, que o desejava para um servio religioso... 
E que servio, a no ser preparar, em segredo e longe das oposies mundanas, alguma alma terna para o convento e para a santidade?
       Ao v-lo entrar na sacristia, deu-lhe logo um "bons-dias" amveis. Achou-lhe uma bela cara de sade! Tambm no admirava - porque, segundo todos os santos 
padres, a freqentao dos sinos, pela virtude particular que lhes comunica a consagrao, d uma alegria e um bem-estar especiais. Contou ento com bonomia ao tio 
Esguelhas e aos dois sacristes que, quando era pequeno, em casa da Sra. marquesa de Alegros, o seu grande desejo era ser um dia sineiro...
       Riram muito, extasiando-se com a pilhria de sua senhoria.
       - No se riam,  verdade. E no me ficava mal... Noutros tempos eram clrigos de ordens menores que tocavam os sinos. Os nossos padres consideravam-nos um 
dos meios mais eficazes da piedade. L disse a glosa, pondo o verso na boca do sino:

Laudo deum, populum voco, congrego clerum,
Defunctum ploro, pestem fugo, festa decoro...

       O que quer dizer, como sabem: Louvo a Deus, chamo o povo, congrego o clero, choro os mortos, afugento as pestes, alegro as festas.
       Citava a glosa com respeito, j revestido de amito e alva, no meio da sacristia; e o tio Esguelhas empertigava-se sobre a sua muleta quelas palavras que 
lhe davam uma autoridade e uma importncia imprevista.
       O sacristo tinha-se aproximado com a casula roxa. Mas Amaro no terminara a glorificao dos sinos; - explicou ainda a sua grande virtude em dissipar as 
tempestades (apesar do que dizem alguns sbios presunosos), no s porque comunicam ao ar a uno que recebem da bno, mas porque dispersam os demnios que erram 
entre os vendavais e os troves. O santo conclio de Milo recomenda que se toquem os sinos sempre que haja tormenta...
       - Em todo o caso, tio Esguelhas, acrescentou sorrindo com solicitude pelo sineiro, aconselho-lhe que nesses casos  melhor no se arriscar. Sempre  estar 
no alto, e perto da trovoada... Vamos a isso, tio Matias.
       E recebeu sobre os ombros a casula, murmurando com muita compostura:
       - Domine, qui dixisti jugum meum... Aperte mais os cordes por trs, tio Matias. Suave est, et onus meum leve...
       Fez uma cortesia  imagem e entrou na igreja, na atitude da rubrica, de olhos baixos e corpo direito; enquanto o Matias, depois de ter tambm saudado com 
um raspo de p o Cristo da sacristia, se apressava com as galhetas, tossindo forte para clarear a garganta.
       Durante toda a missa, ao voltar-se para a nave, no Ofertrio e ao Orate, fratres, o padre Amaro dirigia-se sempre (por uma benevolncia que o ritual permite) 
para o sineiro, como se o Sacrifcio fosse por sua inteno particular; - e o tio Esguelhas, com a sua muleta pousada ao lado, abismava-se ento numa devoo mais 
respeitosa. Mesmo ao Benedicat, depois de ter comeado a bno voltado para o altar para recolher do Deus vivo o depsito da Misericrdia, terminou-a, virando-se 
devagar para o tio Esguelhas especialmente, como para lhe dar a ele s as Graas e Dons de Nosso Senhor!
       - E agora, tio Esguelhas, disse-lhe baixo ao entrar na sacristia, v-me esperar ao ptio que temos que conversar.
       No tardou a vir ter com ele, com uma face grave que impressionou o sineiro.
       - Cubra-se, cubra-se, tio Esguelhas. Pois eu venho falar-lhe dum caso srio... Verdadeiramente pedir-lhe um favor...
       - Oh, senhor proco!
       No, no era um favor... Porque, quando se tratava do servio de Deus, todos tinham o dever de concorrer na proporo das suas foras... Tratava-se duma menina 
que se queria fazer freira. Enfim, para lhe provar a confiana que tinha nele, ia-lhe dizer o nome...
       -  a Ameliazinha da S. Joaneira!
       - Que me diz, senhor proco?!
       - Uma vocao, tio Esguelhas! V-se o dedo de Deus!  extraordinrio...
       Contou-lhe ento uma histria difusa que ia forjando laboriosamente, segundo as sensaes que imaginava ver na face pasmada do sineiro. A rapariga desgostara-se 
da vida, com as desavenas que tivera com o noivo. Mas a me que estava velha, que a necessitava para o governo da casa, no queria consentir, supondo que era uma 
veleidade... Mas no, era vocao... Ele sabia-o... Infelizmente, quando havia oposio, a conduta do sacerdote era muito delicada... Todos os dias os jornais mpios 
(e infelizmente era a maioria!) gritavam contra as influncias do clero... As autoridades, mais mpias que os jornais, punham obstculos... Havia leis terrveis... 
Se soubessem que ele andava a instruir a menina para professar, ferravam-no na cadeia! Que queria o tio Esguelhas?... Impiedade, atesmo do tempo!
       Ora, ele necessitava ter com a pequena muitas e muitas conferncias: para a experimentar, para conhecer as suas disposies, ver bem se  para a Solido que 
ela tem jeito, ou para a Penitncia, ou para o servio dos enfermos, ou para a Adorao Perptua, ou para o Ensino... Enfim, estuda-la por dentro e por fora.
       - Mas onde? exclamou, abrindo os braos como na desolao de um santo dever contrariado. Onde? Em casa da me no pode ser, j andam desconfiados. Na igreja 
impossvel, era o mesmo que na rua. Em minha casa, j v, menina nova...
       - Est claro.
       - De modo que, tio Esguelhas... E estou certo que voc mo h-de agradecer... pensei na sua casa...
       - Oh, senhor proco, acudiu o sineiro, eu, a casa, os trastes, est tudo s ordens!
       - Bem v,  no interesse daquela alma,  um regozijo para Nosso Senhor...
       - E para mim, senhor proco, e para mim!
       O que o tio Esguelhas receava  que a casa no fosse decente e no tivesse as comodidades...
       - Oral fez o padre sorrindo, num renunciamento de todos os confortos humanos. Contanto que haja duas cadeiras e uma mesa para pr o livro da orao...
       De resto, por outro lado, dizia o sineiro, l como stio retirado e casa sossegada estava a preceito. Ficavam ali, ele e a menina, como os monges no deserto. 
Nos dias em que o senhor proco viesse, ele saa a dar o seu giro. Na cozinha no poderiam acomodar-se, porque o quartito da pobre Tot era ao p... Mas tinham o 
quarto dele, em cima.
       O padre Amaro bateu com a mo na testa. No se lembrara da paraltica!
       - Isso estraga-nos o arranjinho, tio Esguelhas! exclamou.
       Mas o sineiro tranqilizou-o, vivamente. Estava agora todo interessado naquela conquista de uma noiva para Nosso Senhor; queria por fora que o seu telhado 
abrigasse a santa preparao da alma da menina... Talvez lhe atrasse a ele a piedade de Deus! Mostrou com calor as vantagens, as facilidades da casa. A Tot no 
embaraava. No se mexia da cama. O senhor proco entrava pela cozinha do lado da sacristia, a menina vinha pela porta da rua: subiam, fechavam-se no quarto...
       - E ela que faz, a Tot? perguntou o padre Amaro, hesitando ainda.
       Coitadita, para ali estava... Tinha manias: ora fazia bonecas e apaixonava-se por elas a ponto de ter febre; outros dias passava-os num silncio medonho com 
os olhos cravados na parede. Mas s vezes estava alegre, palrava, chalaceava... Uma desgraa!
       - Devia-se entreter, devia ler, disse o padre Amaro para mostrar interesse.
       O sineiro suspirou. No sabia ler, a pequena, nunca quisera aprender. Era o que ele lhe dizia - se pudesses ler, j te no pesava tanto a vida! Mas ento? 
Tinha horror a aplicar-se... O Sr. padre Amaro devia ter a caridade de a persuadir, quando viesse a casa...
       Mas o proco no o escutava, todo abismado numa idia que lhe alumiara a face dum sorriso. Achara subitamente a explicao natural a dar  S. Joaneira e s 
amigas das visitas de Amlia a casa do sineiro: era a ensinar a ler a paraltica! A educ-la! A abrir-lhe a alma s belezas dos livros santos, da histria dos mrtires 
e da orao!...
       - Est decidido, tio Esguelhas, exclamou, esfregando as mos de jbilo.  em sua casa que se h-de fazer da rapariga uma santa. E disto - e a sua voz deu 
um grave profundo - um segredo inviolvel!
       - Oh, senhor proco! fez o sineiro, quase ofendido.
       - Conto consigo! disse Amaro.
       Veio logo  sacristia escrever um bilhete, que devia passar em segredo a Amlia, em que lhe explicava detalhadamente o "arranjinho que fizera para gozarem 
novas e divinas felicidades". Prevenia-a que o pretexto para ela vir todas as semanas a casa do sineiro devia ser a educao da paraltica: ele mesmo o proporia 
 noite, em casa da mam. "Que nisto, dizia, h alguma verdade, pois seria grato a Deus que se alumiasse com uma boa instruo religiosa as trevas daquela alma. 
E matamos assim, querido anjo, dois coelhos com uma s cacheirada!"
       Depois, entrou em casa. Como se sentou regaladamente  mesa do almoo, com um contentamento pleno de si, da vida e das doces facilidades que nela encontrava! 
Cimes, dvidas, torturas do desejo, solido da carne, tudo o que o consumira meses e meses, alm na Rua da Misericrdia e ali na Rua das Sousas, passara. Estava 
enfim instalado  larga na felicidade! E recordava, abismado num gozo mudo, com o garfo esquecido na mo, toda aquela meia hora da vspera, prazer por prazer, ressaboreando-os 
mentalmente um a um, saturando-se da deliciosa certeza da posse - como o lavrador que percorre a leira de terra adquirida que os seus olhos invejaram muitos anos. 
Ah, no tomaria a olhar de lado, com azedume, os cavalheiros que passeavam na Alameda com as suas mulheres pelo brao! Tambm ele agora tinha uma, toda sua, alma 
e carne, linda, que o adorava, que usava boas roupas brancas, e trazia no peito um cheirinho de gua-de-colnia! Era padre,  verdade... Mas para isso tinha o seu 
grande argumento:  que o comportamento do padre, logo que no d escndalo entre os fiis, em nada prejudica a eficcia, a utilidade, a grandeza da religio. Todos 
os telogos ensinam que a ordem dos sacerdotes foi instituda para administrar os sacramentos; o essencial  que os homens recebam a santidade interior e sobrenatural 
que os sacramentos contm; e contanto que eles sejam dispensados segundo as frmulas consagradas, que importa que o sacerdote seja santo ou pecador? O sacramento 
comunica a mesma virtude. No  pelos mritos do sacerdote que eles operam, mas pelos mritos de Jesus Cristo. O que  batizado ou ungido, ou seja por mos puras 
ou por mos torpes, fica igualmente bem lavado da mcula original, ou bem preparado para a vida eterna. Isto l-se em todos os santos padres, estabeleceu-o o serfico 
conclio de Trento. Os fiis nada perdem, na sua alma e na sua salvao, com a indignidade do proco. E se o proco se arrepende  hora extrema, tambm se lhe no 
fecham as portas do Cu. Logo em definitivo tudo acaba bem, e em paz geral... - E o padre Amaro, raciocinando assim, sorvia com prazer o seu caf.
       A Dionsia, ao fim do almoo, veio saber, muito risonha, se o senhor proco falara ao tio Esguelhas...
       - Falei por alto, disse ele ambiguamente. No h nada decidido... Roma no se construiu num dia.
       - Ah! fez ela.
       E recolheu-se  cozinha, pensando que o senhor proco mentia como um herege. Tambm, no se importava... Nunca gostara de arranjos com os senhores eclesisticos; 
pagavam mal, e suspeitavam sempre...
       E mesmo ouvindo Amaro que saa, correu  escada, a dizer-lhe - que enfim, ela tinha a olhar pela sua casa, e quando o senhor proco tivesse arranjado criada. 
..
       - A Sra. D. Josefa Dias anda-me a tratar disso, Dionsia. Espero ter algum amanh. Mas voc aparea... Agora que somos amigos...
       - Quando o senhor proco quiser  chamar-me da janela para o quintal, disse ela do alto da escada. Para tudo o que precisar. De tudo sei um bocadinho; at 
de desarranjos e de partos... E neste ponto posso at dizer...
       Mas o padre no a escutava: atirara com a porta de repelo, fugindo, indignado daquela utilidade torpe assim brutalmente oferecida.

***

       Foi dai a dias que ele falou em casa da S. Joaneira da filha do sineiro.
       Na vspera dera o bilhete a Amlia; e nessa noite, enquanto na sala se galrava alto, aproximara-se do piano, onde Amlia, com os dedos preguiosos, corria 
escalas, e abaixando-se para acender o cigarro  vela, murmurara.
       - Leu?
       - timo!
       Amaro recolheu logo ao grupo das senhoras, onde a Gansoso estava contando uma catstrofe que lera num jornal, sucedida em Inglaterra: uma mina de carvo que 
desabara, sepultando cento e vinte trabalhadores. As velhas arrepiavam-se horrorizadas. A Gansoso ento, gozando o efeito, acumulou loquazmente os detalhes: a gente 
que estava fora esforara-se por desatulhar os infelizes; ouviam-se-lhes embaixo gemidos e os ais; era ao lusco-fusco; havia uma tormenta de neve...
       - Desagradvel! rosnou o cnego, aconchegando-se na sua poltrona, gozando o calor da sala e a segurana dos tetos.
       A Sra. D. Maria da Assuno declarou que todas essas minas, essas mquinas estrangeiras lhe causavam medo. Vira uma fbrica ao p de Alcobaa, e parecera-lhe 
uma imagem do inferno. Estava certa que Nosso Senhor no as via com bons olhos...
       -  como os caminhos de ferro, disse D. Josefa. Tenho a certeza que foram inspirados pelo demnio! No o digo a rir. Mas vejam aqueles uivos, aquele fogaracho, 
aquele fragor! Ai, arrepia!
O padre Amaro galhofou, - assegurando  Sra. D. Josefa que eram ricamente cmodos para andar depressa! Mas, tomando-se logo srio, acrescentou:
       - Em todo o caso  incontestvel que h nessas invenes da cincia moderna muito do demnio. E  por isso que a nossa santa Igreja as abenoa, primeiro com 
oraes e depois com gua benta. Ho-de saber que  o costume. Com gua benta, para lhes fazer o exorcismo, expulsar o esprito inimigo: e com oraes para as resgatar 
do pecado original que no s existe no homem, mas nas coisas que ele constri.  por isso que se benzem e se purificam as locomotivas... Para que o demnio no 
se possa servir delas para seu uso.
       D. Maria da Assuno quis imediatamente uma explicao. Como em a maneira usual do Inimigo se servir dos caminhos de ferro?
       O padre Amaro esclareceu-a, com bondade. O Inimigo tinha muitas maneiras, mas a habitual era esta: fazia descarrilar um trem de modo que morressem passageiros, 
e como essas almas no estavam preparadas pela Extrema-Uno, o demnio ali mesmo, zs, apoderava-se delas!
       -  de velhaco! rosnou o cnego com uma admirao secreta por aquela manha to hbil do Inimigo.
       Mas D. Maria da Assuno abanou-se langorosamente, com o rosto banhado num sorriso de beatitude:
       - Ai, filhas! dizia pausadamente para os lados, a ns  que no nos sucedia isso... Que no nos pilhava desprevenidas!
       Era verdade; e todas gozaram um momento aquela certeza deliciosa de estarem preparadas, de poderem lograr a malcia do Tentador!
       O padre Amaro ento tossiu como para preparar as vias, e apoiando as duas mos sobre a mesa, num tom de prtica:
       -  necessrio muita vigilncia para conservar de longe o demnio. Ainda hoje eu estava a pensar nisso (foi mesmo a minha meditao) a respeito de um caso 
bem triste que tenho l ao p da S...  a filhita do sineiro.
       As senhoras tinham chegado as cadeiras, bebendo-lhe as palavras, numa curiosidade subitamente excitada, esperando ouvir a histria picante de alguma faanha 
de Satans. E o proco continuou com uma voz a que o silncio em redor dava solenidade:
       - Ali est aquela rapariga, todo o santo dia, pregada na cama! No sabe ler, no tem devoes habituais, no tem o costume da meditao;  por conseqncia, 
para empregar a expresso de S. Clemente - uma alma sem defesa. O que sucede? Que o demnio, que ronda constantemente e no perde dentada, estabelece-se ali como 
em sua casa! Por isso, como me dizia hoje o pobre tio Esguelhas, so frenesis, desesperos, furores sem razo... Enfim o pobre homem tem a vida estragada.
       - E a dois passos da igreja do Senhor! exclamou D. Maria da Assuno, indignada daquela impudncia de Satans, instalando-se num corpo, num leito, que apenas 
a estreiteza do ptio separava dos contrafortes da S.
       Amaro acudiu:
       - Tem a D. Maria razo. O escndalo  enorme. Mas ento? Se a rapariga no sabe ler! Se no sabe uma orao, se no tem quem a instrua, quem lhe leve a palavra 
de Deus, quem a fortifique, quem lhe ensine o segredo de frustrar o Inimigo!...
       Ergueu-se animado, deu alguns passos pela sala, de ombros vergados, numa mgoa de pastor a quem uma fora desproporcional arrebata uma ovelha amada. E, exaltado 
pelas suas palavras, sentia, com efeito, uma piedade que o invadia, uma compaixo verdadeira por aquela pobre criatura, a quem a falta de consolaes devia tornar 
mais intensa a agonia da imobilidade...
       As senhoras olhavam-se, magoadas com aquele caso triste de abandono de alma, - sobretudo pela dor que ele parecia trazer ao senhor cnego.
       A Sra. D. Maria da Assuno, que percorria em imaginao o abundante arsenal da devoo, lembrara logo que se lhe pusessem alguns santos  cabeceira, como 
S. Vicente, Nossa Senhora das Sete Chagas... Mas o silncio das amigas exprimiu bem a insuficincia daquela galeria devota.
       - As senhoras dir-me-o, talvez, disse o padre Amaro sentando-se de novo, que se trata apenas da filha do sineiro. Mas  uma alma!  uma alma como as nossas!
       - Todos tm direito  graa do Senhor, disse o cnego gravemente, num sentimento de imparcialidade, admitindo a igualdade das classes logo que no se tratava 
de bens materiais e apenas dos confortos do Cu.
       - Para Deus no h pobre nem rico, suspirou a S. Joaneira. Antes pobre, que dos pobres  o reino do Cu.
       - No, antes rico, acudiu o cnego, estendendo a mo para deter aquela falsa interpretao da lei divina. Que o Cu tambm  para os ricos. A senhora no 
compreende o preceito Beati pauperes, benditos os pobres, quer dizer que os pobres devem-se achar felizes na pobreza; no desejarem os bens dos ricos; no quererem 
mais que o bocado de po que tm; no aspirarem a participar das riquezas dos outros, sob pena de no serem benditos.  por isso, saiba a senhora, que essa canalha 
que prega que os trabalhadores e as classes baixas devem viver melhor do que vivem, vai de encontro  expressa vontade da Igreja e de Nosso Senhor, e no merece 
seno chicote, como excomungados que so! Ouf!
       E estirou-se, extenuado de ter falado tanto. O padre Amaro, esse, permanecia calado, com o cotovelo sobre a mesa, esfregando devagar a testa. Ia lanar a 
sua idia, como vinda de uma inspirao divina, propor que fosse Amlia levar uma educao devota  triste paraltica... E hesitava supersticiosamente diante do 
seu motivo todo carnal, todo de concupiscncia. A filha do sineiro aparecia-lhe agora, exageradamente, abismada numa treva de agonia. Sentia toda a caridade que 
haveria em consol-la, entret-la, fazer-lhe os dias menos amargos... Esta ao redimiria decerto muitas culpas, encantaria Deus, se fosse feita num puro esprito 
de fraternidade crist! Vinha-lhe uma compaixo sentimental de bom rapaz por aquele miservel corpo pregado numa cama sem nunca ver o sol nem a rua... E ali estava 
embaraado, naquela piedade que o invadia, sem se decidir, coando a nuca, arrependido quase de ter falado s senhoras da Tot... Mas D. Joaquina Gansoso tivera 
uma idia:
       -  Sr. padre Amaro, se se lhe mandasse aquele livro com pinturas de vidas dos santos? Eram pinturas que edificavam. A mim tocavam-me a alma... No s tu 
que o tens, Amlia?
       - No, disse ela, sem erguer os olhos da costura.
       Amaro ento olhou-a. Tinha-a quase esquecido. Estava agora do outro lado da mesa, abainhando um esfrego: a risca muito fina desaparecia na abundncia espessa 
do cabelo, onde a luz do candeeiro ao lado punha um trao lustroso; as pestanas pareciam mais longas, mais negras sobre a pele da face, dum trigueiro clido, que 
uma tinta rosada aquecia; o vestido justo, que se franzia numa prega sobre o ombro, elevava-se amplamente sobre a forma dos peitos, que ele via arfar no ritmo da 
respirao igual... Era aquela a beleza que mais apetecia nela; imaginava-os duma cor de neve, redondos e cheios; tivera-a nos braos, sim, mas vestida, e as suas 
mos sfregas tinham encontrado s a seda fria... Mas na casa do sineiro seriam dele, sem obstculo, sem vestido,  disposio dos seus lbios. Por Deus! e nada 
impedia que ao mesmo tempo consolassem a alma da Tot! No hesitou mais. E erguendo a voz, no meio do palratrio das velhas que discutiam agora a desapario da 
Vida dos Santos:
       - No, minhas senhoras, no  com livros que se vale  rapariga. Sabem a idia que me veio? Era um de ns, o que estiver menos ocupado, levar-lhe a palavra 
de Deus e educar aquela alma! - E acrescentou, sorrindo: - E a falar a verdade, a pessoa mais desocupada aqui de todos ns  a menina Amlia...
       Ento foi uma surpresa! Pareceu a mesma vontade de Nosso Senhor vinda numa revelao. Os olhos de todas acenderam-se numa excitao devota,  idia daquela 
misso de caridade, que partia ali delas, da Rua da Misericrdia... Extasiavam-se, no antegosto guloso dos elogios do senhor chantre e do cabido! Cada uma dava o 
seu conselho, numa assiduidade de participar da santa obra, de partilharem as recompensas que o Cu certamente prodigalizaria. D. Joaquina Gansoso declarou com calor 
que invejava Amlia; e chocou-se muito vendo-a de repente rir.
       - Imaginas que no o faria com a mesma devoo? J ests com orgulho da boa ao... Olha que assim no te aproveita!
       Mas Amlia continuava tomada de um riso nervoso, deitada para as costas da cadeira, sufocando-se para se conter.
       Os olhinhos de D. Joaquina chamejavam.
       -  indecente,  indecente! gritava.
       Calmaram-na: Amlia teve de lhe jurar sob os Santos Evangelhos que fora uma idia extravagante que tivera, que era nervoso...
       - Ai, disse D. Maria da Assuno, ela tem razo em se orgulhar. Que  uma honra para a casa! Em se sabendo...
       O proco interrompeu com severidade:
       - Mas no se deve saber, Sra. D. Maria da Assuno! De que serve, aos olhos do Senhor, uma boa obra de que se tire alarde e vanglria?
       D. Maria vergou os ombros, humilhando-se  repreenso. E Amaro, com gravidade:
       - Isto no deve sair daqui.  entre Deus e ns. Queremos salvar uma alma, consolar uma enferma, e no ter elogios nos peridicos. Pois no  assim, padre-mestre?
       O cnego ergueu-se pesadamente:
       - Voc esta noite tem falado com a lngua de ouro de S. Crisstomo. Eu estou edificado; e no se me dava agora de ver aparecer as torradas.
       Foi ento, enquanto a Rua no trazia o ch, que se decidiu que Amlia, todas as semanas, uma ou duas vezes segundo fosse a sua devoo, iria em segredo, 
para que a ao fosse mais valiosa aos olhos de Deus, passar uma hora  cabeceira da paraltica, ler-lhe a Vida dos Santos, ensinar-lhe rezas e insuflar-lhe a virtude.
       - Enfim, resumiu a Sra. D. Maria da Assuno voltando-se para Amlia, no te digo seno uma coisa: abichaste!
       A Rua entrou com o tabuleiro, no meio dos risos que provocara a "tolice de D. Maria", como disse Amlia, que se fizera escarlate. - E foi assim que ela e 
o padre Amaro se puderam ver livremente, para glria do Senhor e humilhao do Inimigo.

***

       Encontravam-se todas as semanas, ora uma ora duas vezes, de modo que as suas visitas caridosas  paraltica perfizessem ao fim do ms o nmero simblico de 
sete, que devia corresponder, na idia das devotas, s Sete Lies de Maria. Na vspera o padre Amaro tinha prevenido o tio Esguelhas, que deixava a porta da rua 
apenas cerrada, depois de ter varrido toda a casa e preparado o quarto para a prtica do senhor proco. Amlia nesses dias erguia-se cedo; tinha sempre alguma saia 
branca a engomar, algum laarote a compor; a me estranhava-lhe aqueles arrebiques, o desperdcio de gua-de-colnia de que ela se inundava; mas Amlia explicava 
que "era para inspirar  Tot idias de asseio e de frescura". E depois de vestida sentava-se, esperando as onze horas, muito sria, respondendo distraidamente s 
conversas da me, com uma cor nas faces, os olhos cravados nos ponteiros do relgio: enfim a velha matraca gemia cavamente as onze horas, e ela, depois de uma olhadela 
ao espelho, saa, dando uma beijoca  mam.
       Ia sempre receosa, numa inquietao de ser espreitada. Todas as manhs pedia a Nossa Senhora da Boa Viagem que a livrasse de maus encontros; e se via um pobre 
dava-lhe invariavelmente esmola, para lisonjear os gostos de Nosso Senhor, amigo dos mendigos e vagabundos. O que a assustava era o Largo da S, sobre o qual a Amparo 
da botica, costurando por trs da janela, exercia uma vigilncia incessante. Fazia-se ento pequenina no seu mantelete, e abaixando o guarda-sol sobre o rosto, entrava 
enfim na S, sempre com o p direito.
       Mas a mudez da igreja, deserta e adormecida numa luz fosca, amedrontava-a; parecia-lhe sentir, na taciturnidade dos santos e das cruzes, uma repreenso ao 
seu pecado; imaginava que os olhos de vidro das imagens, as pupilas pintadas dos painis se fixavam nela, com uma insistncia cruel, e percebiam o arfar que ao seu 
seio dava a esperana do prazer. s vezes mesmo, atravessada duma superstio, para dissipar o descontentamento dos santos, prometia dar-se nessa manh toda  Tot, 
ocupar-se caridosamente s dela, e no se deixar tocar sequer no vestido pelo Sr. padre Amaro. Mas se ao entrar na casa do sineiro o no encontrava, ia logo, sem 
se deter ao p da cama da Tot, postar-se  janela da cozinha, vigiando a porta macia da sacristia, de que ela conhecia uma por uma as chapas negras de ferro.
       Ele aparecia, enfim. Era ento nos comeos de maro; j tinham chegado as andorinhas; ouviam-nas chilrear, naquele silncio melanclico, esvoaando entre 
os contrafortes da S. Aqui e alm, plantas dos lugares midos cobriam os cantos de uma verdura escura. Amaro, s vezes muito galante, ia procurar uma florzinha. 
Amlia impacientava-se, rufava na vidraa da cozinha. Ele apressava-se; ficavam um momento  porta, apertando-se as mos, com olhos brilhantes que se devoravam; 
e iam enfim ver a Tot - e dar-lhe os bolos que o proco lhe trazia no bolso da batina.
       A cama da Tot era na alcova, ao lado da cozinha; o seu corpinho de tsica quase no fazia salincia enterrado na cova da enxerga, sob os cobertores enxovalhados 
que ela se entretinha a esfiar. Nesses dias tinha vestido um chambre branco, os cabelos reluziam-lhe de leo; porque ultimamente, desde as visitas de Amaro, viera-lhe 
"uma birra de parecer algum", como dizia encantado o tio Esguelhas, a ponto de se no querer separar dum espelho e dum pente que escondia debaixo do travesseiro 
e obrigar o pai a encafuar sob a cama, entre a roupa suja, as bonecas que agora desprezava.
       Amlia sentava-se um instante aos ps do catre, perguntando-lhe se estudara o ABC, obrigando-a a dizer aqui e alm o nome duma letra. Depois queria que ela 
repetisse sem errar a orao que lhe andava ensinando; - enquanto o padre, sem passar da porta, esperava, com as mos no bolsos, enfastiado, embaraado com os olhos 
reluzentes da paraltica que o no deixavam, penetrando-o, percorrendo-lhe o corpo com pasmo e com ardor, e que pareciam maiores e mais brilhantes no seu rosto trigueiro 
to chupado que se lhe via a salincia das maxilas. No sentia agora nem compaixo nem caridade pela Tot; detestava aquela demora; achava a rapariga selvagem e 
embirrenta. A Amlia tambm pesavam aqueles momentos em que, para no escandalizar muito Nosso Senhor, se resignava a falar  paraltica. A Tot parecia odi-la; 
respondia-lhe muito carrancuda; outras vezes persistia num silncio rancoroso, voltada para a parede; um dia despedaara o alfabeto; e encolhia-se toda encruada 
se Amlia lhe queria compor o xale sobre os ombros ou conchegar-lhe a roupa...
       Enfim Amaro, impaciente, fazia um sinal a Amlia; ela punha logo diante da Tot o livro com estampas da Vida dos Santos.
       - V, ficas agora a ver as figuras... Olha, este  S. Mateus, esta Santa Virgnia... Adeus, eu vou l acima com o senhor proco rezarmos para que Deus te 
d sade e te deixe ir passear... No estragues o livro, que  pecado.
       E subiam a escada, enquanto a paraltica, estendendo o pescoo sofregamente, os seguia, escutando o ranger dos degraus, com os olhos chamejantes que lgrimas 
de raiva enevoavam. O quarto, em cima, era muito baixo, sem forro, com um teto de vigas negras sobre que assentavam as telhas. Ao lado da cama pendia a candeia que 
pusera sobre a parede um penacho negro d fumo. E Amaro ria sempre dos preparativos que fizera o tio Esguelhas - a mesa ao canto com o Novo Testamento, uma caneca 
de gua, e duas cadeiras dispostas ao lado...
       -  para a nossa conferncia, para te ensinar os deveres de freira, dizia ele, galhofando.
       - Ensina, ento! murmurava ela, de braos abertos, pondo-se diante do padre, com um sorriso clido onde brilhava um branquinho dos dentes, num abandono que 
se oferecia.
       Ele atirava-lhe beijos vorazes pelo pescoo, pelos cabelos; s vezes mordia-lhe a orelha; ela dava um gritinho; e ficavam ento muito quedos, escutando, com 
medo da paraltica embaixo. O proco depois fechava as portadas da janela e a porta muito perra que tinha de empurrar com o joelho. Amlia ia-se despindo devagar; 
e com as saias cadas aos ps ficava um momento imvel, como uma forma branca na escurido do quarto. Em redor o padre, preparando-se, respirava forte. Ela ento 
persignava-se depressa, e sempre ao subir para o leito dava um suspirozinho triste.
       Amlia s podia demorar-se at ao meio-dia. O padre Amaro por isso pendurava o seu cebolo no prego da candeia. Mas quando no ouviam as badaladas da torre, 
Amlia conhecia a hora pelo cantar dum galo vizinho.
       - Devo ir, filho, murmurava toda cansada.
       - Deixa l... Ests sempre com a pressa...
       Ficavam ainda uns momentos calados, numa lassido doce, muito chegados um ao outro. Pelas vigas separadas do telhado mal junto viam aqui e alm fendas de 
luz: s vezes sentiam um gato, com as suas passadas fofas, vadiar, fazendo bulir alguma telha solta; ou um pssaro, pousando, chilreava e ouviam-lhe o frmito das 
asas.
       - Ai, so horas, dizia Amlia.
       O padre queria det-la; no se fartava de lhe beijar a orelhinha.
       - Lambo! murmurava ela. Deixe-me!
       Vestia-se  pressa no escuro do quarto; depois ia abrir a janela, vinha ainda abraar o pescoo de Amaro, que ficara estatelado sobre o leito; e ia enfim 
arrastar a mesa e as cadeiras, para a paraltica sentir embaixo, saber que tinham acabado a conferncia.
       Amaro no findava ainda de a beijocar: ela ento, para acabar, fugia- lhe, ia escancarar a porta do quarto; o padre descia, atravessava em duas passadas a 
cozinha sem olhar para a Tot, e entrava na sacristia.
       Amlia, essa, antes de sair, vinha ver a paraltica, saber se gostara das estampas. Encontrava-a s vezes com a cabea debaixo dos cobertores, que entalava 
e prendia com as mos para se esconder; outras vezes, sentada na cama, examinava Amlia com olhos em que se acendia uma curiosidade viciosa; chegava o rosto para 
ela, com as narinas dilatadas que pareciam cheir-la; Amlia recuava, inquieta, corando tambm; queixava-se ento de ser tarde, recolhia a Vida dos Santos, - e saa, 
amaldioando aquela criatura to maliciosa na sua mudez.

***

       Ao passar no largo, quela hora, via sempre a Amparo  janela. Ultimamente mesmo julgara prudente contar-lhe em segredo a sua caridade com a Tot. A Amparo, 
mal a via, chamava-a; e debruando-se toda na varanda:
       - Ento como vai a Tot?
       - L vai. 
       - J l? 
       - J soletra.
       - E a orao a Nossa Senhora?
       - J a diz.
       - Ai, que devoo a tua, filha!
       Amlia baixava os olhos, modesta. E o Carlos, que estava tambm no segredo, deixava o balco para vir  porta admirar Amlia.
       - Vem da sua grande misso de caridade, hem? dizia, de olho arregalado, balanceando-se na ponta das chinelas.
       - Estive um bocado com a pequena, a entret-la...
       - Grandioso! murmurava o Carlos. Um apostolado! Pois v, minha santa menina, recados  mam.
       Voltava-se ento para dentro, para o praticante:
       - Veja o Sr. Augusto aquilo... Em lugar de passar o seu tempo, como as outras, em namoros, faz-se anjo da guarda! Passa a flor dos anos com uma entrevada! 
Veja o senhor se a filosofia, o materialismo, e essas porcarias so capazes de inspirar aes deste jaez... S a religio, meu caro senhor! Eu queria que os Renans 
e essa cambada de filsofos vissem isto! Que eu, tenha o senhor em vista, admiro a filosofia, mas quando ela, por assim dizer, vai de mos dadas com a religio... 
Sou homem de cincia e admiro um Newton, um Guizot... Mas (e grave o senhor estas palavras) se a filosofia se afasta da religio... (grave bem estas palavras) dentro 
de dez anos, Sr. Augusto, est a filosofia enterrada!
       E continuava a mexer-se pela farmcia a passos lentos, de mos atrs das costas, ruminando o fim da filosofia.

XVII


       Foi aquele o perodo mais feliz da vida de Amaro.
       "Ando na graa de Deus", pensava ele s vezes  noite, ao despir- se, quando por um hbito eclesistico, fazendo o exame dos seus dias, via que eles se seguiam 
fceis, to confortveis, to regularmente gozados. No houvera, nos ltimos dois meses, nem atritos nem dificuldades no servio da parquia; todo o mundo, como 
dizia o padre Saldanha, andava dum humor de santo. D. Josefa Dias arranjara-lhe muito barata uma cozinheira excelente, e que se chamava Escolstica. Na Rua da Misericrdia 
tinha a sua corte admiradora e devota; cada semana, uma ou duas vezes, vinha aquela hora deliciosa e celeste na casa do tio Esguelhas; e para completar a harmonia 
at a estao ia to linda, que j no Morenal comeavam a abrir as rosas.
       Mas o que o encantava era que nem as velhas, nem os padres, ningum da sacristia suspeitava os seus rendez-vous com Amlia. Aquelas visitas  Tot tinham 
entrado nos costumes da casa; chamavam-lhe "as devoes da pequena"; e no a interrogavam com particularidades, pelo princpio beato que as devoes so um segredo 
que se tem com Nosso Senhor. S s vezes alguma das senhoras perguntava a Amlia - como ia a doente; ela assegurava que estava muito mudada, que comeava a abrir 
os olhos  lei de Deus; ento, muito discretamente, falavam de coisas diferentes. Havia apenas o plano vago de irem um dia, mais tarde, quando a Tot soubesse bem 
o seu catecismo e pela eficcia da orao se tivesse tomado boa, admirar em romaria a obra santa de Amlia e a humilhao do Inimigo.
       Amlia mesmo, perante esta confiana to larga na sua virtude, propusera um dia a Amaro, como muito hbil - dizer s amigas que o senhor proco s vezes vinha 
assistir  prtica piedosa que ela fazia  Tot...
       - Assim, se algum te surpreendesse a entrar para a casa do tio Esguelhas, j no havia suspeitas.
       - No me parece necessrio, disse ele. Deus est conosco, filha,  claro. No queiramos intrometer-nos nos seus planos. Ele v mais longe que ns...
       Ela concordou logo - como em tudo que saa dos seus lbios. Desde a primeira manh, na casa do tio Esguelhas, ela abandonara-se-lhe absolutamente, toda inteira, 
corpo, alma, vontade e sentimento: no havia na sua pele um cabelinho, no corria no seu crebro uma idia a mais pequenina, que no pertencesse ao senhor proco. 
Aquela possesso de todo o seu ser no a invadira gradualmente; fora completa, no momento que os seus fortes braos se tinham fechado sobre ela. Parecia que os beijos 
dele lhe tinham sorvido, esgotado a alma: agora era como uma dependncia inerte da sua pessoa. E no lho ocultava; gozava em se humilhar, oferecer-se sempre, sentir-se 
toda dele, toda escrava; queria que ele pensasse por ela e vivesse por ela; descarregara-se nele, com satisfao, daquele fardo da responsabilidade que sempre lhe 
pesara na vida; os seus juzos agora vinham-lhe formados do crebro do proco, to naturalmente como se sasse do corao dele o sangue que lhe corria nas veias. 
"O senhor proco queria ou o senhor proco dizia" era para ela uma razo toda suficiente e toda poderosa. Vivia com os olhos nele, numa obedincia animal: tinha 
s a curvar- se quando ele falava, e quando vinha o momento a desapertar o vestido.
       Amaro gozava prodigiosamente esta dominao; ela desforrava-o de todo um passado de dependncias - a casa do tio, o seminrio, a sala branca do Sr. conde 
de Ribamar... A sua existncia de padre era uma curvatura humilde que lhe fatigava a alma; vivia da obedincia ao senhor bispo,  cmara eclesistica, aos cnones, 
 Regra que nem lhe permitia ter uma vontade prpria nas suas relaes com o sacristo. E agora, enfim, tinha ali aos seus ps aquele corpo, aquela alma, aquele 
ser vivo sobre quem reinava com despotismo. Se passava os seus dias, por profisso, louvando, adorando e incensando Deus, - era ele tambm agora o Deus duma criatura 
que o temia e lhe dava uma devoo pontual. Para ela ao menos, era belo, superior aos condes e aos duques, to digno da mitra como os mais sbios. Ela mesma, um 
dia, dissera-lhe, depois de ter estado um momento pensativa:
       - Tu podias chegar a papa!
       - Desta massa se fazem, respondeu ele com seriedade.
       Ela acreditava-o - com um receio, todavia, que as altas dignidades o afastassem dela, o levassem para longe de Leiria. Aquela paixo, em que estava abismada 
e que a saturava, tomara-a estpida e obtusa a tudo o que no respeitava ao senhor proco ou ao seu amor. Amaro de resto no lhe consentia interesses, curiosidades 
alheias  sua pessoa. Proibia-lhe at que lesse romances e poesias. Para que se havia de fazer doutora? Que lhe importava o que ia no mundo? Um dia que ela falara, 
com algum apetite, dum baile que iam dar os Vias-Claras, ofendeu-se como duma traio. Fez- lhe em casa do tio Esguelhas acusaes tremendas: era uma vaidosa, uma 
perdida, uma filha de Satans!...
       - Mas mato-te! Percebes? Mato-te! exclamou agarrando-lhe os pulsos, fulminando-a com o olhar aceso.
       Tinha um medo, que o pungia, de a ver subtrair-se ao seu imprio, perder-lhe a adorao muda e absoluta. Pensava s vezes que ela se fatigaria, com o tempo, 
dum homem que no lhe satisfazia as vaidades e os gostos de mulher, sempre metido na sua batina negra, com a cara rapada e a coroa aberta. Imaginava que as gravatas 
de cores, os bigodes bem torcidos, um cavalo que trota, um uniforme de lanceiros exercem sobre as mulheres uma fascinao decisiva. E se a ouvia falar de algum oficial 
do destacamento, de algum cavalheiro da cidade, eram cimes desabridos...
       - Gostas dele? Hem!  pelos trapos, pelo bigode?...
       - Gosto dele! Oh, filho, eu nunca vi o homem!
       Mas escusava de falar da criatura, ento! Era ter curiosidade, pr o pensamento noutro! Dessas faltas de vigilncia sobre a alma e a vontade  que se aproveitava 
o demnio!...
       Viera assim a ter um dio a todo o mundo secular - que a poderia atrair, arrastar para fora da sombra da sua batina. Impedia-lhe, com pretextos complicados, 
toda a comunicao com a cidade. Convenceu mesmo a me que a no deixasse ir s  Arcada e s lojas. E no cessava de lhe representar os homens como monstros de 
impiedade, cobertos de pecados como duma crosta, estpidos e falsos, votados ao Inferno! Contava-lhe horrores de quase todos os rapazes de Leiria. Ela perguntava-lhe 
aterrada, mas curiosa:
       - Como sabes tu?
       - No te posso dizer, respondia com uma reticncia, indicando que lhe fechava os lbios o segredo da confisso.
       E ao mesmo tempo martelava-lhe os ouvidos com a glorificao do sacerdcio. Desenrolava-lhe com pompa a erudio dos seus antigos compndios, fazendo-lhe 
o elogio das funes da superioridade do padre. No Egito, grande nao da antigidade, o homem s podia ser rei se era sacerdote! Na Prsia, na Etipia, um simples 
padre tinha o privilgio de destronar os reis, dispor das coroas! Onde havia uma autoridade igual  sua? Nem mesmo na corte do Cu. O padre era superior aos anjos 
e aos serafins - porque a eles no fora dado como ao padre o poder maravilhoso de perdoar os pecados! Mesmo a Virgem Maria, tinha ela um poder maior que ele, padre 
Amaro? No: com todo o respeito devido  majestade de Nossa Senhora, ele podia dizer com S. Bernardino de Sena: "O sacerdote excede-te,  me amada!" - porque, se 
a Virgem tinha encarnado Deus no seu castssimo seio, fora s uma vez, e o padre, no santo sacrifcio da missa, encarnava Deus todos os dias! E isto no era argcia 
dele, todos os santos padres o admitiam...
       - Hem, que te parece?
       - Oh, filho! murmurava ela pasmada, desfalecida de voluptuosidade. 
       Ento deslumbrava-se com citaes venerandas: S. Clemente, que chamou ao padre "o Deus da Terra"; o eloqente S. Crisstomo, que disse "que o padre  o embaixador 
que vem dar as ordens de Deus". E Santo Ambrsio que escreveu: "Entre a dignidade do rei e a dignidade do padre h maior diferena que a que existe entre o chumbo 
e o ouro!"
       - E o ouro  c o menino, dizia Amaro com palmadinhas no peito. Que te parece?
       Ela atirava-se-lhe aos braos, com beijos vorazes, como para tocar, possuir nele o "ouro de Santo Ambrsio", o "embaixador de Deus", tudo o que na Terra havia 
mais alto e mais nobre, o ser que excede em graa os arcanjos!
       Era este poder divino do padre, esta familiaridade com Deus, tanto ou mais que a influncia da sua, voz - que a faziam crer na promessa que ele lhe repetia 
sempre: que ser amada por um padre chamaria sobre ela o interesse, a amizade de Deus; que depois de morta dois anjos viriam tom-la pela mo para a acompanhar e 
desfazer todas as dvidas que pudesse ter S. Pedro, chaveiro do Cu; e que na sua sepultura, como sucedera em Frana a uma rapariga amada por um cura, nasceriam 
espontaneamente rosas brancas, como prova celeste de que a virgindade no se estraga nos braos santos dum padre...
       Isto encantava-a. quela idia da sua cova perfumada de rosas brancas, ficava toda pensativa, num antegosto de felicidades msticas, com suspirinhos de gozo. 
Afirmava, fazendo beicinho, que queria morrer.
       Amaro galhofava.
       - A falar da morte, com essas carnezinhas...
       Engordara com efeito. Estava agora duma beleza ampla e toda igual. Perdera aquela expresso inquieta que lhe punha nos lbios uma secura e lhe afilava o nariz. 
Nos seus beios havia um vermelho quente e mido; o seu olhar tinha risos sob um fluido sereno; toda a sua pessoa uma aparncia madura de fecundidade. Fizera-se 
preguiosa: em casa, a cada momento suspendia o seu trabalho, ficava a olhar longamente com um sorriso mudo e fixo; e tudo parecia ficar adormecido um momento, a 
agulha, o pano que ela costurava, toda a sua pessoa. Estava revendo o quarto do sineiro, o catre, o senhor proco em mangas de camisa.
       Passava os seus dias esperando as oito horas, em que ele aparecia regularmente com o cnego. Mas os seres agora pesavam-lhe. Ele recomendara-lhe muita reserva; 
ela exagerava-a, por um excesso de obedincia, a ponto de nunca se sentar ao p dele ao ch, e de nem mesmo lhe oferecer bolos. Odiava ento a presena das velhas, 
a gralhada das vozes, as pachorras do quino; tudo lhe parecia intolervel no mundo, exceto estar s com ele... Mas depois, em casa do sineiro, que desforra! Aquele 
rosto todo alterado, aquelas sufocaes de delrio, aqueles ais agonizantes, depois a imobilidade da morte, assustavam s vezes o padre. Erguia-se no cotovelo, inquieto:
       - Ests incomodada?
       Ela abria os olhos espantados, como ressurgindo de muito longe; e era realmente bela, cruzando os braos nus sobre o peito descoberto, dizendo lentamente 
com a cabea que no...
XVIII


       Uma circunstncia inesperada veio estragar aquelas manhs em casa do sineiro. Foi a extravagncia da Tot. Como disse o padre Amaro, "a rapariga saia-lhes 
um monstro"!
Tinha agora por Amlia uma averso desabrida. Apenas ela se aproximava da cama, atirava a cabea para debaixo dos cobertores, torcendo- se com frenesi se lhe sentia 
a mo ou a voz. Amlia fugia, impressionada com a idia de que o diabo que habitava a Tot, recebendo o cheiro que ela trazia da igreja nos vestidos, impregnados 
de incenso e salpicados de gua benta, se espolinhava de terror dentro do corpo da rapariga...
       Amaro quis repreender a Tot, fazer-lhe sentir, em palavras tremendas, a sua ingratido demonaca para com a menina Amlia que vinha entret-la, ensin-la 
a conversar com Nosso Senhor... Mas a paraltica rompeu num choro histrico; depois, de repente, ficou imvel, hirta, esbugalhando os olhos em alvo, com uma escuma 
branca na boca. Foi um grande susto; inundaram-lhe a cama de gua; Amaro, por prudncia, recitou os exorcismos... E Amlia desde ento resolveu "deixar a fera em 
paz". No tentou mais ensinar-lhe o alfabeto, nem oraes a Santa Ana.
       Mas, por escrpulo, iam sempre ao entrar v-la um instante. No passavam da porta da alcova, perguntando-lhe de alto "como ia". Nunca respondia. E eles retiravam-se 
logo aterrados com aqueles olhos selvagens e brilhantes, que os devoravam, indo de um a outro, percorrendo-lhes o corpo, fixando-se com uma faiscao metlica nos 
vestidos de Amlia e na batina do padre, como para lhe adivinhar o que estava por baixo, numa curiosidade vida que lhe dilatava desesperadamente as narinas e lhe 
arreganhava os beios lvidos. Mas era a mudez, obstinada e rancorosa, que os incomodava sobretudo. Amaro, que no acreditava muito em possessos e endemoninhados, 
via ali os sintomas de loucura furiosa. Os sustos de Amlia aumentaram. - Felizmente que as pernas inertes cravavam a Tot ali na enxerga! Seno, Jesus, era capaz 
de lhes entrar no quarto e mord-los num acesso!
       Declarou a Amaro que nem lhe sabia bem o prazer da manh, "depois daquele espetculo"; e decidiu ento, da por diante, subir para o quarto sem falar  Tot.
       Foi pior. Quando a via atravessar da porta da rua para a escada, a Tot debruava-se para fora do leito, agarrada s bordas da enxerga, num esforo ansioso 
para a seguir, para a ver, com a face toda descomposta do desespero da sua imobilidade. E Amlia ao entrar no quarto sentia vir debaixo uma risadinha seca, ou um 
ui! prolongado e uivado que a gelava...
       Andava agora aterrada: viera-lhe a idia que Deus estabelecera ali, ao lado do seu amor com o proco, um demnio implacvel para a escarnecer e apupar. Amaro, 
querendo-a tranqilizar, dizia-lhe que o nosso santo padre Pio IX, ultimamente, declarara pecado crer em pessoas possessas...
       - Mas para que h rezas, ento, e exorcismos?
       - Isso  da religio velha. Agora vai-se mudar tudo isso... Enfim a cincia  a cincia...
       Ela pressentia que Amaro a enganava - e a Tot estragava a sua felicidade. Enfim Amaro achou o meio de escaparem  "maldita rapariga": era entrarem ambos 
pela sacristia: tinham apenas a atravessar a cozinha para subir a escada, e a posio da cama da Tot, na alcova, no lhe permitia v-los, quando eles cautelosamente 
passassem p ante p. Era fcil, de resto, porque  hora do rendez-vous, entre as onze e o meio-dia, nos dias da semana, a sacristia estava deserta.
       Mas sucedia que, quando eles entravam em pontas de ps e mordendo a respirao, os seus passos, por mais sutis, faziam ranger os velhos degraus da escada. 
E ento a voz da Tot saa da alcova, uma voz rouca e spera, berrando:
       - Passa fora, co! passa fora, co!
       Amaro tinha um desejo furioso de estrangular a paraltica. Amlia tremia, toda branca.
       E a criatura uivava de dentro:
       - L vo os ces! l vo os ces!
       Eles refugiavam-se no quarto, aferrolhando-se por dentro. Mas aquela voz de um desolamento lgubre, que lhes parecia vir dos infernos, chegava-lhes ainda, 
perseguia-os:
       - Esto a pegar-se os ces! Esto a pegar-se os ces!
       Amlia caa sobre o catre, quase desmaiada de terror. Jurava no voltar quela casa maldita...
       - Mas que diabo queres tu? dizia-lhe o padre furioso. Onde nos havemos de ver ento? Queres que nos deitemos nos bancos da sacristia?
       - Mas que lhe fiz eu? que lhe fiz eu? exclamava Amlia, apertando as mos.
       - Nada!  doida... E o pobre tio Esguelhas tem tido um desgosto... Enfim, que queres que lhe faa?
       Ela no respondia. Mas em casa, quando se ia aproximando o dia do rendez-vous, comeava a tremer  idia daquela voz que lhe atroava sempre nos ouvidos e 
que sentia em sonhos. E este terror ia-a despertando lentamente do adormecimento de todo o ser, em que cara nos braos do proco. Interrogava-se agora: no andaria 
cometendo um pecado irremissvel? As afirmaes de Amaro, assegurando-lhe o perdo do Senhor, j no a tranqilizavam. Ela bem via, quando a Tot uivava, uma palidez 
cobrir o rosto do proco, como correr-lhe no corpo um calafrio do inferno entrevisto. E se Deus os desculpava - por que deixava assim o demnio atirar- lhes, pela 
voz da paraltica, a injria e o escrnio?
       Ajoelhava ento aos ps da cama, arremessava oraes sem fim para Nossa Senhora das Dores, pedindo-lhe que a alumiasse, que lhe dissesse o que era aquela 
perseguio da Tot, e se era sua inteno divina mandar- lhe assim um aviso medonho. Mas Nossa Senhora no lhe respondia. No a sentia como outrora descer do Cu 
s suas oraes, entrar-lhe na alma aquela tranqilidade suave como uma onda de leite que era uma visitao da Senhora. Ficava toda murcha, torcendo as mos, abandonada 
da graa. Prometia ento no voltar a casa do sineiro; - mas quando o dia chegava,  idia de Amaro, do leito, daqueles beijos que lhe levavam a alma; daquele fogo 
que a penetrava, sentia-se toda fraca contra a tentao; vestia-se, jurando que era a ltima vez; e ao toque das onze partia, com as orelhas a arder, o corao tremendo 
da voz da Tot que ia ouvir, as entranhas abrasando-se no desejo do homem que a ia atirar para cima da enxerga.
       Ao entrar na igreja no rezava, com medo dos santos.
       Corria para a sacristia para se refugiar em Amaro, abrigar-se  autoridade sagrada da sua batina. Ele ento, vendo-a chegar to plida e to transtornada, 
galhofava para a tranqilizar. No, era uma tolice, se iam agora estragar o regalozinho daquelas manhs, porque havia uma doida na casa! Prometera-lhe de resto procurar 
outro stio para se verem; e mesmo com o fim de a distrair, aproveitando a solido da sacristia, mostrava-lhe s vezes os paramentos, os clices, as vestimentas, 
procurando interess-la por um frontal novo ou por uma antiga renda de sobrepeliz, provando-lhe, pela familiaridade com que tocava nas relquias, que era ainda o 
senhor proco e no perdera o seu crdito no Cu.
       Foi assim que uma manh lhe fez ver uma capa de Nossa Senhora, que havia dias chegara de presente duma devota rica de Ourm. Amlia admirou-a muito. Era de 
cetim azul, representando um firmamento, com estrelas bordadas, e um centro, de lavor rico, onde flamejava um corao de ouro cercado de rosas de ouro. Amaro desdobrara-a, 
fazendo cintilar junto da janela os bordados espessos.
       - Rica obra, hem? centos de mil-ris... Experimentamo-la ontem na imagem... Vai-lhe como um brinco. Um bocadito comprida, talvez... - E olhando Amlia, numa 
comparao da sua alta estatura com a figura atarracada da imagem da Senhora: - A ti  que te havia de ficar bem. Deixa ver...
       Ela recuou:
       - No, credo, que pecado!
       - Tolice! disse ele adiantando-se com a capa aberta, mostrando o forro de cetim branco, duma alvura de nuvem matutina. No esta benzida...  como se viesse 
da modista.
       - No, no, dizia ela frouxamente, com os olhos j1uzidios de desejo. Ele ento zangou-se. Queria talvez saber melhor do que ele o que era pecado, no? Vinha 
agora a menina ensinar-lhe o respeito que se deve aos vesturios dos santos?
       - Ora no seja tola. Deixe ver.
       Ps-lha aos ombros, apertou-lhe sobre o peito o fecho de prata lavrada. E afastou-se para a contemplar toda envolvida no manto, assustada e imvel, com um 
sorriso clido de gozo devoto.
       - Oh filhinha, que linda que ficas!
       Ela ento, movendo-se com uma cautela solene, chegou-se ao espelho da sacristia - um antigo espelho de reflexo esverdeado, com um caixilho negro de carvalho 
lavrado, tendo no topo uma cruz. Mirou-se um momento, naquela seda azul-celeste que a envolvia toda, picada do brilho agudo das estrelas, com uma magnificncia sideral. 
Sentia-lhe o peso rico. A santidade que o manto adquirira no contato com os ombros da imagem penetrava-a duma vo1uptuosidade beata. Um fluido mais doce que o ar 
da terra envolvia-a, fazia-lhe passar no corpo a carcia do ter do Paraso. Parecia-lhe ser uma santa no andor, ou mais alto, no Cu...
       Amaro babava-se para ela:
       - Oh filhinha, s mais linda que Nossa Senhoras!
       Ela deu uma olhadela viva ao espelho. Era, decerto, linda. No tanto como Nossa Senhora... Mas cora o seu rosto trigueiro, de lbios rubros, a1umiado por 
aquele rebrilho dos olhos negros, se estivesse sobre o altar, com cantos ao rgo e um culto sussurrando em redor, faria palpitar bem forte o corao dos fiis...
       Amaro ento chegou-se por detrs dela, cruzou-lhe os braos sobre o seio, apertou-a toda - e estendendo os lbios por sobre os dela, deu-lhe um beijo mudo, 
muito longo... Os olhos de Amlia cerravam-se, a cabea inclinava-se-lhe para trs, pesada de desejo. Os beios do padre no se desprendiam, vidos, sorvendo-lhe 
a alma. A respirao dela apressava-se, os joelhos tremiam-lhe: e com um gemido desfaleceu sobre o ombro do padre, descorada e morta de gozo.
       Mas endireitou-se de repente, fixou Amaro batendo as plpebras como acordada de muito longe; uma onda de sangue escaldou-lhe o rosto:
       - Oh! Amaro, que horror, que pecado!...
       - Tolice! disse ele.
       Mas ela desprendia-se do manto, toda aflita:
       - Tira-mo, tira-mo! gritava, como se a seda a queimasse.
       Ento Amaro fez-se muito srio. Realmente no se devia brincar com coisas sagradas...
       - Mas no est benzida... No tem dvida...
       Dobrou o manto cuidadosamente, envolveu-o no lenol branco, colocou-o no gaveto, sem uma palavra. Amlia olhava-o petrificada; e s os seus lbios plidos 
se moviam numa orao.
       Quando ele lhe disse, enfim, que eram horas de irem a casa do sineiro - recuou, como diante do demnio que a chamasse.
       - Hoje no! exclamou, implorando-o.
       Ele insistiu. Era levar realmente muito longe a pieguice... Ela bem sabia que no era pecado, quando as coisas no estavam benzidas... Era ser muito pobre 
de espirito... Que demnio, s meia hora, ou um quarto de hora!
       Ela, sem responder, ia-se aproximando da porta.
       - Ento no queres?
       Ela voltou-se, e com uns olhos suplicantes:
       - Hoje no!
       Amaro encolheu os ombros. E Amlia atravessou rapidamente a igreja, de cabea baixa e olhos nas lajes, como se passasse entre as ameaas cruzadas dos santos 
indignados.

***

       No dia seguinte de manh, a S. Joaneira, que estava na sala de jantar, sentindo o senhor cnego subir soprando forte, veio encontr-lo  escada e fechou-se 
com ele na saleta.
Queria contar-lhe a aflio que tivera de madrugada. A Amlia acordara de repente aos gritos, que Nossa Senhora lhe estava a pousar o p no pescoo! que sufocava! 
que a Tot a queimava por detrs! e que as labaredas do Inferno subiam mais alto que as torres da S!... Enfim um horror!... Viera encontr-la em camisa a correr 
pelo quarto, como doida. Da a pouco cara para o lado com um ataque de nervos. Toda a casa estivera em alvoroo... A pobre pequena l estava de cama, e em toda 
a manh apenas tocara numa colher de caldo.
       - Pesadelos, disse o cnego. Indigesto!
       - Ai, senhor cnego, no! exclamou a S. Joaneira, que parecia acabrunhada, sentada diante dele na borda duma cadeira.  outra coisa: so aquelas desgraadas 
visitas  filha do sineiro!
E ento desabafou, com a efuso labial de quem abre os diques a um descontentamento acumulado. Nunca quisera dizer nada, porque enfim reconhecia que era uma grande 
obra de caridade. Mas, desde que aquilo comeara, a rapariga parecia transtornada. Ultimamente, ento, andava de todo. Ora alegrias sem razo, ora umas trombas de 
dar melancolia aos mveis. De noite sentia-a passear pela casa at tarde, abrir as janelas... s vezes tinha at medo de lhe ver o olhar to esquisito: quando vinha 
de casa do sineiro era sempre branca como a cal, a cair de fraqueza. Tinha de tomar logo um caldo... Enfim, dizia-se que a Tot tinha o demnio no corpo. E o senhor 
chantre, o outro que tinha morrido (Deus lhe fale na alma), costumava dizer que, neste mundo, as duas coisas que se pegavam mais s mulheres eram tsicas e demnio 
no corpo. Parecia-lhe, pois, que no devia consentir que a pequena fosse a casa do sineiro, sem estar certa que aquilo nem lhe prejudicava a sade, nem lhe prejudicava 
a alma. Enfim, queria que uma pessoa de juzo, de experincia, fosse examinar a Tot...
       - Numa palavra, disse o cnego, que escutara de olhos cerrados aquela verbosidade repassada de lamria; o que a senhora quer  que eu v ver a paraltica, 
e saber  justa o que se passa...
       - Era um alvio para mim, riquinho!
       Aquela palavra, que a S. Joaneira, na sua gravidade de matrona, reservava para a intimidade das sestas, enterneceu o cnego. Fez uma carcia ao pescoo gordo 
da sua velhota, e prometeu com bondade ir estudar o caso...
       - Amanh, que a Tot est s, lembrou logo a S. Joaneira.
       Mas o cnego preferia que Amlia estivesse presente. Podia assim ver como as duas se davam, se havia influncia do esprito maligno...
       - Que isto que eu fao  de agradecer...  por ser para quem ... Que bem me bastam os meus achaques, sem me ocupar dos negcios de Satans.
       A S. Joaneira recompensou-o com uma beijoca sonora.
       - Ah, sereias, sereias!... murmurou o cnego filosoficamente.
       No fundo aquele encargo desagradava-lhe: era uma perturbao nos seus hbitos, toda uma manh desarranjada; ia decerto fatigar-se, tendo de exercitar a sua 
sagacidade; alm disso odiava o espetculo de doenas e de todas as circunstncias humanas relacionadas com a morte. Mas, enfim, fiel  sua promessa, da a dias, 
na manh em que fora prevenido que Amlia ia  Tot, arrastou-se contrariado para a botica do Carlos; e instalou- se, com um olho no Popular e outro na porta,  
espera que a rapariga atravessasse para a S. O amigo Carlos estava ausente; o Sr. Augusto ocupava os seus vagares sentado  escrivaninha, de testa sobre o punho, 
relendo o seu Soares de Passos; fora, o sol j quente dos fins de abril fazia rebrilhar o lajeado do largo; no passava ningum; e s quebravam o silncio as marteladas 
nas obras do doutor Pereira. Amlia tardava. E o cnego, depois de ter considerado longo tempo, com o Popular cado nos joelhos, o medonho sacrifcio que fazia pela 
sua velhota, ia cerrando as plpebras, j tomado da quebreira, naquele repouso calado do meio-dia prximo - quando entrou na botica um eclesistico.
       - Oh, abade Ferro, voc pela cidade! exclamou o cnego Dias despertando do seu quebranto.
       - De fugida, colega, de fugida, disse o outro colocando cuidadosamente sobre uma cadeira dois grossos volumes que trazia, amarrados num barbante.
       Depois voltou-se e tirou, com respeito, o seu chapu ao praticante.
       Tinha o cabelo todo branco; devia passar j dos sessenta anos; mas era robusto, uma alegria bailava sempre nos seus olhinhos vivos, e tinha dentes magnficos 
a que uma sade de granito conservava o esmalte; o que o desfigurava era um nariz enorme.
Informou-se logo com bondade se o amigo Dias estava ali de visita ou infelizmente por motivo de doena.
       - No, estou aqui  espera. Uma embaixada de truz, amigo Ferro!
       - Ah, fez o velho discretamente. - E enquanto tirava com mtodo duma carteira atulhada de papis a receita para o praticante, deu ao cnego notcias da freguesia. 
Era l, nos Poiais, que o cnego tinha a fazenda, a Ricoa. O abade Ferro passara de manh diante da casa e ficara surpreendido vendo que lhe andavam a pintar a 
fachada. O amigo Dias tinha algumas idias de ir l passar o Vero?
       No, no tinha. Mas como trouxera obras dentro e a fachada estava uma vergonha, mandara-lhe dar uma mo de ocre. Enfim, era necessrio alguma aparncia, sobretudo 
numa casa que estava  beira da estrada, onde passava todos os dias o morgadelho dos Poiais, um parlapato que imaginava que s ele tinha um palacete decente em 
dez lguas  roda... S para meter ferro, quele ateu! Pois no lhe parecia, amigo Ferro?
       O abade estava justamente lamentando consigo aquele sentimento de vaidade num sacerdote; mas, por caridade crist, para no contrariar o colega, apressou-se 
a dizer:
       - Est claro, est claro. A limpeza  a alegria das coisas...
       O cnego ento, vendo passar no largo uma saia e um mantelete, foi  porta afirmar-se se era Amlia. No era. E voltando, retomado agora da sua preocupao, 
vendo que o praticante fora dentro ao laboratrio, disse ao ouvido do Ferro:
       - Uma embaixada da fortuna! Vou ver uma endemoniada!
       - Ah, fez o abade, todo srio  idia daquela responsabilidade.
       - Quer voc vir comigo, abade?  aqui perto... 
       O abade desculpou-se polidamente. Viera falar ao senhor vigrio-geral, fora depois ao Silvrio para lhe pedir aqueles dois volumes, vinha ali aviar uma receita 
para um velho da freguesia, e tinha de estar de volta aos Poiais ao toque das duas horas.
       O cnego insistiu; era um instante, e o caso parecia curioso...
       O abade ento confessou ao caro colega que eram coisas que no gostava de examinar. Aproximava-se sempre delas com um esprito rebelde  crena, com desconfianas 
e suspeitas que lhe diminuram a imparcialidade.
       - Mas enfim h prodgios! disse o cnego. - Apesar das suas prprias dvidas, no gostava daquela hesitao do abade, a propsito dum fenmeno sobrenatural, 
em que ele, cnego Dias, estava interessado. Repetiu com secura: - Tenho alguma experincia, e sei que h prodgios.
       - Decerto, decerto h prodgios, disse o abade. Negar que Deus ou a Rainha do Cu possa aparecer a uma criatura,  contra a doutrina da Igreja... Negar que 
o demnio possa habitar o corpo de um homem, seria estabelecer um erro funesto... Aconteceu a J, sem ir mais longe, e  famlia de Sara. Est claro, h prodgios. 
Mas que rarssimos que so, cnego Dias!
       Calou-se um momento olhando o cnego, que tapava o nariz com rap em silncio - e continuou mais baixo, com o olho brilhante e fino:
       - E depois no tem o colega notado que  uma coisa que s sucede s mulheres?  s a elas, cuja malcia  to grande que o prprio Salomo no lhes pde resistir, 
cujo temperamento  to nervoso, to contraditrio, que os mdicos no as compreendem.  s a elas que sucedem prodgios!... O colega j ouviu de ter aparecido a 
nossa Santa Virgem a um respeitvel tabelio? J ouviu dum digno juiz de direito possudo do esprito maligno? No. Isto faz refletir... E eu concluo que  malcia 
nelas, iluso, imaginao, doena, etc... No lhe parece? A minha regra nesses casos  ver tudo isso de alto e com muita indiferena.
       Mas o cnego, que vigiava a porta, brandiu subitamente o guarda-sol, fazendo pari o largo:
       - Pst, pst! Eh l!
       Era Amlia que passava. Parou logo, contrariada daquele encontro que a ia ainda retardar mais. E j o senhor proco devia estar desesperado...
       - De modo que, disse o cnego  porta abrindo o seu guarda-sol, voc, abade, em lhe cheirando a prodgio...
       - Suspeito logo escndalo.
       O cnego contemplou-o um momento, com respeito:
       - Voc, Ferro,  capaz de dar quinaus a Salomo em prudncia!
       - Oh, colega! oh, colega! exclamou o abade, ofendido com aquela injustia feita  incomparvel sabedoria de Salomo.
       - Ao prprio Salomo! afirmou ainda o cnego da rua.
       Tinha preparado uma histria hbil para justificar a sua visita  paraltica; mas durante a sua conversao com o abade ela escapara-lhe, como tudo o que 
deixava um momento nos reservatrios da memria; e foi sem transio que disse simplesmente a Amlia:
       - Vamos l, tambm quero ir ver essa Tot!
       Amlia ficou petrificada. E o senhor proco, naturalmente, j l estava! Mas a sua madrinha Nossa Senhora das Dores, que ela invocou logo naquela aflio, 
no a deixou enleada no embarao. - E o cnego, que caminhava ao lado dela, ficou surpreendido ouvindo-lhe dizer com um risinho:
       - Viva, hoje  o dia das visitas  Tot! O senhor proco disse-me que tambm talvez hoje aparecesse por l... Talvez l esteja at.
       - Ah! O amigo proco tambm? Est bom, est bom. Faremos uma consulta  Tot!
       Amlia ento, contente de sua malcia, tagarelou sobre a Tot. O senhor cnego ia ver... Era uma criatura incompreensvel... Ultimamente, ela no tinha querido 
contar em casa, mas a Tot tomara-lhe birra... E dizia coisas, tinha um modo de falar de ces e de animais, de arrepiar!... Ai, era um encargo que j lhe pesava... 
Que a rapariga no lhe escutava as lies, nem as oraes, nem os conselhos... Era uma fera!
       - O cheiro  desagradvel! rosnou o cnego, entrando.
       Que queria! A rapariga era uma porca, no havia t-la arranjado. O pai, esse, um desleixado tambm...
       -  aqui, senhor cnego, disse, abrindo a porta da alcova - que, agora, em obedincia s ordens do senhor proco, o tio Esguelhas deixava sempre fechada.
       Encontraram a Tot meio erguida sobre a cama, com a face acesa numa curiosidade, quela voz do cnego que no conhecia.
       - Ora viva l a Sra. Tot! disse ele da porta, sem se aproximar.
       - V, cumprimenta o senhor cnego, disse Amlia, comeando logo, com uma caridade desacostumada, a compor a roupa da cama, a arrumar a alcova. Dize-lhe como 
ests... No te faas amuada!
       Mas a Tot permaneceu to muda como a imagem de S. Bento que tinha  cabeceira, examinando muito aquele sacerdote to gordo, to grisalho, to diferente do 
senhor proco... E os seus olhos, mais brilhantes todos os dias  medida que se lhe cavavam as faces, iam, como de costume, do homem para Amlia, numa ansiedade 
de perceber por que o trazia ela ali, quele velho obeso, e se ia tambm subir com ele para o quarto.
       Amlia agora tremia. Se o senhor proco entrasse, e ali, diante do cnego, a Tot, tomada do seu frenesi, rompesse aos gritos, tratando-os de ces!... Com 
o pretexto de dar uma arrumadela, foi  cozinha vigiar o ptio. Faria um sinal da janela, apenas Amaro aparecesse.
       E o cnego, s na alcova da Tot, preparando-se para comear as suas observaes, ia perguntar-lhe quantas eram as pessoas da Santssima Trindade, - quando 
ela, adiantando a face, lhe disse numa voz sutil como um sopro:
       - E o outro?
       O cnego no compreendeu. Que falasse alto! Que era?
       - O outro, o que vem com ela!
       O cnego chegou-se, com a orelha dilatada de curiosidade:
       - Que outro?
       - O bonito. O que vai com ela para o quarto. O que a belisca...
       Mas Amlia entrava; e a paraltica calou-se logo, repousada, com os olhos cerrados e respirando regaladamente, como num alvio repentino de todo o seu sofrimento. 
O cnego, esse, imobilizado de assombro, permanecia na mesma postura, dobrado sobre a cama como para auscultar a Tot. Ergueu-se por fim, soprou como numa calma 
de agosto, sorveu de espao uma pitada forte; e ficou com a caixa aberta entre os dedos, os olhos muito vermelhos cravados na colcha da Tot.
       - Ento, senhor cnego, que lhe parece c a minha doente? perguntou Amlia.
       Ele respondeu, sem a olhar:
       - Sim senhor, muito bem... Vai bem...  esquisita... Pois  andar,  andar... Adeus...
       Saiu, resmungando que tinha negcios, - e voltou imediatamente  botica.
       - Um copo de gua! exclamou, caindo em cheio sobre a cadeira.
       O Carlos, que voltara, apressou-se, oferecendo flor de laranja, perguntando se sua excelncia estava incomodado...
       - Cansadote, disse.
       Tomou o Popular de sobre a mesa, e ali ficou, sem se mexer, abismado nas colunas do peridico. O Carlos tentou falar da poltica do pais, depois dos negcios 
de Espanha, depois dos perigos revolucionrios que ameaavam a Sociedade, depois da deficincia da administrao do concelho de que era agora um adversrio feroz... 
Debalde. Sua excelncia grunhia apenas monosslabos soturnos. E o Carlos, enfim, recolheu-se a um silncio chocado, comparando, num desdm interior que lhe vincava 
de sarcasmo os cantos dos beios, a obtusidade soturna daquele sacerdote  palavra inspirada dum Lacordaire e dum Malho! Por isso o Materialismo em Leiria, em todo 
o Portugal, erguia a sua cabea de hidra...
       Batia uma hora na torre quando o cnego, que vigiava a Praa pelo canto do olho, vendo passar Amlia, arremessou o jornal, saiu da botica sem dizer uma palavra 
e estugou o seu passo de obeso para a casa do tio Esguelhas. A Tot estremeceu de medo ao ver de novo aquela figura bojuda aparecer  porta da alcova. Mas o cnego 
riu-se para ela, chamou-lhe Totozinha, prometeu-lhe um pinto para bolos; e mesmo sentou-se aos ps da cama com um ah! regalado, dizendo:
       - Ora vamos ns agora conversar, amiguinha... Esta  que  a pernita doente, hem? Coitadita! Deixa que te hs-de curar... Hei-de pedir a Deus... Fica por 
minha conta.
       Ela fazia-se ora toda branca ora toda vermelha, olhando aqui e alm, inquieta, na perturbao que lhe dava aquele homem a ss com ela to perto que lhe sentia 
o hlito forte.
       - Ento, ouve c, disse ele chegando-se mais para ela, fazendo ranger o catre com o seu peso. Ouve c, quem  o outro? Quem  que vem com a Amlia?
       Ela respondeu logo, atirando as palavras dum flego:
       -  o bonito,  o magro, vm ambos, sobem para o quarto, fecham- se por dentro; so como ces!
       Os olhos do cnego injetaram-se para fora das rbitas:
       - Mas quem  ele, como se chama? O teu pai que te disse?
       -  o outro,  o proco, o Amaro! fez ela impaciente.
       - E vo para o quarto, hem? L para cima? E tu que ouves, tu que ouves? Diz tudo, pequena, diz tudo!
       A paraltica ento contou, com um furor que dava tons sibilantes  sua voz de tsica, - como ambos entravam, e a vinham ver, e se roavam um pelo outro, e 
abalavam para o quarto em cima, e estavam l uma hora fechados...
       Mas o cnego, com uma curiosidade lbrica que lhe punha uma chama nos olhos mortios, queria saber os detalhes torpes:
       - E ouve l, Totozinha, tu que ouves? Ouves ranger a cama?
       Ela respondeu com a cabea afirmativamente, toda plida, os dentes cerrados.
       - E olha, Totozinha, j os viste beijarem-se, abraarem-se? Anda, diz, que te dou dois pintos.
       Ela no descerrava os lbios; e a sua face transtornada parecia ao cnego selvagem.
       - Tu embirras com ela, no  verdade?
       Ela fez que sim numa afirmao feroz de cabea.
       - E viste-os beliscarem-se?
       - So como ces! soltou ela por entre os dentes.
       O cnego ento endireitou-se; bufou outra vez com o seu grande sopro de encalmado, e coou vivamente a coroa.
       - Bem, disse, erguendo-se. Adeus, pequena... Agasalha-te. No te constipes...
Saiu; e ao fechar com fora a porta exclamou alto:
       - Isto  a infmia das infmias! Eu mato-o! eu perco-me!
       Esteve um momento considerando, e partiu para a Rua das Sousas, de guarda-sol em riste, apressando a sua obesidade, com a face apopltica de furor. No Largo 
da S, porm, parou a refletir ainda; e rodando sobre os taces, entrou na igreja. Ia to levado que, esquecendo um hbito de quarenta anos, no dobrou o joelho 
ao Santssimo. E arremessou-se para a sacristia - justamente quando o padre Amaro saa, calando cuidadosamente as luvas pretas que usava agora sempre para agradar 
 Ameliazinha.
       O aspecto descomposto do cnego assombrou-o.
       - Que  isso, padre-mestre?
       - O que , exclamou o cnego de golpe,  a maroteira das maroteiras!  a sua infmia!  a sua infmia!...
       E emudeceu, sufocado de clera.
       Amaro, que se fizera muito plido, balbuciou:
       - Que est voc a dizer, padre-mestre?
       O cnego tomara flego:
       - No h padre-mestre! O senhor desencaminhou a rapariga! Isso  que  uma canalhice mestra!
       O padre Amaro, ento, franziu a testa como descontente dum gracejo:
       - Que rapariga!? O senhor est a brincar?
       Sorriu mesmo, afetando segurana; e os seus beios brancos tremiam.
       - Homem, eu vi! berrou o cnego.
       O proco, subitamente aterrado, recuou:
       - Viu?
       Imaginara, num relance, uma traio, o cnego escondido num recanto da casa do tio Esguelhas...
       - No vi, mas  como se visse! - continuou o cnego num tom tremendo. - Sei tudo. Venha de l. Disse-mo a Tot. Fecham-se no quarto horas e horas! At se 
ouve embaixo ranger a cama!  uma ignomnia! 
       O proco, vendo-se pilhado, teve, como um animal acossado e entalado a um canto, uma resistncia de desespero.
       - Diga-me uma coisa. O que  que o senhor tem com isso?
       O cnego pulou.
       - O que tenho? o que tenho? Pois o senhor ainda me fala nesse tom? O que tenho  que vou daqui imediatamente dar parte de tudo ao senhor vigrio-geral!
       O padre Amaro, lvido, foi para ele com o punho fechado:
       - Ah, seu maroto!
       - Que  l? que  l? exclamou o cnego de guarda-sol erguido. Voc quer-me pr as mos?
       O padre Amaro conteve-se; passou a mo sobre a testa em suor, com os olhos cerrados; e depois de um momento, falando com uma serenidade forada:
       - Oua l, Sr. cnego Dias. Olhe que eu vi-o ao senhor uma vez na cama com a S. Joaneira...
       - Mente! mugiu o cnego.
       - Vi, vi, vi! afirmou o outro com furor. Uma noite ao entrar em casa... O senhor estava em mangas de camisa, ela tinha-se erguido, estava a apertar o colete. 
At o senhor perguntou: "Quem est a?". Vi, como estou a v-lo agora. O senhor a dizer uma palavra, e eu a provar-lhe que o senhor vive h dez anos amigado com 
a S. Joaneira(  face de todo o clero! Ora a tem!
       O cnego, j antes esfalfado dos excessos do seu furor, ficou agora, quelas palavras, como um boi atordoado. S pde dizer da a pouco, muito murcho:
       - Que traste voc me sai!
       O padre Amaro ento, quase tranqilo, certo do silncio do cnego, disse com bonomia:
       - Traste por qu? Diga-me l! Traste por qu? Temos ambos culpas no cartrio, eis a est. E olhe que eu no fui perguntar, nem peitar a Tot... Foi muito 
naturalmente ao entrar em casa. E se me vem agora com coisas de moral, isso faz-me rir. A moral  para a escola e para o sermo. C na vida eu fao isto, o senhor 
faz aquilo, os outros fazem o que podem. O padre-mestre que j tem idade agarra-se  velha, eu que sou novo arranjo-me com a pequena.  triste, mas que quer?  a 
natureza que manda. Somos homens. E como sacerdotes, para honra da classe, o que temos  fazer costas!
       O cnego escutava-o, bamboleando a cabea, na aceitao muda daquelas verdades. Tinha-se deixado cair numa cadeira, a descansar de tanta clera intil; e 
erguendo os olhos para Amaro:
       - Mas voc, homem, no comeo da carreira!
       - E voc, padre-mestre, no fim da carreira!
       Ento riram ambos. Imediatamente cada um declarou retirar as palavras ofensivas que tinham dito; e apertaram-se gravemente a mo. Depois  conversaram.
       O cnego, o que o tinha enfurecido era ser l com a pequena da casa. Se fosse com outra... at estimava! Mas a Ameliazinha!... Se a pobre me viesse a saber, 
estourava de desgosto.
       - Mas a me escusa de saber! exclamou Amaro. Isto  entre ns, padre-mestre! Isto  segredo de morte! Nem a me sabe de nada, nem eu mesmo digo  pequena 
o que se passou hoje entre ns. As coisas ficam como estavam, e o mundo continua a rolar... Mas voc, padre-mestre, tenha cuidado!... Nem uma palavra  S. Joaneira... 
Que no haja agora traio!
       O cnego, com a mo sobre o peito, deu gravemente a sua palavra de honra de cavalheiro e de sacerdote que aquele segredo ficava para sempre sepultado no seu 
corao.
       Ento apertaram ainda uma outra vez afetuosamente a mo.
       Mas a torre gemeu as trs badaladas. Era a hora de jantar do cnego.
       E ao sair, batendo nas costas de Amaro, fazendo luzir um olho de entendedor:
       - Pois seu velhaco, tem dedo!
       - Que quer voc? Que diabo... Comea-se por brincadeira...
       - Homem! disse o cnego sentenciosamente,  o que a gente leva de melhor deste mundo.
       -  verdade, padre-mestre,  verdade!  o que a gente leva de melhor deste mundo.

***

       Desde esse dia Amaro gozou uma completa tranqilidade de alma. At a incomodava-o, por vezes, a idia de que correspondera ingratamente  confiana, aos 
carinhos que lhe tinham prodigalizado na Rua da Misericrdia. Mas a tcita aprovao do cnego viera tirar-lhe, como ele dizia, aquele espinho da conscincia. Porque 
enfim, o chefe de famlia, o cavalheiro respeitvel, o cabea - era o cnego. A S. Joaneira era apenas uma concubina... E Amaro mesmo, s vezes agora, em tom de 
galhofa, tratava o Dias de seu caro sogro.
       Outra circunstncia viera alegr-lo: a Tot adoecera de repente: o dia seguinte ao da visita do cnego, passara-o soltando golfadas de sangue: o doutor Cardoso, 
chamado  pressa, falara de tsica galopante, questo de semanas, caso decidido...
       -  destas, meu amigo, tinha ele dito, que  trs... trs... - era a sua maneira de pintar a morte, que, quando tem pressa, conclui o seu trabalho com uma 
fouada aqui, outra alm.
       As manhs na casa do tio Esguelhas eram agora tranqilas. Amlia e o proco j no entravam em pontas de ps, tentando esgueirar-se para o prazer, despercebidos 
da Tot. Batiam com as portas, palravam forte, certos que a Tot estava bem prostrada de febre, sob os lenis midos dos suores constantes. Mas Amlia, por escrpulo, 
no deixava de rezar todas as noites uma Salve-Rainha pelas melhoras da Tot. s vezes mesmo ao despir-se, no quarto do sineiro, parava de repente, e fazendo um 
rostinho triste:
       - Ai, filho! At me parece pecado, ns aqui a gozarmos, e a pobre pequena l embaixo a lutar com a morte...
       Amaro encolhia os ombros. Que lhe haviam eles de fazer, se era a vontade de Deus?...
       E Amlia, resignando-se  vontade de Deus em tudo, ia deixando cair as saias.
Tinha agora daquelas pieguices freqentes que impacientavam o padre Amaro. Em certos dias aparecia muito murcha; trazia sempre algum sonho lgubre a contar, que 
a torturara toda a noite, e em que ela pretendia descobrir avisos de desgraas...
       Perguntava-lhe s vezes:
       - Se eu morresse, tinhas muita pena?
       Amaro enfurecia-se. Realmente era estpido! Tinham apenas uma hora para se verem, e haviam de estar a estrag-la com lamrias?
       -  que no imaginas, dizia ela, trago o corao negro como a noite.
       Com efeito as amigas da me estranhavam-na. s vezes, durante seres inteiros no descerrava os lbios, pendia sobre a sua costura, picando molemente a agulha; 
ou ento, muito cansada mesmo para trabalhar, ficava junto da mesa fazendo girar devagar o abajur verde do candeeiro, com o olhar vazio e a alma muito longe.
       -  rapariga, deixa esse abajur em paz! diziam-lhe as senhoras nervosas.
       Ela sorria, dava um suspiro fatigado, e retomava muito lentamente a saia branca que havia semanas andava bainhando. A me, vendo-a sempre to plida, pensara 
em chamar o doutor Gouveia.
       - No  nada, minha me,  nervoso, passa...
       O que provava a todos que era nervoso eram os sustos sbitos que a tomavam - a ponto de dar um grito, quase desmaiar, se de repente uma porta batia. Certas 
noites mesmo, exigia que a me viesse dormir ao p dela, com medo de pesadelos e de vises.
       -  o que diz sempre o Sr. doutor Gouveia, observava a me ao cnego,  uma rapariga que necessita casar...
       O cnego pigarreava grosso.
       - No lhe falta nada, resmungava. Tem tudo o que precisa. Tem de mais, ao que parece...
       Era com efeito a idia do cnego, que a rapariga (como ele dizia s consigo) "andava-se a arrasar de felicidade". Nos dias em que sabia que ela fora ver a 
Tot, no se fartava de a estudar, cocando-a do fundo da poltrona com um olho pesado e lbrico. Prodigalizava-lhe agora as familiaridades paternais. Nunca a encontrava 
na escada sem a deter, com coceguinhas aqui e ali, palmadinhas na face muito prolongadas. Queria-a em casa repetidas vezes pela manh; e enquanto Amlia palrava 
com D. Josefa, o cnego no cessava de rondar em torno dela, arrastando as chinelas com um ar de velho galo. E eram entre Amlia e a me conversas sem fim sobre 
esta amizade do senhor cnego, que decerto lhe deixaria um bom dote. 
       - Seu magano, tem dedo! - dizia sempre o cnego quando estava s com Amaro, arregalando os olhos redondos. Aquilo  um bocado de rei!
Amaro entufava-se:
       - No  mau bocado, padre-mestre,  um bom bocado.
       Era este um dos grandes gozos de Amaro - ouvir gabar aos colegas a beleza de Amlia, que era chamada entre o clero "a flor das devotas". Todos lhe invejavam 
aquela confessada. Por isso insistia muito com ela em que se ajanotasse aos domingos,  missa; zangara-se mesmo ultimamente de a ver quase sempre entrouxada num 
vestido de merino escuro, que lhe dava um ar de velha penitente.
       Mas Amlia, agora, j no tinha aquela necessidade amorosa de contentar em tudo o senhor proco. Acordara quase inteiramente daquele adormecimento estpido 
da alma e do corpo, em que a lanara o primeiro abrao de Amaro. Vinha-lhe aparecendo distintamente a conscincia pungente da sua culpa. Naqueles negrumes dum esprito 
beato e escravo, fazia- se um amanhecimento de razo. - O que era ela no fim? A concubina do senhor proco. E esta idia, posta assim descarnadamente, parecia-lhe 
terrvel. No que lamentasse a sua virgindade, a sua honra, o seu bom nome perdido. Sacrificaria mais ainda por ele, pelos delrios que ele lhe dava. Mas havia alguma 
coisa pior a temer que as reprovaes do mundo: eram as vinganas de Nosso Senhor. Era da perda possvel do Paraso que ela gemia baixo; ou de mais medonho ainda, 
de algum castigo de Deus, no das punies transcendentes que acabrunham a alma alm da tumba, mas dos tormentos que vm durante a vida, que a feririam na sua sade, 
no seu bem-estar e no seu corpo. Eram vagos medos de doenas, de lepras, de paralisias ou de pobrezas, de dias de fome - de todas essas penalidades de que ela supunha 
prdigo o Deus do seu catecismo. Como em pequena, nos dias em que se esquecia de pagar  Virgem o seu tributo regular de Salve-Rainhas, temia que ela a fizesse cair 
na escada ou levar palmatoadas da mestra, arrefecia de medo agora,  idia de que Deus, em castigo dela se deitar na cama com um padre, lhe mandasse um mal que a 
desfigurasse ou a reduzisse a pedir esmola pelas vielas. Estas idias no a deixavam, desde o dia em que na sacristia pecara de concupiscncia dentro do manto de 
Nossa Senhora. Tinha a certeza que a Santa Virgem a odiava, e que no cessava de reclamar contra ela; debalde procurava abrand-la, com um fluxo incessante de oraes 
humilhadas; sentia bem Nossa Senhora, inacessvel e desdenhosa, de costas voltadas. Nunca mais aquele divino rosto lhe sorrira; nunca mais aquelas mos se tinham 
aberto para receber com agrado as suas oraes, como ramos congratulatrios. Era um silncio seco, uma hostilidade gelada de divindade ofendida. Ela conhecia o crdito 
que Nossa Senhora tem nos conclios do Cu; desde pequena lho tinham ensinado; tudo o que ela deseja o obtm, como uma recompensa devida aos seus prantos no Calvrio; 
seu Filho sorri-lhe  sua direita, o Deus Padre fala-lhe  esquerda... E compreendia bem que para ela no havia esperana - e que alguma coisa medonha se preparava 
l em cima, no Paraso, que lhe cairia um dia sobre o corpo e sobre a alma, esmagando-a com um desabamento de catstrofe... Que seria?
       Cessaria as suas relaes com Amaro, se o ousasse: mas receava quase tanto a sua clera como a de Deus. Que seria dela se tivesse contra si Nossa Senhora 
e o senhor proco? Alm disso, amava-o. Nos seus braos, todo o terror do Cu, a mesma idia do Cu desaparecia; refugiada ali, contra o seu peito, no tinha medo 
das iras divinas; o desejo, o furor da carne, como um vinho muito alcolico, davam-lhe uma coragem colrica; era com um brutal desafio ao Cu que se enroscava furiosamente 
ao seu corpo. - Os terrores vinham depois, s no seu quarto. Era esta luta que a empalidecia, lhe punha pregas de envelhecimento ao canto dos lbios secos e ardidos, 
lhe dava aquele ar murcho de fadiga que irritava o padre Amaro.
       - Mas que tens, tu, que parece te espremeram o suco? perguntava- lhe ele quando aos primeiros beijos a sentia toda fria, toda inerte.
       - Passei mal a noite... Nervoso.
       - Maldito nervoso! rosnava o padre Amaro impaciente.
       Depois vinham perguntas singulares que o desesperavam, repetidas agora todos os dias. Se tinha dito a missa com fervor? Se tinha lido o Brevirio? Se tinha 
feito a orao mental?...
       - Sabes tu que mais? disse ele furioso. Sebo! E esta! Tu pensas que eu sou ainda seminarista, e que tu s o padre examinador, que verifica se cumpri a Regra? 
Ora a tolice!
       -  que  necessrio estar bem com Deus - murmurava ela.
       Era com efeito a sua preocupao, agora, que Amaro fosse um bom padre. Contava, para se salvar e para se livrar da clera de Nossa Senhora, com a influncia 
do proco na corte de Deus: e temia que ele por negligncia de devoo a perdesse, e que, diminuindo o seu fervor, diminussem os seus mritos aos olhos do Senhor. 
Queria-o conservar santo e favorito do Cu para colher os proveitos da sua proteo mstica.
       Amaro chamava a isto "caturrices de freira velha". Detestava-as, por as achar frvolas - e porque tomavam um tempo precioso, naquelas manhs da casa do sineiro...
       - Ns no viemos aqui para lamrias, dizia ele, muito secamente. Fecha a porta, se queres.
       Ela obedecia, - e ento aos primeiros beijos na penumbra da janela cerrada, ele reconhecia enfim a sua Amlia, a Amlia dos primeiros dias, o delicioso corpo 
que lhe tremia todo nos braos, em espasmos de paixo.
       E cada dia a desejava mais, dum desejo contnuo e tirnico, que aquelas horas escassas no satisfaziam. Ah! positivamente, como mulher no havia outra!... 
Desafiava a que houvesse outra, mesmo em Lisboa, mesmo nas fidalgas!... Tinha pieguices, sim, mas era no as tomar a srio, e gozar enquanto era novo!
       E gozava. A sua vida por todos os lados tinha confortos e douras - como uma destas salas onde tudo  acolchoado, no h mveis duros nem ngulos, e o corpo, 
onde quer que pouse, encontra a elasticidade mole duma almofada.
       Decerto, o melhor era as suas manhs em casa do tio Esguelhas. Mas tinha outros regalos. Comia bem: fumava caro numa boquilha de espuma: toda a sua roupa 
branca era nova e de linho: comprara alguma moblia: e no tinha, como outrora, embaraos de dinheiro porque a Sra. D. Maria da Assuno, a sua melhor confessada, 
l estava com a bolsa pronta. Sobretudo, ultimamente, tivera uma pechincha: uma noite em casa da S. Joaneira, a excelente senhora, a propsito duma famlia de ingleses 
que vira passar num char--banc para ir visitar a Batalha, exprimira a opinio que os ingleses eram hereges.
       - So batizados como ns, observara D. Joaquina Gansoso.
       - Pois sim, filha, mas  um batismo para rir. No  o nosso rico batismo, no lhes vale.
       O cnego ento, que gostava de a torturar, declarou pausadamente que a Sra. D. Maria dissera uma blasfmia. O santo conclio de Trento, no seu cnone IV, 
sesso VII, l determinara "que aquele que disser que o batismo dado aos hereges, em nome do Padre, do Filho e do Esprito, no  o verdadeiro batismo, seja excomungado!". 
E a D. Maria, segundo o santo conclio, estava desde esse momento excomungada!...
       A excelente senhora teve um flato. Ao outro dia foi lanar-se aos ps de Amaro, que em penitncia da sua injria feita ao cnone IV, sesso VII do santo concilio 
de Trento, lhe ordenou trezentas missas de inteno pelas almas do purgatrio - que D. Maria lhe estava pagando a cinco tostes cada uma.
       Assim, ele podia s vezes entrar na casa do tio Esguelhas com um ar de satisfao misteriosa e um embrulhozinho na mo. Era algum presente para Amlia, um 
leno de seda, uma gravatinha de cores, um par de luvas. Ela extasiava-se com aquelas provas da afeio do senhor proco; e era ento no quarto escuro um delrio 
de amor, enquanto embaixo a tsica, sobre a Tot, ia fazendo "trs... trs..."


XIX


       - O senhor cnego? Quero-lhe falar. Depressa!
       A criada dos Dias indicou ao padre Amaro o escritrio, e correu a cima contar a D. Josefa que o senhor proco viera procurar o senhor cnego, e com uma cara 
to transtornada que decerto tinha sucedido alguma desgraa!
       Amaro abrira abruptamente a porta do escritrio, fechou-a de repelo, e sem mesmo dar os bons-dias ao colega, exclamou:
       - A rapariga est grvida!
       O cnego, que estava escrevendo, caiu como uma massa fulminada para as costas da cadeira:
       - Que me diz voc?
       - Grvida!
       E no silncio que se fez o soalho gemia sob os passeios furiosos do proco da janela para a estante.
       - Est voc certo disso? perguntou enfim o cnego com pavor.
       - Certssimo! A mulher j h dias andava desconfiada. J no fazia seno chorar... Mas agora  certo... As mulheres conhecem, no se enganam. H todas as 
provas... Que hei-de eu fazer, padre-mestre?
       - Olha que espiga! ponderou o cnego atordoado.
       - Imagine voc o escndalo! A me, a vizinhana... E se suspeitam de mim?... Estou perdido... Eu no quero saber, eu fujo!
       O cnego coava estupidamente o cachao, com o beio cado como uma tromba. Representavam-se-lhe j os gritos em casa, a noite do parto, a S. Joaneira eternamente 
em lgrimas, toda a sua tranqilidade extinta para sempre...
       - Mas diga alguma coisa! gritou-lhe Amaro desesperado. Que pensa voc? Veja se tem alguma idia... Eu no sei, eu estou idiota, estou de todo!
       - A esto as conseqncias, meu caro colega.
       - V para o inferno, homem! No se trata de moral... Est claro que foi uma asneira... Adeus, est feita!
       - Mas ento que quer voc? disse o cnego. No quer decerto que se d uma droga  rapariga, que a arrase...
       Amaro encolheu os ombros, impaciente com aquela idia insensata. O padre-mestre, positivamente, estava divagando...
       - Mas ento que quer voc? repetia o cnego num tom cavo, arrancando as palavras ao abismo do trax.
       - Que quero! Quero que no haja escndalo! Que hei-de eu querer?
       - De quantos meses est ela?
       - De quantos meses? Est de agora, est dum ms...
       - Ento  cas-la! exclamou o cnego com exploso. Ento  cas-la com o escrevente!
       O padre Amaro deu um pulo:
       - Com os diabos, tem voc razo!  de mestre!
       O cnego afirmou gravemente com a cabea que era "de mestre".
       - Cas-la j! Enquanto  tempo! Pater est quem nuptiae demonstrant... Quem  marido  que  pai.
       Mas a porta abriu-se, e apareceram os culos azuis, a touca negra de D. Josefa. No se pudera conter em cima, na cozinha, tomada dum frenesi agudo de curiosidade; 
descera na ponta das chinelas e colara o ouvido  fechadura do escritrio; mas o grosso reposteiro de baeto estava cerrado por dentro, um rudo de lenha que se 
descarregava na rua abafava as vozes. A boa senhora ento decidiu-se a entrar, "a dar os bons-dias ao senhor proco".
       Mas debalde, por detrs dos vidros defumados, os seus olhinhos agudos esquadrinharam ansiosamente o caro espesso do mano e a face plida de Amaro. Os dois 
sacerdotes estavam impenetrveis como duas janelas fechadas. O proco mesmo falou ligeiramente do reumtico do senhor chantre, da notcia que corria sobre o casamento 
do senhor secretrio-geral... Ao fim duma pausa ergueu-se, contou que tinha nesse dia uma famosa orelheira para o jantar - e a Sra. D. Josefa, roendo-se, viu-o abalar 
depois de ter dito j por detrs do reposteiro ao cnego:
       - Ento at  noite em casa da S. Joaneira, padre-mestre, hem?
       - At  noite.
       E o cnego, muito grave, continuou a escrever. D. Josefa ento no se conteve; e depois de arrastar um momento as chinelas em tomo do banco do mano:
       - H novidade?
       - Grande novidade, mana! disse-lhe o cnego, sacudindo os bicos da pena. Morreu o senhor D. Joo VI!
       - Malcriado! rugiu ela rodando sobre os sapates, cruelmente perseguida por uma risadinha do mano.
       Foi  noite, embaixo, na saleta da S. Joaneira, enquanto Amlia em cima, com a morte na alma, martelava a Valsa dos Dois Mundos, que os dois padres, muito 
chegados no canap, de cigarro nos dentes, por debaixo do tenebroso painel onde a vaga mo do cenobita se estendia em garra sobre a caveira, cochicharam o seu plano: 
- antes de tudo era necessrio achar Joo Eduardo, que desaparecera de Leiria; a Dionsia, mulher de faro, ia bater todos os recantos da cidade para descobrir a 
toca em que a fera se acoutava; depois, imediatamente, porque o tempo urgia, Amlia escrever-lhe-ia... S quatro palavras simples: que soubera que ele fora vtima 
duma intriga; que nunca perdera nada da amizade que lhe tinha; que lhe devia uma reparao; e que viesse v-la... Se o rapaz hesitasse agora, o que no era provvel 
(o cnego afirmava-o), fazia-se-lhe reluzir a esperana do emprego no governo civil, fcil de obter pelo Godinho, inteiramente governado pela mulher, que era uma 
escravazinha do pobre Natrio?...
       - Mas o Natrio, disse Amaro, o Natrio que detesta o escrevente, que dir ele a esta revoluo?
       - Homem, exclamou o cnego com uma grande palmada na coxa, que me tinha esquecido! Pois voc no sabe o que aconteceu ao pobre Natrio?...
       Amaro no sabia.
       - Quebrou uma perna! Caiu da gua!
       - Quando?
       - Esta manh. Eu soube-o agora  noitinha. Eu sempre lho disse: homem, esse animal ferra-lhe alguma! Pois senhores, ferrou-lha. E tesa! Tem para pras... 
E eu que me tinha esquecido! Nem as senhoras l em cima sabem nada.
       Foi uma desolao, em cima, quando souberam. Amlia fechou o piano. Todos lembraram logo remdios que se lhe devia mandar, foi uma gralhada de oferecimentos 
- ligaduras, fios, um ungento das freiras de Alcobaa, meia garrafinha dum licor dos monges do deserto de ao p de Crdova... Era necessrio tambm assegurar a 
interveno do Cu: e cada uma se prontificou a usar do seu valimento com os santos da sua intimidade; D. Maria da Assuno, que ultimamente praticava com Santo 
Eleutrio, ofereceu a sua influncia; D. Josefa Dias encarregava-se de interessar Nossa Senhora da Visitao; D. Joaquina Gansoso afianou S. Joaquim.
       - E l a menina? perguntou o cnego a Amlia.
       - Eu?...
       E fez-se plida, numa tristeza de toda a sua alma, pensando que ela, com os seus pecados e os seus delrios, perdera a til amizade de Nossa Senhora das Dores. 
- E no poder ela tambm concorrer com a sua influncia no Cu para restabelecer a perna de Natrio, foi uma das amarguras maiores, talvez a punio mais viva que 
sentira desde que amava o padre Amaro.

***

       Foi em casa do sineiro, da a dias, que Amaro participou a Amlia o plano do padre-mestre. Preparou-a, revelando-lhe primeiro que o cnego sabia tudo...
       - Sabe tudo em segredo de confisso, acrescentou para a sossegar. Alm disso ele e tua me tm culpas em cartrio... Tudo fica em famlia...
       Depois tomou-lhe a mo, e olhando-a com ternura, como compadecendo-se j das lgrimas aflitas que ela ia chorar:
       - E agora, escuta, filha. No te aflijas com o que te vou dizer, mas  necessrio,  a nossa salvao...
       s primeiras palavras, porm, do casamento com o escrevente, Amlia indignou-se com espalhafato.
       - Nunca, antes morrer!
       O qu? Ele punha-a naquele estado e agora queria descartar-se dela e pass-la a outro? Era ela porventura um trapo que se usa e que se atira a um pobre? Depois 
de ter posto fora de casa o homem, havia de humilhar-se, cham-lo e cair-lhe nos braos?... Ah, no! Tambm ela tinha o seu brio! Os escravos trocavam-se, vendiam-se, 
mas era no Brasil!
       Enterneceu-se ento. Ah, ele j no a amava, estava farto dela! Ah, que desgraada, que desgraada que era! - Atirou-se de bruos para a cama e rompeu num 
choro estridente.
       - Cala-te, mulher, que te podem ouvir na rua! dizia Amaro desesperado, sacudindo-a pelo brao.
       - No me importa! Que ouam! Para a rua vou eu, gritar que estou neste estado, que foi o Sr. padre Amaro, e que me quer agora deixar!...
       Amaro fazia-se lvido de raiva, com desejo furioso de lhe bater. Mas conteve-se; e com uma voz que tremia sob a sua serenidade:
       - Tu ests fora de ti, filha... Dize l, posso eu casar contigo? No! Bem, ento que queres? Se se percebe que ests assim, se tens o filho em casa, v o 
escndalo!... Por ti, ests perdida, perdida para sempre! E eu, se se souber, que me sucede? Perdido tambm, suspenso, metido em processo talvez... De que queres 
tu que eu viva? Queres que morra de fome?
       Enterneceu-se tambm quela idia das privaes e das misrias do padre interdito. - Ah, era ela, era ela que o no amava, e que depois dele ter sido to 
carinhoso e to dedicado, lhe queria pagar com o escndalo e com a desgraa...
       - No, no, exclamou Amlia em soluos, lanando-se-lhe ao pescoo.
       E ficaram abraados, tremendo no mesmo enternecimento, - ela molhando de pranto o ombro do proco, ele mordendo o beio com os olhos todos turvos de gua.
       Desprendeu-se brandamente, enfim, e limpando as lgrimas:
       - No, filha,  uma desgraa que nos sucede, mas tem de ser. Se tu sofres, imagina eu! Ver-te casada, a viver com outro... Nem falemos nisso... Mas ento, 
 a fatalidade,  Deus que a manda!
Ela ficara aniquilada,  beira do leito, tomada ainda de grandes soluos. Tinha chegado enfim o castigo, a vingana de Nossa Senhora, que ela sentia preparar-se 
h tempos no fundo dos cus, como uma tormenta complicada. A estava, agora, pior que os fogos do Purgatrio! Tinha de se separar de Amaro que imaginava amar mais, 
e ir viver com o outro, com o excomungado! Como poderia ela nunca reentrar na graa de Deus, depois de ter dormido e vivido com um homem que os cnones, o papa, 
toda a terra, todo o Cu consideravam maldito?... E devia ser esse seu marido, talvez o pai de outros filhos... Ah, Nossa Senhora vingava-se demais!
       - E como posso eu casar com ele, Amaro, se o homem est excomungado?!
       Amaro ento apressou-se a tranqiliz-la, prodigalizando os argumentos. Era necessrio no exagerar... O rapaz, verdadeiramente, excomungado no estava... 
Natrio e o cnego tinham interpretado mal os cnones e as bulas... Bater num sacerdote que no estava revestido no era motivo de excomunho ipso facto, segundo 
certos autores... Ele, Amaro, era dessa opinio... De mais a mais podiam levantar-lhe a excomunho.
       - Tu compreendes... Como disse o santo concilio de Trento, e como sabes, ns atamos e desatamos. O moo foi excomungado?... Bem, levantamos-lhe a excomunho. 
Fica to limpo como dantes. No, isso no te d cuidado.
       - Mas de que havemos de viver, se ele perdeu o emprego?
       - Tu no me deixaste dizer... Arranja-se-lhe o emprego. Arranja-lho o padre-mestre. Est tudo combinadinho, filha!
       Ela no respondeu, muito quebrada e muito triste, com duas lgrimas persistentes ao comprido das faces.
       - Dize c, tua me no desconfia de nada?
       - No, por ora no se percebe, respondeu ela com um grande ai.
       Ficaram calados: ela limpando as lgrimas, serenando para sair; ele de cabea baixa, trilhando lugubremente o soalho do quarto, pensando nas boas manhs de 
outrora, quando s havia ali beijos e risadinhas abafadas; tudo mudara agora, at o tempo que estava todo nublado, um dia de fim de Vero, ameaando chuva.
       - Percebe-se que estive a chorar? perguntou ela, compondo ao espelho o cabelo.
       - No. Vais-te?
       - A mam est  minha espera...
       Deram um beijo triste, e ela saiu.

***

       No entanto a Dionsia farejava pela cidade na pista de Joo Eduardo. A sua atividade desenvolvera-se, sobretudo, mal soubera que o cnego Dias, o ricao, 
estava interessado na pesquisa. E todos os dias,  noitinha, esgueirava-se cautelosamente pelo porto de Amaro a dar-lhe as novidades: j sabia que o escrevente 
estivera ao princpio em Alcobaa com um primo boticrio; depois fora para Lisboa; ai, com uma carta de recomendao do doutor Gouveia, empregara-se no cartrio 
dum procurador; mas o procurador, passados dias, por uma fatalidade, morrera de apoplexia; e desde ento o rasto de Joo Eduardo perdia-se no vago, no caos da capital. 
Havia, sim, uma pessoa que lhe devia saber a morada e os passos: era o tipgrafo, o Gustavo. Mas infelizmente o Gustavo, depois duma questo com o Agostinho, deixara 
o Distrito e desaparecera. Ningum sabia para onde fora; por desgraa, a me do tipgrafo no a podia informar - porque morrera tambm. 
       - Oh, senhores! dizia o cnego quando o padre Amaro lhe ia levar estes fios de informao. Oh, senhores! mas ento nessa histria toda a gente morre! Isso 
 uma hecatombe!
       - Voc graceja, padre-mestre, mas  srio. Olhe que um homem em Lisboa  agulha em palheiro.  uma fatalidade!
       Ento, aflito j, vendo passar os dias, escreveu  tia, pedindo-lhe que esquadrinhasse por toda a Lisboa, a ver se por l aparecera "um tal Joo Eduardo Barbosa..." 
Recebeu uma carta da tia em garatujas de trs pginas, queixando-se do Joozinho, do seu Joozinho, que lhe fizera a vida um inferno, embebedando-se com genebra 
a ponto que no lhe paravam hspedes em casa. Mas estava agora mais tranqila: o pobre Joozinho havia dias jurara-lhe pela alma da mam que da por diante no beberia 
seno gasosa. Enquanto ao tal Joo Eduardo, perguntara na vizinhana e ao Sr. Palma do Ministrio das Obras Pblicas, que conhecia toda a gente, mas nada averiguara. 
Havia, sim, um Joaquim Eduardo que tinha uma loja de quinquilharias no bairro... E se fosse o negcio com ele bem ia, que era um homem de bem...
       - Lrias! lrias! interrompeu o cnego impaciente.
       Resolveu-se ele ento a escrever. E instado pelo padre Amaro (que no cessava de lhe representar o que a S. Joaneira e ele mesmo, cnego Dias, sofreriam com 
o escndalo) chegou a autorizar ao seu amigo da capital as despesas necessrias para empregar a polcia. A resposta demorou- se, mas veio enfim, prometedora e magnifica! 
O hbil polcia Mendes descobrira Joo Eduardo! Somente no lhe sabia ainda a morada, avistara-o apenas num caf; mas em dois ou trs dias o amigo Mendes prometia 
informaes precisas.
       O desespero dos dois sacerdotes, porm, foi grande quando, da a dias, o amigo do cnego escreveu que o indivduo, que o hbil polcia Mendes tomara por Joo 
Eduardo, num caf da Baixa, sobre sinais incompletos, era um moo de Santo Tirso que estava na capital a fazer concurso para delegado... E havia trs libras e dezessete 
tostes de despesa.
       - Dezessete demnios! rugiu o cnego, voltando-se para Amaro furioso. E no fim de contas foi o senhor que gozou, que se refocilou, e sou eu que estou aqui 
a arrasar a minha sade com estas andadas, e a fazer desembolsos desta ordem!
       Amaro, dependente do padre-mestre, vergou os ombros  injria.
       Mas no estava nada perdido, graas a Deus. A Dionsia l andava no faro!

***

       Amlia recebia estas notcias com desconsolao. Depois das primeiras lgrimas, a irremedivel necessidade impusera-se-lhe, muito forte. Por fim que lhe restava? 
Da a dois ou trs meses, com aquele seu desgraado corpo de cinta fina e quadris estreitos, no poderia esconder o seu estado. E que faria ento? Fugir de casa, 
ir como a filha do tio Cegonha para Lisboa, ser espancada no Bairro Alto pelos marujos ingleses, ou como a Joaninha Gomes, que fora a amiga do padre Ablio, levar 
pela cara os ratos mortos que lhe atiravam os soldados? No. Ento, tinha de casar...
       Depois vir-lhe-ia um menino ao fim dos sete meses (era to freqente!), legitimado pelo sacramento, pela lei e por Deus Nosso Senhor... E o seu filho teria 
um pap, receberia uma educao, no seria um enjeitado...
       Desde que o senhor proco lhe afirmara, em juramento, que o escrevente no estava realmente excomungado, que com algumas oraes se lhe levantaria a excomunho, 
os seus escrpulos devotos esmoreciam como brasas que se apagam. No fim, em todos os erros do escrevente, ela s podia descobrir a incitao do cime e do amor: 
fora num despeito de namorado que escrevera o Comunicado, fora num furor de paixo trada que espancara o senhor proco... Ah! No lhe perdoava esta brutalidade! 
Mas que castigado fora! Sem emprego, sem casa, sem mulher, to perdido na misria annima de Lisboa que nem a polcia achava! E tudo por ela. Pobre rapaz! No fim 
no era feio... Falavam da sua impiedade; mas vira-o sempre muito atento  missa, rezava todas as noites uma orao especial a S. Joo que ela lhe dera impressa 
num carto bordado...
       Com o emprego no governo civil podiam ter uma casinha e uma criada... Por que no seria feliz, por fim? Ele no era rapaz de botequins, nem de vadiagem. Tinha 
a certeza de o dominar, de lhe impor os seus gostos e as suas devoes. E seria agradvel sair aos domingos de manh para a missa, arranjada, de marido ao lado, 
cumprimentada de todos, podendo,  face da cidade, passear o seu filho muito vistoso na sua touca de rendas e na sua grande capa franjada! Quem sabe se, ento, pelos 
carinhos que desse ao pequerrucho e pelos confortos de que cercasse o homem, o Cu e Nossa Senhora se no abrandariam! Ah! para isso faria tudo, para ter outra vez 
no Cu aquela amiga, a sua querida Nossa Senhora, amvel e confidente, sempre pronta a curar-lhe as dores, a livr-la de infortnios, ocupada a preparar-lhe no Paraso 
um luminoso conchego!
       Pensava assim horas inteiras, sobre a sua costura; pensava assim, mesmo no caminho para casa do sineiro; e depois de ter estado um momento com a Tot, muito 
quieta agora, extenuada da febre lenta, quando subia ao quarto, a primeira pergunta a Amaro era:
       - Ento, h alguma novidade?
       Ele franzia a testa, rosnava:
       - A Dionsia l anda... Por qu, tens muita pressa?
       - Tenho muita pressa, tenho, respondia ela muito sria, que a vergonha  para mim.
       Ele calava-se; e havia tanto dio como amor nos beijos que lhe dava - quela mulher que se resignava assim to facilmente a ir dormir com outro!

***

       Tinha cimes dela - que lhe tinham vindo ultimamente desde que a vira conformar-se quele casamento odioso! Agora, que ela j no chorava, comeava a enfurecer-se 
da falta das suas lgrimas; e secretamente desesperava-se dela no preferir a vergonha com ele  reabilitao com o outro. No lhe custaria tanto se ela continuasse 
a barafustar, a fazer um alarido de prantos; isso seria uma prova sria de amor, em que a sua vaidade se banharia deliciosamente; mas aquela aceitao do escrevente 
agora, sem repugnncia e sem gestos de horror, indignava-o como uma traio. Viera a suspeitar que a ela no fundo no lhe desagradava a mudana. Joo Eduardo por 
fim era um homem; tinha a fora dos vinte e seis anos, os atrativos dum belo bigode. Ela teria nos braos dele o mesmo delrio que tinha nos seus... Se o escrevente 
fosse um velho consumido de reumatismo, ela no mostraria a mesma resignao. Ento, por vingana de padre, para "lhe desmanchar o arranjo", desejava que Joo Eduardo 
no aparecesse: e muitas vezes, quando a Dionsia lhe vinha dar conta dos seus passos, dizia-lhe com um mau sorriso:
       - No se canse. O homem no aparece. Deixe l... No vale a pena ganhar dor de peito...
       Mas a Dionsia tinha o peito forte - e uma noite veio, triunfante, dizer-lhe que estava na pista do homem! Vira enfim o Gustavo, o tipgrafo, entrar para 
a casa de pasto do tio Osrio. Ao outro dia ia-lhe falar, e havia de se saber tudo...
       Foi uma hora amargurada para Amaro. Aquele casamento, por que ansiara no primeiro momento de terror, agora, que o sentia seguro, parecia-lhe a catstrofe 
da sua vida.
       Perdia Amlia para sempre!... Aquele homem que ele expulsara, que ele suprimira, ali lhe vinha, por uma destas peripcias malignas em que a Providncia se 
compraz, levar-lhe a mulher legitimamente. E a idia que ele ia t-la nos braos, que ela lhe daria os beijos fogosos que lhe dava a ele, que balbuciaria oh, Joo! 
- como agora murmurava oh, Amaro! - enfurecia-o. E no podia evitar o casamento; todos o queriam, ela, o cnego, at a Dionsia com o seu zelo venal!
       De que lhe servia ser um homem com sangue nas veias e as paixes fortes dum corpo so? Tinha de dizer adeus  rapariga, - v-la partir de brao dado com o 
outro, com o marido, irem ambos para casa brincar com o filho, um filho que era seu! E ele assistiria  destruio da sua alegria de braos cruzados, esforando-se 
por sorrir, voltaria a viver s, eternamente s, e a reler o Brevirio!... Ah! se fosse no tempo em que se suprimia um homem com uma denncia de heresia!... Que 
o mundo recuasse duzentos anos, e o Sr. Joo Eduardo havia de saber o que custa achincalhar um sacerdote e casar com a menina Amlias...
       E esta idia absurda, na exaltao da febre em que estava, apoderou-se to fortemente da sua imaginao que toda a noite a sonhou - num sonho vvido, que 
muitas vezes depois contou rindo s senhoras. Era uma rua estreita batida dum sol ardente; entre as altas portas chapeadas, uma populaa apinhava-se; pelos balces, 
fidalgos muito bordados retorciam o bigode cavalheiresco; olhos reluziam, entre as pregas das mantilhas, acesos num furor santo. E pela calada, a procisso do auto-de-f 
movia-se devagar, num vasto rudo, sob o tremendo dobre a finados de todos os sinos vizinhos. Adiante os flagelantes seminus, de capuz branco sobre o rosto, dilaceravam-se, 
uivando o Miserere, com as costas empastadas de sangue: sobre um jumento ia Joo Eduardo, idiota de terror, com as pernas pendentes, a camisa alva sarapintada de 
diabos cor de fogo, tendo no peito um rtulo em que estava escrito - POR HEREGE; por trs um medonho servente do Santo Ofcio espicaava furiosamente o jumento; 
e ao pi um padre, erguendo alto o crucifixo, berrava-lhe aos ouvidos os conselhos do arrependimento. E ele, Amaro, caminhava ao lado cantando o Requiem, de Brevirio 
aberto numa mo, com a outra abenoando as velhas, as amigas da Rua da Misericrdia que se agachavam para lhe beijar a alva. s vezes voltava-se para gozar aquela 
pompa lgubre, e via ento a longa fila da confraria dos Nobres: aqui era um personagem panudo e apopltico, alm uma face de mstico com um bigode feroz e dois 
olhos chamejantes; cada um levava uma tocha acesa, e na outra mo sustentava o chapu cuja pluma negra varria o cho. Os capacetes dos arcabuzeiros reluziam; uma 
clera devota contorcia as faces esfomeadas do populacho; e o prstito ondeava nas tortuosidades da rua, entre o clamor do cantocho, os gritos dos fanticos, o 
dobrar aterrador dos sinos, o tlintlim das armas, num terror que enchia toda a cidade, - aproximando-se da plataforma de tijolo onde j fumegavam as pilhas de lenha.
       E o seu desengano foi grande, depois daquela glria eclesistica do sonho, quando a criada o veio acordar cedo com gua quente para a barba.
       Era pois nesse dia que se ia saber do Sr. Joo Eduardo, e escrever-se-lhe!... Devia encontrar-se com Amlia s onze horas; e foi a primeira coisa que lhe 
disse, atirando a porta do quarto com mau modo:
       - O homem apareceu... Pelo menos apareceu o amigo intimo, o tipgrafo, que sabe onde a besta pra.
       Amlia, que estava num dia de desalento e terror, exclamou:
       - Ainda bem, que se acaba este tormento!
       Amaro teve um risinho repassado de fel:
       - Ento agrada-te, hem?
       - Se te parece, neste susto em que ando...
       Amaro teve um gesto desesperado de impacincia. Susto! No estava m hipocrisia! Susto de qu? Com uma me que era uma babosa, que lhe consentia tudo... O 
que era, era que queria casar... Queria outro! No lhe agradava aquele divertimento pela manh, de fugida... Queria a coisa comodamente, em casa. Imaginava a menina 
que o iludia a ele, um homem de trinta anos e quatro anos de experincia de confisso? Via bem atravs dela... Era como as outras, queria mudar de homem.
Ela no respondia, muito plida. E Amaro, furioso com o seu silncio:
       - Calas-te, est claro... Que hs-de tu dizer? Se  a verdade pura!... Depois dos meus sacrifcios... Depois do que tenho sofrido por ti... Aparece-te o outro, 
larga para o outro!
       Ela ergueu-se, e batendo o p, desesperada:
       - Foste tu que quiseste, Amaro!
       - Pudera! Se imaginas que me havia de perder por tua causal Est claro que quis!... - E olhando-a de alto, fazendo-lhe sentir um desprezo de alma muito reta; 
- Mas nem vergonha tens de mostrar a alegria, o furor de ir para o homem!... s uma desavergonhada,  o que ...
       Ela, sem uma palavra, branca como a cal, agarrou o mantelete para sair.
       Amaro, exasperado, segurou-a violentamente pelo brao:
       - Para onde vais? Olha bem para mim. s uma desavergonhada... Estou-te a dizer. Ests morta por dormir com o outro...
       - Pois acabou, estou! disse ela.
       Amaro, perdido, atirou-lhe uma bofetada.
       - No me mates! gritou ela.  o teu filho!
       Ele ficou diante dela, enleado e trmulo: quela palavra, quela idia do seu filho, uma piedade, um amor desesperado revolveu todo o seu ser: e arremessando-se 
sobre ela, num abrao que a esmagava, como querendo sepult-la no peito, absorv-la toda s para si, atirando-lhe beijos furiosos que a magoavam, pela face e pelos 
cabelos:
       - Perdoa, murmurava, perdoa, minha Ameliazinha! Perdoa, que estou doido!
       Ela soluava, num pranto nervoso, - e toda a manh foi no quarto do sineiro um delrio de amor a que aquele sentimento da maternidade, ligando-os como um 
sacramento, dava uma ternura maior, um renascimento incessante de desejo, que os lanava cada vez mais vidos nos braos um do outro.
Esqueceram as horas; e Amlia s se decidiu a saltar do leito quando ouviram embaixo na cozinha a muleta do tio Esguelhas.
       Enquanto ela se arranjava  pressa diante do bocado de espelho que ornava a parede, Amaro diante dela contemplava-a com melancolia, vendo-a passar o pente 
nos cabelos - nos cabelos que ele dentro em breve no tornaria a ver pentear; deu um grande suspiro, disse-lhe enternecido:
       - Esto a acabar os nossos bons dias, Amlia. s tu que queres... Hs-de-te lembrar algumas vezes destas boas manhs...
       - No diga isso! fez ela com os olhos arrasados de gua.
       E atirando-se-lhe de repente ao pescoo, com a antiga paixo dos tempos felizes, murmurou-lhe:
       - Hei-de ser sempre a mesma para ti... Mesmo depois de casada.
       Amaro agarrou-lhe as mos sofregamente:
       - Juras?
       - Juro.
       - Pela hstia sagrada?
       - Juro pela hstia sagrada, juro por Nossa Senhora!
       - Sempre que tenhas ocasio?
       - Sempre!
       - Oh, Ameliazinha! oh, filha! no te trocava por uma rainha!
       Ela desceu. O proco, dando uma arranjadela ao leito, ouvia-a embaixo falar tranqilamente com o tio Esguelhas; e dizia consigo que era uma grande rapariga, 
capaz de enganar o diabo, e que havia de fazer andar numa roda-viva o pateta do escrevente.
       Aquele "pacto", como lhe chamava o padre Amaro, tornou-se entre eles to irrevogvel que j lhe discutiam tranqilamente os detalhes. O casamento com o escrevente 
consideravam-no como uma destas necessidades que a sociedade impe e que sufoca as almas independentes, mas a que a natureza se subtrai pela menor fenda, como um 
gs irredutvel. Diante de Nosso Senhor, o verdadeiro marido de Amlia era o senhor proco; era o marido da alma, para quem seriam guardados os melhores beijos, 
a obedincia intima, a vontade: o outro teria quando muito o cadver... J s vezes mesmo tramavam o plano hbil das correspondncias secretas, dos lugares ocultos 
de rendez-vous...
       Amlia estava de novo, como nos primeiros tempos, em todo o fogo da paixo. Diante da certeza que em algumas semanas o casamento ia tornar "tudo branco como 
a neve", os seus transes tinham desaparecido, o mesmo terror da vingana do Cu calmara-se. Depois, a bofetada que lhe dera Amaro fora como a chicotada que esperta 
um cavalo que preguia e se atrasa: e a sua paixo, sacudindo-se e relinchando forte, ia-a de novo levando no mpeto duma carreira fogosa.
       Amaro, esse regozijava-se. Ainda s vezes, decerto, a idia daquele homem, de dia e de noite com ela, importunava-o... Mas, no fundo, que compensaes! Todos 
os perigos desapareciam magicamente, e as sensaes requintavam. Findavam para ele aquelas atrozes responsabilidades da seduo, e ficava-lhe a mulher mais apetitosa.
       Instava agora com a Dionsia para que acabasse enfim aquela fastidiosa campanha. Mas a boa mulher, decerto para se fazer pagar melhor pela multiplicidade 
de esforos, no podia descobrir o tipgrafo - aquele famoso Gustavo que possua, como os anes de romance de cavalaria, o segredo da torre maravilhosa onde vive 
o prncipe encantado.
       - Oh, senhor! dizia o cnego, isso at j cheira mal! H quase dois meses  busca dum patife!... Homem, escreventes no faltam. Arranje-se outro!
       Mas enfim, uma noite em que ele entrara a descansar em casa do proco, a Dionsia apareceu; e exclamou logo da porta da sala de jantar, onde os dois padres 
tomavam o seu caf;
       - At que enfim!
       - Ento, Dionsia?
       A mulher, porm, no se apressou: sentou-se mesmo, com licena dos senhores, porque vinha derreada... No, o senhor cnego no imaginava os passos que se 
vira obrigada a dar... O maldito tipgrafo lembrava-lhe a histria que lhe contavam em pequena, dum veado que estava sempre  vista e que os caadores a galope nunca 
alcanavam. Uma perseguio assim!... Mas, finalmente, apanhara-o... E tocadito, por sinal.
       - Acabe, mulher! berrou o cnego.
       - Pois aqui est, disse ela. Nada!
       Os dois sacerdotes olharam-na mistificados.
       - Nada qu, criatura?
       - Nada. O homem foi para o Brasil!
       O Gustavo recebera de Joo Eduardo duas cartas: na primeira, onde lhe dava a morada, para o lado do Poo do Borratm, anunciava-lhe a resoluo de ir para 
o Brasil; na segunda dizia-lhe que mudara de casa, sem lhe indicar a nova adresse, e declarava que pelo prximo paquete embarcava para o Rio; no dizia nem com que 
dinheiro, nem com que esperanas. Tudo era vago e misterioso. Desde ento, havia um ms, o rapaz no tornara a escrever, donde o tipgrafo conclua que ia a essa 
hora nos altos-mares... - "Mas havemos de ving-lo!" tinha ele dito a Dionsia.
       O cnego remexia pausadamente o seu caf, embatocado.
       - E esta, padre-mestre? exclamou Amaro, muito branco.
       - Acho-a boa.
       - Diabo levem as mulheres, e o inferno as confunda! disse surdamente Amaro.
       - Amm, respondeu gravemente o cnego.


XX


       Que lgrimas quando Amlia soube a notcia! A sua honra, a paz da sua vida, tantas felicidades combinadas, tudo perdido e sumido nas brumas do mar, a caminho 
para o Brasil!
       Foram as semanas piores da sua vida. Ia para o proco, banhada em lgrimas, perguntando-lhe todos os dias o que havia de fazer.
       Amaro, sucumbido, sem idia, ia para o padre-mestre.
       - Fez-se tudo o que se pde, dizia o cnego desolado.  agentar. No se metesse nelas!
       E Amaro voltava para Amlia com consolaes muito murchas:
       - Tudo se h-de arranjar,  esperar em Deus!
       Era bom o momento para contar com Deus, quando Ele, indignado, a acabrunhava de misrias! E aquela indeciso, num homem e num padre, que devia ter a habilidade 
e a fora de a salvar, desesperava-a; a sua ternura por ele sumia-se como a gua que a areia absorve; e ficava um sentimento confuso em que sob o desejo persistente 
j transluzia o dio.
       Espaava agora de semana a semana os encontros na casa do sineiro. Amaro no se queixava; aquelas boas manhs do quarto do tio Esguelhas, eram sempre estragadas 
com queixumes; cada beijo tinha um rastro de soluos; e aquilo enervava-o tanto, que lhe vinham desejos de se atirar tambm de bruos para a enxerga e chorar toda 
a sua amargura.
       No fundo acusava-se de exagerar os seus embaraos, de lhe comunicar um terror desproporcionado. Outra mulher, de melhor senso, no faria semelhante espalhafato... 
Mas que, uma beata histrica, toda nervos, toda medo, toda exaltao!... Ah, no havia dvida, fora "urna famosa asneira"! 
       Tambm Amlia pensava que fora "uma asneira". E no ter nunca imaginado que aquilo lhe poderia suceder! Qual! Como mulher, correra para o amor, toda tonta, 
certa que escaparia, ela, - e agora que sentia nas entranhas o filho, eram as lgrimas e os espantos e as queixas! A sua vida era lgubre: de dia tinha de se conter 
diante da me, aplicar-se  sua costura, conversar, afetar felicidade... Era de noite que a imaginao desencadeada a torturava com uma incessante fantasmagoria 
de castigos, deste e do outro mundo, misrias, abandonos, desprezo da gente honrada e chamas do Purgatrio...
       Foi ento que um acontecimento inesperado veio fazer diverso quela ansiedade que se ia tomando um hbito mrbido do seu esprito. Uma noite a criada do 
cnego apareceu, esfalfada de correr, a dizer que a Sra. D. Josefa estava  morte.
       Na vspera a excelente senhora sentira-se doente com uma pontada no lado, mas insistira em ir  Senhora da Encarnao rezar a sua coroa; voltou transida, 
com uma dor maior e uma ponta de febre; e nessa tarde, quando o doutor Gouveia foi chamado, tinha-se declarado uma pneumonia aguda. '
       A S. Joaneira correu logo a instalar-se l como enfermeira. E ento, durante semanas, na tranqila casa do cnego, foi um alvoroo de dedicaes aflitas: 
as amigas, quando se no espalhavam pelas igrejas a fazer promessas e a implorar os seus santos devotos, estavam l em permanncia, saindo e entrando no quarto da 
doente com passos de fantasmas, acendendo aqui e alm lamparinas s imagens, torturando o doutor Gouveia com perguntas piegas.  noite na sala, com o candeeiro a 
meia luz, era pelos cantos um cochichar de vozes lgubres; e ao ch, entre cada mastigadela de torrada, havia suspiros, lgrimas furtivamente limpadas...
       O cnego l estava a um canto, aniquilado, sucumbido com aquela brusca apario da doena e do seu cenrio melanclico - as garrafadas de botica enchendo 
as mesas, as entradas solenes do mdico, as faces compungidas que vm saber se h melhoras, o hlito febril espalhado em toda a casa, o timbre funerrio que toma 
o relgio de parede no abafamento de todo o rudo, as toalhas sujas que ficam dias no lugar em que caram, o anoitecer de cada dia com a sua ameaa de treva eterna... 
De resto, um pesar sincero prostrava-o; havia cinqenta anos que vivia com a mana e era animado por ela; o longo hbito tomara-lha cara; e as suas caturrices, as 
suas toucas negras, o seu espalhafato pela casa faziam como uma parte mesma do seu ser... Alm disso, quem sabe se a morte, entrando-lhe em casa, para poupar passos, 
o no levaria tambm!...
       Para Amlia aquele tempo foi um alvio; ao menos ningum pensava, ningum reparava nela; nem a sua face triste e os vestgios de lgrimas pareceriam estranhos, 
naquele perigo em que estava a madrinha. Demais, os servios de enfermeira ocupavam-na: como era a mais forte e a mais nova, agora que a S. Joaneira estava estafada 
de viglias, era ela que passava as longas noites  beira de D. Josefa: e no havia ento desvelos que no tivesse, para abrandar Nossa Senhora e o Cu com aquela 
caridade pela doente, para merecer igual piedade quando o seu dia viesse de estar tambm prostrada num leito... Vinha-lhe agora, sob a impresso fnebre que se exalava 
da casa, o pressentimento repetido que morreria de parto: s vezes s, embrulhada no seu xale aos ps da doente, ouvindo-lhe o gemer montono, enternecia-se sobre 
a sua prpria morte que julgava certa, e molhavam-se-lhe os olhos de lgrimas, numa saudade vaga de si mesma, da sua mocidade e dos seus amores... l ento ajoelhar-se 
junto da cmoda, onde uma lamparina bruxuleava diante dum Cristo projetando sobre o papel claro da parede a sua sombra disforme que se quebrava no teto; e ali ficava 
rezando, pedindo a Nossa Senhora que no lhe recusasse o Paraso... Mas a velha mexia-se com um ai doloroso; ia ento aconchegar-lhe a roupa, falar-lhe baixo. Vinha 
depois  sala ver no relgio se era o momento do remdio; e estremecia s vezes, sentindo vir do quarto prximo um pio de flautim ou um som rouco de trombone; era 
o cnego a ressonar.
       Enfim, uma manh, o doutor Gouveia declarou D. Josefa livre de perigo. Foi um vivo regozijo para as senhoras - certa, cada uma, que aquilo era devido  interveno 
particular do seu santo devoto. E dai a duas semanas houve uma festa na casa, quando D. Josefa, pela primeira vez, amparada nos braos de todas as amigas, deu dois 
passos trmulos no quarto. Pobre D. Josefa, o que dela fizera a doena! Aquela vozinha irritada em que as palavras eram despedidas como setas envenenadas, assemelhava-se 
agora apenas a um som expirante, quando, num esforo ansioso da vontade, pedia a escarradeira ou o xarope. Aquele olhar sempre alerta, escrutador e maligno, estava 
hoje como refugiado no fundo das rbitas, assustado da luz, das sombras e dos contornos das coisas. E o seu corpo, to teso outrora, duma secura de ramo de sarmento, 
agora ao cair no fundo da poltrona, sob a trapalhada dos agasalhos, parecia um trapo tambm.
       Mas enfim o doutor Gouveia, apesar de anunciar uma convalescena longa e delicada, dissera rindo ao cnego, diante das amigas (depois de ter visto D. Josefa 
manifestar o seu primeiro desejo, o desejo de se chegar  janela) que com muita cautela, tnicos, e as oraes de todas aquelas boas senhoras - a mana estava ainda 
para amores...
       - Ai doutor, exclamou D. Maria, as nossas oraes no lhe ho-de faltar...
       - E eu no lhe hei-de faltar com os tnicos, disse o doutor. De modo que, o que resta  congratularmo-nos.
       Aquela jovialidade do doutor era para todos como a certeza da sade prxima.
       E dai a dias, o cnego, vendo aproximar-se o fim de agosto, falou de alugar casa na Vieira, como costumava um ano sim outro no, para ir tomar os seus banhos 
de mar. O ano passado no fora. Este era o ano de praia...
       - E a mana l, naqueles ares saudveis da beira-mar,  que acaba de ganhar foras e carnes...
       Mas o doutor Gouveia desaprovou a jornada. O ar muito picante e muito rico do mar no convinha  fraqueza de D. Josefa. Era prefervel irem para a quinta 
da Ricoa, nos Poiais, lugar abrigado e muito temperado.
       Foi um desgosto para o pobre cnego, que prodigalizou as lamrias. O qu! ir enterrar-se todo o Vero, o melhor tempo do ano, na Ricoa! E os seus banhos, 
meu Deus, os seus banhos?
       - Veja o senhor, - dizia ele a Amaro, uma noite no escritrio, - veja o que eu tenho sofrido... Durante a doena, que desarranjo, que desordem na casa! Ch 
fora de horas, jantar esturrado! E os cuidados que tive, que me emagreceram... E agora, quando eu pensava poder ir refazer- me para a praia, no senhor, vai para 
a Ricoa, dispensa os teus banhos... Isto  o que eu chamo sofrer! E no fim de tudo no fui eu que estive doente. Mas sou eu que as agento... Perder dois anos a 
fio os meus banhos!
       Amaro, ento, deu de repente uma punhada na mesa, e exclamou:
       - Homem, veio-me uma boa idia!
       O cnego olhou-o com dvida, como se no achasse possvel a uma inteligncia humana descobrir o fim dos seus males.
       - Quando digo uma boa idia, padre-mestre, devia dizer uma idia sublime!
       - Acabe, criatura...
       - Escute. O senhor vai para a Vieira, e a S. Joaneira, est claro, vai tambm. Naturalmente alugam casa um ao p do outro, como ela me disse que tinham feito 
h dois anos...
       - Adiante...
       - Bem. Aqui temos a S. Joaneira na Vieira. Agora, a senhora sua mana parte para a Ricoa.
       - E ento a criatura h-de ir s?
       - No! exclamou Amaro em triunfo. Vai com a Amlia! A Amlia vai-lhe servir de enfermeira! Vo ambas ss! E l na Ricoa, naquele buraco onde no vai viva 
alma, naquele casaro onde pode uma pessoa viver sem que ningum em roda suspeite, l  que a rapariga tem o filho! Hem, que lhe parece?
       O cnego erguera-se com os olhos redondos de admirao.
       - Homem, famosa idia!
       -  que concilia tudo! O senhor toma os seus banhos. A S. Joaneira, longe, no sabe o que se passa. Sua mana goza os ares... A Amlia tem um stio escondido 
para a coisa...  Ricoa ningum a vai ver... A D. Maria tambm vai pra Vieira. As Gansosos, idem. A rapariga deve ter o bom sucesso ai pelos princpios de Novembro... 
Da Vieira, e isso fica por sua conta, no volta ningum dos nossos at princpios de Dezembro... E quando nos reunirmos de novo est a rapariga limpa e fresca.
       - Pois senhores, por ser a primeira idia que voc tem nestes dois ltimos anos,  uma grande idia!
       - Obrigado, padre-mestre.
       Mas havia uma dificuldade feia: era o ir  D. Josefa,  rigorista D. Josefa, to implacvel s fraquezas do sentimento,  D. Josefa que pedia para as mulheres 
frgeis as antigas penalidades gticas - as letras marcadas na testa com ferro em brasa, os aoutes nas praas pblicas, os in pace tenebrosos - ir  Josefa e pedir-lhe 
para ser cmplice dum parto!
       - A mana vai dar urros! disse o cnego.
       - Ns veremos, padre-mestre, replicou Amaro repoltreando-se e balouando a perna, muito certo do seu prestgio devoto. Ns veremos... Hei-de-lhe eu falar... 
E quando lhe tiver contado umas lrias... Quando lhe tiver representado que  para ela um caso de conscincia encobrir a pequena... Quando lhe lembrar que nas vsperas 
da morte  que se deve fazer alguma boa ao, para no se apresentar  porta do Paraso com as mos vazias... Ns veremos!
       - Talvez, talvez, disse o cnego. A ocasio  boa, porque a pobre mana est fraquita do juzo e leva-se como uma criana.
       Amaro ergueu-se, esfregando vivamente as mos:
       - Pois , mos  obra!  mos  obra!
       - E  necessrio no perder tempo, porque o escndalo estala. Olhe que esta manh, l em casa, a besta do Libaninho ps-se a gracejar com a rapariga, a dizer-lhe 
que tinha a cinta grossa...
       - Oh, que patife! rugiu o proco.
       - No, no seria por mal. Mas que a rapariga tem engrossado,  fato... Com esta atarantao da doena ningum tem tido olhos para nada... Mas agora pode-se 
reparar...  srio, amigo,  srio!

***

       Por isso, logo na manh seguinte, Amaro foi, segundo a expresso do cnego, "dar a grande abordagem  mana".
       Antes, porm, explicou embaixo no escritrio ao padre-mestre o seu plano: primeiro, ia dizer a D. Josefa que o cnego estava na inteira ignorncia do desastre 
da Ameliazinha, e que ele, Amaro, o sabia, no em segredo de confisso (nesse caso no o poderia revelar), mas pelas confidncias secretas dos dois - de Amlia e 
do homem casado que a seduzira!... Do homem casado, sim!... Porque enfim era necessrio provar  velha que havia a impossibilidade duma reparao legtima...
       O cnego coava a cabea descontente:
       - Isso no vai bem arranjado, disse ele. A mana sabe bem que no iam homens casados  Rua da Misericrdia.
       - E o Artur Couceiro? exclamou Amaro, sem escrpulo.
       O cnego largou a rir, com gosto. O pobre Artur, sem dentes, cheio de filhos, com os seus olhos de carneiro triste, acusado de perder virgens!... No, essa 
era boa!
       - No pega, proco amigo, no pega! Outra, outra...
       Mas ento subitamente partiu dos lbios de ambos o mesmo nome - o Femandes, o Femandes da loja de panos! Belo homem, que Amlia admirava muito! Sempre que 
saa ia-lhe  loja: tinha mesmo havido indignao na Rua da Misericrdia, havia dois anos, com a ousadia do Femandes que acompanhara Amlia pela estrada de Marrazes 
at ao Morenal!
       J se sabe, no se dizia explicitamente  mana, - mas dava-se-lhe a entender que fora o Femandes.
       E Amaro subiu rapidamente para o quarto da velha, que era por cima do escritrio. Esteve l meia hora, uma longa, uma pesada meia hora para o cnego, que 
apenas podia ouvir em cima, ora rangeres das solas de Amaro, ora tosse cavernosa da velha... E no seu passeio habitual pelo escritrio, da estante para a janela, 
com as mos atrs das costas e a caixa do rap nos dedos, ia considerando quantos incmodos, quantas despesas lhe traria ainda aquele "divertimento do senhor proco"! 
Tinha de ter a rapariga na quinta cinco ou seis meses... Depois o mdico, a parteira que era ele naturalmente que havia de pagar... Depois algum enxoval para o pequeno... 
E que se lhe havia de fazer, ao pequeno?... Na cidade, a Roda fora suprimida; em Ourm, como os recursos da Misericrdia eram escassos e a afluncia dos enjeitados 
escandalosa, tinham posto um homem ao p da sineta da Roda, para interrogar e pr embaraos; havia indagaes de paternidade, restituies de crianas; e a autoridade, 
finria, combatia o excesso dos enjeitamentos com o terror dos vexames...
       Enfim, o pobre padre-mestre via diante de si todo um eriamento de dificuldades para lhe sacudir a pachorra e estragar-lhe a digesto... - Mas o excelente 
cnego, no fundo, no se indignava; sempre tivera uma afeio de velho mestre pelo proco; para a Amlia sempre o inclinara um fraco meio paternal, meio lbrico; 
e mesmo j sentia pelo "pequeno" uma vaga condescendncia de av.
       A porta abriu-se, e o proco apareceu triunfante.
       - Tudo s mil maravilhas, padre-mestre! Que lhe dizia eu?
       - Consentiu?
       - Em tudo. No foi sem dificuldade... Ia-se abespinhado. Falei-lhe do homem casado... Que a rapariga estava com a cabea perdida, queria-se matar... Que se 
ela no consentisse em encobrir a coisa era responsvel por uma desgraa... Lembre-se a senhora que est agora com os ps pra cova, que Deus pode cham-la dum momento 
a outro, e que se tiver na conscincia este peso, no h padre que lhe d a absolvio!... Lembre-se que morre para a como um co!...
       - Enfim, disse o cnego aprovando, falou-lhe com prudncia...
       - Disse-lhe a verdade. Agora trata-se de falar  S. Joaneira, e de a levar para a Vieira quanto antes...
       - Outra coisa, amigo, interrompeu o cnego. Tem voc pensado no destino que se h-de dar ao fruto?
       O proco coou desconsoladamente a cabea:
       - Ah, padre-mestre... Isso  outra dificuldade... Tem-me apoquentado muito... Naturalmente d-lo a criar a alguma mulher, longe, l pra  Alcobaa ou para 
Pombal... A felicidade, padre-mestre, era que a criana nascesse morta!
       - Era um anjinho mais... rosnou o cnego sorvendo a sua pitada.

***

       Logo nessa noite ele falou  S. Joaneira da ida para a Vieira, embaixo na saleta onde ela estava arranjando pires de marmelada que andavam a secar para a 
convalescena da D. Josefa. Comeou por dizer que lhe alugara a casa do Ferreiro...
       - Mas isso  um nicho! exclamou ela logo. Onde hei-de eu meter a pequena?
       - Ora ai  que est.  que justamente a Amlia desta vez no vai  Vieira.
       - No vai?
       Foi s ento que o cnego lhe explicou que a mana no podia ir s para a Ricoa, que ele tinha pensado em mandar com ela Amlia... Era uma idia que lhe viera 
nessa manh.
       - Eu no posso ir, tenho de tomar os meus banhos, a senhora bem sabe... A pobre de Cristo no h-de estar para l s, com uma criada. Portanto...
       A S. Joaneira teve um silenciozinho desconsolado:
       - Isso  verdade. Mas olhe, para lhe dizer com franqueza, custa-me bem deixar a pequena... Se eu pudesse dispensar os banhos, ia eu.
       - Qual ia! A senhora vem para a Vieira. Eu tambm no hei-de estar l s... Sua ingrata, sua ingrata!... - E tomando um tom muito srio: - A senhora veja 
bem. A Josefa est com os ps para a cova. Ela sabe que o que eu tenho para mim chega. Ela tem afeio  pequena, sempre  madrinha; se a vir agora a trat-la na 
doena, a estar ali s com ela uns meses, fica pelo beio. Olhe que a mana ainda vale um par de mil cruzados. A pequena pode apanhar um bom dote. No lhe digo mais 
nada...
       E a S. Joaneira concordou logo - uma vez que era vontade do senhor cnego.
       Em cima, Amaro estava contando rapidamente a Amlia "o grande plano", a cena com a velha: que ela se prontificara logo, coitadinha, j cheia de caridade, 
desejando at ajudar para o enxoval do pequeno...
       - Nela podes ter confiana,  uma santa... De modo que est tudo salvo, filha.  estar metida quatro ou cinco meses na Ricoa.
       Era isso o que fazia choramigar Amlia: perder a estao da Vieira, o divertimento dos banhos!... Ir enterrar-se todo um Vero naquele sinistro casaro da 
Ricoa! A nica vez que l fora, j ao fim da tarde, ficara estarrecida de medo. Tudo to escuro, dum eco to cncavo... Tinha a certeza que ia l morrer, naquele 
degredo.
       - Tolice! fez Amaro.  dar graas ao Senhor de me ter inspirado esta idia de salvao. Demais tens a D. Josefa, tens a Gertrudes, o pomar para passear... 
E eu vou-te l ver todos os dias. At hs-de gostar, vers.
       - Enfim que lhe hei-de eu fazer?  agentar. E com duas grossas lgrimas nas plpebras, amaldioava intimamente aquela paixo que s amarguras lhe dava, e 
que agora, quando toda a Leiria ia para a Vieira, a forava a ela a ir fechar-se na solido da Ricoa, ouvindo tossir a velha e os ces uivar na quinta... - E a 
mam, que diria a mam?
       - Que h-de dizer? A D. Josefa no pode ir para a quinta s, sem uma enfermeira de confiana! No te d cuidado. O padre-mestre est l embaixo a trabalh-la... 
E eu vou ter com ela, que j aqui estou s h bocado contido, e nestes ltimos dias  necessrio ter cautelinha...
       Desceu. Justamente o cnego subia, e encontraram-se na escada.
       - Ento? perguntou Amaro ao ouvido do padre-mestre.
       - Tudo arranjado. E por l?
       - Idem.
       E no escuro da escada os dois padres apertaram-se silenciosamente a mo.

***

       Da a dias, depois duma cena de prantos, Amlia partiu com D. Josefa para a Ricoa num char--banc.
       Tinham arranjado, com almofadas, um recanto cmodo para a convalescente. O cnego acompanhava-a, furioso com aquele incmodo. E a Gertrudes ia em cima na 
almofada,  sombra da montanha que faziam sobre o tope do carro os bas de couro, os cestos, as latas, as trouxas, os sacos de chita, o aafate onde miava o gato, 
e um fardo amarrado com cordas contendo os painis dos santos mais queridos de D. Josefa.
       Depois, ao fim da semana, foi a jornada da S. Joaneira para a Vieira, de noite, por causa da calma. A Rua da Misericrdia estava atravancada com o carro de 
bois, que conduzia as louas, os enxerges, o trem de cozinha; e no mesmo char--banc que fora  Cortegassa, ia agora a S. Joaneira e a Rua, que levava tambm no 
regao um aafate com o gato.
       O cnego fora na vspera, s Amaro assistia  partida da S. Joaneira. E depois de toda uma azfama de galgarem cem vezes de baixo a cima as escadas por um 
cestinho que esquecera ou um embrulho que desaparecia, quando a Rua enfim fechou a porta  chave, a S. Joaneira, j no estribo do char--banc, rompeu a chorar.
       - Ento, minha senhora, ento! disse Amaro.
       - Ai, senhor proco, deixar a pequena!... Mal sabe o que me custa... Parece que a no torno a ver. Aparea pela Ricoa, faa-me essa esmola. Veja se ela est 
contente...
       - V descansada, minha senhora.
       - Adeus, senhor proco. Muito obrigada por tudo... Ai, os favores que lhe devo!
       - Tolices, minha senhora... Boa jornada, d notcias! Recados ao padre-mestre. Adeus, minha senhora! adeus, Rua...
       O char--banc partiu. E pelo mesmo caminho por onde ele ia rolando, Amaro foi andando devagar at  estrada da Figueira. Eram ento nove horas; nascera j 
o luar duma noite clida e serena de Agosto. Uma tnue nvoa luminosa suavizava a paisagem calada. Aqui e alm uma fachada saliente de casa rebrilhava, batida da 
lua, entre as sombras do arvoredo. Ao p da Ponte, parou ao olhar melancolicamente o rio que corria sobre a areia com uma sussurrao montona; nos lugares em que 
as rvores se debruavam, havia escurides cerradas; e adiante uma claridade tremia sobre a gua, como um tecido de filigrana faiscante. Ali esteve, naquele silncio 
que o calmava, fumando cigarros e atirando as pontas para o rio, embebido numa tristeza vaga. Depois, ouvindo as onze, veio voltando para a cidade, passou pela Rua 
da Misericrdia num enternecimento de recordaes: a casa, com as janelas fechadas, sem as cortinas de cassa, parecia abandonada para sempre; os vasos de alecrim 
tinham ficado esquecidos aos cantos das janelas... Quantas vezes Amlia e ele se tinham encostado quela varanda! Havia ento um craveiro fresco, e conversando, 
ela cortava uma folha, trincava-a nos dentinhos. Tudo tinha acabado agora! - E na Misericrdia, ao lado, o piar das corujas no silncio dava-lhe uma sensao de 
runa, de solido e de fim eterno.
       Foi andando para casa, devagar, com os olhos arrasados de gua.
       A criada veio logo  escada dizer-lhe que o tio Esguelhas, numa aflio, viera procur-lo duas vezes, haviam de ser nove horas. A Tot estava a morrer, e 
s queria receber os sacramentos da mo do senhor proco.
       Amaro, apesar da sua repugnncia supersticiosa em voltar assim nessa noite, para um fim to triste, no meio das recordaes felizes da sua paixo, foi, para 
obsequiar o tio Esguelhas; mas impressionava-o aquela morte, coincidindo com a partida de Amlia, e como completando a sbita disperso de quanto at a o interessara 
ou estivera misturado  sua vida.
       A porta da casa do sineiro estava entreaberta, e na escurido da entrada topou com duas mulheres que saam suspirando. Foi logo direito  alcova da paraltica: 
duas grandes velas de cera, trazidas da igreja, ardiam sobre uma mesa: um lenol branco cobria o corpo da Tot; e o padre Silvrio, que fora decerto chamado por 
estar de semana, lia o Brevirio, com o leno nos joelhos, os seus grandes culos na ponta do nariz. Ergueu-se apenas viu Amaro:
       - Ah, colega, disse muito baixo, andaram a procur-lo por toda a parte... A pobre de Cristo queria-o a voc... Eu, quando me foram buscar, ia fazer a partida 
a casa do Novais.  a partida do sbado... Que cena! Morreu na impenitncia, como era dos livros. Quando me viu, e que voc no vinha, que espetculo! At tive medo 
que me cuspisse no crucifixo...
       Amaro, sem dar uma palavra, ergueu uma ponta do lenol, mas deixou-o logo recair sobre a face da morta. Depois subia acima, ao quarto onde o sineiro, estirado 
sobre a cama, voltado para a parede soluava desesperadamente; estava com ele outra mulher, que se conservava a um canto, muda, e imvel, com os olhos no cho, no 
vago aborrecimento que lhe dava aquele pesado dever de vizinha. Amaro tocou no ombro do sineiro, falou-lhe:
       -  necessrio resignao, tio Esguelhas... So decretos do Senhor... Para ela  at uma felicidade.
       O tio Esguelhas voltou-se; e reconhecendo o proco, por entre o vu das lgrimas que lhe alagavam os olhos, tomou-lhe a mo, quis beijar-lha. Amaro recuou:
       - Ento, tio Esguelhas?... Deus h-de ser misericordioso, h-de-lhe levar em conta a sua dor...
       Ele no o escutava, sacudido dum pranto convulsivo, - enquanto a mulher, muito tranqilamente, limpava ora um ora outro canto do olho.
       Amaro desceu; e para aliviar o bom Silvrio daquele servio excepcional, tomou o seu lugar ao p da vela, com o Brevirio na mo.
       Ali ficou at tarde. A vizinha ao sair veio dizer-lhe que o tio Esguelhas tinha pegado a dormir; e ela prometia voltar com a amortalhadeira, mal rompesse 
a manh.
       Toda a casa ento ficou naquele silncio, que a vizinhana do vasto edifcio da S fazia parecer mais soturno; s s vezes um mocho piava debilmente nos contrafortes, 
ou o grosso bordo batia os quartos. E Amaro, tomado dum indefinido terror, mas preso ali por uma fora superior da conscincia sobressaltada, ia precipitando as 
oraes... s vezes o livro caia-lhe sobre os joelhos; e ento, imvel, sentindo por detrs a presena daquele cadver coberto do lenol, recordava, num contraste 
amargo, outras horas em que o sol banhava o ptio, as andorinhas esvoaavam, e ele e Amlia subiam rindo para aquele quarto onde agora, sobre a mesma cama, o tio 
Esguelhas dormitava com soluos mal acalmados...


XXI


       O cnego Dias recomendara muito a Amaro que ao menos nas primeiras semanas, para evitar as suspeitas da mana e da criada, no fosse  Ricoa. E a vida de 
Amaro tornou-se ento mais triste, mais vazia que outrora, quando pela primeira vez deixando a casa da S. Joaneira viera para a Rua das Sousas. Todos os seus conhecidos 
estavam fora de Leiria: D. Maria da Assuno na Vieira; as Gansosinhos ao p de Alcobaa com a tia, a famosa tia que havia dez anos estava para morrer e para lhes 
deixar uma grande herdade. Depois do servio da S, as horas, todo o longo dia, arrastavam-se pesadas como chumbo. No estaria mais separado de toda a comunicao 
humana, se como Santo Antnio vivesse nos areais do deserto lbico. S o coadjutor que, coisa singular, nunca lhe aparecia nos tempos felizes, voltara agora, como 
o companheiro fatdico das horas tristes, a visit-lo uma, duas vezes por semana, ao fim do jantar, mais magro, mais chupado, mais soturno, com o seu eterno guarda-chuva 
na mo. Amaro odiava-o; s vezes, para o impor, fingia-se todo ocupado numa leitura; ou precipitando-se para a mesa, mal lhe sentia nos degraus as passadas lentas:
       - Amigo coadjutor, desculpe, que estou aqui a rabiscar uma coisa.
       Mas o homem instalava-se, com o odioso guarda-chuva entre os joelhos:
       - No se prenda, senhor proco, no se prenda.
       E Amaro, torturado por aquela figura lgubre que no se mexia na cadeira, atirava a pena, furioso, agarrava o chapu:
       - No estou hoje para a coisa, vou espairecer.
       E  primeira esquina descartava-se bruscamente do coadjutor.
       s vezes, farto da solido, ia visitar o Silvrio. Mas a felicidade pachorrenta daquele ser obeso, ocupado em colecionar receitas de medicina caseira e em 
observar as perturbaes fantsticas da sua digesto; os seus constantes louvores do doutor Godinho, dos pequenos e da senhora; as chalaas obsoletas que ele repetia 
havia quarenta anos e a inocente hilaridade, que elas lhe davam, impacientavam Amaro. Saa, enervado, pensando na sorte inimiga que o fizera to diferente do Silvrio. 
Aquilo era a felicidade por fim: por que no havia de ele ser tambm um bom padre caturra, com uma pequenina mania tirnica, parasita regalado duma famlia respeitvel, 
tendo um destes sangues tranqilos que giram sob camadas de gordura, sem perigo de transbordar e de causar desgraas, como um riacho que corre por baixo duma montanha?...
       Outras vezes ia ao colega Natrio, cuja fratura, mal tratada ao princpio, o retinha ainda na cama com o aparelho na perna. Mas a, enjoava-o o aspecto do 
quarto - impregnado dum cheiro de arnica e de suor, com uma profuso de trapos ensopados em malgas vidradas, e esquadres de garrafas sobre a cmoda entre fileiras 
de santos. Natrio, mal o via aparecer, rompia em queixas: as cavalgaduras dos mdicos! A sua m sorte habitual! As torturas a que o foravam! O atraso em que estava 
a medicina neste maldito pas!... E ia salpicando o soalho negro de expectoraes e de pontas de cigarro. Desde que estava doente, a sade dos outros, sobretudo 
dos amigos, indignava-o como uma ofensa pessoal.
       - E voc sempre rijo, hem? Pudera! - murmurava com rancor.
       E pensar que aquela besta do Brito nunca lhe doera a cabea! E que o alarve do abade se gabava de nunca ter estado na cama depois das sete da manh! Animais!
       Amaro ento dava-lhe as novidades: alguma carta que recebera do cnego, da Vieira, as melhoras da D. Josefa...
       Mas Natrio no se interessava pelas pessoas a quem apenas o unia a convivncia e a amizade; interessavam-no s os seus inimigos, com quem tinha ligaes 
de dio. Queria saber do escrevente, se j tinha estourado de fome...
       - Esse ao menos pude-lhe ser bom antes de cair aqui nesta maldita cama!...
       As sobrinhas apareciam ento - duas criaturinhas sardentas, de olhos muito pisados. O seu grande desgosto era que o titi no mandasse vir a benzedeira pr-lhe 
virtude na perna: era o que tinha curado o morgadinho da Barrosa, e o Pimentel de Ourm...
       Natrio, na presena das duas rosas do seu canteiro, calmava-se.
       - Coitaditas, no  por falta de cuidados delas que eu ainda no arribei... Mas tenho sofrido, caramba!
       E as duas rosas, com o mesmo movimento simultneo, voltavam-se para o lado limpando os olhos aos lenos.
       Amaro saa dali, mais enfastiado.
       Para se fatigar tentava dar grandes passeios pela estrada de Lisboa. Mas apenas se afastava do movimento da cidade, a sua tristeza tornava-se mais intensa, 
concordando com aquela paisagem de colinas tristes e rvores enfezadas: e a sua vida aparecia-lhe como essa mesma estrada montona e longa, sem um incidente que 
a alegrasse, estirando-se desoladamente at se perder nas brumas do crepsculo. s vezes, ao voltar, entrava no cemitrio, ia passeando entre os renques de ciprestes, 
sentindo quela hora do fim da tarde a emanao adocicada das moutas de goivos; lia os epitfios; encostava-se  grade dourada do jazigo da famlia Gouveia, contemplando 
os emblemas em relevo, um chapu armado e um espadm, seguindo as negras letras da famosa ode que lhe adorna a lpide:

Caminhante, detm-te a contemplar
Estes restos mortais;
E, se sentires a mgoa a trasbordar,
Detm teus ais.
Que Joo Cabral da Silva Maldonado
Mendona de Gouveia,
Moo fidalgo, bacharel formado,
Filho da ilustre Ceia,
Ex-administrador deste concelho.
Comendador de Cristo,
Foi de virtudes singular espelho.
Caminhante, cr nisto.

       Depois era o rico mausolu do Morais, onde sua esposa que, agora, rica e quarentona, vivia em concubinagem com o belo capito Trigueiros, fizera gravar uma 
piedosa quadra:

Entre os anjos espera,  esposo,
A metade do teu corao
Que no mundo ficou, to sozinha,
Toda entregue ao dever da orao...

       Algumas vezes, ao fundo do cemitrio, junto ao muro, via um homem ajoelhado ao p duma cruz negra, que um choro assombreava, ao lado da vala dos pobres. 
Era o tio Esguelhas, com a sua muleta no cho, rezando sobre a sepultura da Tot. Ia falar-lhe, e mesmo, numa igualdade que aquele lugar justificava, passeavam familiarmente, 
ombro a ombro, conversando. Amaro, com bondade, consolava o velho: de que servia  desgraada rapariga a vida para a passar estirada numa cama?
       - Sempre era viver, senhor proco... E eu, veja agora isto, sozinho de dia e de noite!
       - Todos tm as suas solides, tio Esguelhas, dizia melancolicamente Amaro.
       O sineiro ento suspirava, perguntava pela Sr. D. Josefa, pela menina Amlia...
       - L est na quinta.
       - Coitadita, no est m estopada...
       - Cruzes da vida, tio Esguelhas.
       E continuavam calados por entre as ruas de buxo que fecham os canteiros cheios de negrejamento das cruzes e da brancura das lpides novas. Amaro, s vezes, 
reconhecia alguma sepultura que ele mesmo tinha aspergido e consagrado: onde estariam aquelas almas que ele recomendara a Deus em latim, distrado, engorolando  
pressa as oraes para ir ter com Amlia? Eram jazigos de gente da cidade; ele conhecia de vista as pessoas da famlia; vira-as ento lavadas em lgrimas, e agora 
passeavam em rancho pela alameda ou chalaceavam ao balco das lojas...
       Voltava para casa mais triste, - e a sua longa noite comeava, infindvel. Tentava ler; mas ao fim das dez primeiras linhas bocejava de tdio e de fadiga. 
s vezes escrevia ao cnego. s nove horas, tomava ch; e depois era um passear sem fim pelo quarto fumando maos de cigarros, parando  janela a olhar a negrura 
da noite, lendo aqui e alm uma notcia ou um anncio do Popular, e recomeando a passear com bocejos to cavos que a criada os ouvia na cozinha.
       Para entreter as noites melanclicas, e por um excesso de sensibilidade ociosa, tentara fazer versos, pondo o seu amor e a histria dos dias felizes nas frmulas 
conhecidas da saudade lrica:

Lembras-te desse tempo de delcias,
 anjo feiticeiro, Amlia amada,
Quando tudo era risos e ventura
E a vida nos corria sossegada?

Lembras-te dessa noite de poesia
Em que a Lua brilhava pelos cus
E ns unindo as almas,  Amlia,
Erguemos nossa prece para Deus?...

       Mas a despeito de todos os esforos nunca passara destas duas quadras - apesar de as ter produzido com uma facilidade prometedora - como se o seu ser contivesse 
apenas estas duas gotas isoladas de poesia, e, soltas elas  primeira presso, nada mais restasse seno a seca prosa do temperamento carnal.
       E esta existncia vazia relaxara-lhe to sutilmente todo o maquinismo da vontade e da ao, que qualquer trabalho que lhe pudesse encher a fastidiosa concavidade 
das horas infindveis, era-lhe odioso como o peso dum fardo injusto. Preferia ainda os tdios da ociosidade aos tdios da ocupao. A no serem os deveres estritos 
que ele no podia desleixar sem escndalo e sem censura - desembaraara-se, pouco a pouco, de todas as prticas do zelo interior: nem a orao mental, nem as visitas 
regulares ao Santssimo, nem as meditaes espirituais, nem o rosrio  Virgem, nem a leitura  noite do Brevirio, nem o exame de conscincia - todas estas obras 
da devoo, estes meios secretos de santificao progressiva substitua-os pelos infindveis passeios pelo quarto, do lavatrio  janela, e por maos de cigarros 
fumados at ao negro dos dedos. A missa, pela manh, era rapidamente engorolada; o servio da parquia feito com surdas revoltas de impacincia; tomara-se consumadamente 
o Indignus sacerdos dos ritualistas; e tinha na sua ampla totalidade os trinta e cinco defeitos e os sete meios defeitos que os telogos atribuem ao mau padre.
       S lhe restava, atravs da sua sentimentalidade, um apetite tremendo. E como a cozinheira era excelente, e a Sra. D. Maria da Assuno, antes da sua partida 
para a Vieira, lhe deixara um fornecimento de cento e cinqenta missas a cruzado - banqueteava-se, tratando-se a galinha e a gelia, regando-se dum vinho picante 
da Bairrada que o padre-mestre lhe escolhera. E ali ficava  mesa, horas esquecidas, de pema esticada, fumando sobre o caf, e lamentando no ter  mo a sua Ameliazita...
       - Que far ela por l, a pobre Ameliazita? pensava, espreguiando- se com tdio e com langor.

***

       A pobre Ameliazita, na Ricoa amaldioava a sua vida.
       Logo durante a jornada no char--banc D. Josefa lhe fizera tacitamente sentir que dela no tinha a esperar nem a antiga amizade, nem o perdo do escndalo... 
E assim foi, quando se instalaram. A velha tomou- se intratvel; era todo um modo cruel de abandonar o tu, de a tratar por menina; uma recusa rspida se Amlia lhe 
queria arranjar a almofada ou aconcheg-la no xale; um silncio repreensivo quando ela lhe passava o sero no quarto, costurando; e a todo o momento aluses suspiradas 
ao triste encargo que Deus lhe mandava no fim dos seus dias...
       Amlia, consigo, acusava o proco: ele prometera-lhe que a madrinha seria toda caridade, toda cumplicidade; e entregava-a por fim a uma semelhante ferocidade 
de velha virgem devota!...
       Quando se viu naquele casaro da Ricoa, num quarto regelado, pintado a cor de canrio, lugubremente mobiliado, com uma cama de dossel e duas cadeiras de 
couro, chorou toda a noite com a cabea enterrada no travesseiro - torturada por um co que debaixo das janelas, estranhando sem dvida as luzes e o movimento na 
casa, uivou at de madrugada.
       Ao outro dia desceu  quinta a ver os caseiros. Era talvez boa gente com quem podia distrair-se. Encontrou uma mulher, alta e lgubre como um cipreste, carregada 
de luto: um grande leno negro tingido, muito puxado para a testa, dava-lhe um ar de farricoco; e a sua voz gemebunda tinha uma tristeza de dobre a finados. O homem 
pareceu-lhe ainda pior, semelhante a um orangotango, com duas orelhas enormes muito despegadas do crnio, uma salincia bestial do queixo, as gengivas deslavadas, 
um corpo desengonado de tsico, de peito metido para dentro. Abalou bem depressa, foi ver o pomar: andava maltratado; as ruazitas estavam invadidas por um ervaal 
mido; e a sombra das rvores muito juntas, num terreno baixo, cercado de altos muros, dava uma sensao doentia.
       Era ainda prefervel passar os seus dias metida no casaro; dias infindveis em que as horas se iam movendo com o vagar fastidioso dum desfilar funerrio.
       O seu quarto era na frente; e pelas duas janelas recebia a impresso triste da paisagem que se estendia defronte; uma ondulao montona de terras estreis 
com alguma magra rvore aqui e alm, um ar abafado em que parecia errar constantemente a exalao de pauis prximos e de baixas midas, e a que nem o sol de Setembro 
dissipava o tom sezontico.
       Logo pela manh ia ajudar a levantar D. Josefa, acomod-la no canap; depois vinha costurar para ao p dela - como outrora na Rua da Misericrdia para ao 
p da me; mas agora em lugar das boas "cavaqueiras" tinha s o silncio intratvel da velha e a sua ronqueira incessante. Pensara em fazer vir o seu piano da cidade; 
mas, apenas em tal falou, a velha exclamou com azedume:
       - A menina est doida... No tenho sade para tocatas! Ora o despropsito!
       A Gertrudes tambm no lhe fazia companhia; nas horas em que no estava ao p da velha, ou na cozinha, desaparecia; era justamente daquela freguesia, e passava 
o seu tempo pelos casais, palrando com as antigas vizinhas. .
       A pior hora era ao anoitecer. Depois de rezar o seu rosrio, ficava junto  janela olhando estupidamente as gradaes da luz poente; todos os campos pouco 
a pouco se perdiam no mesmo tom pardo; um silncio parecia descer, pousar sobre a Terra; depois uma primeira estrelinha treme. luzia e brilhava: e diante dela era 
ento s uma massa inerte de sombra muda at ao horizonte, aonde ainda ficava um momento uma delgada tira cor de laranja desbotada. O seu pensamento, sem nenhum 
tom de luz ou contorno de objeto em redor que o prendesse, ia muito saudoso para longe, para a Vieira; quela hora a me e as amigas recolhiam do passeio na praia; 
j todas as redes estavam apanhadas; j pelos palheiros comeam a aparecer as luzes;  a hora do ch, dos quinos alegres, quando os rapazes da cidade vo em rancho 
pelas casas amigas, com uma viola e uma flauta, improvisando soires. E ela ali, s!...
       Era ento necessrio deitar a velha, rezar com ela e com a Gertrudes o tero. Acendiam depois o candeeiro de lato, pondo-lhe diante uma velha chapeleira 
para dar sombra ao rosto da doente; e todo o sero, no silncio lgubre, apenas se ouvia o rumor do fuso da Gertrudes que fiava agachada a um canto.
       Antes de se deitarem, iam trancar todas as portas, num medo constante de ladres; e ento comeava para Amlia a hora dos terrores supersticiosos. No podia 
adormecer, sentindo ao p a negrura daquelas antigas salas desabitadas e em redor o tenebroso silncio dos campos. Ouvia rudos inexplicveis: era o soalho do corredor 
que estalava, sob passadas multiplicadas; era a luz da vela que de repente se dobrava como sob um hlito invisvel: ou a distncia, para os lados da cozinha, o baque 
surdo dum corpo. Acumulava ento as oraes, encolhida debaixo da roupa; mas, se adormecia, as vises do pesadelo continuavam-lhe os terrores da viglia. Uma vez 
acordara de repente, a uma voz que dizia, gemendo, por trs da alta barra da cama: - Amlia, prepara-te, o teu fim chegou! Espavorida, em camisa, atravessou correndo 
a casa, foi refugiar-se na cama da Gertrudes.
       Mas na noite seguinte a voz sepulcral voltou quando ela ia adormecer: Amlia, lembra-te dos teus pecados! Prepara-te, Amlia! Deu um grito, desmaiou. Felizmente 
a Gertrudes, que ainda se no deitara, correu quele ai agudo que cortara o silncio do casaro. Achou-a estirada ao travs do leito, com os cabelos soltos da rede 
rojando no cho, as mos geladas e como mortas. Desceu a acordar a mulher do caseiro, e at de madrugada foi uma azfama para a chamar  vida. Desde esse dia a Gertrudes 
dormia ao p dela - e a voz no tornou a amea-la por trs da barra.
       Mas, de noite e de dia, no a deixou mais a idia da morte e o pavor do Inferno. Por esse tempo, um vendedor ambulante de estampas passou pela Ricoa; e a 
Sra. D. Josefa comprou-lhe duas litografias - a Morte do Justo e a Morte do Pecador.
       - Que  bom que cada um tenha o exemplo vivo diante dos olhos, disse ela.
       Amlia no duvidou ao princpio que a velha, que contava morrer no mesmo aparato de glria com que expirava o Justo da estampa, lhe quisera mostrar a ela, 
a pecadora, a cena pavorosa que a esperava. Odiou-a por aquela "picardia". Mas a sua imaginao aterrada no tardou a dar  compra da estampa outra explicao: era 
Nossa Senhora que ali mandara o vendedor de pinturas, para lhe mostrar ao vivo na litografia da Morte do Pecador o espetculo da sua agonia: e estava ento certa 
que tudo seria assim, trao por trao - o seu anjo da guarda fugindo aos soluos; Deus Padre desviando o rosto dela com repugnncia; o esqueleto da morte rindo s 
gargalhadas; e demnios de cores rutilantes, com todo um arsenal de torturas, apoderando-se dela, uns pelas pernas, outros pelos cabelos, arrastando-a com uivos 
de jbilo para a caverna chamejante toda abalada da tormenta de rugidos que solta a Eterna Dor... E ela podia ver ainda, no fundo dos Cus, a grande balana - com 
um dos pratos muito alto onde as suas oraes no pesavam mais que uma pena de canrio, e o outro prato cado, de cordas retesadas, sustentando a enxerga da cama 
do sineiro e as suas toneladas de pecado. 
       Caiu ento numa melancolia histrica que a envelhecia; passava os dias suja e desarranjada, no querendo dar cuidados ao seu corpo pecador; todo o movimento, 
todo o esforo lhe repugnava; as mesmas oraes lhe custavam, como se as julgasse inteis; e tinha atirado para o fundo duma arca o enxoval que andava a costurar 
para o filho - porque o odiava, aquele ser que ela sentia mexer-se-lhe j nas entranhas e que era a causa da sua perdio. Odiava-o - mas menos que o outro, o proco 
que lho fizera, o padre malvado que a tentara, a estragara, a atirara s chamas do Inferno! Que desespero quando pensava nele! Estava em Leiria sossegado, comendo 
bem, confessando outras, namorando-as talvez - e ela ali sozinha, com o ventre condenado e enfartado do pecado que ele l depusera, ia-se afundindo na perdio sempiterna!
       Decerto esta excitao a teria matado - se no fosse o abade Ferro que comeara ento a vir ver muito regularmente a irm do amigo cnego.
       Amlia ouvira falar muitas vezes nele na Rua da Misericrdia; dizia- se l que o Ferro tinha "idias esquisitas"; mas no era possvel recusar-lhe nem a 
virtude da vida nem a cincia de sacerdote. Havia muitos anos que era ali abade; os bispos tinham-se sucedido na diocese, e ele ali ficara esquecido naquela freguesia 
pobre, de cngrua atrasada, numa residncia onde chovia pelos telhados. O ltimo vigrio-geral, que nunca dera um passo para o favorecer, dizia-lhe todavia, liberal 
de palavreado:
       - Voc  um dos bons telogos do reino. Voc est predestinado por Deus para um bispado. Voc ainda apanha a mitra. Voc h-de ficar na histria da Igreja 
portuguesa como um grande bispo, Ferro!
       - Bispo, senhor vigrio-geral! Isso era bom! Mas era necessrio que eu tivesse o arrojo dum Afonso de Albuquerque ou dum D. Joo de Castro, para aceitar aos 
olhos de Deus semelhante responsabilidade!
       E ali ficara, entre gente pobre, numa aldeia de terra escassa, vivendo de dois pedaos de po e uma chvena de leite, com uma batina limpa onde os remendos 
faziam um mapa, precipitando-se a uma meia lgua por um temporal desfeito se um paroquiano tinha uma dor de dentes, passando uma hora a consolar uma velha z quem 
tinha morrido uma cabra... E sempre de bom humor, sempre com um cruzado no fundo do bolso dos cales para uma necessidade do seu vizinho, grande amigo de todos 
os rapazitos a quem fazia botes de cortia, e no duvidando parar, se encontrava uma rapariga bonita, o que era raro na freguesia, e exclamar: "Linda moa, Deus 
a abenoe! "
       E todavia, em novo, a pureza dos seus costumes era to clebre, que lhe chamavam "a donzela".
       De resto, padre perfeito no zelo da Igreja; passando horas de estao aos ps do Santssimo Sacramento; cumprindo com uma felicidade fervente as menores prticas 
da vida devota; purificando-se para os trabalhos do dia com uma profunda orao mental, uma meditao de f, de onde a sua alma saa gil, como dum banho fortificante; 
preparando-se para o sono com um destes longos e piedosos exames de conscincia, to teis, que Santo Agostinho e S. Bernardo faziam do mesmo modo que Plutarco e 
Sneca, e que so a correo laboriosa e sutil dos pequenos defeitos, o aperfeioamento meticuloso da virtude ativa, empreendido com um fervor de poeta que rev 
um poema querido... E todo o tempo que tinha vago abismava-se num caos de livros.
       Tinha s um defeito o abade Ferro: gostava de caar! Coibia-se, porque a caa tira muito tempo, e  sanginrio matar uma pobre ave que anda azafamada pelos 
campos nos seus negcios domsticos. Mas nas claras manhs de Inverno, quando ainda h orvalho nas giestas, se via passar um homem de espingarda ao ombro, o passo 
vivo, seguido do seu perdigueiro - iam-se-lhe os olhos nele... s vezes, porm, a tentao vencia; agarrava furtivamente a espingarda, assobiava  Janota, e com 
as abas do casaco ao vento, l ia o telogo ilustre, o espelho da piedade, atravs de campos e vales... E da a pouco - pum... pum! Uma codorniz, uma perdiz em 
terra! E l voltava o santo homem com a espingarda debaixo do brao, os dois pssaros na algibeira, cosendo-se com os muros, rezando o seu rosrio  Virgem, e respondendo 
aos bons-dias da gente pelo caminho com os olhos baixos e o ar muito criminoso.
O abade Ferro, apesar do seu aspecto "gebo" e do seu grande nariz, agradou a Amlia, logo desde a primeira visita  Ricoa; e a sua simpatia cresceu, quando viu 
que D. Josefa o recebia com pouco alvoroo, apesar do respeito que o mano cnego tinha pela cincia do abade.
       A velha, com efeito, depois de ter estado s com ele numa prtica de horas, condenara-o com uma nica palavra, na sua autoridade de velha devota experiente:
       -  relaxado!
       No se tinham realmente compreendido. O bom Ferro, tendo vivido tantos anos naquela parquia de quinhentas almas, as quais caam todas, de mes e filhas, 
no mesmo molde de devoo simples a Nosso Senhor, Nossa Senhora e S. Vicente, patrono da freguesia, tendo pouca experincia de confisso, encontrava-se, subitamente, 
diante duma alma complicada de devota da cidade, dum beatrio caturra e atormentado; e ao ouvir aquela extraordinria lista de pecados mortais, murmurava espantado:
       -  estranho,  estranho...
       Percebera bem ao princpio que tinha diante de si uma dessas degeneraes mrbidas do sentimento religioso, que a teologia chama Doena dos escrpulos - e 
de que na sua generalidade esto afetadas hoje todas as almas catlicas; mas depois, a certas revelaes da velha, receou estar realmente em presena duma manaca 
perigosa; e instintivamente, com o singular horror que os sacerdotes tm pelos doidos, recuou a cadeira.
       Pobre D. Josefa! Logo na primeira noite em que chegara  Ricoa (contava ela), ao comear o rosrio a Nossa Senhora, lembra-lhe de repente que lhe esquecera 
o saiote de flanela escarlate, que era to eficaz nas dores das pemas... Trinta e oito vezes de seguida recomeara o rosrio, e sempre o saiote escarlate se interpunha 
entre ela e Nossa Senhora!... Ento desistira, de exausta, de esfalfada. E imediatamente sentira dores vivas nas pernas, e tivera como uma voz de dentro a dizer-lhe 
que era Nossa Senhora por vingana a espetar-lhe alfinetes nas pemas...
       O abade pulou:
       - Oh minha senhora!...
       - Ai, no  tudo, senhor abade!
       Havia outro pecado que a torturava: quando rezava, s vezes, sentia vir expectorao; e, tendo ainda o nome de Deus ou da Virgem na boca, tinha de escarrar; 
ultimamente engolia o escarro, mas estivera pensando que o nome de Deus ou da Virgem lhe descia de embrulhada para o estmago e se ia misturar com. as fezes! Que 
havia de fazer?
       O abade, de olhar esgazeado, limpava o suor da testa.
       Mas isto no era o pior: o grave era, que na noite antecedente, estava toda sossegada, toda em virtude, a rezar a S. Francisco Xavier - e de repente, nem 
ela soube como, ps-se a pensar como seria S. Francisco Xavier nu em plo!
       O bom Ferro no se moveu, atordoado. Enfim, vendo-a olhar ansiosa para ele  espera das suas palavras e dos seus conselhos, disse:
       - E h muito que sente esses terrores, essas dvidas...?
       - Sempre, senhor abade, sempre!
       - E tem convivido com pessoas que, como a senhora, so sujeitas a essas inquietaes?
       - Todas as pessoas que conheo, dzias de amigas, todo o mundo... O inimigo no me escolheu s a mim... A todos se atira...
       - E que remdio dava a essas ansiedades de alma...?
       - Ai, senhor abade, aqueles santos da cidade, o senhor proco, o Sr. Silvrio, o Sr. Guedes, todos, todos nos tiravam sempre de embaraos... E com uma habilidade, 
com uma virtude...
       O abade Ferro ficou calado um momento: sentia-se triste, pensando que por todo o reino tantos centenares de sacerdotes trazem assim voluntariamente o rebanho 
naquelas trevas de alma, mantendo o mundo dos fiis num terror abjeto do Cu, representando Deus e os seus santos como uma corte que no  menos corrompida, nem 
melhor, que a de Calgula e dos seus libertos.
       Quis ento levar quele noturno crebro de devota, povoado de fantasmagorias, uma luz mais alta e mais larga. Disse-lhe que todas as suas inquietaes vinham 
da imaginao torturada pelo terror de ofender a Deus... Que o Senhor no era um amo feroz e furioso, mas um pai indulgente e amigo... Que  por amor que  necessrio 
servi-lo, no por medo... Que todos esses escrpulos, Nossa Senhora a enterrar alfinetes, o nome de Deus a cair no estmago, eram perturbaes da razo doente. Aconselhou-lhe 
confiana em Deus, bom regime para ganhar foras. Que no se cansasse em oraes exageradas...
       - E quando eu voltar, disse enfim erguendo-se e despedindo-se, continuaremos a conversar sobre isto, e havemos de serenar essa alma.
       - Obrigada, senhor abade, respondeu a velha secamente.
       E apenas a Gertrudes da a pouco entrou a trazer-lhe a botija para os ps, D. Josefa exclamou, toda indignada, quase choramigando:
       - Ai, no presta para nada, no presta para nada!... No me percebeu...  um tapado...  um pedreiro-livre, Gertrudes! Que vergonha num sacerdote do Senhor...
       Desde esse dia no tornou a revelar ao abade os pecados medonhos que continuava a cometer; e quando ele, por dever, quis recomear a educao da sua alma, 
a velha declarou-lhe sem rodeios que, como se confessava com o Sr, padre Gusmo, no sabia se seria delicado receber de outro a direo moral...
       O abade fez-se vermelho, respondeu:
       - Tem razo, minha senhora, tem razo, deve-se ter muita delicadeza nessas coisas...
Saiu. E da por diante, depois de ter entrado no quarto a saber-lhe da sade, de ter falado do tempo, da estao, das doenas que iam, de alguma festa na igreja, 
- apressava-se em se despedir e ir para o terrao conversar com Amlia.
       Vendo-a sempre to tristonha, interessara-se por ela; para Amlia, as visitas do abade eram uma distrao, naquela solido da Ricoa; e assim se iam familiarizando, 
a ponto que nos dias em que ele regularmente vinha, Amlia punha um mantelete e ia pelo caminho dos Poiais esper-lo at junto da casa do ferrador. As conversas 
do abade, falador incansvel, entretinham-na, to diferentes dos mexericos da Rua da Misericrdia, - como o espetculo dum largo vale com rvores, plantaes, guas, 
pomares e rumor de lavouras, recreia os olhos habituados s quatro paredes caiadas duma trapeira da cidade. Tinha com efeito uma destas conversaes semelhantes 
aos jornais semanais de recreio, o TESOURO DAS FAMLIAS ou as LEITURAS PARA SERES, em que h de tudo - doutrina moral, histrias de viagens, anedotas de grandes 
homens, dissertaes sobre a lavoura, citao duma boa chalaa, traos sublimes da vida dum santo, um verso aqui e alm, e at receitas, como uma muito til que 
deu a Amlia para lavar as flanelas sem encolherem. S era montono quando falava da sua famlia paroquiana, dos casamentos, batizados, doenas, questes, ou quando 
comeava as suas histrias de caa.
       - Uma vez, minha rica senhora, ia eu pelo Crrego das Tristes, quando uma revoada de perdizes...
       Amlia sabia que, pelo menos uma hora, tudo seriam faanhas da Janota, pontarias fabulosas contadas em mmica, com imitaes de vozes de pssaros, e pum, 
pum de fuzilaria. Ou ento era descries das caadas selvagens que ele lera com gula - a caa ao tigre do Nepal, ao leo da Arglia e ao elefante, histrias ferozes 
que arrastavam a imaginao da rapariga para longe, para os pases exticos onde a erva  alta como os pinheiros, o sol queima como um ferro em brasa, e entre cada 
ramagem reluzem os olhos duma fera... E depois, a propsito de tigres e de malaios, lembrava- lhe um histria curiosa de S. Francisco Xavier, e ei-lo lanado, o 
terrvel palrador, na descrio dos feitos da sia, das armadas da ndia e das estocadas famosas do cerco de Dio!
       Foi mesmo um desses dias, no pomar, em que o abade, tendo comeado por enumerar as vantagens que o cnego tiraria de transformar o pomar em terra de lavoura, 
acabara por contar perigos e valores dos missionrios da ndia e do Japo - que Amlia, ento em toda a intensidade dos seus terrores noturnos, falou dos rudos 
que ouvia na casa e dos sobressaltos que lhe davam.
       - Oh, que vergonha! disse o abade rindo; uma senhora da sua idade ter medo de papes...
Ela ento, atrada por aquela bondade do senhor abade, contou-lhe as vozes que ouvia de noite por detrs da barra da cama.
       O abade ps-se srio:
       - Minha senhora, isso so imaginaes que deve a todo o custo dominar... Decerto tem havido prodgios no mundo, mas Deus no se pe assim a falar a qualquer, 
por detrs das barras das camas, nem permite ao demnio que o faa... Essas vozes, se as ouve, e se os seus pecados so grandes, no vm de detrs da cama, vm-lhe 
de si mesma, da sua conscincia... E pode ento fazer dormir ao p de si a Gertrudes, e sem Gertrudes, e todo o batalho de infantaria, que as h-de continuar a 
ouvir... Havia de as ouvir, mesmo que fosse surda. O que  necessrio  calmar a conscincia que reclama penitncia e purificao...
       Tinham subido ao terrao, falando assim: e Amlia sentara-se fatigada num dos bancos de pedra que ali havia, e ficara a olhar a quinta ao longe, os tetos 
dos currais, a longa rua de loureiros, a eira, e a distncia os campos que se sucediam planos e avivados do tom mido que lhes dera a chuva ligeira da manh: agora 
a tarde estava de uma placidez clara, sem vento, com grandes nuvens paradas que o sol do poente tocava de vivos cor-de-rosa tenro... Pensava naquelas palavras to 
sensatas do abade, no descanso que gozaria se cada pecado que lhe pesava na alma como um penedo se tomasse ligeiro e se dissipasse sob a ao da penitncia. E vinham-lhe 
desejos de paz, dum repouso igual  quietao dos campos que se estendiam diante dela.
       Um pssaro cantou, depois calou-se; e recomeou dai a um momento com um trinado to vibrante, to alegre, que Amlia sorria, escutando-o.
       -  um rouxinol...
       - Os rouxinis no cantam a esta hora, disse o abade.  um melro... A est um que no tem medo de fantasmas, nem ouve vozes... Olhe que entusiasmo, o magano!
       Era com efeito um gorjear triunfante, um delrio de melro feliz, que dera de repente a todo o pomar uma sonoridade festiva.
       E Amlia, diante daquele chilrear glorioso dum pssaro contente, subitamente, sem razo, num destes abalos nervosos que vm s mulheres histricas, rompeu 
a chorar.
       - Ento, que  isso, que  isso? fez o abade muito surpreendido.
       Tomou-lhe a mo, com uma familiaridade de velho e de amigo, calmando-a.
       - Que infeliz que sou!.., murmurou ela aos soluos.
       Ele ento muito paternal:
       - No tem razo para o ser... Sejam quais forem as aflies, as inquietaes, uma alma crist tem sempre a consolao  mo... No h pecado que Deus no 
perdoe, nem dor que no calme, lembre-se disso... O que no deve  guardar em si o seu desgosto...  isso que sufoca, que a faz chorar... Se eu lhe posso valer, 
sosseg-la,  procurar-me...
       - Quando? disse ela toda desejosa j de se refugiar na proteo daquele santo homem.
       - Quando quiser, disse ele rindo. Eu no tenho horas para consolar... A igreja est sempre aberta, Deus est sempre presente...
       Ao outro dia cedo, antes da hora em que a velha se erguia, Amlia foi  residncia; e durante duas horas esteve prostrada diante do pequeno confessionrio 
de pinho - que o bom abade por suas mos pintara de azul-escuro, com extraordinrias cabecinhas de anjos que em lugar de orelhas tinham asas, uma obra de alta arte 
de que ele falava com uma secreta vaidade.


XXII


       O padre Amaro acabara de jantar, e fumava, com os olhos no teto, para no ver o caro chupado do coadjutor que havia meia hora ali estava, imvel e espectral, 
fazendo cada dez minutos uma pergunta que caa no silncio da sala como os quartos melanclicos que d de noite um relgio de catedral.
       - O senhor proco j no  assinante da Nao?
       - No. senhor, leio o Popular.
       O coadjutor recaiu num silncio, comeando logo a coligir laboriosamente as palavras para uma nova pergunta. Soltou-a enfim, com lentido:
       - No se tornou a saber daquele infame que escreveu o Comunicado?
       - No senhor, foi para o Brasil.
       A criada entrou, neste momento, dizendo que "estava ali uma pessoa que queria falar ao senhor proco". Era a sua maneira de anunciar a presena de Dionsia 
na cozinha.
       Havia semanas que ela no aparecia - e Amaro, curioso, saiu logo da sala fechando a porta sobre si, e chamou a matrona ao patamar.
       - Grande novidade, senhor proco! E vim a correr, que  srio. Est c o Joo Eduardo!
       - Ora essa! exclamou o proco. E eu justamente a falar dele!  extraordinrio. Olha que coincidncia...
       -  verdade, vi-o hoje. Fiquei banzada... E j estou informada de tudo. O homem est mestre dos filhos do Morgadinho.
       - Que Morgadinho?
       - O Morgadinho dos Poiais... Se vive l, ou se vai pela manh e vem  noite, isso no sei. O que sei  que voltou... E janota, fato novo...
       Eu entendi que devia avisar, porque pode estar certo que ele, mais dia menos dia, d pela Ameliazinha l na Ricoa...  no caminho para casa do Morgado... 
Que lhe parece?...
       - Forte besta! rosnou Amaro com rancor. Quando no serve  que aparece. Ento por fim no foi para o Brasil?
       - Pelos modos, no... Que a sombra dele no era, era ele mesmo em carne e osso... A sair da loja do Fernandes por sinal, e todo peralta... Sempre  bom avisar 
a rapariga, senhor proco, que se no v ela plantar de janela...
       Amaro deu-lhe as duas placas que ela esperava - e da a um quarto de hora, desembaraado do coadjutor, ia no caminho da Ricoa.

***

       Batia-lhe forte o corao quando avistou o casaro amarelo, pintado de novo, o largo terrao lateral em linha com o muro do pomar, ornado de espao a espao 
no parapeito de vasos nobres de pedra. Ia enfim, depois de to longas semanas, ver a sua Ameliazinha! E j se alvoroava  idia das exclamaes apaixonadas com 
que ela lhe cairia nos braos.
       Ao rs-do-cho eram as cavalarias, do tempo da famlia morgada que outrora ali habitara, agora abandonadas s ratazanas e aos tortulhos, recebendo a luz 
por estreitas janelas gradeadas que quase desapareciam sob camadas de teias de aranha; entrava-se por um imenso ptio escuro, onde havia longos anos se acastelava 
a um canto toda uma montanha de pipas vazias; e o lance de escadaria nobre, que levava aos aposentos, era  direita, flanqueado de dois leezinhos de pedra, benignos 
e sonolentos.
Amaro subiu at um salo de teto de carvalho apainelado, sem moblia, com a metade do soalho coberta de feijo seco.
       E, embaraado, bateu as palmas.
       Uma porta abriu-se. Amlia apareceu um instante, toda despenteada e em saia branca; deu um gritinho, bateu com a porta - e o proco sentiu-a fugir para o 
interior do casaro. Ficou muito desconsolado no meio do salo, com o seu guarda-sol debaixo do brao, pensando na boa familiaridade com que entrava na Rua da Misericrdia 
- que at pareciam as portas abrir-se de si mesmo e o papel das paredes clarear-se de alegria.
       Ia bater as palmas outra vez, j quezilado, quando a Gertrudes apareceu.
       - Oh, senhor proco! Entre, senhor proco! Ora at que enfim! Minha senhora,  o senhor proco! - gritava, na alegria de ver enfim uma visita querida, um 
amigo da cidade, naquele desterro da Ricoa.
       Levou-o logo para o quarto de D. Josefa, ao fundo da casa, um quarto enorme, onde, num pequeno canap perdido a um canto, a velha passava os dias encolhida 
no seu xale, com os ps embrulhados num cobertor.
       - Oh, D. Josefa! Como est? Como est?
       Ela no pde responder, tomada dum acesso de tosse que lhe dera a comoo da visita.
       - Como v, senhor proco, murmurou enfim muito fraco. Para aqui vou, arrastando esta velhice. E vossa senhoria? Por que no tem aparecido?
       Amaro desculpou-se vagamente com os afazeres da S. E compreendia agora, ao ver aquela face amarela e cavada, com uma medonha touca de rendas negras, que 
tristes horas Amlia ali devia passar. Perguntou por ela; avistara-a de longe, mas ela deitara a fugir...
       -  que no estava decente para aparecer, disse a velha. Hoje foi dia da barrela.
       Amaro quis ento saber em que se entretinham, como passavam os dias naquela solido...
       - Eu para aqui estou. A pequena para a anda.
       Depois de cada palavra, parecia abater-se numa fadiga e a sua ronqueira crescia.
       - Ento no se tem dado bem com a mudana, minha senhora?
       Ela disse que no, num movimento de cabea.
       - Deixe falar, senhor proco, acudiu a Gertrudes que ficara de p, ao lado do canap, gozando a presena do senhor proco. - Deixe falar...  que a senhora 
exagera tambm... Levanta-se todos os dias, d o seu passeinho at  sala, come a sua asita de frango... Temo-la aqui, temo-la arribada...  o que diz o Sr. abade 
Ferro, a sade foge a toda a brida e para voltar vem a passo.
       A porta abriu-se. Amlia apareceu, muito escarlate, com o seu antigo robe-de-chambre de merino roxo, o cabelo arranjado  pressa.
       - Desculpe, senhor proco, balbuciou, mas hoje tem sido um dia de balbrdia...
       Ele apertou-lhe a mo gravemente; e ficaram calados, como se estivessem separados pela distncia dum deserto. Ela no tirava os olhos do cho, enrolando com 
a mo trmula uma ponta da manta de l que trazia solta pelos ombros. Amaro achava-a mudada, um pouco inchada das faces, com uma ruga de velhice aos cantos da boca. 
Para romper aquele silncio estranho, perguntou-lhe tambm se se dava bem...
       - Para aqui vou indo...  um pouco triste isto.  como diz o Sr. abade Ferro,  muito grande para a gente se sentir em famlia.
       - Ningum veio para aqui para se divertir, disse a velha sem descerrar as plpebras, com uma voz seca que perdera toda a fadiga.
       Amlia baixou a cabea, fazendo-se plida.
       Amaro ento, compreendendo num relance que a velha torturava Amlia, disse com muita severidade:
       -  verdade, no foi para se divertirem... Mas tambm no foi para se entristecerem de propsito... Pr-se uma pessoa de mau humor e fazer aos outros a vida 
negra,  uma falta horrvel de caridade; no h pecado pior aos olhos do Senhor...  indigno da graa de Deus quem tal pratica...
       A velha rompeu a choramigar, muito excitada:
       - Ai, o que Deus me guardou para os ltimos anos da vida...
       Gertrudes animou-a. Ento, senhora, que at lhe fazia pior estar a afligir-se assim... Ora o disparate! Tudo se havia de remediar com a ajuda de Deus. Sade 
no havia de faltar, nem alegria...
       Amlia chegara-se  janela, decerto para esconder tambm as lgrimas que lhe saltavam dos olhos. E o proco, consternado com a cena, comeou a dizer que D. 
Josefa no estava suportando com a verdadeira resignao duma crist aqueles dias de doena... Nada escandalizava mais Nosso Senhor que ver as criaturas revoltarem-se 
contra as dores ou os encargos que ele mandava... Era insultar a justia dos seus decretos...
       - Tem razo, senhor proco, tem razo, murmurou a velha muito contrita. Eu s vezes nem sei o que digo... So coisas da doena.
       - Bem, bem, minha senhora,  resignar-se e tratar de ver tudo cor-de-rosa.  o sentimento que Deus mais aprecia. Eu compreendo que  duro estar para aqui 
enterrada...
       -  o que diz o Sr. abade Ferro, acudiu Amlia voltando da janela, a madrinha estranha... Assim arrancada aos hbitos de tantos anos...
Notando ento a citao repetida das palavras do abade Ferro, Amaro perguntou se ele costumava vir v-las.
       - Ai, tem-nos feito muita companhia, disse Amlia. Vem quase todos os dias.
       -  um santo! exclamou a Gertrudes.
       - Decerto, decerto, murmurou Amaro descontente dum entusiasmo to vivo. Pessoa de muita virtude...
       - De muita virtude, suspirou a velha. Mas... - calou-se, no ousando decerto exprimir as suas reservas de devota. E exclamou numa splica: Ai, o senhor proco 
 que devia vir por aqui, ajudar-me a levar esta cruz da doena...
       - Hei-de vir, minha senhora, hei-de vir.  bom para a distrair, para lhe dar as noticias... E a propsito, tive ontem carta do nosso cnego.
       Rebuscou na algibeira, leu alguns perodos da carta. O padre-mestre j tinha quinze banhos. A praia estava cheia de gente. A D. Maria passara doente com um 
furnculo. O tempo famoso. Todas as tardes grandes passeatas a ver recolher as redes. A S. Joaneira, boa, mas falando sempre na filha...
       - Pobre mam... choramigou Amlia.
       Mas a velha no se interessava com as novidades, gemendo a sua ronqueira. Foi Amlia que perguntou pelos amigos de Leiria, pelo Sr, padre Natrio, pelo Sr, 
padre Silvrio...
       Ia escurecendo j: a Gertrudes fora preparar o candeeiro. Amaro enfim ergueu-se:
       - Pois, minha senhora, at outro dia. Esteja certa que hei-de aparecer de vez em quando. E nada de afligir... Agasalho, boa dieta, e a misericrdia de Deus 
no a h-de abandonar...
       - No nos falte, senhor proco, no nos falte!...
       Amlia estendera-lhe a mo, para se despedir ali no quarto; mas Amaro gracejando:
       - Se no lhe causa incmodo, menina Amlia, sempre  bom vir mostrar-me o caminho, que eu perco-me neste casaro.
       Saram ambos. E apenas no salo, a que as trs largas vidraas davam ainda uma claridade:
       - A velha faz-te a vida negra, filha, disse Amaro parando.
       - Que mereo eu mais? respondeu ela baixando os olhos.
       - Desavergonhada, eu lhas cantarei!... Minha Ameliazinha, se soubesses o que me tem custado...
       E falando, ia abra-la pelo pescoo.
       Mas ela recuou, toda perturbada.
       - Que  isso? fez Amaro assombrado.
       - O qu?
       - Esse modo! Tu no me queres dar um beijo, Amlia? Tu ests doida?
       Ela ergueu as mos para ele, numa suplicao ansiosa, falando toda trmula:
       - No, senhor proco, deixe-me! Isso acabou. Bem basta o que pecamos... Quero morrer na graa de Deus... Que nunca mais se fale em semelhante coisa!... Foi 
uma desgraa... Acabou-se... Agora o que quero  o sossego da minha alma...
       - Tu ests tola? Quem te meteu isso na cabea? Ouve c...
       Foi para ela outra vez, com os abraos abertos.
       - No me toque, pelo amor de Deus, - e vivamente recuou at   porta.
       Ele olhou-a um momento, numa clera muda.
       - Bem, como queira, disse por fim. Em todo o caso, quero preveni- Ia que o Joo Eduardo voltou, que passa aqui todos os dias, e que  bom no se pr de janela.
       - Que me importa a mim o Joo Eduardo e os outros e tudo o que passou?...
       Ele acudiu, transbordando dum sarcasmo amargo:
       - Est claro, agora o grande homem  o Sr. abade Ferro!
       - Devo-lhe muito,  o que sei...
       A Gertrudes neste momento entrava com o candeeiro aceso. E Amaro, sem se despedir de Amlia, abalou, de guarda-chuva em riste, rilhando os dentes de raiva.

***

       Mas a longa caminhada at  cidade calmou-o. Aquilo na rapariga por fim era apenas um acesso de virtude e de escrpulos! Vira-se ali s naquele casaro, amargurada 
pela velha, impressionada pelos palavres do moralista Ferro, longe dele, e tinha-lhe vindo aquela reao de devota com os seus terrores do outro mundo e apetites 
de inocncia... Chalaa! Se ele comeasse a ir  Ricoa, numa semana reganhava todo o seu domnio... Ah, conhecia-a bem! Era s tocar-lhe, piscar-lhe o olho... Estava 
logo rendida.
       Passou porm uma noite inquieta, desejando-a mais que nunca. E ao outro dia  uma hora marchou para Ricoa, levando-lhe um ramo de rosas.
       A velha ficou toda contente ao v-lo.  que lhe dava sade a presena do senhor proco! E se no fosse a distncia, havia de lhe pedir esmola de vir todas 
as manhs. At depois daquela visitinha rezava com mais fervor...
       Amaro sorria, distrado, com os olhos cravados na porta.
       - E a menina Amlia? perguntou por fim.
       - Saiu... Isso agora todas as manhs  a passeata, disse a velha com azedume. Vai  residncia,  toda do abade...
       - Ah! fez Amaro com um sorriso lvido. Nova devoo, hem?...  pessoa de muitos mritos, o abade.
       - Ai, no presta, no presta! exclamou D. Josefa. No me percebe. Tem idias muito esquisitas. No d virtude...
       - Homem de livros... disse Amaro.
       Mas a velha erguera-se sobre o cotovelo, e baixando a voz, com o magro caro aceso em dio:
       - E aqui para ns, a Amlia tem-se portado muito mal! Nunca lho hei-de perdoar... Confessou-se ao abade...  uma indelicadeza, sendo a confessada do senhor 
proco, no tendo recebido de vossa senhoria seno favores...  uma ingrata,  uma traioeira!...
       Amaro fizera-se plido.
       - Que me diz a senhora?
       - A verdade! Que ela no o nega. At se orgulha!  uma perdida,  uma perdida! Depois do favor que lhe estamos a fazer...
       Amaro disfarou a indignao que o revolvia. Riu at. Era necessrio no exagerar. No havia ingratido. Era uma questo de f. Se a rapariga pensava que 
o abade a podia dirigir melhor, tinha razo em se abrir com ele... O que todos queriam  que ela salvasse a sua alma... Que fosse pela direo de fulano ou sicrano, 
isso no importava... E nas mos do abade estava bem.
       E chegando vivamente a cadeira para o leito da velha:
       - Ento agora, todas as manhs vai  residncia?
       - Quase todas... Que ela no h-de tardar, vai depois de almoo, volta sempre a esta hora... Ai, tem-me causado isto um desgosto!...
       Amaro deu um passeiozinho nervoso pelo quarto, e estendendo a mo  velha:
       - Pois minha senhora, eu no me posso demorar, que vim de fugida... At um dia cedo.
       E sem escutar a velha, que lhe pedia com ansiedade que ficasse para jantar - desceu os degraus como uma pedra que rola, meteu furioso pelo caminho da residncia, 
ainda com o seu ramo na mo.
       Esperava encontrar Amlia na estrada; e no tardou em a avistar quase ao p da casa do ferreiro, agachada ao p do valado, apanhando sentimentalmente florinhas 
silvestres.
       - Que fazes tu aqui? exclamou, chegando junto dela.
       Ela ergueu-se, com um gritinho.
       - Que fazes tu aqui? repetiu.
       quele tu, e quela voz colrica, ela ps rapidamente um dedo na boca, assustada. O senhor abade estava dentro da casa com o ferreiro...
       - Ouve l, disse Amaro com os olhos chamejantes, agarrando-lhe o brao, tu confessaste-te ao abade?...
       - Para que quer saber? Confessei... No  vergonha nenhuma...
       - Mas confessaste tudo, tudo? perguntou ele com os dentes cerrados de raiva.
       Ela perturbou-se, e tratando-o ainda por tu:
       - Foste tu que me disseste muitas vezes... Que era o maior pecado neste mundo, esconder alguma coisa ao confessor!
       - Bbeda! rugiu Amaro.
       Os seus olhos devoravam-na. E, atravs da nvoa de clera que lhe enchia o crebro e lhe fazia latejar as veias na fronte, achava-a mais bonita, com umas 
redondezas em todo o corpo que ardia por abraar, com uns lbios vermelhos avivados pelo largo ar do campo que ele queria morder at ao sangue.
       - Ouve, disse-lhe cedendo a uma invaso brutal do desejo. Ouve... Acabou-se, no me importa. Confessa-te ao diabo se te agrada... Mas hs-de ser a mesma para 
mim!
       - No, no! disse ela com fora, desprendendo-se, pronta a fugir para casa do ferreiro.
       - Tu mas pagars, maldita! rosnou o padre por entre dentes, voltando as costas, descendo o caminho com passadas de desesperado.
       E no abrandou o passo at  cidade, levado dum impulso de indignao que, sob aquela doce paz dum meio de Outono, lhe sugeria planos de vinganas ferozes. 
Chegou a casa esfalfado, ainda com o ramo na mo. Mas a, na solido do quarto, veio-lhe pouco a pouco o sentimento da sua impotncia. Que lhe podia fazer por fim? 
Ir pela cidade dizer que ela estava grvida? Seria denunciar-se a si. Espalhar que estava amigada com o abade Ferro? Era absurdo: um velho de quase setenta anos, 
de uma fealdade de caricatura, com todo um passado de virtude santa!... Mas perd-la, no tornar a ter no braos aquele corpo de neve, no ouvir mais aquelas ternuras 
balbuciadas que lhe arrebatavam a alma para alguma coisa de melhor que o Cu... Isso no!
       E era possvel que ela, em seis ou sete semanas, tivesse assim esquecido tudo? Naquelas longas noites na Ricoa, s na cama, no lhe viria uma recordao 
das manhs no quarto do tio Esguelhas?... Decerto: ele sabia-o da experincia de tantas confessadas que lhe tinham revelado aflitas a tentao muda e teimosa que 
no deixa a carne que uma vez pecou...
       No: devia persegui-la, e por todos os modos soprar-lhe aquele desejo que agora ardia nele mais alto e mais ruidoso.
       Passou a noite a escrever-lhe uma carta de seis pginas, absurda, cheia de imploraes apaixonadas, de argcias msticas, de pontos de exclamao e de ameaas 
de suicdio...
       Mandou-a ao outro dia cedo, pela Dionsia. A resposta veio s  noite, por um rapazito da quinta. Com que sofreguido rasgou o sobrescrito! Eram apenas estas 
palavras: "Peo-lhe que me deixe em paz com os meus pecados".
       No desistiu: ao outro dia l estava na Ricoa a visitar a velha. Amlia achava-se no quarto de D. Josefa, quando ele apareceu. Fez-se muito plida; mas os 
seus olhos no deixaram a costura - durante a meia hora que ele ali ficou, ora num silncio sombrio acabrunhado para o fundo da poltrona, ora respondendo distraidamente 
 tagarelice da velha, muito faladora essa manh.
       E na semana seguinte foi o mesmo: se o ouvia entrar fechava-se rapidamente no quarto: s vinha se a velha mandava a Gertrudes dizer-lhe ''que estava ali o 
senhor proco que a queria ver''. Ia, ento, estendia-lhe a mo, que ele achava sempre a escaldar - e tomando a sua eterna costura, junto da janela, ia picando o 
posponto com uma taciturnidade que desesperava o padre.
       Tinha-lhe escrito outra carta. Ela no respondera.
       Ento jurava no voltar  Ricoa, desprez-la, - mas depois de ter passado a noite, rolando-se pela cama sem poder dormir, com a mesma viso da nudez dela 
cravada intoleravelmente no crebro, l partia de manh para a Ricoa, corando quando o apontador das obras na estrada, que o via passar todos os dias, lhe tirava 
o seu bon de oleado.
       Numa tarde que chuviscava, ao entrar no casaro, dera com o abade Ferro que  porta abria o seu guarda-chuva.
       - Ol, por aqui, senhor abade? disse ele.
       O abade respondeu naturalmente:
       - Em vossa senhoria  que no h que estranhar, que vem por aqui todos os dias...
       Amaro no se conteve; e tremendo de clera:
       - E que lhe importa ao senhor abade se eu venho ou no? A casa  sua?
       Aquela brutalidade to injustificvel ofendeu o abade:
       - Pois era melhor para todos que no viesse...
       - E por qu, senhor abade? e por qu? gritou Amaro, perdido.
       Ento, o bom homem estremeceu. Cometera, ali, a culpa mais grave do sacerdote catlico: o que sabia de Amaro, dos seus amores, era em segredo de confisso; 
e era trair o mistrio do sacramento, mostrar que desaprovava aquela insistncia no pecado. Tirou muito baixo o seu chapu e disse humildemente:
       - Tem vossa senhoria razo. Peo perdo do que disse sem refletir. Muito boas-tardes, senhor proco.
       - Muito boas-tardes, senhor abade.
       Amaro no entrou na Ricoa. Voltou para a cidade sob a chuva que batia forte agora. E, apenas em casa, escreveu uma longa carta a Amlia, em que lhe contava 
a cena com o abade, acabrunhando-o de acusaes - sobretudo de lhe trair indiretamente o segredo da confisso. Como das outras, desta carta no veio resposta da 
Ricoa.
       Amaro ento comeou a acreditar que tanta resistncia no podia vir s do arrependimento e do terror do inferno... "Ali h homem", pensou. E devorado dum 
cime negro principiou a rondar de noite a Ricoa: mas no viu nada; o casaro permanecia adormecido e apagado. Uma ocasio, porm, ao aproximar-se do muro do pomar, 
sentiu adiante no caminho que desce dos Poiais uma voz cantarolar sentimentalmente a valsa dos Dois mundos, e um ponto brilhante de charuto aceso adiantar-se na 
escurido. Assustado, refugiou-se num casebre que desmantelava em runas do outro lado da estrada. A voz calou-se; e Amaro, espreitando, viu ento um vulto que parecia 
embrulhado num xalemanta claro, parado, contemplando as janelas da Ricoa. Um furor de cime apossou-se dele, e ia saltar e atacar o homem - quando o viu seguir 
tranqilamente ao comprido da estrada, de charuto alto, trauteando:

Ouves ao longe retumbar na serra
O som do bronze que nos causa horror...

       Pela voz, pelo xalemanta, pelo andar tinha reconhecido Joo Eduardo. Mas teve a certeza que se um homem falava de noite a Amlia ou entrava na quinta - no 
era decerto o escrevente. Todavia, receoso de ser descoberto, no tornou a rondar o casaro.

       Era com efeito Joo Eduardo, que sempre que passava pela Ricoa, de dia ou de noite, parava um momento a olhar melancolicamente as paredes que ela habitava. 
Porque apesar de tantas desiluses, Amlia permanecera para o pobre rapaz a ela, a bem-amada, a coisa mais preciosa da terra. Nem em Ourm, nem em Alcobaa, nem 
pelas estalagens onde errara, nem em Lisboa, onde chegara como vem  praia uma quilha de barco naufragado, deixara um momento de a ter presente na alma e de se enternecer 
com as saudades dela. Durante esses dias to amargos de Lisboa, os piores da sua vida, em que fora fiel de feitos dum cartrio obscuro, perdido naquela cidade que 
lhe parecia ter a vastido duma Roma ou duma Babilnia e em que sentia o duro egosmo das multides azafamadas, esforava- se mesmo por desenvolver mais esse amor 
que lhe dava como a doura duma companhia. Achava-se menos isolado, tendo sempre no esprito aquela imagem com quem travava dilogos imaginados, nos seus infindveis 
passeios ao longo do Cais do Sodr, acusando-a das tristezas que o envelheciam.
       E esta paixo, sendo para ele como a indefinida justificao das suas misrias, tomava-o aos seus prprios olhos interessante. Era "um mrtir de amor"; isto 
consolava-o, como o consolara nas suas primeiras desesperaes considerar-se "uma vtima das perseguies religiosas". No era um pobre-diabo banal a quem o acaso, 
a preguia, a falta de amigos, a sorte e os remendos do casaco mantm fatalmente nas privaes da dependncia: era um homem de grande corao, a quem uma catstrofe 
em parte amorosa e em parte poltica, um drama domstico e social, forara assim, depois de lutas hericas, a viajar de um a outro cartrio com um saco de lustrina 
cheio de autos. O destino tornara-o igual a tantos heris que lera nas novelas sentimentais... E o seu palet coado, os seus jantares a quatro vintns, os dias 
em que no tinha dinheiro para tabaco, tudo atribua ao amor fatal de Amlia e  perseguio duma classe poderosa, dando assim, por um instinto muito humano, uma 
origem grandiosa s suas misrias triviais... Quando via passar os que ele chamava felizes - indivduos batendo tipia, rapazes que encontrava com uma linda mulher 
pelo brao, gente bem atabafada que se dirigia aos teatros, sentia-se menos desgraado pensando que tambm ele possua um grande luxo interior que era aquele amor 
infeliz. E quando enfim por um acaso obteve a certeza dum emprego no Brasil, o dinheiro da passagem, idealizava a sua aventura banal de emigrante, repetindo-se durante 
todo o dia que ia passar os mares, exilado do seu pas por uma tirania combinada de padres e autoridades e por ter amado uma mulher!
       Quem lhe diria ento, ao emalar o seu fato no ba de lata, que da a semanas estaria outra vez a meia lgua desses padres e dessas autoridades, contemplando 
de olho temo a janela de Amlia! Fora aquele singular Morgadinho de Poiais - que no era nem Morgadinho nem de Poiais, e apenas um ricao excntrico de ao p de 
Alcobaa que comprara aquela velha propriedade dos fidalgos de Poiais, e que, com a posse da terra, recebia do povo da freguesia a honra do ttulo: fora esse santo 
cavalheiro que o livrara dos enjos no paquete e dos acasos da emigrao. Encontrara-o casualmente no cartrio onde ele ainda trabalhava nas vsperas da viagem. 
O Morgadinho cliente do velho Nunes, conhecia-lhe a histria, a faanha do Comunicado, o escndalo no Largo da S; e j de h muito concebera por ele uma simpatia 
ardente.
       O Morgadinho tinha com efeito por padres um dio manaco, a ponto de no ler no jornal a notcia dum crime, sem decidir (ainda mesmo quando o culpado estava 
j sentenciado) que "no fundo devia de haver na histria um sotaina". Dizia-se que este rancor provinha dos desgostos que lhe dera sua primeira mulher, devota clebre 
de Alcobaa. Apenas viu Joo Eduardo em Lisboa e soube da viagem prxima, teve imediatamente a idia de o trazer para Leiria, instal-lo nos Poiais, e entregar-lhe 
a educao das primeiras letras dos seus dois pequenos como um insulto estridente feito a todo o clero diocesano. Imaginava de resto Joo Eduardo um mpio; e isto 
convinha ao seu plano filosfico de educar os rapazitos num "atesmo desbragado". Joo Eduardo aceitou, com as lgrimas nos olhos: era um salrio magnfico que lhe 
vinha, uma posio, uma famlia, uma reabilitao estrondosa...
       - Oh, senhor Morgado, nunca hei-de esquecer o que faz por mim!...
       -  para meu gosto prprio!...  para arreliar a canalha! E partimos amanh! 
       Em Cho de Mas, apenas desceu do vago, exclamou logo para o chefe da estao que no conhecia Joo Eduardo, nem a sua histria:
       - C o trago, c o trago um triunfo! Vem para quebrar a cara a toda a padraria... E se houver custas a pagar, sou eu que as pago!
       O chefe da estao no estranhou - porque o Morgadinho passava no distrito por maluco.
       Foi a, nos Poiais, logo ao outro dia da sua chegada, que Joo Eduardo soube que Amlia e D. Josefa estavam na Ricoa. Soube-o pelo bom abade Ferro, o nico 
sacerdote a quem o Morgado falava, e que recebia em casa, no como padre, mas como cavalheiro.
       - Eu como cavalheiro estimo-o, Sr. Ferro, costumava ele dizer, mas como padre abomino-o!
       E o bom Ferro sorria, sabendo que, sob aquela ferocidade de mpio obtuso, havia um santo corao, um pai de pobres na freguesia...
       O Morgado era tambm grande amador de alfarrbios, questionador incansvel; s vezes os dois tinham pelejas tremendas sobre histria, botnica, sistemas de 
caa... Quando o abade, no fogo da controvrsia, punha de alto alguma opinio contrria:
       - O senhor apresenta-me isso como padre ou como cavalheiro? exclamava, empinando-se, o Morgado.
       - Como cavalheiro, Sr. Morgado.
       - Ento aceito a objeo.  sensata. Mas se fosse como padre, quebrava-lhe os ossos.
       s vezes pensando irritar o abade, mostrava-lhe Joo Eduardo, batendo de alto no ombro do rapaz, numa carcia de amador, como a um cavalo favorito:
       - Veja-me isto! J ia dando cabo de mim. E ainda h-de matar dois ou trs... E se o prenderem eu hei-de livr-lo da forca!
       - Isso no  difcil, Sr. Morgado, dizia o abade tomando tranqilamente a sua pitada. Que j no h forca em Portugal...
       Ento era uma indignao do Morgado. No havia forcas? E por que no? Porque tnhamos um governo livre e um rei constitucional! Que se se seguisse a vontade 
dos padres, havia uma forca em cada praa e uma fogueira em cada esquina!
       - Diga-me uma coisa, Sr. Ferro, o senhor vem defender aqui em minha casa a Inquisio?
       - Oh, Sr. Morgado, eu nem sequer falei da Inquisio...
       - No falou por medo! Porque sabe perfeitamente que lhe enterrava uma faca no estmago!
       E tudo isto aos gritos e aos pulos pela sala, fazendo um vendaval com as abas prodigiosas do seu robe-de-chambre amarelo.
       - No fundo um anjo, dizia o abade a Joo Eduardo. Capaz de dar a camisa mesmo a um padre, se o soubesse em necessidade... E voc aqui est bem, Joo Eduardo... 
 no lhe reparar nas manias...
       Tinha tomado afeio a Joo Eduardo, o abade Ferro: e sabendo por Amlia a famosa legenda do Comunicado quisera, segundo a sua expresso querida, "folhear 
o homem aqui e alm". Conversava com ele tardes inteiras na rua de loureiros da quinta, na residncia onde Joo Eduardo se ia fornecer de Iivros; e sob o "exterminador 
de padres", como dizia o Morgado, encontrara um pobre moo sensvel, com uma religio sentimental, ambies de paz domstica, e prezando muito o trabalho. Ento 
viera-lhe uma idia que, sobretudo por lhe ter acudido num dia que saia das suas devoes ao Santssimo, lhe parecia descida de cima, da vontade do Senhor: era o 
cas-lo com Amlia. No seria difcil levar aquele corao fraco e terno a perdoar o erro dela; e a pobre rapariga, depois de tantos transes, extinta aquela paixo 
que lhe entrara na alma como um sopro do demnio, levando-lhe a vontade, a paz e o pudor de empurro para o abismo, encontraria na companhia de Joo Eduardo todo 
um resto de vida calmo, e contente, um canto suave de interior, refgio doce e purificao do passado. No falou nem a um, nem a outro, nesta idia que o enternecia. 
No era o momento agora, que ela trazia nas entranhas o filho do outro. Mas ia preparando com amor aquele resultado, - sobretudo quando estava com Amlia, contando-lhe 
as suas conversas com Joo Eduardo, algum dito muito sensato que ele tivera, os bons cuidados de preceptor que estava desenvolvendo na educao dos Morgaditos.
       -  um bom rapaz, dizia. Homem de famlia... Destes a quem uma mulher pode realmente confiar a sua vida e a sua felicidade. Se eu pertencesse ao mundo, se 
tivesse uma filha, dava-lha...
       Amlia no respondia, corando.
       J no podia objetar queles elogios persuasivos a antiga, a grande objeo - o Comunicado, a impiedade! O abade Ferro destrura-lha um dia, com uma palavra:
       - Eu li o artigo, minha senhora. O rapaz no escreveu contra os sacerdotes, escreveu contra os fariseus!
       E para atenuar este julgamento severo, o menos caridoso que tivera havia muitos anos, acrescentou:
       - Enfim, foi uma falta grave... Mas est muito arrependido. Pagou-o com lgrimas, e com fome.
E isto enternecia Amlia.

***

       Fora tambm por esse tempo que o doutor Gouveia comeara a vir  Ricoa, porque D. Josefa tinha piorado com os dias mais frios do Outono. Amlia, ao princpio, 
 hora da visita, fechava-se no seu quarto, tremendo  idia de ver o seu estado descoberto pelo velho doutor Gouveia, o mdico da casa, aquele homem duma severidade 
legendria. Mas enfim fora necessrio aparecer no quarto da velha, para receber as suas instrues de enfermeira sobre as horas dos remdios e as dietas. E um dia 
que acompanhara o doutor at  porta, ficou gelada, vendo-o parar, voltar-se para ela cofiando a sua grande barba branca que lhe caa sobre o jaqueto de veludo, 
e dizer-lhe sorrindo:
       - Eu bem tinha dito a tua me que te casasse!
       Duas lgrimas saltaram-lhe dos olhos.
       - Bem, bem, pequena, no te quero mal por isso. Ests na verdade. A natureza manda conceber, no manda casar. O casamento  uma frmula administrativa...
       Amlia olhava-o, sem o compreender, com as duas lgrimas muito redondinhas a correrem-lhe devagar pela face. Ele bateu-lhe com os dedos no queixo, muito paternal:
       - Quero dizer que, como naturalista, regozijo-me. Acho que te tornaste til  ordem geral das coisas. Vamos ao que importa...
       Deu-lhe ento conselhos sobre a higiene que devia ter.
       - E quando chegar a ocasio, se te vires atrapalhada, manda-me chamar...
       Ia descer; Amlia deteve-o, e com uma suplicao assustada:
       - Mas o senhor doutor no vai dizer nada na cidade...
       O doutor Gouveia parou:
       - Ento no  estpida?... Est bom, tambm to perdo. Est na lgica do teu temperamento. No, no digo nada, rapariga. Mas para que diabo, ento, no casaste 
tu com esse pobre Joo Eduardo? Fazia-te to feliz como o outro, e j no tinhas de pedir segredo... Enfim, isso para mim  um detalhe secundrio... O essencial 
 o que te disse... Manda-me chamar. No te fies muito nos teus santos... Eu entendo mais disso que Santa Brgida ou l quem . Que tu s forte, e hs-de dar um 
bom moceto ao Estado.
       Todas estas palavras que em parte no compreendera bem, mas em que sentia uma vaga justificao e uma bondade de av indulgente, sobretudo aquela cincia 
que lhe prometia a sade e a que as barbas grisalhas do doutor, umas barbas de Padre Eterno, davam um ar de infalibilidade, reconfortaram-na, aumentaram a serenidade 
que havia semanas gozava, desde a sua confisso desesperada na capela dos Poiais.
       Ah, fora decerto Nossa Senhora, compadecida enfim dos seus tormentos, que lhe mandara do Cu aquela inspirao de se ir entregar toda dorida aos cuidados 
do abade Ferro! Parecia-lhe que deixara l, no seu confessionrio azul-ferrete, todas as amarguras, os terrores, a negra farrapagem de remorso que lhe abafava a 
alma. A cada uma das suas consolaes to persuasivas sentira desaparecer o negrume que lhe tapava o Cu; agora via tudo azul; e quando rezava, j Nossa Senhora 
no desviava o rosto indignado.  que era to diferente aquela maneira de confessar do abade! Os seus modos no eram os do representante rgido dum Deus carrancudo; 
havia nele alguma coisa de feminino e de maternal que passava na alma como uma carcia; em lugar de lhe erguer diante dos olhos o sinistro cenrio das chamas do 
Inferno, mostrara-lhe um vasto Cu misericordioso com as portas largamente abertas, e os caminhos multiplicados que l conduzem, to fceis e to doces de trilhar 
que s a obstinao dos rebeldes se recusa a tent-los. Deus aparecia, naquela suave interpretao da outra vida, como um bom bisav risonho; Nossa Senhora era uma 
irm de caridade; os santos, camaradas hospitaleiros! Era uma religio amvel, toda banhada de graa, em que uma lgrima pura basta para remir uma existncia de 
pecado. Que diferente da soturna doutrina que desde pequena a trazia aterrada e trmula! To diferente - como aquela pequena capela de aldeia da vasta massa de cantaria 
da S. L, na velha S, muralhas da espessura de cvados separavam da vida humana e natural: tudo era escurido, melancolia, penitncia, faces severas de imagens; 
nada do que faz a alegria do mundo ali entrava, nem o alto azul, nem os pssaros, nem o ar largo dos prados, nem os risos dos lbios vivos; alguma flor que havia 
era artificial; o enxota-ces l se postava ao portal para no deixar passar as criancinhas; at o sol estava exilado, e toda a luz que havia vinha dos lampadrios 
fnebres. E ali, na capelita dos Poiais, que familiaridade da natureza com o bom Deus! Pelas portas abertas penetrava a aragem perfumada das madressilvas; pequerruchos 
brincando faziam sonoras as paredes caiadas; o altar era como um jardinete e um pomar; pardais atrevidos vinham chilrear at junto aos pedestais das cruzes; s vezes 
um boi grave metia o focinho pela porta com a antiga familiaridade do curral de Belm, ou uma ovelha tresmalhada vinha regozijar-se de ver uma da sua raa, o Cordeiro 
Pascal, dormir regaladamente ao fundo do altar com a santa cruz entre as patas.
       Alm disso o bom abade, como ele lhe dissera, "no queria impossveis". Sabia bem que ela no podia arrancar num momento aquele amor culpado, que ganhara 
razes at s profundezas do seu ser. Queria apenas que, quando a assaltasse a idia de Amaro se abrigasse logo na idia de Jesus. Com a fora colossal de Satans, 
que tem o poder dum Hrcules, uma pobre rapariga no pode lutar brao a brao; pode somente refugiar- se na orao quando o sente, e deix-lo fatigar-se de rugir 
e espumar em tomo desse asilo impenetrvel. Ele mesmo cada dia a ia ajudando naquela repurificao da alma, com uma solicitude de enfermeiro: fora ele que lhe marcara, 
como um ensaiador num teatro, a atitude que devia ter na primeira visita de Amaro  Ricoa; era ele que chegava, com alguma breve palavra reconfortante como um cordial, 
se a via vacilar naquela lenta reconquista da virtude; se a noite fora agitada das lembranas clidas dos prazeres passados, era durante toda a manh uma boa palestra, 
sem tom pedaggico, em que lhe mostrava familiarmente que o Cu lhe daria alegrias maiores que o quarto enxovalhado do sineiro. Chegara, com uma sutileza de telogo, 
a demonstrar-lhe que no amor do proco no havia seno brutalidade e furor bestial; que, doce como era o amor do homem, o amor do padre s podia ser uma exploso 
momentnea do desejo comprimido; quando tinham comeado as cartas do proco, analisara-lhas frase a frase, revelando-lhe o que elas continham de hipocrisia, de egosmo, 
de retrica, e de desejo torpe...
       Ia-a assim lentamente desgostando do proco. Mas no a desgostava do amor legtimo, purificado pelo sacramento; conhecia bem que ela era toda de carne e de 
desejos, e que lan-la violentamente no misticismo seria apenas torcer-lhe um momento o instinto natural e no criar-lhe uma paz duradoura. No tentava arranc-la 
bruscamente  realidade humana; ele no a queria para freira; s desejava que aquela fora amante que sentia nela servisse  alegria dum esposo e  til harmonia 
duma famlia, e no se gastasse erradamente em concubinagens casuais... No fundo o bom Ferro preferiria decerto na sua alma de sacerdote que a rapariga se separasse 
absolutamente de todos os interesses egostas do amor individual, e se desse, como irm de caridade, como enfermeira dum recolhimento, ao amor mais largo de toda 
a humanidade. Mas a pobre Ameliazita tinha a carne muito bonita e muito fraca; no seria prudente assust-la com sacrifcios to altos; era toda mulher - toda mulher 
devia ficar; limitar-lhe a ao era estragar- lhe a utilidade. Cristo no lhe bastava com os seus membros ideais pregados na cruz: era-lhe necessrio um homem como 
todos, de bigode e chapu alto. Pacincia! Que ao menos ele fosse um esposo sob a legitimao sacramental...
       Assim a ia curando daquela paixo mrbida com uma direo de todos os dias, uma destas persistncias de missionrio que s d a f sincera, pondo a sutileza 
dum casusta ao servio da moralidade de um filsofo, paternal e hbil - uma cura maravilhosa de que o bom abade em segredo tirava alguma vaidade. 
       E foi grande a sua alegria quando lhe pareceu que enfim z paixo por Amaro j no era na alma dela um sentimento vivo; mas estava morto, embalsamado, arrumado 
no fundo da sua memria como num jazigo, escondido j sob a delicada florescncia duma virtude nova. Assim julgava pelo menos o bom Ferro - vendo-a agora aludir 
ao passado com o olhar tranqilo, sem aqueles rubores que outrora lhe escaldavam a face ao simples nome de Amaro.
       Ela, com efeito, j no pensava no senhor proco com a comoo de outrora: o terror do pecado, a influncia penetrante do abade, aquela brusca separao do 
meio devoto em que o seu amor se desenvolvera, o gozo que sentia numa serenidade maior, sem sustos noturnos e sem a inimizade de Nossa Senhora, tudo concorrera para 
que o fogo ruidoso daquele sentimento se fosse reduzindo a alguma brasa que ainda rebrilhava surdamente. O proco estivera ao princpio na sua alma com o prestgio 
dum dolo coberto de ouro; mas tantas vezes, desde a sua gravidez, sacudira, nas horas de terror religioso ou de arrependimento histrico, aquele dolo, que todo 
o dourado lhe ficara nas mos, e a forma trivial e escura que aparecia por baixo j a no deslumbrava; viu por isso o abade derrubar-lho inteiramente, sem chorar 
e sem lutar. Se ainda pensava em Amaro,  porque no podia deixar de pensar na casa do sineiro; mas o que a tentava ainda era o prazer e no o proco.
       E com a sua natureza de boa rapariga tinha um reconhecimento sincero pelo abade. Como dissera a Amaro naquela tarde, "devia-lhe tudo". Era o que sentia agora 
tambm pelo doutor Gouveia, que vinha regularmente ver a velha de dois em dois dias. Eram os seus bons amigos, como dois paps que o Cu lhe mandava - um que lhe 
prometia a sade, outro a graa.
       Refugiada naquelas duas protees, gozou uma paz adorvel nas ltimas semanas de Outubro. Os dias iam muito serenos e muito tpidos. Era bom estar no terrao, 
pelas tardes, naquela serenidade outonal dos campos. O doutor Gouveia s vezes encontrava-se com o abade Ferro; ambos se estimavam; depois da visita  velha, iam 
para o terrao, e comeavam logo as suas eternas questes sobre Religio e sobre Moral.
       Amlia, com a costura cada nos joelhos, sentindo os seus dois amigos ao p, aqueles dois colossos de cincia e de santidade, abandonava-se ao encanto da 
hora suave, olhando a quinta onde as rvores j empalideciam. Pensava no futuro; ele aparecia-lhe agora fcil e seguro; era forte, e o parto, com a presena do doutor, 
seria apenas uma hora de dores; depois, livre daquela complicao, voltaria para a cidade e para a mam... E ento uma outra esperana, que nascera das conversas 
constantes do abade sobre Joo Eduardo, vinha bailar-lhe na imaginao. Por que no?... Se o pobre rapaz a amasse ainda, e perdoasse!... Ele nunca lhe repugnara 
como homem, e seria um casamento esplndido agora que ele tinha a amizade do Morgado. Dizia-se que Joo Eduardo ia ser o administrador da casa... E entrevia-se vivendo 
nos Poiais, passeando na caleche do Morgado, chamada para jantar por uma campainha, servida por um escudeiro de libr... Ficava muito tempo imvel, banhada na doura 
desta perspectiva, enquanto o abade e o doutor ao fundo do terrao pelejavam sobre a doutrina da Graa e da Conscincia, e monotonamente a gua das regas murmurava 
no pomar.
       Foi por este tempo que D. Josefa, inquieta de no ver aparecer o senhor proco, mandara expressamente o caseiro a Leiria, pedir a sua senhoria a esmola duma 
visita. O homem voltara com a espantosa notcia de que o senhor proco partira para a Vieira, e no viria seno da a duas semanas. A velha choramigou de desgosto. 
E Amlia, nessa noite, no seu quarto, no pde adormecer - na irritao que lhe dava aquela idia do senhor proco a divertir-se na Vieira, sem pensar nela decerto, 
chalaceando com as senhoras na praia, e andando de sero em sero...

***

       Com a primeira semana de Novembro vieram as chuvas. A Ricoa parecia agora mais lgubre naqueles dias curtos, banhados de gua, sob um cu de tempestade. 
O abade Ferro, tolhido de reumatismo, j no aparecia na quinta. O doutor Gouveia, depois da visita de meia hora, abalava no seu velho cabriol. A nica distrao 
de Amlia era estar  janela por dentro dos vidros: trs vezes vira passar Joo Eduardo na estrada; mas ele ao avist-la baixava os olhos ou refugiava-se mais sob 
o guarda-chuva. 
       A Dionsia vinha tambm freqentemente: devia ser a parteira, apesar do doutor Gouveia ter aconselhado a Micaela, matrona duma experincia de trinta anos. 
Mas Amlia "no queria mais gente no segredo", e alm disso Dionsia trazia-lhe as notcias de Amaro, que ela sabia pela cozinheira. O senhor proco tinha-se achado 
to bem na Vieira que se ia demorar at Dezembro. Aquele "procedimento infame" indignava-a: no duvidava que o proco queria estar longe quando chegassem os transes, 
os perigos do parto. Alm disso era decidido de h muito que a criana havia de ser entregue a uma ama de ao p de Ourm, que a criaria na aldeia: c agora o tempo 
chegava, c a ama no estava falada, e o senhor proco apanhava conchinhas  beira-mar!...
       -  indecente, Dionsia, exclama Amlia furiosa.
       - Ah! no me parece bem, no. Que eu podia falar  ama... Mas bem v, so coisas muito srias... O senhor proco  que se encarregou de tudo...
       -  infame!
       Alm disso ela descuidara-se do enxoval - e ali estava na vspera de ter a criana, sem um trapo para a cobrir, sem dinheiro para lho comprar! A Dionsia 
tinha-lhe mesmo oferecido algumas peas de enxoval, que uma mulher que ela tivera em casa lhe deixara empenhadas. Mas Amlia recusara-se a que o seu filho usasse 
cueiros alheios, trazendo-lhe talvez um contgio de doena ou uma sorte infeliz.
E por orgulho no queria escrever a Amaro.
       Alm disso as impertinncias da velha tornavam-se odiosas. A pobre D. Josefa, privada dos auxlios devotos dum padre, um verdadeiro padre (no um abade Ferro), 
sentia a sua velha alma indefesa exposta a todas as audcias de Satans: a viso singular que tivera de S. Francisco Xavier nu, repetia-se agora com uma insistncia 
pavorosa a respeito de todos os santos: era toda uma corte do Cu, arrojando tnicas e hbitos, e bailando-lhe na imaginao sarabandas em plo: e a velha estava 
morrendo da perseguio destes espetculos dispostos pelo demnio. Reclamara o padre Silvrio, mas parecia que um reumatismo geral tolhia todo o clero diocesano; 
desde o princpio do Inverno o Silvrio estava tambm de cama. O abade da Cortegassa, chamado urgentemente, veio - mas para lhe comunicar a receita nova que descobrira 
de fazer bacalhau  biscainha... Esta falta dum padre virtuoso dava-lhe um humor feroz, que recaia sobre Amlia numa chuva de impertinncias.
       E a boa senhora estava pensando seriamente em mandar a Amor pelo padre Brito - quando uma tarde, ao fim do jantar, inesperadamente, o senhor proco apareceu!
       Vinha magnfico, trigueiro do sol e do ar do mar, de casaco novo e botins de verniz. E palrando longamente acerca da Vieira, dos conhecidos que estavam, da 
pesca que fizera, dos soberbos quinos, fazia passar naquele triste quarto de doente velha todo um sopro vivificante da vida divertida  beira-mar. D. Josefa tinha 
duas lgrimas nas plpebras do gozo de ver o senhor proco, de o ouvir.
       - E a mam passa bem, disse ele a Amlia. J tem os seus trinta banhos. Ganhou outro dia quinze tostes a uma batotinha que se arranjou... E por c que tm 
feito?
       Ento a velha rompeu em queixumes amargos: Uma solido! Um tempo de chuva! Uma falta de amizades! Ai! ela estava ali a perder a sua alma naquela quinta fatal...
       - Pois eu, disse o padre Amaro traando a perna, dei-me to bem que estou com idias de voltar para a semana.
       Amlia, sem se conter, exclamou:
       - Ora essa! outra vez!
       - Sim, disse ele. Se o senhor chantre me der uma licena de um ms, vou l pass-lo... Fazem-me uma cama na sala de jantar do padre-mestre, e tomo um par 
de banhos... Estava farto de Leiria, e daquele aborrecimento... '
       A velha parecia desolada. O qu, voltar! Deix-las ali a estarrecer de tristeza!
       Ele galhofou:
       - Ora, as senhoras no precisam c de mim. Esto bem acompanhadas...
       - Eu no sei, disse a velha com azedume, se os outros - acentuou com rancor a palavra - se os outros no precisam do senhor proco... Eu  que no estou bem 
acompanhada, estou aqui a perder a minha alma... Que as companhias que ai vm no do honra nem proveito.
       Mas Amlia acudiu para contrariar a velha:
       - E de mais a mais o Sr. abade Ferro tem estado doente... Est com reumatismo. Sem ele a casa parece uma priso.
       D. Josefa deu um risinho de escrnio. E o padre Amaro, erguendo- se para sair, lamentou o bom abade.
       - Coitado! Santo homem... Hei-de ir v-lo em tendo vagar. Pois amanh c apareo, D. Josefa, e havemos de pr essa alma em paz... No se incomode, Sra. D. 
Amlia, eu sei agora o caminho.
       Mas ela insistiu em o acompanhar. Atravessaram o salo sem uma palavra. Amaro calava as suas luvas novas de pelica preta. E no alto da escada, muito cerimoniosamente, 
tirando o chapu:
       - Minha senhora...
       E Amlia ficou petrificada vendo-o descer muito tranqilo - como se ela lhe fosse mais indiferente que os dois lees de pedra, que embaixo dormiam com o focinho 
nas patas.
       Foi para o quarto chorar de bruos sobre a cama, de raiva e de humilhao. O infame! E nem uma palavra sobre o filho, sobre a ama, sobre o enxoval! Nem um 
olhar de interesse para o seu corpo desfigurado por aquela prenhez que ele lhe dera! Nenhuma queixa irritada por todos os desprezos que ela lhe mostrara! Nada! Calava 
as luvas, com o chapu do lado. Que indigno!
       Ao outro dia o padre voltou mais cedo. Esteve muito tempo fechado no quarto com a velha.
       Amlia, impaciente, rondava no salo com os olhos como carves. Ele apareceu enfim, como na vspera, calando as suas luvas com um ar prspero.
       - Ento j? disse ela numa voz que tremia.
       - J, sim, minha senhora. Estive numa praticazinha com a D. Josefa.
       Tirou o chapu, cumprimentando muito profundamente:
       - Minha senhora...
       Amlia, lvida, murmurou:
       - Infame!
       Ele olhou-a, como assombrado:
       - Minha senhora... - repetiu.
       E, como na vspera, desceu vagarosamente a larga escadaria de pedra.
       O primeiro pensamento de Amlia foi denunci-lo ao vigrio-geral. Depois passou a noite escrevendo-lhe uma carta - trs pginas de acusaes e de lstimas. 
Mas toda a resposta de Amaro, ao outro dia, mandada verbalmente pelo Joozito da quinta, foi "que talvez aparecesse por l na quinta-feira".
       Teve outra noite de lgrimas - enquanto na Rua das Sousas o padre Amaro esfregava as mos, no regozijo do seu "famoso estratagema". E todavia no o concebera 
ele mesmo; tinha-lhe sido sugerido na Vieira, onde fora para desabafar com o padre-mestre e espalhar a mgoa nos ares da praia; fora l que ele o aprendera, "o famoso 
estratagema", numa soire, ouvindo dissertar sobre o amor o brilhante Pinheiro, premiado em direito e glria de Alcobaa.
       - Eu nisso, minhas senhoras, dizia o Pinheiro, passando a mo pela cabeleira de poeta, ao semicrculo de damas que pendiam dos seus lbios de ouro - eu nisso 
sou da opinio de Lamartine (era alternadamente da opinio de Lamartine ou de Pelletan). Digo como Lamartine: a mulher  igual  sombra: se correis atrs dela, foge-vos; 
se fugis dela, corre atrs de vs!
       Houve um muito bem, exclamado com convico: mas uma senhora de grandes propores, me de quatro deliciosos anjos todos Marias (como dizia o Pinheiro), quis 
explicaes, porque nunca tinha visto fugir uma sombra.
       O Pinheiro deu-as, cientificamente:
       -  muito fcil de observar, Sra. D. Catarina. Coloque-se vossa excelncia na praia, quando o sol comea a declinar, com as costas para o astro. Se vossa 
excelncia caminha em frente, perseguindo a sombra, ela vai-lhe adiante, fugindo...
       - Fsica recreativa, muito interessante! murmurou o escrivo de direito ao ouvido de Amaro.
       Mas o proco no o escutava; bailava-lhe j na imaginao "o famoso estratagema". Ah! mal voltasse a Leiria, havia de tratar Amlia como uma sombra e fugir-lhe 
para ser seguido... - E o resultado delicioso ali estava - trs pginas de paixo, com manchas de lgrimas no papel.
       Na quinta-feira apareceu, com efeito. Amlia esperava-o no terrao, donde estivera desde manh vigiando a estrada com um binculo de teatro. Correu a abrir-lhe 
o portozinho verde no muro do pomar.
       - Ento, por aqui! disse-lhe o proco, subindo atrs dela ao terrao.
       -  verdade, como estou sozinha...
       - Sozinha?
       - A madrinha est a dormir e a Gertrudes foi  cidade... Tenho estado toda a manh aqui ao sol.
Amaro ia penetrando pela casa, sem responder; diante duma porta aberta parou, vendo um grande leito de dossel, e em redor cadeiras de couro de convento.
       -  o seu quarto aqui, hem?
       - .
       Ele entrou familiarmente, com o chapu na cabea.
       - Muito melhor que o da Rua da Misericrdia. E boas vistas... So as terras do Morgado, alm...
       Amlia cerrara a porta, e indo direita a ele, com os olhos chamejantes:
       - Por que no respondeste a minha carta?
       Ele riu:
       -  boa! E por que no respondeste tu s minhas? Quem comeou?
       Foste tu. Dizes que no queres pecar mais. Tambm eu no quero pecar mais. Acabou-se...
       - Mas no  isso! exclamou ela plida de indignao.  que h a pensar na criana, na ama, no enxoval... No  abandonar-me para aqui!...
       Ele ps-se srio, e com um tom ressentido:
       - Peo perdo... Eu prezo-me de ser um cavalheiro. Tudo isso h-de ficar arranjado antes de voltar para a Vieira...
       - Tu no voltas pra Vieira!
       - Quem  que diz isso?
       - Eu, que no quero que vs!
       Pusera-lhe fortemente as mos nos ombros, retendo-o, apoderando-se dele: e ali mesmo, sem reparar na porta apenas cerrada, abandonou-se-lhe como outrora.

***

       Dai a dois dias o abade Ferro apareceu restabelecido do seu ataque de reumatismo. Contou a Amlia a bondade do Morgado, que chegara a mandar-lhe todas as 
tardes, num aparelho de lata com gua quente, uma galinha cozida em arroz. Mas era sobretudo a Joo Eduardo que devia a caridade melhor; todas as suas horas vagas 
as passava ao p da cama, lendo-lhe alto, ajudando-o a voltar, ficando com ele at  uma hora da noite num zelo de enfermeiro. Que rapaz! Que rapaz!
       E de repente, tomando as mos ambas de Amlia, exclamou:
       - Diga-me, d licena que eu lhe conte tudo, que lhe explique?... Que arranje que ele perdoe, e esquea... E que se faa este casamento, se faa esta felicidade?
       Ela balbuciou espantada, toda escarlate:
       - Assim de repente... No sei... Hei-de pensar...
       - Pense. E Deus a alumie! disse o velho com fervor.
       Era nessa noite que Amaro devia entrar pelo portalzinho do pomar de que Amlia lhe dera a chave. Infelizmente tinham esquecido a matilha do caseiro. E apenas 
Amaro ps o p dentro do pomar rompeu pelo silncio da noite escura um to desabrido ladrar de ces - que o senhor proco abalou pela estrada, batendo o queixo de 
terror.


XXIII


       Amaro nessa manh mandou  pressa chamar a Dionsia, apenas recebeu o seu correio. Mas a matrona que estava no mercado veio tarde, quando ele  volta da missa 
acabava de almoar.
       Amaro queria saber ao certo e imediatamente para quando estava a coisa...
       - O bom sucesso da pequena?... Entre quinze a vinte dias... Por qu, h novidade?
       Havia; e o proco leu-lhe ento em confidncia uma carta que tinha ao lado.
       Era do cnego, que escrevia da Vieira, dizendo "que a S. Joaneira tinha j trinta banhos e queria voltar! Eu, acrescentava, perco quase todas as semanas trs, 
quatro banhos, de propsito para os espaar e dar tempo, porque c a minha mulher j sabe que eu sem os meus cinqenta no vai. Ora j tenho quarenta, veja l voc. 
Demais por aqui comea a fazer frio deveras. J se tem retirado muita gente. Mande-me pois dizer pela volta do correio em que estado esto as coisas". E num post-scriptum 
dizia: "Tem voc pensado que destino se h-de dar ao fruto?"
       - Mais vinte dias, menos vinte dias, repetiu a Dionsia.
       E Amaro ali mesmo escreveu a resposta ao cnego, que a Dionsia devia levar ao correio: "A coisa pode estar pronta daqui a vinte dias. Suspenda por todo o 
modo a volta da me! Isso de modo nenhum! Diga-lhe que a pequena no escreve nem vai, porque a excelentssima mana passa sempre adoentada".
       E traando a perna:
       - E agora, Dionsia, como diz o nosso cnego, que destino se h-de dar ao fruto? 
       A matrona arregalou os olhos de surpresa:
       - Eu pensei que o senhor proco tinha arranjado tudo... Que se ia dar a criana a criar fora da terra...
       - Est claro, est claro, interrompeu o proco com impacincia. Se a criana nascer viva  evidente que se h-de dar a criar, e que h-de ser fora da terra... 
Mas a  que est! Quem h-de ser a ama?  isso que eu quero que voc me arranje. Vai sendo tempo...
       A Dionsia pareceu muito embaraada. Nunca gostara de inculcar amas. Ela conhecia uma boa, mulher forte e de muito leite, pessoa de confiana; mas infelizmente 
entrara no hospital, doente... Sabia de outra tambm, at tivera negcios com ela. Era uma Joana Carreira. Mas no convinha porque vivia justamente nos Poiais, ao 
p da Ricoa.
       - Qual no convm! exclamou o proco. Que tem que viva na Ricoa?... Em a rapariga convalescendo as senhoras vm para a cidade, e no se fala mais na Ricoa.
       Mas a Dionsia procurava ainda, arranhando devagar o queixo. Tambm sabia de outra. Essa morava para o lado da Barrosa, a boa distncia... Criava em casa, 
era o seu ofcio... Mas nessa nem falar!
       - Mulher fraca, doente?
       A Dionsia chegou-se ao proco, e baixando a voz:
       - Ai, menino, eu no gosto de acusar ningum. Mas, est provado,  uma tecedeira de anjos!
       - Uma qu?
       - Uma tecedeira de anjos!
       - O que  isso? Que significa isso? perguntou o proco.
       A Dionsia gaguejou-lhe uma explicao. Eram mulheres que recebiam crianas a criar em casa. E sem exceo as crianas morriam... Como tinha havido uma muito 
conhecida que era tecedeira, e as criancinhas iam para o Cu... Da  que vinha o nome.
       - Ento as crianas morrem sempre?
       - Sem falhar.
       O proco passeava devagar pelo quarto, enrolando o seu cigarro.
       - Diga l tudo, Dionsia. As mulheres matam-nas?
       Ento a excelente matrona declarou que no queria acusar ningum! Ela no fora espreitar. No sabia o que se passava nas casas alheias. Mas as crianas morriam 
todas...
       - Mas quem vai ento entregar uma criana a uma mulher dessas?
       A Dionsia sorriu, apiedada daquela inocncia de homem.
       - Entregam, sim senhor, s dzias!
       Houve um silncio. O proco continuava o seu passeio do lavatrio para a janela, de cabea baixa.
       - Mas que proveito tira a mulher, se as crianas morrem? perguntou de repente. Perde as soldadas...
       -  que se lhe paga um ano de criao adiantado, senhor proco. A dez tostes ao ms, ou quartinho, segundo as posses...
       O proco, agora encostado  janela, rufava devagar nos vidros.
       - Mas que fazem as autoridades, Dionsia?
       A boa Dionsia encolheu silenciosamente os ombros.
       O proco ento sentou-se, bocejou, e estirando as pernas disse:
       - Bem, Dionsia, vejo que a nica coisa a fazer  falar  tal ama que vive ao p da Ricoa,  Joana Carreira. Eu arranjarei isso...
       A Dionsia falou ainda nas peas de enxoval que j tinha comprado por conta do proco, dum bero muito barato em segunda mo que vira no Z Carpinteiro - 
e ia sair com a carta para o correio, quando o proco erguendo-se e galhofando:
       -  tia Dionsia, essa coisa da tecedeira de anjos  uma histria, hem?
       Ento a Dionsia escandalizou-se. O senhor proco sabia que ela no era mulher de intrigas. Conhecia a tecedeira de anjos h mais de oito anos, de lhe falar 
e de a ver na cidade quase todas as semanas. Ainda no sbado passado a vira sair da taberna do Grego... O senhor proco j tinha ido  Barrosa?
       Esperou a resposta do proco, e continuou:
       - Pois bem, sabe o comeo da freguesia. H um muro cado. Depois  um caminho que desce. Ao fundo desse corregozito encontra um poo atulhado. Adiante, retirada, 
h uma casita que tem um alpendre.  l que ela vive... Chama-se Carlota... Isto  para lhe mostrar que sei, amiguinho!
       O proco ficou toda a manh em casa, passeando pelo quarto, alastrando o cho de pontas de cigarros. Ali estava agora diante daquele episdio fatal, que at 
a fora apenas um cuidado distante - dispor do filho!
       Era bem grave entreg-lo assim a uma ama desconhecida, na aldeia. A me, naturalmente, havia de querer ir a todo o momento v-lo, a ama poderia falar aos 
vizinhos. O rapaz viria a ser, na freguesia, o filho do proco... Algum invejoso, que lhe cobiasse a parquia, poderia denunci-lo ao senhor vigrio-geral. Escndalo, 
sermo, devassa: e, se no fosse suspenso, poderia como o pobre Brito ser mandado para longe, para a serra, outra vez para os pastores... Ah! se o fruto nascesse 
morto! Que soluo natural e perptua! E para a criana, uma felicidade! Que destino podia ele ter neste duro mundo? Era o enjeitado, era o filho do padre. Ele era 
pobre, a me pobre... O rapaz cresceria na misria, vadiando, apanhando o estrume das bestas, remeloso e tosco... De necessidade em necessidade iria conhecendo todas 
as formas do inferno humano: os dias sem po, as noites regeladas, a brutalidade da taberna, a cadeia por fim. Uma enxerga na vida, uma vala na morte... E se morresse 
- era um anjinho que Deus recolhia ao Paraso...
       E continuava passeando tristemente pelo quarto. Realmente o nome era bem posto, tecedeira de anjos... Com razo. Quem prepara uma criana para a vida com 
o leite do seu peito, prepara-a para os trabalhos e para as lgrimas... Mais vale torcer-lhe o pescoo, e mand-la direita para a eternidade bem-aventurada! Olha 
ele! Que vida a sua, nesses trinta anos atrs! Uma infncia melanclica, com aquela pega da marquesa de Alegros; depois a casa na Estrela, com o alarve do tio toucinheiro; 
e da as clausuras do seminrio, a neve constante de Feiro, e ali em Leiria tantos transes, tantas amarguras... Se lhe tivessem esmagado o crnio ao nascer, estava 
agora com duas asas brancas, cantando nos coros eternos.
Mas enfim no havia que filosofar: era partir para Poiais e falar  ama,  Sra. Joana Carreira.
       Saiu, dirigindo-se para a estrada, sem pressa. Ao p da ponte veio-lhe porm de repente a idia, a curiosidade de ir  Barrosa ver a tecedeira... No lhe 
falaria: examinaria apenas a casa, a figura da mulher, os aspectos sinistros do stio... Demais como proco, como autoridade eclesistica, devia observar aquele 
pecado organizado num recanto de estrada, impune e rendoso. Podia mesmo denunci-lo ao senhor vigrio-geral ou ao secretrio do governo civil...
       Tinha ainda tempo, eram apenas quatro horas. Por aquela tarde suave e lustrosa fazia-lhe bem um passeio a cavalo. No hesitou, ento; foi alugar uma gua 
 estalagem do Cruz; e da a pouco, de espora no p esquerdo, choutava a direito pelo caminho da Barrosa.
       Ao chegar ao crrego, de que lhe falara a Dionsia, apeou, foi andando com a gua pela arreata. A tarde estava admirvel; muito alto no azul, uma grande ave 
fazia semicrculos vagarosos.
       Encontrou enfim o poo atulhado ao p de dois castanheiros onde pssaros ainda chilreavam; adiante, num terreno plano, muito isolada, l estava a casa com 
o seu alpendre; o sol declinando batia-lhe na nica janela do lado, acendendo-a num resplendor de ouro e brasa; e, muito delgado, elevava-se da chamin um fumo claro 
no ar sereno.
       Uma grande paz estendia-se em redor; no monte, escuro da rama dos pinheiros baixos, a capelinha da Barrosa punha a alvura alegre da sua parede muito caiada.
Amaro ia imaginando ento a figura da tecedeira; sem saber por qu, supunha-a muito alta, com um caro trigueiro onde dois olhos de bruxa refulgiam.
       Defronte da casa prendeu a gua  cancela, e olhou pela porta aberta: era uma cozinha trrea, de grande lareira, com sada para o ptio estradado de mato 
onde dois bacorinhos fossavam. Na prateleira da chamin rebrilhava a loua branca. Dos lados pendiam grandes caarolas de cobre, dum lustro de casa rica. Num velho 
armrio meio aberto branquejavam pilhas de roupa: e havia tanta ordem que uma claridade parecia sair do asseio e do arranjo das coisas.
       Amaro ento bateu forte as palmas. Uma rola pulou assustada, dentro da sua gaiola de vime pendurada da parede. Depois chamou alto:
       - Sra. Carlota!
       Imediatamente do lado do ptio uma mulher apareceu, com um crivo na mo. E Amaro, surpreendido, viu uma agradvel criatura de quase quarenta anos, forte de 
peitos, ampla de encontros, muito branca no pescoo, com duas ricas arrecadas, e uns olhos negros que lhe lembraram os de Amlia ou antes o brilho mais repousado 
dos da S. Joaneira.
       Assombrado, balbuciou:
       - Creio que me enganei... Aqui  que mora a Sra. Carlota?
       No se enganara, era ela; mas com a idia que a figura medonha "que tecia os anjos" devia estar algures, agachada num vo tenebroso da casa, perguntou ainda:
       - Vossemec vive aqui s?
       A mulher olhou-o desconfiada:
       - No senhor, disse por fim, vivo com o meu marido...
       Justamente o marido saa do ptio, - medonho, esse, quase ano, com a cabea embrulhada num leno e muito enterrada nos ombros, a face de uma amarelido de 
cera oleosa e lustrosa; no queixo anelavam-se os plos raros duma barba negra; e sob as arcadas fundas sem sobrancelhas, vermelhejavam dois olhos raiados de sangue, 
olhos de insnia e de bebedeira.
       - Para o seu servio, vossa senhoria quer alguma coisa? disse, muito colado  saia da mulher.
Amaro foi entrando pela cozinha, e tartamudeando uma histria que ia forjando laboriosamente. Era uma parente que ia ter o seu bom sucesso. O marido no pudera vir 
falar-lhes porque estava doente... Queria uma ama para lhes ir para casa, e tinham-lhe dito...
       - No, fora de casa, no. C em casa - disse o ano que no se despegava das saias da mulher, mirando o proco de lado com o seu medonho olho injetado.
       Ah, ento tinham-no informado mal... Sentia; mas o que o parente queria era uma ama para casa.
       Veio dirigindo-se para a gua, devagar; parou, e abotoando o casaco:
       - Mas em casa recebem crianas para criao?... - perguntou ainda.
       - Convindo o ajuste, disse o ano que o seguia.
       Amaro arranjou a espora no p, deu um puxo ao estribo, demorando-se, rondando em tomo da cavalgadura:
       -  necessrio trazer-lha c, j se sabe.
       O ano voltou-se, trocou um olhar com a mulher que ficara  porta da cozinha.
       - Tambm se lhe vai buscar, disse.
       Amaro batia palmadas no pescoo da gua.
       - Mas sendo a coisa de noite, agora com esse frio,  matar a criana...
       Ento os dois, falando ao mesmo tempo, afirmaram que no lhe fazia mal. Havendo, j se sabe, carinho e agasalho...
       Amaro cavalgou vivamente a gua, deu as boas-tardes e trotou pelo crrego.

***

       Amlia agora comeava a andar assustada. De dia e de noite s pensava naquelas horas, que se avizinhavam, em que devia sentir chegarem as dores. Sofria mais 
que durante os primeiros meses; tinha tonturas, perverses de gosto - que o doutor Gouveia observava, franzindo a testa descontente. As noites eram ms, numa turbao 
de pesadelos. J no eram as alucinaes religiosas: isso cessara numa sbita aplacao de todo o terror devoto: no sentiria menos temor de Deus, se j fosse uma 
santa canonizada. Eram outros medos, sonhos em que o parto se lhe representava de modos monstruosos: ora era um ser medonho que lhe saltava das entranhas, metade 
mulher e metade cabra; ora era uma cobra infindvel que lhe saa de dentro, durante horas, como uma fita de lguas, enrolando-se no quarto em roscas sucessivas que 
ganhavam a altura do teto; e acordava em tremuras nervosas que a deixavam prostrada.
       Mas ansiava por ter a criana. Estremecia  idia de ver um dia inesperadamente a me aparecer na Ricoa. Ela escrevera-lhe, queixando-se do senhor cnego 
que a retinha na Vieira, dos temporais que j reinavam, da solido que se ia fazendo na praia. Alm disso D. Maria da Assuno voltara; felizmente, uma noite providencialmente 
gelada dera-lhe durante a jornada uma inflamao dos brnquios - e estava de cama para semanas, segundo dizia o doutor Gouveia. O Libaninho, esse, tambm viera  
Ricoa; e sara lastimando-se de no ter visto a Amelinha "que tinha nesse dia enxaqueca".
       - Se isto demora mais quinze dias, vem-se a descobrir tudo, dizia ela, choramigando, a Amaro.
       - Pacincia, filha. No se pode forar a natureza...
       - O que tu me tens feito sofrer! suspirava ela, o que tu me tens feito sofrer!
       Ele calava-se resignado - muito bom, muito temo agora com ela. Vinha-a ver quase todas as manhs, porque no queria pelas tardes encontrar o abade Ferro.
       Tranqilizara-a a respeito da ama, dizendo-lhe que falara  mulher da Ricoa inculcada pela Dionsia. Era uma escolha rica a Sra. Joana Carreira! Mulher forte 
como um carvalho, com barricas de leite, e dentes de marfim...
       - Fica-me to longe para vir ver depois a criana... - suspirava ela.
       Tomavam-na agora pela primeira vez entusiasmos de me. Desesperava-se em no poder ela mesma costurar o resto do enxoval. Queria que o rapaz - porque havia 
de ser um rapaz! - se chamasse Carlos. Cismava-o j homem, e oficial de cavalaria. Enternecia-se com a esperana de o ver gatinhar...
       - Ai, eu  que o queria criar, se no fosse a vergonha!...
       - Vai muito bem para onde vai, dizia Amaro.
       Mas o que a torturava, a fazia chorar todos os dias era a idia de ele ser um enjeitadinho!
       Um dia veio ao abade com um plano extraordinrio "que Lhe inspirara Nossa Senhora": ela casaria j com Joo Eduardo, mas o rapaz devia por uma escritura adotar 
o Carlinhos! Que para que o anjinho no fosse um enjeitado, casava at com um calceteiro da estrada! E apertava as mos do abade, numa suplicao loquaz. Que convencesse 
Joo Eduardo, que desse um pap ao Carlinhos! Queria ajoelhar aos ps dele, do senhor abade, que era o seu pai e o seu protetor.
       - Oh, minha senhora, sossegue, sossegue. Esse  tambm o meu desejo, como lhe disse. E h-de arranjar-se, mas mais tarde, disse o bom velho, atarantado daquela 
excitao.
       Depois, da a dias, foi outra exaltao: descobrira de repente, uma manh, que no devia trair Amaro, "porque era o pap do seu Carlinhos". E disse-o ao abade; 
fez corar os sessenta anos do bom velho, palrando muito convencidamente dos seus deveres de esposa para com o proco.
       O abade, que ignorava as visitas do proco todas as manhs, assombrou-se.
       - Minha senhora, que est a dizer? que est a dizer? Caia em si... Que vergonha!... Imaginei que lhe tinham passado essas loucuras.
       - Mas  o pai do meu filho, senhor abade, disse ela, olhando-o muito sria.
       Fatigou ento Amaro toda uma semana com uma ternura pueril. Lembrava-lhe cada meia hora que era o "pap do seu Carlinhos".
       - Bem sei, filha, bem sei, dizia ele impaciente. Obrigado. No me gabo da honra...
       Ela chorava, ento, aninhada no sof. Era necessria toda uma complicao de carcias para a calmar. Fazia-o sentar num banquinho junto dela; tinha-o ali 
como um boneco, contemplando-o, coando-lhe devagarinho a coroa; queria que se tirasse a fotografia ao Carlinhos para a trazerem ambos numa medalha ao pescoo; e 
se ela morresse, ele havia de levar o Carlinhos  sepultura, ajoelh-lo, pr-lhe as mozinhas, faz-lo rezar pela mam. Atirava-se ento para a almofada, tapando 
o rosto com as mos:
       - Ai, pobre de mim, meu querido filho, pobre de mim!
       - Cala-te, que vem gente! dizia-lhe Amaro furioso.
       Ah, aquelas manhs na Ricoa! Eram para ele como uma penalidade injusta. Ao entrar tinha de ir  velha escutar-lhe as lamrias. Depois, era aquela hora com 
Amlia, que o torturava com as pieguices dum sentimentalismo histrico, - estirada no sof, grossa como um tonel, com a face intumescida, os olhos papudos...
       Numa dessas manhs, Amlia, que se queixava de cibras, quis dar um passeio pelo quarto apoiada a Amaro: e ia-se arrastando, enorme no seu velho robe-de-chambre, 
quando se sentiram, embaixo no caminho, passos de cavalos; chegaram  janela - mas Amaro recuou vivamente, deixando Amlia que embasbacara com a face contra a vidraa. 
Na estrada galhardamente montado numa gua baia, passava Joo Eduardo de palet branco e chapu alto; ao lado trotavam os dois Morgaditos, um num pnei, outro acorreado 
num burro; e atrs, a distncia, num passo de respeito e de cortejo, um criado de farda, de bota de cano e espores enormes, com uma libr muito larga que lhe fazia 
na ilharga rugas grotescas, e no chapu a roseta escarlate. Ela ficara assombrada, seguindo-os at que as costas do lacaio desapareceram  esquina da casa. Sem uma 
palavra, veio sentar- se no sof. Amaro, que continuava passeando pelo quarto, teve ento um risinho sarcstico:
       - O idiota, de lacaio  retaguarda!
       Ela no respondeu, muito escarlate. E Amaro, chocado, saiu atirando com a porta, foi para o quarto de D. Josefa contar-lhe a cavalgada, e vituperar o Morgado.
       - Um excomungado de criado de farda! exclamava a boa senhora, com as mos apertadas na cabea. Que vergonha, senhor proco, que vergonha para a nobreza destes 
reinos!
       Desde esse dia Amlia no tornou a choramigar, se pela manh o senhor proco no vinha. Quem esperava agora com impacincia era o Sr. abade Ferro, pela tarde. 
Apoderava-se dele, queria-o numa cadeira junto ao canap: e depois de rodeios demorados de ave que tenteia a presa, caa sobre a pergunta fatal - se tinha visto 
o Sr. Joo Eduardo?
       Queria saber o que ele dissera, se falara nela, se a avistara  janela. Torturava-o com curiosidades sobre a casa do Morgado, a moblia da sala, o nmero 
de lacaios e de cavalos, se o criado de farda servia  mesa...
       E o bom abade respondia com pacincia - contente de a ver esquecida do proco, ocupada de Joo Eduardo: tinha agora a certeza que aquele casamento se faria: 
ela evitava, de resto, pronunciar sequer o nome de Amaro, e uma vez mesmo respondeu ao abade que lhe perguntava se o senhor proco voltara  Ricoa:
       - Ai, vem pela manh ver a madrinha... Mas eu no lhe apareo, que nem estou decente...
       Todo o tempo que podia estar de p, passava-o agora  janela, muito arranjada da cinta para cima que era o que se podia ver da estrada - enxovalhada das saias 
para baixo. Estava esperando Joo Eduardo, os Morgados e o lacaio; e tinha de vez em quando, com efeito, o gozo de os ver passar, naquele passo bem lanado de cavalos 
de preo, sobretudo o da gua baia de Joo Eduardo, que ele defronte da Ricoa fazia sempre ladear, de chicote atravessado e perna  Marialva, como lhe ensinara 
o Morgado. Mas era o lacaio, sobretudo, que a encantava: e com o nariz nos vidros seguia-o num olhar guloso, at que  volta da estrada via desaparecer o pobre velho, 
de dorso corcovado, com a gola da farda at  nuca e as pernas bamboleantes.
       E para Joo Eduardo que delcia aqueles passeios com os Morgaditos, na gua baia! Nunca deixava de ir  cidade: fazia-lhe bater o corao o som das ferraduras 
sobre o lajedo: ia passar diante da Amparo da botica, diante do cartrio do Nunes, que tinha a sua banca ao p da janela, diante da Arcada, diante do senhor administrador 
que l estava na varanda de binculo para a Teles - e o seu desgosto era no poder entrar com a gua, os Morgaditos e o lacaio pelo escritrio do doutor Godinho 
que era no interior da casa.
       Foi um dia, depois dum desses passeios triunfais, que voltando s duas horas da Barrosa, ao chegar ao Poo das Bentas e ao subir para o caminho de carros, 
viu de repente o Sr. padre Amaro que descia montado num garrano. Imediatamente Joo Eduardo fez caracolar a gua. O caminho era to estreito, que apesar de se chegarem 
s sebes quase roaram os joelhos - e Joo Eduardo pde ento, do alto da sua gua de cinqenta moedas, agitando ameaadoramente o chicote, esmagar com um olhar 
o padre Amaro que se encolhia muito plido, com a barba por fazer, a face biliosa, esporeando ferozmente o garrano ronceiro. No alto do caminho Joo Eduardo ainda 
parou, voltou-se sobre a sela, e viu o proco que apeava  porta do casebre isolado onde h pouco, ao passar, os Morgaditos tinham rido "do ano".
       - Quem vive ali? perguntou Joo Eduardo ao lacaio.
       - Uma Carlota... M gente, Sr. Joozinho!
       Ao passar na Ricoa, Joo Eduardo, como sempre, ps a passo a gua baia. Mas no viu por trs dos vidros a costumada face plida sob o leno escarlate. As 
portadas da janela estavam meio cerradas; e ao porto, desatrelado com os vares em terra, o cabriol do doutor Gouveia.

***

        que tinha chegado enfim o dial Nessa manh viera da Ricoa um moo da quinta com um bilhete de Amlia quase ininteligvel - Dionsia depressa, a coisa chegou! 
Trazia ordem tambm de ir chamar o senhor Gouveia. Amaro foi ele mesmo avisar a Dionsia.
       Dias antes, tinha-lhe dito que D. Josefa, a prpria D. Josefa, lhe inculcara uma ama - que ele j ajustara, grande mulher, rija como um castanheiro. E agora 
combinaram rapidamente que nessa noite Amaro se postaria com a ama  portinha do pomar, e Dionsia viria dar-lhe a criana bem atabafada.
       - s nove da noite, Dionsia. E no nos faa esperar! - recomendou-lhe ainda Amaro vendo-a abalar num espalhafato.
       Depois voltou a casa e fechou-se no quarto, face a face com aquela dificuldade que ele sentia como uma coisa viva fix-lo e interrog-lo: - Que havia de fazer 
 criana? Tinha ainda tempo de ir aos Poiais ajustar a outra ama, a boa ama que a Dionsia conhecia; ou podia montar a cavalo e ir  Barrosa falar  Carlota... 
E ali estava, diante daqueles dois caminhos, hesitando numa agonia. Queria serenar, discutir aquele caso como se fosse um ponto de teologia, pesando-lhe os prs 
e os contras: mas tinha temerariamente diante de si, em lugar de dois argumentos, duas vises: - a criana a crescer e a viver nos Poiais, ou a criana esganada 
pela Carlota a um canto da estrada da Barrosa... - E, passeando pelo quarto, suava de angstia, quando no patamar a voz inesperada do Libaninho gritou:
       - Abre; parocozinho, que sei que ests em casa!
       Foi necessrio abrir ao Libaninho, apertar-lhe a mo, oferecer-lhe uma cadeira. Mas o Libaninho felizmente no se podia demorar. Passara na rua, e subira 
a saber se o amigo proco tinha noticia daquelas santinhas da Ricoa.
       - Vo bem, vo bem, disse Amaro que obrigava a face a sorrir, a prazentear.
       - Eu no tenho podido ir l, que tenho andado mais ocupado!... Estou de servio no quartel... No te rias, parocozinho, que estou l fazendo muita virtude... 
Meto-me com os soldadinhos, falo-lhes das chagas de Cristo...
       - Andas a converter o regimento, disse Amaro que mexia nos papis da mesa, passeava, numa inquietao de animal preso.
       - No  para as minhas foras, proco, que se eu pudesse!... Olha, agora vou eu levar a um sargento uns bentinhos... Foram benzidos pelo Saldanhinha, vo 
cheios de virtude. Ontem dei outros iguais a um anspeada, perfeito rapaz, um amor de rapaz. Pus-lhos eu mesmo por baixo da camisola. Perfeito rapaz!...
       - Devias deixar esses cuidados pelo regimento ao coronel, disse Amaro abrindo a janela, abafando de impacincia.
       - Credo, olha o mpio! Se o deixassem desbatizava o regimento. Pois adeus, parocozinho. Ests amarelinho, filho... Precisas purga, eu sei o que isso .
       Ia a sair, mas  porta, parando:
       - Ai, dize c, parocozinho, dize c: tu ouviste alguma coisa?
       - De qu?
       - Foi o padre Saldanha que mo disse. Diz que o nosso chantre declarara (palavras do Saldanhinha) que lhe constava que ia na cidade um escndalo com um senhor 
eclesistico... Mas no disse quem nem o qu... O Saldanha qui-lo sondar, mas o chantre diz que recebera s uma denncia vaga, sem nome... Tenho estado a pensar: 
quem ser?
       - Pataratas do Saldanha...
       - Ai, filho ! Deus queira que sejam. Que quem folga, so os mpios... Quando fores pela Ricoa d recados quelas santinhas...
       E pulou pelos degraus a ir levar "a virtude" ao batalho.
       Amaro ficara aterrado. Era ele decerto, eram os seus amores com Amlia que j iam chegando ao vigrio-geral em denncias tortuosas! E ali vinha agora aquele 
filho, criado a meia lgua da cidade, ficar como uma prova viva!... Parecia-lhe extraordinrio, quase sobrenatural, ter o Libaninho, que em dois anos no lhe viera 
a casa duas vezes, ter o Libaninho entrado com aquela nova terrvel, quando ele estava ali numa batalha com a conscincia. Era como a Providncia, que sob a forma 
grotesca do Libaninho, vinha trazer-lhe o seu aviso, murmurar-lhe: "No deixes viver quem te pode trazer o escndalo! Olha que j se suspeita de ti!".
       Era decerto Deus apiedado que no queria que houvesse na terra mais um enjeitado, mais um miservel, - e que reclamava o seu anjo!...
       No hesitou: partiu para a estalagem do Cruz, e da a cavalo para a casa de Carlota.
       Demorou-se l at s quatro horas.
       De volta a casa atirou o chapu para cima da cama, e sentiu enfim um alvio de todo o seu ser. Estava acabado! L falara  Carlota e ao ano; l lhe pagara 
um ano adiantado; agora era esperar pela noite!
       Mas na solido do quarto toda a sorte de imaginaes mrbidas o assaltavam: via a Carlota a esganar a criancinha roxa; via os cabos de polcia mais tarde 
a desenterrar o cadver, o Domingos da administrao redigindo sobre um joelho o auto de corpo de delito, e ele, de batina, arrastado para cadeia de S. Francisco, 
em ferros, ao lado do ano! Tinha quase vontade de montar a cavalo, voltar  Barrosa desfazer o ajuste. Mas uma inrcia retinha-o. Depois, nada o forava  noite 
a entregar a criana  Carlota... Podia lev-la bem agasalhada  Joana Carreira, a boa ama dos Poiais...
       Para escapar quelas idias que lhe faziam sob o crnio um rudo de tormenta, saiu, foi ver Natrio que j se erguia - e que lhe gritou imediatamente do fundo 
da poltrona:
       - Ento voc viu, Amaro? O idiota, de lacaio atrs!
       Joo Eduardo passara-lhe na rua, na gua baia, com os Morgadinhos; e Natrio desde ento rugia de impacincia de estar ali amarrado  cadeira e no poder 
recomear a campanha, expuls-lo por uma boa intriga da casa do Morgado, arrancar-lhe a gua e o lacaio.
       - Mas no as perde, em Deus me dando pemas...
       - Deixe l o homem, Natrio, disse Amaro.
       Deix-lo! quando tinha uma idia prodigiosa - que era provar ao Morgado, com documentos, que o Joo Eduardo era um beato! Que lhe parecia, ao amigo Amaro?
       Era engraado, com efeito. O homem no deixava de o merecer, s pela maneira como olhava para a gente de bem, do alto da gua... - E Amaro fazia-se vermelho, 
ainda indignado do encontro, de manh, no caminho de carros da Barrosa.
       - Est claro! exclamou Natrio. Para que somos ns sacerdotes de Cristo? Para exaltar os humildes e derrubar os soberbos.
       Dali, Amaro foi ver D. Maria da Assuno - que j se erguera tambm - que lhe fez a histria da sua bronquite e a enumerao dos ltimos pecados: o pior era 
que, para se distrair um bocado na convalescena, recostava-se por trs da vidraa, e um carpinteiro que morava defronte embasbacava para ela; e por influncia do 
maligno, no tinha foras para se retirar. para dentro, e vinham-lhe pensamentos maus...
       - Mas vossa senhoria no est com ateno, senhor proco.
       - Ora essa, minha senhora!
       E apressou-se a pacificar-lhe os escrpulos - porque a salvao daquela alma idiota era para ele um emprego melhor que a mesma parquia.
       J escurecia quando entrou em casa. A Escolstica queixou-se da demora que lhe esturrara o jantar. Mas Amaro tomou apenas um copo de vinho e uma garfada de 
arroz, que engoliu de p, olhando com terror pela janela a noite que impassivelmente caia.
       Entrava no quarto a ver se os candeeiros j estavam acesos, quando o coadjutor apareceu. Vinha falar-lhe sobre o batizado do filho do Guedes, que estava marcado 
para o dia seguinte s nove horas.
       - Trago luz? - disse de dentro a criada sentindo a visita.
       - No! gritou logo Amaro.
       Temia que o coadjutor visse a alterao que sentia nas faces, ou que se instalasse para toda a noite.
       - Diz que vem na Nao de anteontem um artigo muito bom - observou o coadjutor, grave.
       - Ah! fez Amaro.
       Passeava no seu trilho costumado, do lavatrio para a janela; parava s vezes a rufar nos vidros; j se tinham acendido os candeeiros.
       Ento o coadjutor, chocado com aquela treva do quarto e aquele passear de fera numa jaula, ergueu-se, e com dignidade:
       - Estou a incomodar talvez...
       - No!
       E o coadjutor satisfeito sentou-se, com o seu guarda-chuva entre os joelhos.
       - Agora anoitece mais cedo, disse.
       - Anoitece...
       Enfim Amaro desesperado declarou-lhe que tinha uma enxaqueca odiosa, que se ia encostar: e o homem saiu, depois de lhe lembrar ainda o batizado do menino 
do seu amigo Guedes.
       Amaro partiu logo para a Ricoa. Felizmente a noite estava tenebrosa e quente, anunciando chuva. Ia agora tomado duma esperana que lhe fazia bater o corao: 
era que a criana nascesse mortal E era bem possvel. A S. Joaneira em nova tivera duas crianas mortas; a ansiedade em que vivera Amlia devia ter perturbado a 
gestao. E se ela morresse tambm? Ento a esta idia, que nunca lhe acudira, invadiu-o bruscamente uma piedade, uma ternura por aquela boa rapariga que o amava 
tanto, e que agora, por obra dele, gritava dilacerada de dores. E todavia, se ambos morressem, ela e a criana, era o seu pecado e o seu erro que caam para sempre 
nos escuros abismos da eternidade... Ele ficava, como antes da sua vinda a Leiria, um homem tranqilo, ocupado da sua igreja, duma vida limpa e lavada como uma pgina 
branca!
       Parou junto ao casebre em runas  beira da estrada, onde devia estar a pessoa que da Barrosa vinha buscar a criana: no se tinha decidido se seria o homem 
ou a Carlota: e Amaro receava encontrar o ano, para lhe levar o filho, com aqueles olhos raiados dum sangue mau. Falou para dentro, para as trevas do casebre.
       - Ol!
       Foi um alvio quando a clara voz da Carlota disse na negrura:
       - C est!
       - Bem,  esperar, Sra. Carlota.
       Estava contente: parecia-lhe que no tinha nada a temer, se o filho partisse aninhado contra aquele robusto seio de quarentona fecunda, to fresca e to lavada.
       Foi ento rondar a casa. Estava apagada e muda, como um empastamento mais denso de sombra naquela lgubre noite de Dezembro. Nem uma fenda de luz saa da 
janelas do quarto de Amlia. No ar muito pesado nenhuma folhagem ramalhava. E a Dionsia no aparecia.
       Aquela demora torturava-o. Podia passar gente e v-lo rondar na estrada. Mas repugnava-lhe ir ocultar-se no casebre em runas ao p de Carlota. Foi andando 
ao comprido do muro do pomar, voltou, - e viu ento na porta envidraada do terrao uma claridade de luz aparecer.
       Correu para a portinha verde do pomar que quase imediatamente se abriu; e a Dionsia, sem uma palavra, ps-lhe nos braos um embrulho.
       - Morta? perguntou ele.
       - Qual! Vivo! Um rapago!
       E fechou a porta devagarinho, quando os ces, farejando rumor, comeavam a ladrar.
       Ento o contato do seu filho, contra o seu peito, desmanchou como um vendaval todas as idias de Amaro. O qu! ir d-lo quela mulher,  tecedeira de anjos, 
que na estrada o atiraria a algum valado, ou em casa o arremessaria  latrina? Ah! no, era o seu filho!
       Mas que fazer, ento? No tinha tempo de correr aos Poiais e acordar a outra ama... A Dionsia no tinha leite... No o podia levar para a cidade... Oh! que 
desejo furioso de bater quela porta da quinta, precipitar-se para o quarto de Amlia, meter-lhe o pequerruchinho na cama, muito agasalhado, e todos trs ficarem 
ali como no conchego dum cu! Mas qu, era padre! Maldita fosse a religio que assim o esmagava!
       De dentro do embrulho saiu um gemido. Correu ento para o casebre - quase esbarrou com a Carlota, que se apoderou logo da criana.
       - A est, disse ele. Mas oua l. Isto agora  srio. Agora  outra coisa. Olhe que o no quero morto...  para o tratar. O que se passou no vale...  para 
o criar!  para viver. Voc tem a sua fortuna... Trate dele!...
       - No tem dvida, no tem dvida, dizia a mulher apressada.
       - Escute... A criana no vai bem agasalhada. Ponha-lhe o meu  capote.
       - Vai bem, senhor, vai bem.
       - No vai, com mil diabos!  o meu filho! H-de levar o capote! No quero que morra de frio!
Atirou-lho aos ombros com fora, traando-lho sobre o peito, agasalhando a criana; - e a mulher j enfastiada meteu rapidamente pela estrada. 
       Amaro ficou ali plantado no meio do caminho, vendo o vulto perder-se na negrura. Ento todos os seus nervos, depois daquele choque, se relaxaram numa fraqueza 
de mulher sensvel - e rompeu a chorar.
       Muito tempo rondou a casa. Mas ela permanecia na mesma escurido, naquele silncio que o aterrava. Depois, triste e fatigado, veio voltando para a cidade, 
quando batiam as dez badaladas na S.

***

       A essa hora, na sala de jantar da Ricoa, o doutor Gouveia ceava tranqilamente o frango assado que lhe preparara a Gertrudes, para depois das canseiras do 
dia. O abade Ferro, sentado junto da mesa, assistia-lhe  ceia; viera munido dos sacramentos para o caso de haver perigo. Mas o doutor estava satisfeito; durante 
as oito horas de dores a rapariga mostrara- se corajosa; o parto fora feliz, de resto, e sara um rapago que fazia muita honra ao pap.
       O bom abade Ferro baixava castamente os olhos queles detalhes, no seu pudor de sacerdote.
       - E agora, dizia o doutor trinchando o peito do frango, agora que eu introduzi a criana no mundo, os senhores (e quando digo os senhores, quero dizer a Igreja) 
apoderam-se dele e no o largam at a morte. Por outro lado, ainda que menos sofregamente, o Estado no o perde de vista... E a comea o desgraado a sua jornada 
do bero  sepultura, entre um padre e um cabo de polcia!
       O abade curvou-se, e tomou uma estrondosa pitada preparando-se para a controvrsia.
       - A Igreja, continuava o doutor com serenidade, comea, quando a pobre criatura ainda nem tem sequer conscincia da vida, por lhe impor uma religio...
       O abade interrompeu, meio srio, meio rindo:
       -  doutor, ainda que no seja seno por caridade com a sua alma, devo adverti-lo que o sagrado Conclio de Trento, cnon dcimo terceiro, comina a pena de 
excomunho contra todo o que disser que o batismo  nulo, por ser imposto sem a aceitao da razo.
       - Tomo nota, abade. Eu estou acostumado a essas amabilidades do Conclio de Trento para comigo e outros colegas...
       - Era uma assemblia respeitvel! acudiu o abade j escandalizado.
       - Sublime, abade. Uma assemblia sublime. O Conclio de Trento e a Conveno foram as duas mais prodigiosas assemblias de homens que a terra tem presenciado... 
       O abade fez uma visagem de repugnncia quele cotejo irreverente entre os santos autores da doutrina e os assassinos do bom rei Lus XVI.
       Mas o doutor prosseguiu:
       - Depois, a Igreja deixa a criana em paz algum tempo enquanto ela faz a sua dentio e tem o seu ataque de lombrigas...
       - V, v, doutor! murmurava o abade, escutando-o pacientemente, de olhos cerrados - como significando "anda, anda, enterra bem essa alma no abismo de fogo 
e pez"!
       - Mas quando se manifestam no pequeno os primeiros sintomas de razo, continuava o doutor, quando se torna necessrio que ele tenha, para o distinguir dos 
animais, uma noo de si mesmo e do Universo, ento entra-lhe a Igreja em casa e explica-lhe tudo! Tudo! To completamente, que um gaiato de seis anos que no sabe 
ainda o b-a-b tem uma cincia mais vasta, mais certa, que as reais academias combinadas de Londres, Berlim e Paris! O velhaco no hesita um momento para dizer 
como se fez o Universo e os seus sistemas planetrios; como apareceu na Terra a criao; como se sucederam as raas; como passaram as revolues geolgicas do globo; 
como se formaram as lnguas; como se inventou a escrita... Sabe tudo: possui completa e imutvel a regra para dirigir todas as aes e formar todos os juzos; tem 
mesmo a certeza de todos os mistrios; ainda que seja mope como uma toupeira v o que se passa na profundidade dos cus e no interior do globo; conhece, como se 
no tivesse feito seno assistir a esse espetculo, o que lhe h-de suceder depois de morrer... No h problema que no decida... E quando a Igreja tem feito deste 
marmanjo uma tal maravilha de saber, manda-o ento aprender a ler... O que eu pergunto : para qu?
       A indignao tinha emudecido o abade.
       - Diga l, abade, para que os mandam os senhores ensinar a ler? Toda a cincia universal, o res scibilis, est no Catecismo:  meter-lho na memria, e o rapaz 
possui logo a cincia e conscincia de tudo... Sabe tanto como Deus... De fato,  Deus mesmo. 
       O abade pulou.
       - Isso no  discutir, exclamou, isso no  discutir!... Isso so chalaas  Voltaire! Essas coisas devem-se tratar mais de alto...
       - Como chalaas, abade? Tome um exemplo: a formao das lnguas. Como se formaram? Foi Deus, que descontente com a Torre de Babel...
       Mas a porta da sala abriu-se, e apareceu a Dionsia. Havia pouco o doutor tinha-lhe dado uma desanda no quarto de Amlia; e agora a matrona falava-lhe sempre 
encolhida de terror.
       - Senhor doutor, disse ela no silncio que se fez, a menina acordou e diz que quer o filho.
       - E ento? A criana levaram-na, no?
       - A criana levaram-na... disse a Dionsia.
       - Bem, acabou-se...
       Dionsia ia fechar a porta, mas o doutor chamou-a.
       - Oua l, diga-lhe que a criana vem amanh... Que amanh sem falta lha trazem. Minta. Minta como um co; aqui o senhor abade d licena... Que durma, que 
sossegue.
       A Dionsia retirou-se. Mas a controvrsia no recomeou: diante daquela me que acordava depois da fadiga do parto e reclamava o seu filho, o filho que lhe 
tinham levado para longe e para sempre, os dois velhos esqueceram a Torre de Babel e a formao das lnguas. O abade, sobretudo, parecia comovido. Mas o doutor no 
tardou, sem piedade, a lembrar-lhe que eram aquelas as conseqncias da situao do padre na sociedade...
       O abade baixou os olhos, ocupado na sua pitada, sem responder, como ignorando que houvesse um padre naquela histria infeliz.
       O doutor, ento, segundo a sua idia, discursou contra a preparao e educao eclesistica.
       - A tem o abade uma educao dominada inteiramente pelo absurdo: resistncia s mais justas solicitaes da natureza, e resistncia aos mais elevados movimentos 
da razo. Preparar um padre  criar um monstro que h-de passar a sua desgraada existncia numa batalha desesperada contra os dois fatos irresistveis do Universo 
- a fora da Matria e a fora da Razo!
       - Que est o senhor a dizer? exclamou assombrado o abade.
       - Estou a dizer a verdade. Em que consiste a educao dum sacerdote? Primo: em o preparar para o celibato e para a virgindade; isto , para a supresso violenta 
dos sentimentos mais naturais. Secundo: em evitar todo o conhecimento e toda a idia que seja capaz de abalar a f catlica; isto , a supresso forada do esprito 
de indagao e de exame, portanto de toda a cincia real e humana...
       O abade erguera-se, ferido duma piedosa indignao:
       - Pois o senhor nega  Igreja a cincia?
       - Jesus, meu caro abade, continuou tranqilamente o doutor, Jesus, os seus primeiros discpulos, o ilustre S. Paulo representaram em parbolas, em epstolas, 
num prodigioso fluxo labial, que as produes do esprito humano eram inteis, pueris, e sobretudo perniciosas...
       O abade passeava pela sala, indo contra um e outro mvel como um boi espicaado, apertando as mos na cabea na desolao daquelas blasfmias: no se conteve, 
gritou:
       - O senhor no sabe o que diz!... Perdo, doutor, peo-lhe humildemente perdo... O senhor faz-me cair em pecado mortal... Mas isso no  discutir... Isso 
 falar com a leviandade dum jornalista...
       Lanou-se ento com calor numa dissertao sobre a sabedoria da Igreja, os seus altos estudos gregos e latinos, toda uma filosofia criada pelos santos padres...
       - Leia S. Baslio! exclamou. L ver o que ele diz dos estudos dos autores profanos, que so a melhor preparao para os estudos sagrados! Leia a Histria 
dos mosteiros na meia-idade! Era l que estava a cincia, a filosofia...
       - Mas que filosofia, senhor, mas que cincia! Por filosofia meia dzia de concepes dum esprito mitolgico, em que o misticismo  posto em lugar dos instintos 
sociais... E que cincia! Cincia de comentadores, cincia de gramticos... Mas vieram outros tempos, nasceram cincias novas que os antigos tinham ignorado, a que 
o ensino eclesistico no oferecia nem base nem mtodo, estabeleceu-se logo o antagonismo entre elas e a doutrina catlica!... Nos primeiros tempos, a Igreja ainda 
tentou suprimi-las pela perseguio, a masmorra, o fogo! Escusa de se torcer, abade... O fogo, sim, o fogo e a masmorra. Mas agora no o pode fazer e limita-se a 
vituper-las em mau latim... E no entanto continua a dar nos seus seminrios e nas suas escolas e ensino do passado, o ensino anterior a essas cincias, ignorando-as, 
e desprezando-as, refugiando-se na escolstica... Escusa de apertar as mos na cabea... Estranha ao esprito moderno, hostil nos seus princpios e nos seus mtodos 
ao desenvolvimento espontneo dos conhecimentos humanos... O senhor no  capaz de negar isso! Veja o Syllabus no seu cnone dcimo terceiro...
       A porta abriu-se timidamente; era ainda a Dionsia:
       - A pequena est a choramigar, diz que quer a criana.
       - Mau, mau! disse o doutor.
       E depois dum momento:
       - Que tal aspecto tem ela? Est corada? Est inquieta?
       - No senhor, est bem. S a choramigar, a falar no pequeno...
       Diz que o quer hoje por fora...
       - Converse com ela, distraia-a... Veja se ela adormece...
       A Dionsia retirou-se; e o abade logo com cuidado:
       -  doutor, supe que lhe possa fazer mal o afligir-se?
       - Pode-lhe fazer mal, abade, pode - disse o doutor que rebuscava na sua farmcia porttil. Mas eu vou-a fazer dormir... Pois  verdade, a Igreja hoje  uma 
intrusa, abade!
       O abade tornou a levar as mos  cabea.
       - Escusa de ir mais longe, abade. Veja a Igreja em Portugal.  grato observar-lhe o estado de decadncia...
       Pintou-lho a largos traos, de p, com o seu frasco na mo. A Igreja fora a Nao; hoje era uma minoria tolerada e protegida pelo Estado. Dominara nos tribunais, 
nos conselhos da Coroa, na fazenda, na armada, fazia a guerra e a paz; hoje um deputado da maioria tinha mais poder que todo o clero do reino. Fora a cincia no 
pas; hoje tudo o que sabia era algum latim macarrnico. Fora rica, tinha possudo no campo distritos inteiros e ruas inteiras na cidade; hoje dependia para o seu 
triste po dirio do ministro da Justia, e pedia esmola  porta das capelas. Recrutara-se entre a nobreza, entre os melhores do reino; e hoje, para reunir um pessoal, 
via-se no embarao e tinha de o ir buscar aos enjeitados da Misericrdia. Fora a depositria da tradio nacional, do ideal coletivo da ptria; e hoje, sem comunicao 
com o pensamento nacional (se  que o h) era uma estrangeira, uma cidad de Roma, recebendo de l a lei e o esprito...
       - Pois se est assim to prostrada, mais uma razo para a amar! - disse o abade, erguendo-se escarlate.
       Mas a Dionsia tinha de novo aparecido  porta.
       - Que temos mais?
       - A menina est-se a queixar dum peso na cabea. Diz que sente fascas diante dos olhos...
       O doutor ento imediatamente, sem uma palavra, seguiu a Dionsia. O abade, s, passeava pela sala ruminando toda uma argumentao erriada de textos, de nomes 
formidveis de telogos, que ia fazer desabar sobre o doutor Gouveia. Mas, meia hora passou, a luz do candeeiro ia esmorecendo, e o doutor no voltou.

***

       Ento aquele silncio da casa, onde s o som dos seus passos sobre o soalho da sala punha uma nota viva, comeou a impressionar o velho. Abriu a porta devagarinho, 
escutou; mas o quarto de Amlia era muito afastado, ao fim da casa, ao p do terrao; no vinha de l nem rumor nem luz. Recomeou o seu passeio solitrio na sala, 
numa tristeza indefinida que o ia invadindo. Desejaria bem ir ver tambm a doente; mas o seu carter, o pudor sacerdotal no lhe permitiam aproximar-se sequer duma 
mulher no leito, em trabalho de parto, a no ser que o perigo reclamasse os sacramentos. Outra hora mais longa, mais fnebre, passou. Ento, em pontas de ps, corando 
na escurido daquela audcia, foi at ao meio do corredor: agora, aterrado, sentia no quarto de Amlia um rudo confuso e surdo de ps movendo-se vivamente no soalho, 
como numa luta. Mas nem um ai, nem um grito. Recolheu  sala, e abrindo o seu Brevirio comeou a rezar. Sentiu os chinelos da Gertrudes passarem rapidamente, numa 
carreira. Ouviu uma porta a distncia bater. Depois o arrastar no soalho duma bacia de lato. E enfim o doutor apareceu. A sua figura fez empalidecer o abade: vinha 
sem gravata, com o colarinho espedaado; os botes do colete tinham saltado; e os punhos da camisa, voltados para trs, estavam todos manchados de sangue.
       - Alguma coisa, doutor?
       O doutor no respondeu, procurando rapidamente pela sala o seu estojo, com a face animada dum calor de batalha. Ia j sair com o estojo, mas lembrando-lhe 
a pergunta ansiosa do abade: 
       - Tem convulses, disse.
       O abade ento deteve-o  porta, e muito grave, muito digno:
       - Doutor, se h perigo, peo-lhe que se lembre...  uma alma crist em agonia, e eu estou aqui.
       - Certamente, certamente...
       O abade tomou a ficar s, esperando. Tudo dormia na Ricoa, D. Josefa, os caseiros, a quinta, os campos em redor. Na sala, um relgio de parede, enorme e 
sinistro, que tinha no mostrador a carranca do sol e em cima sobre o caixilho a figura esculpida em pau de uma coruja pensativa, um mvel de castelo antigo, bateu 
meia-noite, depois uma hora. O abade a cada momento ia at ao meio do corredor: era o mesmo rumor de ps numa luta; outras vezes um silncio tenebroso. Voltava ento 
para o seu Brevirio. Meditava naquela pobre rapariga que, alm no quarto, estava talvez no momento que ia decidir da sua eternidade: no tinha ao p nem a me, 
nem as amigas: na memria apavorada devia passar-lhe a viso do pecado: diante dos olhos turvos aparecia-lhe a face triste do Senhor ofendido: as dores contorciam 
o seu corpo miservel: e na escurido em que ia penetrando, sentia j o hlito ardente da aproximao de Satans. Temeroso fim do tempo e da carne! - Ento rezava 
fervorosamente por ela.
       Mas depois pensava no outro que fora uma metade do seu pecado, e que agora na cidade, estirado na cama, ressonava tranqilamente. E rezava ento tambm por 
ele.
       Tinha sobre o Brevirio um pequeno crucifixo. E contemplava-o com amor, abismava-se enternecido na certeza da sua fora, contra a qual era bem pouca a cincia 
do doutor e todas as vaidades da razo! Filosofias, idias, glrias profanas, geraes e imprios passam: so como os suspiros efmeros do esforo humano: s ela 
permanece e permanecer, a cruz - esperana dos homens, confiana dos desesperados, amparo dos frgeis, asilo dos vencidos, fora maior da humanidade: crux triumphus 
adversus demonios, crux oppugnatorum murus...
       Ento o doutor entrou, muito escarlate, vibrante daquela tremenda batalha que estava dando l dentro  morte; vinha buscar outro frasco; mas abriu a janela, 
sem uma palavra, para respirar um momento uma golfada de ar fresco.
       - Como vai ela? perguntou o abade.
       - Mal, disse o doutor, saindo.
       O abade, ento, ajoelhou, balbuciou a orao de S. Fulgncio:
       - Senhor, d-lhe primeiro a pacincia, d-lhe depois a misericrdia...
       E ali ficou, com a face nas mos, apoiado  beira da mesa.
       A um rumor de passos na sala ergueu a cabea. Era a Dionsia, que suspirava, recolhendo todos os guardanapos que encontrava nas gavetas do aparador.
       - Ento, senhora, ento? perguntou-lhe o abade.
       - Ai, senhor abade, est perdidinha... Depois das convulses que foram de arrepiar, caiu naquele sono, que  o sono da morte...
       E olhando para todos os cantos como para se assegurar da solido, disse muito excitada:
       - Eu no quis dizer nada... Que o senhor doutor tem um gnio!... Mas sangrar a rapariga naquele estado  querer mat-la... Que ela tinha perdido pouco sangue, 
 verdade... Mas nunca se sangra ningum em semelhante momento. Nunca, nunca!
       - O senhor doutor  homem de muita cincia...
       - Pode ter a cincia que quiser... Eu tambm no sou nenhuma tola... Tenho vinte anos de experincia... Nunca me morreu nenhuma nas mos, senhor abade... 
Sangrar em convulses? At causa horror!...
       Estava indignada. O senhor doutor tinha torturado a criaturinha. At lhe quisera administrar clorofrmio...
       Mas a voz do doutor Gouveia berrou por ela do fundo do corredor - e a matrona abalou, com o seu molho de guardanapos.
       O medonho relgio, com a sua coruja pensativa, bateu as duas horas, depois as trs... O abade, agora, cedia a espaos a uma fadiga de velho, cerrando um momento 
as plpebras. Mas resistia bruscamente: ia respirar o ar pesado da noite, olhar aquela treva de toda a aldeia; e voltava a sentar-se, a murmurar, com a cabea baixa, 
as mos postas sobre o Brevirio:
       - Senhor, volta os teus olhos misericordiosos para aquele leito de agonia...
       Foi ento Gertrudes que apareceu comovida. O senhor doutor mandara-a abaixo acordar o moo para pr a gua ao cabriol.
       - Ai, senhor abade, pobre criaturinha! Ia to bem, e de repente isto... Que foi por lhe tirarem o filho... Eu no sei quem  o pai, mas o que sei  que nisto 
tudo anda um pecado e um crime!...
       O abade no respondeu, orando baixo pelo padre Amaro.
       O doutor ento entrou com o seu estojo na mo:
       - Se quiser, abade, pode ir, disse.
       Mas o abade no se apressava, olhando o doutor, com uma pergunta a bailar-lhe nos lbios entreabertos, e retendo-a por timidez: enfim, no se conteve, e num 
tom de medo: 
       - Fez-se tudo, no h remdio, doutor?
       - No.
       -  que ns, doutor, no devemos aproximar-nos duma mulher em parto ilegtimo seno num caso extremo...
       - Est num caso extremo, senhor abade, disse o doutor, vestindo j o seu grande casaco.
       O abade ento recolheu o Brevirio, a cruz - mas antes de sair, julgando do seu dever de sacerdote pr diante do mdico racionalista a certeza da eternidade 
mstica que se desprende do momento da morte, murmurou ainda:
       -  neste instante que se sente o terror de Deus, o vo do orgulho humano...
       O doutor no respondeu, ocupado a afivelar o seu estojo.
       O abade saiu - mas, j no meio do corredor, voltou ainda, e falando com inquietao:
       - O doutor desculpe... Mas tem-se visto, depois dos socorros da religio, os moribundos voltarem a si de repente, por uma graa especial... A presena do 
mdico ento pode ser til...
       - Eu ainda no vou, ainda no vou, disse o doutor, sorrindo involuntariamente de ver a presena da Medicina reclamada para auxiliar a eficcia da Graa.
       Desceu, a ver se estava pronto o cabriol.
       Quando voltou ao quarto de Amlia, a Dionsia e a Gertrudes, de rojos ao lado da cama, rezavam. O leito, todo o quarto estava revolvido como um campo de batalha. 
As duas velas consumidas extinguiam-se. Amlia estava imvel, com os braos hirtos, as mos crispadas duma dor de prpura escura - e a mesma cor mais arroxeada cobria-lhe 
a face rgida.
       E debruado sobre ela, com o crucifixo na mo, o abade dizia ainda, numa voz de angstia:
       - Jesu, Jesu, Jesu! Lembra-te da graa de Deus! Tem f na misericrdia divina! Arrepende-te no seio do Senhor! Jesu, Jesu, Jesu!
       Por fim, sentindo-a morta, ajoelhou, murmurando o Miserere. O doutor que ficara  porta retirou-se devagarinho, atravessou em bicos de ps o corredor, e desceu 
 rua, onde o moo segurava a gua atrelada.
       - Vamos ter gua, senhor doutor, disse o rapaz bocejando de sono. 
       O doutor Gouveia ergueu a gola do palet, acomodou o seu estojo no assento - e da a um momento o cabriol rodava surdamente pela estrada, sob a primeira 
pancada de chuva, cortando a escurido da noite com o daro vermelho das suas lanternas.


XXIV


       Ao outro dia desde as sete da manh, o padre Amaro esperava a Dionsia em casa, postado  janela, com os olhos cravados na esquina da rua, sem reparar na 
chuva miudinha que lhe fustigava a face. Mas a Dionsia no aparecia: e ele teve de partir para a S, amargurado e doente, a batizar o filho do Guedes.
       Foi uma pesada tortura para ele ver aquela gente alegre que punha na gravidade da S, mais sombria por esse escuro dia de Dezembro, todo um rumor mal contido 
de regozijo domstico e de festa paterna; o pap Guedes resplandecente de casaca e gravata branca, o padrinho compenetrado com uma grande camlia ao peito, as senhoras 
de gala, e sobretudo a parteira rechonchuda, passeando com pompa um monto de rendas engomadas e de laarotes azuis, onde mal se percebiam duas bochechinhas trigueiras. 
Ao fundo da igreja, com o pensamento bem longe da Ricoa e na Barrosa, foi engorolando  pressa as cerimnias: soprando em cruz sobre a face do pequerrucho, para 
expulsar o Demnio que j habitava aquelas carninhas tenras; impondo-lhe o sal sobre a boca, para que ele se desgostasse para sempre do sabor amargo do pecado e 
tomasse gosto a nutrir-se s da verdade divina; tocando-o com saliva nas orelhas e nas narinas, para que ele no escutasse jamais as solicitaes da carne e jamais 
respirasse os perfumes da terra. E em roda, com tochas na mo, os padrinhos, os convidados, na fadiga que davam tantos latins rosnados  pressa, s se ocupavam do 
pequeno, num receio que ele no respondesse com algum desacato impudente s tremendas exortaes que lhe fazia a Igreja sua Me.
       Amaro, ento, pondo de leve o dedo sobre a touquinha branca, exigiu do pequerrucho que ele, ali em plena S, renunciasse para sempre a Satans, s suas pompas 
e s suas obras. O sacristo Matias, que dava em latim as respostas rituais, renunciou por ele - enquanto o pobre pequerrucho abria a boquinha a procurar o bico 
da mama. Enfim o proco dirigiu-se  pia batismal seguido de toda a famlia, das velhas devotas que se tinham juntado, de gaiatos que esperavam uma distribuio 
de patacos. Mas foi toda uma atrapalhao para fazer as unes: a parteira comovida no atinava a desapertar os laarotes do chambre, para pr a nu os ombrozinhos, 
o peito do pequeno; a madrinha quis ajud-la; mas deixou escorregar a tocha, alastrou de cera derretida o vestido duma senhora, uma vizinha dos Guedes, que ficou 
embezerrada de raiva.
       - Franciscus, credis? - perguntava Amaro.
       O Matias apressou-se a afirmar, em nome de Francisco:
       - Credo.
       - Franciscus, vis baptisari?
       O Matias:
       - Volo.
       Ento a gua lustral caiu sobre a cabecinha redonda como um melo tenro: a criana agora perneava numa perrice.
       - Ego te baptiso, Franciscus, in nomine Patris... et Filiis... et Spiritus Sancti.. .
       Enfim, acabara! Amaro correu  sacristia a desvestir-se - enquanto a parteira grave, o pap Guedes, as senhoras enternecidas, as velhas devotas e os gaiatos 
saam ao repique dos sinos; e agachados sob os guarda-chuvas, chapinhando a lama, l iam levando em triunfo Francisco, o novo cristo.
       Amaro galgou os degraus de casa com o pressentimento que ia encontrar a Dionsia.
       L estava, com efeito, sentada no quarto, esperando-o, amarrotada, enxovalhada da luta da noite e da lama da estrada: e apenas o viu comeou choramigar.
       - Que , Dionsia?
       Ela rompeu em soluos, sem responder.
       - Morta! exclamou Amaro.
       - Ai, fez-se-lhe tudo, filho, fez-se-lhe tudo! gritou enfim a matrona.
       Amaro tombou para os ps da cama como morto tambm.
       A Dionsia berrou pela criada. Inundaram-lhe a face de gua, de vinagre. Ele recuperou-se um pouco, muito plido; afastou-as com a mo, sem falar; e atirou-se 
de bruos para sobre o travesseiro, num choro desesperado, - enquanto as duas mulheres consternadas iam recolhendo  cozinha.
       - Parece que tinha muita amizade  menina, comeou a Escolstica, falando baixo como na casa dum moribundo.
       - Costume de ir por l. Foi hspede tanto tempo... Ai, eram como irmos... - disse a Dionsia, ainda chorosa.
       Falaram ento de doenas de corao - porque a Dionsia contara  Escolstica que a pobre menina tinha morrido dum aneurisma rebentado. A Escolstica tambm 
sofria do corao; mas nela eram flatos, dos maus tratos que lhe dera o marido... Ah, tinha sido bem infeliz tambm!
       - Vossemec toma uma gotinha de caf, Sra. Dionsia?
       - Olhe, a falar a verdade, Sra. Escolstica, tomava uma gotinha de jeropiga...
       A Escolstica correu  taberna ao fim da rua, trouxe a jeropiga num copo de quartilho debaixo do avental; e ambas  mesa, uma molhando sopas no caf, outra 
escorropichando o copo, concordavam, com suspiros, que neste mundo tudo eram sustos e lgrimas.
       Deram onze horas; e a Escolstica pensava em levar um caldo ao senhor proco, quando ele chamou de dentro. Estava de chapu alto, com o casaco abotoado, os 
olhos vermelhos como carves...
       - Escolstica, v a correr ao Cruz que me mande um cavalo... Mas depressa.
Chamou ento a Dionsia: e sentado ao p dela, quase contra os joelhos da mulher, com a face rgida e lvida como um mrmore, escutou em silncio a histria da noite 
- as convulses de repente, to fortes que ela, a Gertrudes e o senhor doutor mal a podiam segurar! o sangue, as prostraes em que caa! depois a ansiedade da asfixia 
que a fazia to roxa como a tnica duma imagem...
       Mas o moo do Cruz chegara com o cavalo. Amaro tirou duma gaveta, de entre roupa branca, um pequeno crucifixo, e deu-o  Dionsia que ia voltar  Ricoa para 
ajudar a amortalhar a menina.
       - Que lhe ponham este crucifixo no peito, tinha-mo ela dado...
       Desceu, montou; e apenas na estrada da Barrosa despediu a galope. No chovia, agora; e entre as nuvens pardas algum raio fraco do sol de Dezembro fazia brilhar 
a relva, as pedras molhadas.
       Quando chegou ao p do poo entulhado, donde se avistava a casa da Carlota, teve de parar, para deixar passar um longo rebanho de ovelhas que tomavam o caminho; 
e o pastor, com uma pele de cobra ao ombro e a borracha a tiracolo, fez-lhe lembrar de repente Feiro, toda a vida passada, que lhe voltava por fragmentos bruscos 
- aquelas paisagens afogadas nos vapores pardacentos da serra; a Joana rindo estupidamente dependurada da corda do sino; as suas ceias de cabrito assado na Gralheira, 
com o abade, defronte da chamin, onde a lenha verde estalava; os longos dias em que se desesperava na tristeza da residncia, vendo fora sem cessar cair a neve... 
E veio-lhe um desejo ansioso dessas solides da serra, dessa existncia de lobo, longe dos homens e das cidades, sepultado l com a sua paixo.
       A porta de Carlota estava fechada. Bateu, foi de roda chamar, atirando a voz por cima do telhado dos currais, para o ptio, onde sentia cacarejar os galos. 
Ningum respondeu. Seguiu ento pelo caminho da aldeia, levando a gua pela arreata; parou na taberna, onde uma mulher obesa fazia meia, sentada  porta. Dentro, 
no escuro da baica, dois homens com os seus quartilhos ao lado, batiam as cartas numa bisca renhida; e um rapazola duma amarelido de sezes, com um leno amarrado 
na cabea, olhava-lhes o jogo tristemente.
       A mulher tinha justamente visto passar a Sra. Carlota, que at parara a comprar um quartilho de azeite. Devia estar em casa da Micaela, ao adro. Chamou para 
dentro; uma rapariguita vesga apareceu detrs da sombra das pipas.
       - Corre, vai  Micaela, dize  Sra. Carlota que est aqui um senhor da cidade.
       Amaro voltou para a porta da Carlota, esperou sentado numa pedra, com o seu cavalo pela rdea. Mas aquela casa fechada e muda aterrava-o. Foi pr o ouvido 
 fechadura, na esperana de ouvir um choro, uma rabugem de criana. Dentro pesava um silncio de caverna abandonada. Mas tranqilizava-o a idia que a Carlota teria 
levado a criana consigo, para a Micaela. Devia realmente ter perguntado  mulher na taberna, se a Carlota trazia uma criana ao colo... E olhava a casa bem caiada, 
com a sua janela em cima que tinha uma cortininha de cassa, um luxo to raro naquelas freguesias pobres; recordava a boa ordem, o escarolado da loua da cozinha... 
Decerto, o pequerrucho devia ter tambm um bero asseado...
       Ah, estava doido decerto na vspera, quando pusera ali, na mesa da cozinha, quatro libras de ouro, preo adiantado dum ano de criao, e dissera cruelmente 
ao ano: "Conto consigo!" Pobre pequerruchinho!... Mas a Carlota compreendera bem,  noite na Ricoa, que ele agora queria-o vivo, o seu filho, e criado com mimo!... 
Todavia no o deixaria ali, no, sob o olho raiado de sangue do ano... Lev-lo-ia nessa noite  Joana Carreira dos Poiais...
       Que as sinistras histrias da Dionsia, a tecedeira de anjos, eram uma legenda insensata. A criana estava muito regalada em casa da Micaela, chupando aquele 
bom peito de quarentona s... E vinha-lhe ento o mesmo desejo de deixar Leiria, ir enterrar-se em Feiro, levar consigo a Escolstica, educar l a criana como 
sobrinho, revivendo nele largamente todas as emoes daquele romance de dois anos; e ali passaria numa paz triste, na saudade de Amlia, at ir como o seu antecessor, 
o abade Gustavo que tambm criara um sobrinho em Feiro, repousar para sempre no pequeno cemitrio, de Vero sob as flores silvestres, de Inverno sob a neve branca.
       Ento a Carlota apareceu; e ficou atnita ao reconhecer Amaro, sem passar da cancela, com a testa franzida, a sua bela face muito grave.
       - A criana? exclamou Amaro.
       Depois dum momento, ela respondeu, sem perturbao:
       - Nem me fale nisso, que me tem dado um desgosto... Ontem mesmo, duas horas depois de ter chegado... O pobre anjinho comea a fazer-se roxo, e ali me morreu 
debaixo dos olhos...
       - Mente! gritou Amaro. Quero ver.
       - Entre, senhor, se quer ver.
       - Mas que lhe disse eu ontem, mulher?
       - Que quer, senhor? Morreu. Veja...
       Tinha aberto a porta, muito simplesmente, sem clera nem receio. Amaro entreviu num relance, ao p da chamin, um bero coberto com um saiote escarlate.
       Sem uma palavra voltou as costas, atirou-se para cima do cavalo. Mas a mulher, muito loquaz subitamente, rompeu a dizer que tinha ido justamente  aldeia 
para encomendar um caixozinho decente... Como vira que era filho de pessoa de bem, no o quisera enterrar embrulhado num trapo. Mas enfim, como o senhor ali estava, 
parecia-lhe razovel que desse algum dinheiro para a despesa... Uns dois mil-ris que fossem.
       Amaro considerou-a um momento com um desejo brutal de a esganar; por fim meteu-lhe o dinheiro na mo. E ia trotando no carreiro, quando a sentiu ainda correndo, 
gritando pst! pst! A Carlota queria-lhe restituir o capote que ele emprestara na vspera: tinha feito muito bom servio, que a criana chegara quente como um rojozinho... 
Infelizmente...
       Amaro j a no escutava, esporeando furiosamente a ilharga da cavalgadura.
       Na cidade, depois de apear  porta do Cruz, no entrou em casa. Foi direito ao pao do bispo. Tinha agora uma idia s: era deixar aquela cidade maldita, 
no ver mais as faces das devotas, nem a fachada odiosa da S...
       Foi s ao subir a larga escadaria de pedra do pao, que lhe lembrou com inquietao o que o Libaninho dissera na vspera da indignao do senhor vigrio-geral, 
da denncia obscura... Mas a afabilidade do padre Saldanha, o confidente do pao, que o introduziu logo na livraria de sua excelncia, tranqilizou-o. O senhor vigrio-geral 
foi muito amvel. Estranhou o ar plido e perturbado do senhor proco!...
       -  que tenho um grande desgosto, senhor vigrio-geral. Minha irm est a morrer em Lisboa. E venho pedir a vossa excelncia licena para l ir, por uns dias...
       O senhor vigrio-geral consternou-se com bondade.
       - Decerto, consinto... Ah! somos todos passageiros forados da barca de Caronte.

Ipse ratem conto subigit, velisque ministrat
Et ferruginea subvectat corpora cymba.

       Ningum lhe escapa... Sinto, sinto... No me esquecerei de a recomendar nas minhas oraes...
E muito metdico, sua excelncia tomou uma nota a lpis.
       Amaro, ao sair do pao, foi direito  S. Fechou-se na sacristia, a essa hora deserta: e depois de pensar muito tempo com a cabea entre os punhos, escreveu 
ao cnego Dias:

       "Meu caro padre-mestre. - Treme-me a mo ao escrever estas linhas. A infeliz morreu. Eu no posso, bem v, e vou-me embora, porque, se aqui ficasse, estalava-me 
o corao. Sua excelentssima irm l estar tratando do enterro... Eu, como compreende, no posso. Muito lhe agradeo tudo... At um dia, se Deus quiser que nos 
tomemos a ver. Por mim conto ir para longe, para alguma pobre parquia de pastores, acabar meus dias nas lgrimas, na meditao e na penitncia. Console como puder 
a desgraada me. Nunca me esquecerei do que lhe devo, enquanto tiver um sopro de vida. E adeus, que nem sei onde tenho a cabea. - Seu amigo do C. - Amaro Vieira."
''P.S. - A criana morreu tambm, j se enterrou''.

***

       Fechou a carta com uma obreia preta; e depois de arranjar os seus papis, foi abrir o grande porto chapeado de ferro, olhar um momento o ptio, o barraco, 
a casa do sineiro... As nvoas, as primeiras chuvas j davam quele recanto da S o seu ar lgubre de Inverno. Adiantou-se devagar, sob o silncio triste dos altos 
contrafortes, espreitou  vidraa da cozinha do tio Esguelhas: ele l estava, sentado  chamin, com o cachimbo na boca, cuspilhando tristemente para as cinzas. 
Amaro bateu de leve nos vidros - e quando o sineiro abriu a porta, aquele interior conhecido, rapidamente entrevisto, a cortina da alcova da Tot, a escada que ia 
para o quarto, agitaram o proco de tantas recordaes e de saudades to bruscas, que no pde falar um momento, com a garganta tomada de soluos.
       - Venho-lhe dizer adeus, tio Esguelhas, murmurou por fim. Vou a Lisboa, tenho minha irm a morrer...
       E acrescentou com os beios trmulos dum choro que ia romper:
       - Todas as desgraas vm juntas. Sabe, a pobre Ameliazinha l morreu de repente...
       O sineiro emudeceu, assombrado.
       - Adeus, tio Esguelhas. D c a mo, tio Esguelhas. Adeus...
       - Adeus, senhor proco, adeus! disse o velho com os olhos arrasados de gua.
       Amaro fugiu para casa, contendo-se para no soluar alto pelas ruas. Disse logo  Escolstica que ia partir nessa noite para Lisboa. O tio Cruz devia mandar-lhe 
um cavalo, para ir tomar o comboio a Cho de Mas.
       - Eu no tenho seno o dinheiro que  necessrio para a jornada. Mas o que a me fica em lenis e toalhas  para voc...
       A Escolstica, chorando de perder o senhor proco, quis beijar-lhe a mo por tanta generosidade: ofereceu-se para fazer a mala...
       - Eu mesmo a arranjo, Escolstica, no se incomode.
       Fechou-se no quarto. A Escolstica, ainda choramigando, foi logo recolher, examinar as poucas roupas que estavam pelos armrios. Mas Amaro da a pouco gritou 
por ela: diante da janela uma harpa e uma rabeca, em desafinao, tocavam a valsa dos Dois mundos.
       - D um tosto a esses homens, disse o padre furioso. E diga-lhes que vo pro inferno... Que est aqui gente doente!
       E at s cinco horas a Escolstica no tomou a sentir rumor no  quarto.
       Quando o moo do Cruz veio com o cavalo, pensando que o senhor proco adormecera, ela foi-lhe bater devagarinho  porta do quarto, choramigando j da despedida 
prxima. Ele abriu logo. Estava de capote aos ombros; no meio do quarto pronta e acorreada a mala de lona que devia ir  garupa da gua. Deu-lhe um mao de cartas 
para ir entregar nessa noite  Sra. D. Maria da Assuno, ao padre Silvrio e a Natrio: e ia descer, entre os prantos da mulher, quando sentiu na escada um rudo 
conhecido de muleta, e o tio Esguelhas apareceu muito comovido.
       - Entre, tio Esguelhas, entre.
       O sineiro cerrou a porta, e depois de hesitar um momento:
       - Vossa senhoria h-de desculpar, mas... Tinha-me esquecido de todo, com os desgostos que tenho passado. J h tempo que achei no quarto isto, e pensei que...
E meteu na mo de Amaro um brinco de ouro. Ele reconheceu-o logo: era de Amlia. Muito tempo ela o procurara debalde; soltara-se decerto nalguma manh de amor, sobre 
a enxerga do sineiro. Amaro ento, sufocado, abraou o tio Esguelhas.
       - Adeus! adeus, Escolstica. Lembrem-se por c de mim. D lembranas ao Matias, tio Esguelhas...
       O moo afivelou a maleta ao selim, e Amaro partiu, deixando a Escolstica e o tio Esguelhas a chorar, ambos  porta.
       Mas depois de ter passado os audes, ao p duma volta da estrada, teve de apear para compor o estribo: e ia montar, quando apareceram dobrando o muro o doutor 
Godinho, o secretrio-geral e o senhor administrador do concelho, muito amigos agora, e que vinham, depois do passeio, recolhendo para a cidade. Pararam logo a falar 
ao senhor proco - admirando-se de o ver ali, de maleta na garupa, com ares de jornada...
       -  verdade, disse, vou para Lisboa!
       O antigo Bibi e o administrador suspiraram invejando-lhe a felicidade. - Mas quando o proco falou da irm moribunda, afligiram-se com polidez: e o senhor 
administrador disse:
       - Deve estar muito sentido, compreendo... De mais a mais essa outra desgraa na casa daquelas senhoras suas amigas... A pobre Ameliazinha, morta assim de 
repente...
       O antigo Bibi exclamou:
       - O qu? A Ameliazinha, aquela bonita que morava na Rua da Misericrdia? Morreu?
       O doutor Godinho tambm o ignorava, e pareceu consternado.
       O senhor administrador soubera-o pela sua criada, que o ouvira da Dionsia. Dizia-se que fora um aneurisma.
       - Pois senhor proco, exclamou Bibi, desculpe se aflijo as suas crenas respeitveis, que so as minhas de resto... Mas Deus cometeu um verdadeiro crime... 
Levar-nos a rapariga mais bonita da cidade! Que olhos, senhores! E depois com aquele picantezinho da virtude...
       Ento, num tom de psames, todos lamentaram aquele golpe que devia ter afetado tanto o senhor proco.
       Ele disse muito grave:
       - Senti-o deveras... Conhecia-a bem... E com as suas boas qualidades, devia fazer, sem dvida, uma esposa modelo... Senti-o muito!
       Apertou silenciosamente as mos em redor - e enquanto os cavalheiros recolhiam  cidade, o padre Amaro foi trotando pela estrada, que j escurecia, para a 
estao de Cho de Mas.

***

       Ao outro dia, pelas onze horas, o enterro de Amlia saiu da Ricoa. Era uma manh spera: o cu e os campos estavam afogados numa nvoa pardacenta; e caia 
muito mida, uma chuva regelada. Era longe da quinta  capela dos Poiais. O menino do coro adiante, de cruz alada, apressava. se, chapinhando a lama a grandes pernadas; 
o abade Ferro, de estola negra, abrigava-se, murmurando o Exultabunt Domino, sob o guarda-chuva que sustentava ao lado o sacristo com o hissope; quatro trabalhadores 
da quinta, abaixando a cabea contra a chuva oblqua, levavam numa padiola o esquife que tinha dentro o caixo de chumbo; e, sob o vasto guarda-chuva do caseiro, 
a Gertrudes de mantu pela cabea ia desfiando as suas contas. Ao lado do caminho o vale triste dos Poiais cavava-se, todo pardo na neblina, num grande silncio; 
e a voz enorme do vigrio, mugindo o Miserere, rolava pela quebrada mida onde murmuravam os riachos muito cheios.
       Mas s primeiras casas da aldeia os moos do caixo pararam derreados; e ento um homem, que estava esperando debaixo duma rvore sob o seu guarda-chuva, 
veio juntar-se silenciosamente ao enterro. Era Joo Eduardo, de luvas pretas, carregado de luto, com as olheiras cavadas em dois sulcos negros, grossas lgrimas 
a correrem-lhe nas faces. E imediatamente, por trs dele, vieram colocar-se dois criados de farda, com as calas muito arregaadas e tochas na mo - dois lacaios 
que mandara o Morgado, para honrar o enterro duma dessas senhoras da Ricoa, amigas do abade. 
       Ento, vendo estas duas librs que vinham afidalgar o prstito, o menino do coro rompeu logo, erguendo mais alto a cruz; os quatro homens, j sem fadiga, 
empertigaram-se s varas da padiola: o sacristo bramiu um Requiem tremendo. E pelas lamas do ngreme caminho da aldeia foi subindo o enterro, enquanto s portas 
as mulheres se ficavam persignando, olhando as sobrepelizes brancas e o caixo de gales de ouro, que se iam afastando seguidos do grupo de guarda-chuvas abertos, 
sob a chuva triste.
       A capela era no alto, num adro de carvalheiras: o sino dobrava: e o enterro sumiu-se para o interior da igreja escura, ao canto do Subvenite sancti que o 
sacristo entoou em ronco. - Mas os dois criados de farda no entraram porque o Sr. Morgado assim o tinha ordenado.
Ficaram  porta, sob o guarda-chuva, escutando, batendo os ps regelados. Dentro seguia o cantocho; depois era um ciciar de oraes que se amortecia; e de repente 
latins fnebres lanados pela voz grossa do vigrio.
       Ento os dois homens, enfastiados, desceram do adro, entraram um momento na taberna do tio Serafim. Dois moos de gado da quinta do Morgado, que bebiam em 
silncio o seu quartilho, ergueram-se logo vendo aparecer os dois criados de farda.
       -  vontade, rapazes,  sentar e beber, disse o velho baixito que acompanhava Joo Eduardo a cavalo. Ns l estamos, na maada do enterro... Boas-tardes, 
Sr. Serafim.
       Apertaram a mo ao Serafim, que lhes mediu duas aguardentes - e informou-se se a defunta era a noiva do Sr. Joozinho. Tinham-lhe dito que morrera duma veia 
rebentada.
       O baixito riu:
       - Qual veia rebentada! No lhe rebentou coisa nenhuma. O que lhe rebentou foi um rapago pelo ventre...
       - Obra do Sr. Joozinho? perguntou o Serafim, arregalando o olho brejeiro.
       - No me parece, disse o outro com importncia. O Sr. Joozinho estava em Lisboa... Obra de algum cavalheiro da cidade. Sabe vossemec de quem eu desconfio, 
Sr. Serafim?
       Mas a Gertrudes, esbaforida, rompeu pela taberna gritando que o saimento j ia ao p do cemitrio, e que no faltavam seno "aqueles senhores"! Os lacaios 
abalaram logo, e alcanaram o enterro quando ia passando a pequena grade do cemitrio, ao ltimo versculo do Miserere. Joo Eduardo agora levava uma vela na mo, 
ia logo atrs do caixo de Amlia, tocando-o quase, com os olhos enevoados de lgrimas fitos no veludilho negro que o cobria. Sem cessar o sino na capela dobrava 
desoladamente. A chuva caa mais mida. E todos calados, no silncio fusco do cemitrio, com passos abafados pela terra mole, iam-se dirigindo para o canto do muro 
onde estava cavada de fresco a cova de Amlia, negra e profunda entre a relva mida. O menino do coro cravou no cho a haste da cruz prateada, e o abade Ferro, 
adiantando-se at  beira do buraco escuro, murmurou o Deus cujus miseratione... Ento Joo Eduardo, muito plido, vacilou de repente, e o guarda-chuva caiu-lhe 
das mos; um dos criados de farda correu, segurou-o pela cinta; queriam-no levar, arranc-lo de ao p da cova; mas ele resistiu, e ali ficou, com os dentes cerrados, 
segurando-se desesperadamente  manga do criado, vendo o coveiro e os dois moos amarrarem as cordas no caixo, fazerem-no resvalar devagar entre a terra esfarelada 
que rolava, com um ranger de tbuas mal pregadas.
       - Requiem aeternam dona ei, Domine!
       - Et lux perpetua luceat ei, mugiu o sacristo.
       O caixo bateu no fundo com uma pancada surda: o abade espalhou em cima uma pouca de terra em forma de cruz: e sacudindo lentamente o hissope sobre o veludilho, 
a terra, a relva em redor:
       - Requiescat in pace.
       - Amm, responderam a voz cava do sacristo e a voz aguda do menino do coro.
       - Amm, disseram todos num murmrio, que ciciou, se perdeu entre os ciprestes, as ervas, os tmulos e as nvoas frias daquele triste dia de Dezembro.


XXV


       Nos fins de Maio de 1871 havia grande alvoroo na Casa Havanesa, ao Chiado, em Lisboa. Pessoas esbaforidas chegavam, rompiam pelos grupos que atulhavam a 
porta, e alando-se em bicos de ps esticavam o pescoo, por entre a massa dos chapus, para a grade do balco, onde numa tabuleta suspensa se colavam os telegramas 
da Agncia Havas; sujeitos de faces espantadas saam consternados, exclamando logo para algum amigo mais pacato que os esperava fora:
       - Tudo perdido! Tudo a arder!
       Dentro, na multido de grulhas que se apertava contra o balco, questionava-se forte; e pelo passeio, no Largo do Loreto, defronte ao p do estanco, pelo 
Chiado at ao Magalhes, era, por aquele dia j quente do comeo de Vero, toda uma gralhada de vozes impressionadas onde as palavras - Comunistas! Versalhes! Petroleiros! 
Thiers! Crime! Internaciona1! voltavam a cada momento, lanadas com furor, entre o rudo das tipias e os preges dos garotos gritando suplementos.
       Com efeito, a cada hora, chegavam telegramas anunciando os episdios sucessivos da insurreio batalhando nas ruas de Paris: telegramas despedidos de Versalhes 
num terror dizendo os palcios que ardiam, as ruas que se aluam; fuzilamentos em massa nos ptios dos quartis e entre os mausolus dos cemitrios; a vingana que 
ia saciar-se at  escurido dos esgotos; a fatal demncia que desvairava as fardas e as blusas; e a resistncia que tinha o furor duma agonia com os mtodos duma 
cincia, e fazia saltar uma velha sociedade pelo petrleo, pela dinamite e pela nitroglicerina! Uma convulso, um fim do mundo - que vinte, trinta palavras de repente 
mostravam, num relance, a um claro de fogueira.
       O Chiado lamentava com indignao aquela runa de Paris. Recordavam-se com exclamaes os edifcios ardidos, o Hotel de Ville, "to bonito", a Rua Royale, 
"aquela riqueza". Havia indivduos to furiosos com o incndio das Tulherias como se fosse uma propriedade sua; os que tinham estado em Paris um ou dois meses abriam-se 
em invectivas, arrogando-se uma participao de parisienses na riqueza da cidade, escandalizados por a insurreio no ter respeitado os monumentos em que eles tinham 
posto os seus olhos.
       - Vejam vocs! exclamava um sujeito gordo. O palcio da Legio de Honra destrudo! Ainda no h um ms que eu l estive com minha mulher... Que infmia! Que 
patifaria!
       Mas espalhara-se que o ministrio recebera outro telegrama mais desolador: toda a linha do boulevard da Bastilha  Madalena ardia, e ainda a Praa da Concrdia, 
e as avenidas dos Campos Elsios at ao Arco do Triunfo. E assim tinha a revolta arrasado, numa demncia, todo aquele sistema de restaurantes, cafs-concertos, bailes 
pblicos, casas de jogo e ninhos de prostitutas! Ento houve por todo o Largo do Loreto at ao Magalhes um estremecimento de furor. Tinham pois as chamas aniquilado 
toda aquela centralizao to cmoda da patuscada! Oh que infmia! O mundo acabava! Onde se comeria melhor que em Paris? Onde se encontrariam mulheres mais experientes? 
Onde se tornaria a ver aquele desfilar prodigioso duma volta do Bois, nos dias speros e secos de Inverno, quando as vitrias das cocottes resplandeciam ao p dos 
fetons dos agentes da Bolsa? Que abominao! Esqueciam-se as bibliotecas e os museus: mas a saudade era sincera pela destruio dos cafs e pelo incndio dos lupanares. 
Era o fim de Paris, era o fim da Frana!
       Num grupo ao p da Casa Havanesa os questionadores politicavam: pronunciava-se o nome de Proudhon que, por esse tempo, se comeava a citar vagamente em Lisboa 
como um monstro sanguinolento; e as invectivas rompiam contra Proudhon. A maior parte imaginava que era ele que tinha incendiado. Mas o poeta estimado das Flores 
e Ais acudiu dizendo "que,  parte as asneiras que Proudhon dizia, era ainda assim um estilista bastante ameno". Ento o jogador Frana berrou:
       - Qual estilo, qual cabaa! Se aqui o pilhasse no Chiado rachava-lhe os ossos!
       E rachava. Depois do conhaque o Frana era uma fera.
       Alguns moos, porm, a quem o elemento dramtico da catstrofe revolvia o instinto romntico, aplaudiam a heroicidade da Comuna - Vermorel abrindo os braos 
como o Crucificado, e sob as balas que o traspassavam gritando: Viva a humanidade! O velho Delecluze, com um fanatismo de santo, ditando do seu leito de agonia as 
violncias da resistncia...
       - So grandes homens! exclamava um rapaz exaltado.
       Em redor as pessoas graves rugiam. Outras afastavam-se plidas, vendo j as suas casas na Baixa a escorrer de petrleo e a mesma Casa Havanesa presa de chamas 
socialistas. Ento era em todos os grupos um furor de autoridade e represso: era necessrio que a sociedade, atacada pela Internacional, se refugiasse na fora 
dos seus prncipes conservadores e religiosos, cercando-os bem de baionetas! Burgueses com tendas de capelistas falavam da "canalha" com o desdm imponente dum La 
Tremouille ou dum Ossuna. Sujeitos, palitando os dentes, decretavam a vingana. Vadios pareciam furiosos "contra o operrio que quer viver como prncipe". Falava-se 
com devoo na propriedade, no capital!
       Doutro lado eram moos verbosos, localistas excitados que declaravam contra o velho mundo, a velha idia, ameaando-os de alto, propondo-se a derru-los em 
artigos tremendos.
E assim uma burguesia entorpecida esperava deter, com alguns polcias, uma evoluo social: e uma mocidade, envernizada de literatura, decidia destruir num folhetim 
uma sociedade de dezoito sculos. Mas ningum se mostrava mais exaltado que um guarda-livros de hotel, que do alto do degrau da Casa Havanesa brandia a bengala, 
aconselhando  Frana a restaurao dos Bourbons.
       Ento um homem vestido de preto, que sara do estanco e atravessava por entre os grupos, parou, sentindo uma voz espantada que exclamava ao lado:
       -  padre Amaro!  magano!
       Voltou-se: era o cnego Dias. Abraaram-se com veemncia, e para conversarem mais tranqilamente foram andando at ao Largo de Cames, e ali pararam, junto 
 esttua:
       - Ento voc quando chegou, padre-mestre?
       Tinha chegado na vspera. Trazia uma demanda com os Pimentas da Pojeira por causa duma servido na quinta, tinha apelado para a Relao, e vinha seguir de 
perto a questo na capital.
       - E voc, Amaro? Na ltima carta dizia-me que tinha vontade de sair de Santo Tirso.
       Era verdade. A parquia tinha vantagens; mas vagara Vila Franca, e ele, para estar mais perto da capital, viera falar com o Sr. conde de Ribamar, o seu conde, 
que l andava obtendo a transferncia. Devia-lhe tudo, sobretudo  senhora condessa!
       - E de Leiria? A S. Joaneira, vai melhor?
       - No, coitada... Voc sabe; ao princpio tivemos um susto dos diabos... Pensvamos que lhe ia suceder como  Amlia. Mas no, era hidropisia... E ali o que 
h  anasarca...
       - Coitada, santa senhora! E o Natrio?
       - Avelhado! Tem tido os seus desgostos. Muita lngua.
       - E diga l, padre-mestre, o Libaninho?
       - Eu escrevi-lhe a esse respeito, disse o cnego rindo.
       O padre Amaro riu tambm: e durante um momento os dois sacerdotes pararam, apertando as ilhargas.
       - Pois  verdade, disse o cnego. A coisa tinha sido realmente escandalosa... Porque enfim, repare o amigo que o pilharam com o sargento, de tal modo que 
no havia a duvidar... E s dez horas da noite, na alameda! J  imprudncia... Mas enfim a coisa esqueceu, e quando o Matias morreu, l lhe demos o lugar de sacristo, 
que  bem boa posta... Muito melhor que o que ele tinha no cartrio... E h-de cumprir com zelo!
       - H-de cumprir com zelo, concordou muito srio o padre Amaro. E a propsito, a D. Maria da Assuno?
       - Homem, rosnam-se coisas... Criado novo. Um carpinteiro que morava defronte... O rapaz anda no trinque.
       - Palavra?
       - No trinque. Charuto, relgio, luva! Tem pilhria, hem?
       -  divino!
       - As Gansosos na mesma, continuou o cnego. Tm agora a sua criada, a Escolstica.
       - E da besta do Joo Eduardo?
       - Eu mandei-lhe dizer, no? L est ainda nos Poiais. O Morgado est mal do fgado! E o Joo Eduardo diz que est tsico... que eu no sei, nunca mais o vi... 
Quem mo disse foi o Ferro.
       - Como vai ele, o Ferro?
       - Bem. Sabe quem eu vi h dias? A Dionsia.
       - E ento?
       O cnego disse uma palavra baixo ao ouvido do padre Amaro.
       - Deveras, padre-mestre?
       - Na Rua das Sousas, a dois passos da sua antiga casa. O D. Lus da Barrosa  que lhe deu o dinheiro para montar o estabelecimento. Pois aqui esto as novidades. 
E voc est mais forte, homem! Fez-lhe bem a mudana...
       E pondo-se diante, galhofando:
       -  Amaro, e voc a escrever-me que queria retirar-se para a serra, ir para um convento, passar a vida em penitncia.
       O padre Amaro encolheu os ombros:
       - Que quer voc, padre-mestre?... Naqueles primeiros momentos... Olhe que me custou! Mas tudo passa...
       - Tudo passa, disse o cnego. E depois de uma pausa: - Ah! Mas Leiria j no  Leiria!
       Passearam ento um momento em silncio, numa recordao que lhes vinha do passado, os quinos divertidos da S. Joaneira, as palestras ao ch, as passeatas 
ao Morenal, o Adeus e o Descrido cantados pelo Artur Couceiro e acompanhados pela pobre Amlia que, agora, l dormia no cemitrio dos Poiais, sob as flores silvestres...
       - E que me diz voc a estas coisas da Frana, Amaro? - exclamou de repente o cnego.
       - Um horror, padre-mestre... O arcebispo, uma scia de padres fuzilados!... Que brincadeira!
       - M brincadeira, rosnou o cnego.
       E o padre Amaro:
       - E c pelo nosso canto parece que comeam tambm essas idias...
       O cnego assim o ouvira. Ento indignaram-se contra essa turba de maes, de republicanos, de socialistas, gente que quer a destruio de tudo o que  respeitvel 
- o clero, a instruo religiosa, a famlia, o exrcito e a riqueza... Ah! a sociedade estava ameaada por monstros desencadeados! Eram necessrias as antigas represses, 
a masmorra e a forca. Sobretudo inspirar aos homens a f e o respeito pelo sacerdote.
       - A  que est o mal, disse Amaro,  que nos no respeitam! No fazem seno desacreditar-nos... Destroem no povo a venerao pelo sacerdcio...
       - Caluniam-nos infamemente, disse num tom profundo o cnego. 
       Ento junto deles passaram duas senhoras, uma j de cabelos brancos, o ar muito nobre; a outra, uma criaturinha delgada e plida, de olheiras batidas, os 
cotovelos agudos colados a uma cinta de esterilidade, pouff enorme no vestido, cuia forte, taces de palmo.
       - Cspite! disse o cnego baixo, tocando o cotovelo do colega. Hem, seu padre Amaro?... Aquilo  que voc queria confessar.
       - J l vai o tempo, padre-mestre, disse e proco rindo, j as no confesso seno casadas!
       O cnego abandonou-se um momento a uma grande hilaridade; mas retomou o seu ar poderoso de padre obeso, vendo Amaro tirar profundamente o chapu a um cavalheiro 
de bigode grisalho e culos de ouro, que entrava na praa, do lado do Loreto, com o charuto cravado nos dentes e o guarda-sol debaixo do brao.
       Era o Sr. conde de Ribamar. Adiantou-se com bonomia para os dois sacerdotes; e Amaro, descoberto e perfilado, apresentou "o seu amigo, o Sr. cnego Dias, 
da S de Leiria". Conversaram um momento da estao, que j ia quente. Depois o padre Amaro falou dos ltimos telegramas.
       - Que diz vossa excelncia a estas coisas de Frana, senhor conde?
       O estadista agitou as mos, numa desolao que lhe assombreava a face:
       - Nem me fale nisso, Sr. padre Amaro, nem me fale nisso... Ver meia dzia de bandidos destruir Paris... O meu Paris!... Creiam vossas senhorias que tenho 
estado doente.
       Os dois sacerdotes, com uma expresso consternada, uniram-se  do estadista.
       E ento o cnego:
       - E qual pensa vossa excelncia que ser o resultado?
       O Sr. conde de Ribamar, com pausa, em palavras que saam devagar, sobrecarregadas do peso das idias, disse:
       - O resultado?... No  difcil prev-lo. Quando se tem alguma experincia da Histria e da Poltica, o resultado de tudo isto v-se distintamente. To distintamente 
como os vejo a vossas senhorias. .
       Os dois sacerdotes pendiam dos lbios profticos do homem do governo.
       - Sufocada a insurreio, continuou o senhor conde olhando a direito de si com o dedo no ar, como seguindo, apontando os futuros histricos que a sua pupila, 
ajudada pelos culos de ouro, penetrava - sufocada a insurreio, dentro de trs meses temos de novo o imprio. Se vossas senhorias tivessem visto como eu uma recepo 
nas Tulherias ou no Hotel de Ville, nos tempos do imprio, haviam de dizer, como eu, que a Frana  profundamente imperialista e s imperialista... Temos pois Napoleo 
III: ou talvez ele abdique, e a imperatriz tome a regncia na menoridade do prncipe imperial... Eu aconselharia antes, e j o fiz saber, que era esta talvez a soluo 
mais prudente. Como conseqncia imediata temos o papa em Roma, outra vez senhor do poder temporal... Eu, a falar a verdade, e j o fiz saber, no aprovo uma restaurao 
papal. Mas eu no lhes estou aqui a dizer o que aprovo, ou o que reprovo. Felizmente no sou o dono da Europa. Seria um encargo superior  minha idade e s minhas 
enfermidades. Estou a dizer o que a minha experincia da Poltica e da Histria me aponta como certo. Dizia eu...? Ah! a imperatriz no trono de Frana, Pio Nono 
no trono de Roma, a temos a democracia esmagada entre estas duas foras sublimes, e creiam vossas senhorias um homem que conhece a sua Europa e os elementos de 
que se compe a sociedade moderna, creiam que depois deste exemplo da Comuna no se torna a ouvir falar de repblica, nem de questo social, nem de povo, nestes 
cem anos mais chegados!...
       - Deus Nosso Senhor o oua, senhor conde, fez com uno o cnego.
       Mas Amaro, radiante de se achar ali, numa praa de Lisboa, em conversao ntima com um estadista ilustre, perguntou ainda, pondo nas palavras uma ansiedade 
de conservador assustado:
       - E cr vossa excelncia que essas idias de repblica, de materialismo, se possam espalhar entre ns?
       O conde riu: e dizia, caminhando entre os dois padres, at quase junto das grades que cercam a esttua de Lus de Cames:
       - No lhes d isso cuidado, meus senhores, no lhes d isso cuidado!  possvel que haja a um ou dois esturrados que se queixem, digam tolices sobre a decadncia 
de Portugal, e que estamos num marasmo, e que vamos caindo no embrutecimento, e que isto assim no pode durar dez anos, etc., etc. Baboseiras!...
       Tinham-se encostado quase s grades da esttua, e tomando uma atitude de confiana:
       - A verdade, meus senhores,  que os estrangeiros invejam-nos... E o que vou a dizer no  para lisonjear a vossas senhorias: mas enquanto neste pas houver 
sacerdotes respeitveis como vossas senhorias, Portugal h-de manter com dignidade o seu lugar na Europa! Porque a f, meus senhores,  a base da ordem!
       - Sem dvida, senhor conde, sem dvida, disseram com fora os dois sacerdotes.
       - Seno, vejam vossas senhorias isto! Que paz, que animao, que prosperidade!
       E com um grande gesto mostrava-lhes o Largo do Loreto, que quela hora, num fim de tarde serena, concentrava a vida da cidade. Tipias vazias rodavam devagar; 
pares de senhoras passavam, de cuia cheia e taco alto, com os movimentos derreados, a palidez clortica duma degenerao de raa; nalguma magra pileca, ia trotando 
algum moo de nome histrico, com a face ainda esverdeada da noitada de vinho; pelos bancos de praa gente estirava-se num torpor de vadiagem; um carro de bois, 
aos solavancos sobre as suas altas rodas, era como o smbolo de agriculturas atrasadas de sculos; fadistas gingavam, de cigarro nos dentes; algum burgus enfastiado 
lia nos cartazes o anncio de operetas obsoletas; nas faces enfezadas de operrios havia como a personificao das indstrias moribundas... E todo este mundo decrpito 
se movia lentamente, sob um cu lustroso de clima rico, entre garotos apregoando a lotaria e a batota pblica, e rapazitos de voz plangente oferecendo o Jornal das 
pequenas novidades: e iam, num vagar madrao. Entre o largo onde se erguiam duas fachadas tristes de igreja, e o renque comprido das casarias da praa onde brilhavam 
trs tabuletas de casas de penhores, negrejavam quatro entradas de taberna, e desembocavam, com um tom sujo de esgoto aberto, as vielas de todo um bairro de prostituio 
e de crime.
       - Vejam, ia dizendo o conde: vejam toda esta paz, esta prosperidade, este contentamento... Meus senhores, no admira realmente que sejamos a inveja da Europa!
       E o homem de Estado, os dois homens de religio, todos trs em linha, junto s grades do monumento, gozavam de cabea alta esta certeza gloriosa da grandeza 
do seu pas, - ali ao p daquele pedestal, sob o frio olhar de bronze do velho poeta, ereto e nobre, com os seus largos ombros de cavaleiro forte, a epopia sobre 
o corao, a espada firme, cercado dos cronistas e dos poetas hericos da antiga ptria - ptria para sempre passada, memria quase perdida!

       Outubro 1878 - Outubro 1879.

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